O Estuário de Santos (também designado Sistema Estuarino de Santos–São Vicente–Bertioga, sigla SSVBES na literatura científica em inglês) é um complexo de canais de maré localizado na Baixada Santista, litoral centro do estado de São Paulo, Brasil. Trata-se de um dos estuários mais estudados e dos mais contaminados do país, resultado da sobreposição histórica de atividades industriais, portuárias e urbanas em um ecossistema de elevada importância ecológica e pesqueira.

O sistema se situa na depressão costeira entre as escarpas da Serra do Mar e o Oceano Atlântico, delimitado pela ilha de Santo Amaro — território do município do Guarujá — e pela ilha de São Vicente, onde se concentram as sedes de Santos e São Vicente. Três canais principais estruturam o sistema: o Canal do Porto (ou Canal de Santos), o Canal de São Vicente e o Canal de Bertioga.

Localização e contexto geográfico

O Sistema Estuarino de Santos está inserido na Região Metropolitana da Baixada Santista, nas coordenadas aproximadas de 23°47'–24°00' S e 46°15'–46°30' O. Pertence à UGRHI 7, a Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos da Baixada Santista, que drena diretamente para o mar e corresponde ao rebordo do Planalto Atlântico.Comitê da Bacia Hidrográfica da Baixada Santista (UGRHI 7). Plano de Bacia da Baixada Santista – Síntese. São Paulo: SIGRH, 2002. Disponível em: https://sigrh.sp.gov.br/public/uploads/documents/6781/plano-de-bacia-sintese_1.htm. Acesso em: 22 jun. 2026.

A geomorfologia regional é marcada por duas grandes unidades morfológicas: as escarpas da Serra do Mar, a noroeste, e a Planície Costeira, voltada para o Atlântico. A planície é recortada por numerosos canais estuarinos que a subdividem em ilhas e pontões rochosos. As mais extensas são a ilha de Santo Amaro e a ilha de São Vicente, ambas estreitamente ligadas ao continente e separadas dele apenas pelos canais do sistema. O estuário desemboca na Baía de Santos, que se abre para o Embaiamento Sul Brasileiro, porção meridional do Oceano Atlântico Sul.

Geologia e formação

O substrato geológico da Baixada Santista compreende duas categorias de materiais: as rochas do embasamento — predominantemente granitos, granulitos e charnockitos filiados ao Cinturão Ribeira — e as coberturas cenozóicas, constituídas pelas sequências sedimentares inconsolidadas das planícies costeiras baixas.

Do ponto de vista da morfogênese estuarina, o Sistema Estuarino de Santos é classificado como um complexo de canais de maré, categoria em que o eixo principal das feições corre paralelamente à costa e a influência das marés constitui a força motriz dominante da circulação. Esse tipo morfológico difere dos estuários de vale afogado pela ausência de um único vale fluvial como eixo estruturante, sendo gerado pela edificação de barreiras arenosas à frente de depressões longitudinais à linha de costa.MIRANDA, L. B.; CASTRO, B. M.; KJERFVE, B. Princípios de Oceanografia Física de Estuários. São Paulo: Edusp, 2002.

A configuração atual da planície é resultado de processos geológico-tectônicos, eustáticos e erosivos que atuaram sobre a Província Costeira paulista ao longo do Quaternário. Estudos publicados na Revista USP demonstraram que, milênios atrás, toda a região estava coberta por uma lâmina d'água de até 50 metros, com apenas os principais altos rochosos emergidos.MASSAD, F. A Baixada Santista no fundo do mar. Revista USP, São Paulo, n. 41, p. 18–27, mar./maio 1999. Os estuários costeiros atuais têm origem geológica recente, datando de aproximadamente 5 000 anos, quando ocorreu o último máximo transgressivo holocênico.

