Vítor Manuel Rodrigues Alves GCL • MTMM • MPSD • MPCE (Mafra, 30 de Setembro de 1935 — Lisboa, Estrela, 9 de Janeiro de 2011) foi um militar português que se destacou pelo seu papel no Movimento das Forças Armadas. No Processo Revolucionário Em Curso (PREC) foi, como moderado apartidário, ministro dos II e III Governos Provisórios, no Verão Quente vindo a assinar o Documento dos Nove. Aquando a Crise de 25 de Novembro, faria ainda parte do VI Governo Provisório como Ministro da Educação.

Família Victor Alves nasceu a 30 de Setembro de 1935, em Mafra, primeiro filho de um casal de funcionários públicos, Maria Palmira Rodrigues Alves e Eduardo Manuel da Silva Alves. Ambos os avôs eram sargentos de Infantaria radicados em Mafra, onde se encontrava a Escola Prática de Infantaria, vindo ambos a mudar-se com a família de Victor Alves para Torres Vedras, onde cresceria, após a morte do pai mudando-se a família para Oeiras.

O avô materno, Manuel Rodrigues Ferreira Machado, casado com Zulmira Adelaide Continho Rodrigues, era da zona de Vila Real, Bisalhães. À data da Implantação da República, acumulava os afazeres militares com a gestão de um estabelecimento comercial. Monarquista, participou ativamente na primeira incursão liderada por Paiva Couceiro, foi preso, arruinando-se o negócio e a carreira militar, sendo Maria Palmira ainda uma criança. A mãe de Victor trabalharia nos Correios de Portugal, vindo a ser telefonista e secretária, teria onze filhos, dos quais apenas cinco sobreviveriam aos primeiros anos. O próprio Victor Alves viria a estar gravemente doente de febre-de-malta durante longos meses.

Os seus irmãos mais novos atribuir-lhe-iam um papel paternal na família, que Vítor exerceria de "forma muito democrática, ouvindo(...), aconselhando", procurando "o melhor que cada um tinha" "e, sempre que necessário, dirimindo os conflitos com o equilíbrio, próprio de quem já era portador de características únicas de conciliação e bom senso que viriam a ser a chave da sua participação decisiva no 25 de Abril" .

A mãe incentiva-lhe os estudos, assim como o faz o avô paterno, Alexandre José Alves, que com a mulher Alzira da Silva Alves viera de Braga, com quem Victor viveria vários anos em Torres Vedras.

Na ditadura, o pai, escriturário na Junta Nacional dos Vinhos, juntar-se-ia à Legião Portuguesa, "para tirar proveito de alguma situação". De pouca saúde, viria a falecer em 1968 aos cinquenta e quatro anos, quando o então capitão Victor Alves estava na sua última comissão em Angola.

Apresentado à sua futura esposa por Mário Aguiar, Victor Alves casou em 29 de março de 1962, durante a sua comissão de 59-63 em Moçambique, com Maria Teresa Gomes Ferreira de Almeida. A 3 de janeiro de 1963, nasceu a única filha do casal, Ana Cristina.

Maria Teresa, que viria a ensinar Literatura Americana na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é filha de Ermelinda Teixeira Gomes e do então Secretário no Governo Provincial de Moçambique, Capitão-de-mar-e-guerra Ferreira de Almeida.

Ferreira de Almeida ter-lhe-á tido admiração, o que Alves não reciprocará, cada vez mais crítico dos altos quadros militares do Estado Novo. O seu sogro seria Chefe do Estado-Maior da Armada à data de 25 de Abril de 1974, e um possível futuro sucessor a Américo Tomás, tendo ambos cortado relações durante vários anos após o 25 de Abril.

