Prevenção Rodoviária Portuguesa A Prevenção Rodoviária Portuguesa (abreviada como PRP) é uma associação privada portuguesa, sem fins lucrativos e reconhecida de utilidade pública, com sede em Lisboa. Fundada em 1965, tem como missão central contribuir para a redução da sinistralidade rodoviária em Portugal e para a minimização da gravidade das suas consequências, atuando nas áreas da educação, formação, sensibilização, investigação e consultoria em segurança rodoviária.

Ao longo de seis décadas de existência, a PRP consolidou-se como a principal entidade de referência nacional em segurança rodoviária, sendo sistematicamente chamada a colaborar nas iniciativas desencadeadas a nível governamental e a participar nos principais fóruns internacionais da especialidade.

Índice

História e Fundação Missão e Valores Áreas de Atuação Principais Programas e Campanhas Investigação e Publicações Parcerias e Reconhecimento Internacional A Sinistralidade Rodoviária em Portugal Desafios Contemporâneos Cronologia Referências

História e Fundação A Prevenção Rodoviária Portuguesa foi fundada a 17 de outubro de 1965, por iniciativa do Lyon Club de Lisboa, como uma resposta direta à gravíssima situação que então se vivia em Portugal no que respeitava à sinistralidade rodoviária. O crescimento acelerado do parque automóvel, num país ainda com infraestruturas rodoviárias débeis e sem uma cultura de segurança estabelecida, traduzia-se em números de mortes e feridos que preocupavam profundamente os setores mais atentos da sociedade civil.

Sensibilizado em particular pelo sofrimento das crianças vítimas dos acidentes de viação, o Lyon Club de Lisboa tomou a iniciativa de constituir formalmente uma associação dedicada em exclusivo à prevenção rodoviária — uma das primeiras do género na Europa do Sul.

Já no ano seguinte à sua fundação, em 1966, o Governo Português reconheceu a PRP como instituição de utilidade pública, atestando a relevância social do seu trabalho e estabelecendo desde cedo uma relação de colaboração estreita com o Estado.

A PRP iniciou a sua atividade com apenas seis funcionários, crescendo progressivamente à medida que expandia o leque das suas intervenções e conquistava o reconhecimento da sociedade e das autoridades. Esta trajetória de crescimento reflete a evolução do próprio país: de uma nação com uma frota automóvel incipiente nos anos 60, para uma das mais motorizadas da Europa no século XXI.

Missão e Valores A missão da PRP assenta na convicção de que a Educação Rodoviária deve ser um processo de formação ao longo da vida, envolvendo toda a sociedade — família, escola e comunidade — num esforço conjunto e permanente.

A associação rege-se pelos seguintes princípios orientadores:

Excelência e rigor técnico — aplicação das melhores práticas nacionais e internacionais em todas as intervenções; Ética e transparência — independência no exercício das suas funções, sem conflitos de interesse comerciais; Inovação — adoção de metodologias e ferramentas atualizadas para responder aos desafios emergentes da mobilidade; Qualidade dos serviços — certificação pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) e pela Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT); Melhoria contínua — avaliação permanente da eficácia das intervenções e ajuste das estratégias em função dos resultados.

Áreas de Atuação A PRP estrutura a sua intervenção em cinco grandes domínios:

Educação Rodoviária Desenvolvimento de recursos pedagógicos e programas formativos dirigidos a todos os escalões etários, desde as crianças em idade pré-escolar até aos adultos e condutores profissionais. A convicção central é a de que a segurança rodoviária começa muito antes de se sentar ao volante.

Formação Profissional Oferta de cursos e ações de formação certificados pelo IMT e pela DGERT, destinados tanto a indivíduos como a empresas, com programas à medida das necessidades de cada organização. A PRP trabalha com empresas de todos os setores, contribuindo para a redução da sinistralidade laboral associada à utilização de veículos.

Sensibilização e Campanhas Conceção, planeamento e implementação de campanhas de comunicação direcionadas a todos os tipos de utilizadores da via pública — condutores, peões, ciclistas e motociclistas —, com recurso às melhores práticas internacionais de comunicação para a mudança de comportamentos.

Investigação e Análise de Dados Recolha, sistematização e análise de dados de sinistralidade rodoviária, com produção de relatórios técnicos e científicos que fundamentam as políticas públicas e orientam as intervenções preventivas. A PRP participa em estudos europeus e internacionais de referência.

Consultoria Prestação de serviços de consultoria especializada a entidades públicas e privadas, incluindo autarquias, empresas e organismos governamentais, nas áreas do planeamento de segurança rodoviária, auditoria de infraestruturas e estratégia de comunicação.

Principais Programas e Campanhas Ao longo dos seus 60 anos, a PRP produziu algumas das campanhas de segurança rodoviária mais marcantes da história da comunicação em Portugal.

Campanhas Históricas Entre as iniciativas pioneiras que ficaram gravadas na memória coletiva dos portugueses, destacam-se:

"STOP até no deserto é para parar" — uma das primeiras campanhas da PRP, que mostrava um Mercedes parado no deserto junto a um sinal de Stop, tornando-se uma referência incontornável da publicidade de serviço público em Portugal; "Comigo o miúdo vai sempre atrás" — campanha dedicada ao transporte seguro de crianças em automóvel, num tempo em que os sistemas de retenção infantil eram praticamente desconhecidos; "Atrás de uma bola vem sempre uma criança" — apelo à atenção dos condutores em zonas residenciais, com impacto particular junto das comunidades urbanas; Campanha do Lápis — uma das campanhas mais célebres da PRP sobre a condução sob o efeito do álcool, que se tornou um marco da comunicação preventiva nacional.