O sistema recebe aporte contínuo de sedimentos das bacias hidrográficas da Serra do Mar. O Canal do Porto de Santos acumula cerca de 1 milhão de toneladas de sedimento por ano, volume que se intensificou nas décadas de maior atividade industrial em Cubatão, quando a degradação da cobertura vegetal das encostas acelerou o carreamento de material para os canais.Universidade Católica de Santos. O estuário de Santos como cenário de negociação ambiental. In: Política Ambiental, Negociação de Conflitos e Sustentabilidade. Santos: UniSantos, 2004. Disponível em: https://www.unisantos.br/edul/ebook/politicaambiental/html/cap10.html. Acesso em: 22 jun. 2026. Parte desses sedimentos provém também das águas revertidas da Represa Billings para geração de energia elétrica na Usina Henry Borden, em Cubatão.

Hidrografia

Os principais rios tributários do sistema estuarino são o Rio Cubatão, o Rio Mogi e o Rio Quilombo, que drenam a porção central da bacia; os rios Itapanhaú, Itatinga e Guaratuba, ao norte, em sub-bacias com manguezais mais preservados; e os rios Boturoca e Itanhaém, ao sul. A UGRHI 7 recebe ainda, indiretamente, as águas do Alto Tietê revertidas via canal do Pinheiros e Represa Billings para geração de energia, sistema que introduz sedimentos e poluentes de origem metropolitana na bacia.

A hidrodinâmica do sistema é governada por três forçantes: a maré astronômica, a maré meteorológica e a descarga fluvial. A maré meteorológica é induzida pelos ventos sinóticos que atuam sobre a plataforma continental adjacente; ventos de nordeste provocam rebaixamento do nível d'água, enquanto ventos de sudoeste determinam elevação.PAIVA, A. D. et al. Modeling Oceanic Variables with Dynamic Graph Neural Networks. arXiv, 2022. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2206.12746. Acesso em: 22 jun. 2026. Mapas cartográficos do século XIX registram a profundidade do canal da barra de Santos na ordem de 6 a 8 metros, profundidade hoje mantida artificialmente por dragagens contínuas.Instituto Maramar. Canal do Estuário de Santos-Guarujá (SP). 2015. Disponível em: https://maramar.org.br/project/canal-do-estuario-de-santos-guaruja/. Acesso em: 22 jun. 2026.

Ecossistemas e biodiversidade

Flora

O manguezal é o ecossistema predominante nas margens do sistema estuarino e representa a maior parcela da fisiografia costeira da Baixada Santista: considerando toda a costa da região, a maior parte é composta por manguezais, deltas e margens de rios, percentual que supera 60% do total.São Paulo (Estado). Diagnóstico Técnico – Produto 2: Meio Físico Marinho – APAMLC. São Paulo: SIGAM/SMA, 2014. Disponível em: https://sigam.ambiente.sp.gov.br/sigam3/Repositorio/511/Documentos/APAM_LC/APAMLC_Meio_Fisico_Marinho.pdf. Acesso em: 22 jun. 2026. As três espécies arbóreas características dos manguezais brasileiros ocorrem no estuário: o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), o mangue-branco (Laguncularia racemosa) e o siriúba (Avicennia schaueriana), todas dotadas de adaptações fisiológicas às condições de solos hipóxicos e alta variabilidade de salinidade.Instituto de Biociências, USP. O ecossistema manguezal. São Paulo: USP, 2008. Disponível em: http://ecologia.ib.usp.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=70. Acesso em: 22 jun. 2026.

Nas planícies arenosas marginais desenvolve-se a restinga, ecossistema de grande diversidade florística que complementa a estabilização do substrato e a manutenção da biodiversidade regional. As encostas da Serra do Mar são cobertas pela Floresta Ombrófila Densa, que drena nutrientes e matéria orgânica para o estuário e condiciona a produtividade primária do sistema.Prefeitura Municipal de Santos. Ecossistemas da Baixada Santista. Santos: Secretaria do Meio Ambiente, s.d. Disponível em: https://www.santos.sp.gov.br/?q=file/84798/download. Acesso em: 22 jun. 2026.

