Vera Felicidade (Vera Felicidade de Almeida Campos, Irará, Bahia, 18 de agosto de 1942) é uma psicóloga brasileira, criadora da Psicoterapia Gestaltista, teoria psicoterápica baseada na Psicologia da Gestalt. Desenvolveu uma prática clínica e uma teoria que a suporta, fundamentada na gestalt e na fenomenologia,"Mas, em que medida o que é psíquico pode ser considerado de fato interno? Watson, o grande iniciador do Behaviorismo, defensor de uma psicologia totalmente reduzida ao orgânico, que por isso mesmo nem mais se chamaria Psicologia, e sim Behaviorismo - estudo do comportamento - , dizia: “dentro do homem só existem órgãos, tecidos, líquidos, não existe nada como idéias, sentimentos, pensamentos”. Consideramos essa colocação de Watson definitiva, apesar de não advogarmos em favor da psicologia que criou. Que propriedades mentais não fenomenais, então, seriam essas? Ao pensarmos em processos psicológicos internos – e a palavra “mentais” remete essencialmente a isso -, estamos mais uma vez no terreno do mais elementar dualismo cartesiano. Idéia e matéria, dentro e fora, interno e externo. As correntes derivadas da Fenomenologia de Husserl têm evitado, ou mesmo abandonado inteiramente esse tipo de divisão. Veja-se, especialmente, toda a abordagem dada à questão pela psicóloga gestaltista Vera Felicidade de Almeida Campos, criadora da Psicoterapia Gestaltista - Indicamos aqui, a propósito, alguns de seus livros, apesar de a questão, por ser básica, perpassar toda a sua obra: Psicoterapia Gestaltista – Conceituações, Rio de Janeiro, Ed da Autora, 1973 ; Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, Rio de Janeiro, Ed.Alhambra, 1984; Terra e Ouro: são iguais, Rio de Janeiro, Ed Jorge Zahar, 1994; A questão do ser, do si mesmo e do eu, Rio de Janeiro, Ed Relume Dumará, 2002 - veja-se também seu site Psicoterapia Gestaltista - Esta citação é do artigo: Por que Fisicalismo?, Betty Malin, Revista Litteris, Número 4, março de 2010 rompendo com conceitos psicanalíticos que influenciam praticamente todas as abordagens da psicologia clínica, mesmo as abordagens gestálticas. A Psicoterapia Gestaltista (termo cunhado por Vera Felicidade para designar sua teoria) é diferente da Gestalt Therapy (Fritz Perls), tanto na metodologia quanto na fundamentação teórica, principalmente no que concerne à negação do inconsciente, aceito por F. Perls e negado por Vera Felicidade.ver reportagem do Jornal A Tarde, 19 de junho de 2002, a jornalista Iza Calbo diz: "Vera Felicidade resolveu desenvolver uma teoria própria por não concordar com a explicação do comportamento humano a partir do inconsciente. No prefácio (de seu livro A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu feita por) José Planells Puchades, doutor em Psicologia pela Universidade de Valência (Espanha) e professor de Filosofia no Liceo Espanhol de Roma, lemos uma observação sobre a teoria de Vera Felicidade que merece ser levada em conta: "(...) a vertigem que produz sua leitura tem também a ver com a possibilidade que oferece o texto de 'vislumbrar' a totalidade comportamental humana, uma visão da natureza inquietante pelo que tem de desestabilizadora, porém na qual dificilmente deixará de reconhecer-se, como em um espelho, o atento leitor". A prática clínica é individual e baseada no diálogo entre o psicoterapeuta e o cliente. Seus livros expõem o desenvolvimento dos conceitos da teoria, tais como: perceber é conhecer;perceber é conhecer é um conceito cunhado em seu primeiro livro e desenvolvido no livro Desespero e Maldade, capítulo: Estruturação do Processo Perceptivo, página 15, Vera Felicidade de Almeida Campos, Edição da Autora, Salvador, 1999 vida psicológica é vida perceptiva; o ser humano é possibilidade de relacionamento;vida psicológica é vida perceptiva; o ser humano é possibilidade de relacionamento são conceitos desenvolvidos ao longo de seus livros mas especialmente desdobrados na obra A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, capítulo: Vida Psicológica é Vida Perceptiva, página 23, Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002 não aceitação; autorreferenciamentonão aceitação e autoreferenciamento são conceitos que são explicados ao longo de todos os livros da autora, desde o primeiro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, no capítulo V, página 90, Rio de Janeiro, 1972. e entre outros.
Biografia Primeiros anos Vera Felicidade nasceu em Irará, cidade próxima a Salvador (Bahia), em 18 de agosto de 1942. É a filha mais velha de Aristeu Nogueira Campos e Odete de Almeida Campos, que tiveram mais três filhos: Diógenes de Almeida Campos, Antônia Tereza A. Campos (falecida aos 9 meses) e Mariana Campos Meira. Em 1945 a família muda-se para Salvador, onde Vera permaneceu até 1961.
Desde cedo interessou-se pela filosofia e seus problemas gerais e fundamentais (epistemologia, ontologia, materialismo, existencialismo e entre outros) e pela psicologia. Chegou a trabalhar no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira em Salvador (2 anos), no qual, com somente 19 anos, com a supervisão de médicos, era responsável pelo setor de praxiterapia e pelo confronto de diagnósticos clínicos mediante o teste de Rorschach e desenho livre. No mesmo hospital atuou também na aplicação de vários testes de inteligência (determinação de problemas psicológicos) e cooperou com o setor de Assistência Social.