Carreira militar na ditadura Reprovando nos testes para a Força Aérea devido a problemas de visão, assentou praça na Escola do Exército, a 14 de Outubro de 1954, na arma de Infantaria, "por convicção" e "para obter rapidamente a [sua] independência". "Praxado" por Tomé Pinto e encetando amizade com Melo Antunes, Ramalho Eanes e Velasco Martins, virá a praxar Otelo de Carvalho e Valentim Loureiro. Tornou-se alferes em 1958, passando pelo Regimento de Infantaria N.º 7 antes de seguir para Moçambique, frustrando-se a sua esperança de ir para Macau. Após a chegada, seria avaliado como "dotado para o Serviço de Informações" "pelo grau de conhecimentos militares que possui, mas, especialmente pelos conhecimentos que tem de línguas estrangeiras e cultura geral".

Feito tenente em 1960, viria a estar alocado no Quartel-General do governo militar de Moçambique, e assim servir de tradutor para o Governador Sarmento Rodrigues aquando visitas de entidades estrangeiras, pela facilidade que tinha de se expressar em várias línguas (francês, inglês, castelhano e italiano), observando de perto a política diplomática local. A julho de 1963, Vítor Alves foi promovido a capitão e, menos de um mês depois finda a comissão de serviço, e regressa brevemente à Metrópole com a jovem família, pouco antes do eclodir da guerra de guerrilha em Moçambique.

Guerra Colonial na frente de Angola

miniaturadaimagem|277x277px|Tropas portuguesas em missão no mato africano. Ainda em 1963, parte em nova comissão, desta feita para Angola, nomeado Oficial de Informações, Operações e Reconhecimento no recém-criado Batalhão de Caçadores N.º 547, sob comando de Amilcar Chaves, parte do Regimento de Infantaria N.º 1, função que exercerá até 1966.. O eventual sucesso da missão do Exército em Quitexe levou a que muitos guerrilheiros da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) abandonassem a região e outros se entregassem às autoridades. Antes do regresso à metrópole, são alocados à mais pacífica Lubalo.

Ainda parte do Regimento de Infantaria N.º 1 regressa de Lisboa para Angola, partindo para nova comissão em 1967, agora ao comando da Companhia de Caçadores N.º 1779, também chamada a "Companhia dos Lenços Negros", incorporada no Batalhão de Caçadores N.º 1929 de Sanches Osório, este responsável pela defesa de "uma área do tamanho da Península Ibérica". Depois de um baptismo de fogo na região de Luanda contra o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a sua companhia é alocada às chamadas "Terras do Fim do Mundo", na isolada Neriquinha, Cuando Cubango, em combate com o MPLA, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e a Organização do Povo do Sudoeste Africano (sigla do inglês, SWAPO), defendendo as populações de ataques, frustrando recrutamento inimigo e procurando aliciar simpatias populares através de acções humanitárias. Como Spínola estava a tentar na frente da Guiné, Alves tentaria estabelecer diálogo com o inimigo, procurando "alternativa para a guerra", no que será de igual forma oposto pelos seus superiores.

Inesperadamente, o comandante Alves não os acompanhará inicialmente para Neriquinha, retido em Luanda para prestar serviços relacionados a diplomacia e suprimentos, em secretos contactos com as autoridades sul-africanas. Em julho de 1968, entra em conflicto com a polícia política (PIDE) local, denunciando a acção do agente Tavares e dos nativos Flechas ao "liquidarem" dois civis, Seculo Mahulo e o seu filho, com o que Alves entenderia como justificações "suspeitas", tendo a PIDE alegado que os teria libertado antes do seu desaparecimento. Alves consideraria "atitudes como esta altamente inconvenientes e contrárias aos interesses nacionais", ao instituirem medo nos nativos sendo destrutivas do trabalho do exército na "liberdade excessiva de ação que possuem". Para apaziguar o inspector Óscar Cardoso, ver-se-á obrigado a retractar-se em privado.

Não obstante o isolamento geográfico, a base de Victor Alves em Neriquinha terá grande importância estratégica na coordenação entre portugueses e sul-africanos. Em 1968, hospedará um encontro com o Ministro da Defesa português e o comandante da Região Militar de Angola, Edmundo Luz Cunha, e, pelo lado sul-africano, o general Fraser e o coronel Van Pittius.