Fauna

A ictiofauna do sistema é diversificada. O estuário funciona como berçário para numerosas espécies de peixes que utilizam o ambiente nas fases de pós-larva e juvenil antes de migrarem para águas marinhas.UNIFORMIDADE. Diversidade de peixes do Sistema Estuarino de Santos: comparação antes e depois de três acidentes ambientais. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2022. Disponível em: https://repositorio.unifesp.br/items/cb7fd4e2-afcc-46a8-8f97-99330dc2f93f. Acesso em: 22 jun. 2026. As espécies comercialmente mais relevantes são os robalos Centropomus undecimalis — que pode atingir 1,5 m de comprimento e 25 kg — e C. mexicanus, de porte menor, ambos objeto de pesca profissional e amadora na região.Arquivo Prof. Jarmuth. Um amplo estudo sobre os manguezais de Santos (SP). 2010. Disponível em: http://arquivososriosdobrasil.blogspot.com/2010/06/um-amplo-estudo-sobre-os-manguezais-de.html. Acesso em: 22 jun. 2026. Também são localmente comuns a caratinga (Eugerres brasilianus) e a carapeba (Diapterus rhombeus), peixes que se alimentam de invertebrados do sedimento e que toleram a transição para água doce.

A avifauna é expressiva. Monitoramento realizado pela Companhia Docas do Estado de São Paulo entre novembro de 2016 e outubro de 2018 identificou 129 espécies de aves na área portuária, incluindo espécies ameaçadas de extinção, número que não computa as espécies apenas observadas em sobrevoo.129 espécies de aves vivem no Porto de Santos. Diário do Litoral, Santos, 30 jan. 2019. Disponível em: https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/129-especies-de-aves-vivem-no-porto-de-santos/122250/. Acesso em: 22 jun. 2026. No município de Santos e adjacências, já foram registradas mais de 300 espécies de aves, o que motivou a criação, pelo poder municipal, do Circuito das Aves de Santos.Aves de Santos: um roteiro com mais de 300 espécies. Revista Nove, jun. 2020. Disponível em: https://revistanove.com.br/turismo-na-regiao/300-aves-de-santos/. Acesso em: 22 jun. 2026.

A fauna bentônica e de crustáceos — caranguejos, camarões e moluscos bivalves — compõe recursos pesqueiros de subsistência e integra as cadeias alimentares do sistema estuarino.

Importância ecológica

O Sistema Estuarino de Santos desempenha funções ecossistêmicas de relevância regional e nacional. Na condição de berçário natural, o estuário provê abrigo e alimento adequados ao desenvolvimento de pós-larvas e juvenis de peixes e crustáceos, cuja colonização dessas áreas é decisiva para a manutenção dos estoques pesqueiros marinhos ao longo do litoral paulista e adjacências.São Paulo (Estado). Secretaria da Agricultura e Abastecimento. Instituto de Pesca. A pesca de robalos na área estuarina da Baixada Santista. São Paulo: Instituto de Pesca, 2018. Disponível em: https://www.pesca.sp.gov.br/web/content/2967. Acesso em: 22 jun. 2026.

Os manguezais atuam como filtros biológicos que retêm sedimentos, nutrientes e poluentes oriundos do escoamento superficial, contribuindo para a qualidade das águas costeiras. Funcionam ainda como exportadores de matéria orgânica para o estuário, sustentando parte da produtividade primária da zona costeira. A alta produtividade pesqueira característica das regiões estuarinas é diretamente associada à presença e à extensão dos manguezais. As raízes dos mangues estabilizam os sedimentos das margens, reduzindo a erosão e retardando o assoreamento dos canais.

Do ponto de vista climático, os manguezais são reconhecidos como importantes reservatórios de carbono azul, armazenando carbono orgânico tanto na biomassa vegetal quanto nos sedimentos anóxicos. A Convenção de Ramsar sobre Zonas Úmidas classifica os ecossistemas de mangue como únicos, raros e extremamente ricos em biodiversidade.NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. O que são os manguezais e por que é importante conservá-los. 2022. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2022/07/o-que-sao-os-manguezais-e-por-que-e-importante-conserva-los. Acesso em: 22 jun. 2026.

Impactos ambientais

Contaminação industrial e portuária