Depois da experiência no Hospital Juliano Moreira, continuando seu interesse pelo trabalho e estudo em hospitais psiquiátricos, Vera foi para a Universidade Russa da Amizade dos Povos Patrice Lumumba em Moscou (1962), onde permaneceu por meio ano em cursos no Departamento de Medicina.
Em 1963, mudou-se para o Rio de Janeiro, trabalhou em serviço de aplicação de testes para seleção na área de Psicologia Industrial na General Electric, no Instituto Técnico de Orientação e Seleção (ITOS), nos cursos TED, entre outros (de 1962 a 1966) e em 1968 se forma em Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No Rio, foi também fundadora e professora do Curso Pré-Vestibular Kafka (1965 a 1968), que preparava alunos para o vestibular de Psicologia. Realizou uma pesquisa sobre percepção, com cegos, no Museu do Índio,Pesquisa catalogada na Biblioteca do Congresso, Washington, ver: Library of Congress Catalog Record - http://lccn.loc.gov/75405332 - Um estudo sôbre a equivalência entre a percepção visual e percepção tactil; experiência realizada com cegos no Museu do Indio-GB [por] Véra Felicidade de Almeida Campos, Marília Duarte Nunes, F. dos Santos Trigueiros. participou de várias pesquisas e trabalhos na área de elaboração e aplicação de testes psicológicos: SENAC, Colônia Juliano Moreira do Rio de Janeiro, Sociedade Pestalozzi do Brasil e 6º Distrito de Orientação Psicológica do Rio de Janeiro. Foi responsável pela seleção de pessoal para o Consórcio Construtor Rio-Niterói (Ponte Rio-Niterói). Estruturou e organizou o Serviço de Psicologia da Clinica Bela Vista, uma das primeiras clínicas particulares a oferecer esse serviço. Foi também responsável pelo Serviço de Psicologia da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle.
Iniciou o trabalho clínico, em consultório próprio, em 1968, ainda no Rio de Janeiro e mudou-se para Salvador em 1974, continuando o trabalho psicoterápico. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA) ministrou cursos de Extensão em Psicoterapia Gestaltista no início dos anos oitenta e desde essa época Psicoterapia Gestaltista — Vera Felicidade faz parte do conteúdo programático da disciplina obrigatória Teorias e Sistemas Psicológicos II, do Instituto de Psicologia da UFBA. Em 1998 foi criada, neste mesmo Instituto de Psicologia, a disciplina optativa A Psicoterapia Gestaltista de Vera FelicidadeInstituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Disciplinas Optativas do curso de Psicologia: Código: FCH397 Disciplina: Psicoterapia Gestaltista de Vera Felicidade - Pré requisito: FCH046 (aprovada pelo MEC).
Criação da psicoterapia gestaltista Durante o curso de Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Vera se sentia insatisfeita com as teorias existentes no campo da Psicologia Clínica.ver entrevista de Vera Felicidade ao Jornal A Tarde de 16 de maio de 1988, concedida à jornalista Rosane Santana, onde ela afirma: "Quando eu estudava Psicologia, em 64, a Psicanálise não respondia e não satisfazia aos questionamentos sobre o humano, na medida em que me parecia uma coisa totalmente literária, que se fundamentava no constructum do inconsciente, que era uma hipótese e não tinha nada de científico. A questão do inconsciente não permitia nenhuma comprovação a não ser através dele próprio. Para isso, influíram bastante minhas fundamentações filosóficas de Materialismo, Materialismo Dialético, minha preocupação muito grande com Epistemologia. Isso também estava ligado à minha idéia de que a Psicologia tinha de conhecer o homem e não ajudar, como pensava aquela geração de psicólogos. Então, fui tentando respostas ao que era o ser humano, até que, em 1970, eu consegui responder a essa pergunta e fiz um livro.- Foi como se todo o conhecimento de Gestalt deixasse claro para mim que, para se entender o humano, tinha de ser em termos do que ele era no mundo, enfim, como ele percebia. Procurei transpor todas as leis da percepção, dadas em experimentos, e fazer uma dinâmica". Ela já conhecia o trabalho dos pesquisadores e teóricos da Gestalt Psychology, Koffka, Koehler e Wertheimer, e suas pesquisas sobre percepção e sensação, leis da percepção, isomorfismopara estes tópicos e outros problemas objeto de estudos dos gestaltistas, ver os clássicos da Gestalt Psychology, A Source Book of Gestalt Psychology, vários artigos no tópico Special Problems - Perception and Organization, páginas 71 a 136, prepared by Willis D. Ellis, Routledge and Kegan Paul LTDA, London, 1969; ver também o livro Readings in Perception, capítulo Principles of Perceptual Organizationwritten by Max Wertheimer, book organized by David C. Beardslee and Michael Wertheimer, D.Van Nostrand Company Inc. New York, 1964; e o livro Thinking: from Association to Gestalt, capítulo: The Unity of Thought, página 222, organized by Jean Matter Mandler and George Mandler, John Wiley and Sons Inc. New York, 1964 etc. já conhecia também Kurt Lewin e sua Teoria de Campover o livro Teoria de Campo em Ciência Social, Kurt Lewin, Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1965 e tinha uma crítica à abordagem dualista e baseada na Teoria de Classe, características da psicanálise, behaviorismo e demais escolas funcionalistas na PsicologiaA Gestalt é uma visão global, uma visão de campo, não se baseia em tipos e classificações. Teorias funcionalistas se baseiam no "funcionamento" do humano, não o globalizam, caindo em tipificações como a classificação das neuroses por categorias e características..