O piorar da guerra fá-lo-á declarar aos seus subalternos "Esta situação não tem futuro!" "tem vindo a piorar de ano para ano!" "não tem solução militar! A questão é política!..." Ainda assim, teria acesso a alguns luxos, sendo um auto-confesso importador de "vinho que na altura nem o restaurante mais fino de Lisboa tinha".

É em 1969 condecorado com a Medalha de Mérito Militar de 3.ª classe, e o Prémio Governador-Geral de Angola. Recebe também a Cruz de Guerra. Antes de regressar, é em 1970 colocado no Quartel-General de Luanda.

Regresso à Metrópole, crescente constestação Regressado em 1970 a Mafra (ou "Máfrica" como era então coloquialmente conhecida dado o elevado número de expedicionários de lá provindos), é feito comandante do Batalhão de Instrução do Curso de Milicianos, conhecido como o "batalhão dos insurras" por albergar instruendos geralmente muito reivindicativos e politizados, em geral já com alguma idade e instrução, e alguns ex-líderes estudantis expulsos do ensino e forçosamente alistados, o que Vítor Alves consideraria uma "injustiça", chegando a discretamente incentivar a deserção dos cada vez menos instruendos, o que lhe valeria uma repreensão do comandante da Escola, que teria empatia suficiente pela posição de Alves para não o punir.

É condecorado com a Medalha de Prata de Serviços Distintos com Palma em 1970 e promovido a major, em 1972. Victor Alves era então tido pelos seus colegas como alguém "que abertas tinha todas as portas conducentes aos mais altos cargos e funções da carreira militar".

Frequenta em seguida o Curso Complementar de Estado-Maior no Instituto de Altos Estudos Militares com Velasco Martins, Sanches Osório e Costa Braz.

Em abril de 1973, a sua tese final de curso Forças Armadas - Grupo de Pressão? é crítica do uso insustentável das Forças Armadas pelo regime. Descreve-as como "última das elites", "isoladas da sociedade". Afirma que desde 1933 "por tudo têm passado", tornadas um órgão "sem prestígio e sem respeito", “bode expiatório" "à mão" (em referência ao expiatório de culpa feito pelo regime aquando a Invasão da Índia Portuguesa, tornada inevitável pelo mesmo irredentismo político que isolava então Portugal), criticando tanto a falta de ensino de letras como o orgulhosamente cultivado desinteresse e desconhecimento político entre os altos oficiais.

Critica o regime por não apresentar "claros objetivos nacionais", pelo "precário desenvolvimento industrial, estagnação da agricultura e, como resultante, a emigração desenfreada". Declara que a "sociedade encontra-se dividida: os mais novos contestam e os mais velhos não encontram as respostas adequadas". Sugere como solução do problema ultramarino a constituição da comunidade portuguesa "luso-afro-brasileira, dentro do espírito de autonomia progressiva, expresso na Constituição" ou mesmo a "independência daqueles territórios". Conclui o trabalho em tom de aviso, sobre o que chama "perigo militar":

"O militar está cansado (…) e pouco disposto a sofrer mais, sem razão aparente". Torna-se ele mesmo uma "ameaça que o futuro reserva ao País, se não forem desde já postas em prática medidas positivas para o evitar". Cita uma carta de Marco Flavínio, centurião da 2.ª Coorte de uma das Legiões Augustas, ao seu primo Tértulo em Roma: "Tinham-nos dito (...) que partíamos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe [assentados em além-mar], tantos anos de presença (…). Não hesitámos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar a nossa juventude, as nossas esperanças (…). Dizem-me que em Roma se sucedem as intrigas e as conspirações, se desenvolve a traição e que muitos (…) aviltam a nossa Nação (…), diz-me que os nossos concidadãos nos compreendem, nos defendem, nos protegem como nós próprios protegemos a grandeza do Império. Se tudo fosse diferente, se tivéssemos de deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre as pistas do deserto, então, cuidado com a cólera das legiões!"