Escolas Móveis de Trânsito Desde os primeiros anos da sua existência, a PRP criou as Escolas Móveis de Trânsito, unidades itinerantes que se deslocavam às escolas de todo o país para sensibilizar os alunos para a temática da segurança rodoviária. Esta iniciativa representou uma inovação metodológica significativa, levando a mensagem preventiva diretamente às crianças em contexto escolar, independentemente da sua localização geográfica.

Taça Escolar Criada em 1968, a Taça Escolar é um concurso destinado a alunos do 2.º Ciclo do Ensino Básico, focado na formação do jovem enquanto ciclista. É uma das mais antigas iniciativas de educação rodoviária de Portugal ainda em atividade, testemunhando a consistência e a longevidade do compromisso da PRP com as gerações mais jovens.

Campanhas Contemporâneas Na era digital, a PRP tem mantido uma presença ativa nas redes sociais e nos meios de comunicação online, adaptando as suas mensagens às plataformas e aos públicos atuais. Entre as iniciativas recentes, destaca-se a campanha "Até o Coelhinho da Páscoa sabe…", lançada em 2025, que utilizou o contexto sazonal das viagens em família para alertar para os riscos do aumento do tráfego durante a Páscoa.

Investigação e Publicações A dimensão científica e técnica é um dos pilares que distingue a PRP de outras organizações de sensibilização. A associação produz regularmente estudos, relatórios e artigos que alimentam o debate público e informam as políticas de segurança rodoviária.

Entre as publicações mais relevantes, contam-se:

Relatório sobre álcool e sinistralidade rodoviária em Portugal — análise abrangente dos dados entre 2010 e 2019, incluindo a caracterização dos comportamentos autodeclarados, atitudes e perceção de risco, que revelou que o excesso de álcool no sangue é detetado sobretudo em indivíduos do género masculino entre os 25 e os 55 anos; Relatório ESRA (E-Survey on Road Users' Attitudes) — participação no estudo europeu sobre atitudes dos utilizadores das estradas, que posicionou Portugal em comparação com dezenas de países europeus; Estudo sobre sistemas de retenção infantil, realizado em parceria com o Automóvel Club de Portugal e o fabricante CYBEX; Relatório sobre atropelamentos em Portugal Continental (2010–2016), que traçou o perfil dos peões atropelados e dos condutores envolvidos; Proposta de critérios para limitação de velocidade nas estradas portuguesas, inserida no projeto "Reduzir a velocidade nas estradas portuguesas".

A PRP tem também participado em publicações científicas internacionais, nomeadamente na revista IATSS Research, onde apresentou indicadores de desempenho de segurança rodoviária de 32 países no âmbito do projeto ESRA.

Parcerias e Reconhecimento Internacional A PRP mantém uma rede alargada de parcerias nacionais e internacionais, considerando a cooperação e a partilha de conhecimento como elementos essenciais da sua atividade.

A nível nacional, colabora com entidades como a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), a GNR, a PSP, o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), a Direção-Geral de Educação, o Automóvel Club de Portugal, universidades e institutos politécnicos.

A nível internacional, a PRP integra redes europeias de segurança rodoviária e participa em projetos cofinanciados pela União Europeia, sendo membro ativo de organizações de referência no setor. A associação tem igualmente presença nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, desenvolvendo contactos e iniciativas junto das populações locais nas áreas da formação, educação e sensibilização.

A PRP foi igualmente membro da Comissão Técnica Coordenadora que, em 2002, elaborou o Plano Nacional de Prevenção Rodoviária, ao lado de entidades como a Direção-Geral de Viação, a GNR, a PSP, o Instituto das Estradas de Portugal e a Associação Nacional de Municípios Portugueses.

A Sinistralidade Rodoviária em Portugal A razão de ser da PRP é, em última análise, a luta contra um problema de saúde pública de enorme dimensão. Os dados estatísticos contextualizam a importância da sua missão:

Em 2024, Portugal registou 36 789 acidentes com vítimas, dos quais resultaram 475 mortos e 2 675 feridos graves nas estradas nacionais — uma taxa de mortalidade de 60 mortes por milhão de habitantes; Entre 2020 e 2023, morreram mais de 2 300 pessoas em acidentes rodoviários em Portugal; O excesso de velocidade representa 67,9% das infrações registadas pelas autoridades em 2024, sendo o comportamento de risco mais prevalente nas estradas portuguesas; Mais de 60% das mortes em acidentes rodoviários ocorrem em arruamentos urbanos ou em estradas nacionais; Os jovens entre os 15 e os 24 anos apresentam a maior taxa de mortalidade em acidentes de viação, sendo os acidentes rodoviários responsáveis por mais de um quinto das mortes na faixa etária dos 20 aos 29 anos; A utilização do telemóvel ao volante aumenta cerca de 20 vezes o risco de acidente, sendo um dos comportamentos de risco emergentes mais preocupantes.

Estes números sublinham que, apesar dos progressos alcançados ao longo de seis décadas, a sinistralidade rodoviária continua a ser um dos grandes desafios de saúde pública em Portugal.

Desafios Contemporâneos

A Estagnação da Segurança Rodoviária Segundo o presidente da PRP, Alain Areal, os números da sinistralidade "não estão a descer como seria desejável" por ausência de uma política nacional articulada. Portugal fechou 2023 com 642 vítimas mortais nas estradas — um número praticamente idêntico ao de 2013, que registou 637 —, evidenciando uma preocupante estagnação nos progressos.

A Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária