miniaturadaimagem|Um cartaz de recrutamento da cavalaria canadense O uso de cavalos na Primeira Guerra Mundial (1914–1918) marcou um período de transição na evolução dos conflitos armados. Inicialmente, as unidades de cavalaria eram consideradas elementos ofensivos essenciais de uma força militar; no entanto, ao longo da guerra, a vulnerabilidade dos cavalos ao fogo moderno de metralhadoras, morteiros e artilharia reduziu sua utilidade no campo de batalha. Esse processo ocorreu paralelamente ao desenvolvimento dos tanques, que acabaram por substituir a cavalaria nas táticas de choque. Embora a percepção sobre o valor do cavalo na guerra tenha mudado drasticamente, esses animais ainda desempenharam um papel significativo ao longo do conflito.

Todas as principais potências beligerantes da Primeira Guerra Mundial iniciaram o conflito com forças de cavalaria. A Alemanha deixou de utilizá-las na Frente Ocidental logo após o início da guerra, mas manteve seu uso limitado na Frente Oriental por um período prolongado do conflito. O Império Otomano empregou a cavalaria extensivamente durante a guerra. Do lado dos Aliados, o Reino Unido utilizou infantaria montada e cargas de cavalaria ao longo de todo o conflito, enquanto os Estados Unidos fizeram uso da cavalaria apenas brevemente. Embora não tenha obtido grande êxito na Frente Ocidental, a cavalaria aliada teve algum sucesso no teatro de operações do Oriente Médio, graças às características de terreno aberto daquela frente — que permitiam uma guerra de movimento mais tradicional — e à menor concentração de artilharia e metralhadoras. A Rússia empregou forças de cavalaria na Frente Oriental, mas com sucesso limitado.

Os militares utilizavam cavalos principalmente para apoio logístico; eles superavam os veículos motorizados ao transitar por lama profunda e terrenos acidentados. Os cavalos eram empregados em missões de reconhecimento e no transporte de mensageiros, bem como para tracionar peças de artilharia, ambulâncias e carroças de suprimentos. A presença dos cavalos frequentemente elevava o moral dos soldados no front, mas os animais também contribuíam para a propagação de doenças e condições sanitárias precárias nos acampamentos, devido ao acúmulo de esterco e carcaças. O valor dos cavalos e a crescente dificuldade em substituí-los eram tamanhos que, em 1917, algumas tropas receberam a orientação de que a perda de um cavalo representava uma preocupação tática maior do que a perda de um soldado. Por fim, o bloqueio imposto à Alemanha impediu que as Potências Centrais importassem cavalos para repor as baixas, o que contribuiu para a derrota alemã. Ao final da guerra, até mesmo o Exército dos EUA — que dispunha de bons recursos — enfrentava escassez de cavalos.

As condições eram severas para os cavalos na linha de frente; eles eram mortos por disparos de fuzil e artilharia, sofriam de problemas de pele — entre outras doenças — e eram feridos por gases tóxicos. Centenas de milhares de cavalos morreram, e muitos outros foram tratados em hospitais veterinários e enviados de volta ao front. A obtenção de forragem era um grande desafio, e a Alemanha perdeu muitos cavalos por inanição. Vários memoriais foram erguidos para homenagear os cavalos que morreram. Artistas, incluindo Alfred Munnings, documentaram extensivamente o trabalho dos cavalos na guerra, e esses animais também foram retratados na poesia do conflito. Romances, peças teatrais e documentários também abordaram a participação dos cavalos na Primeira Guerra Mundial.

Cavalaria miniaturadaimagem|284x284px|Membros do regimento Royal Scots Greys perto de Brimeux, França, em 1918. Muitos estrategistas britânicos fora das unidades de cavalaria perceberam, antes da guerra, que os avanços tecnológicos sinalizavam o fim da era do combate a cavalo. No entanto, muitos oficiais superiores da cavalaria discordavam e, apesar de sua utilidade limitada, mantiveram regimentos de cavalaria de prontidão durante todo o conflito. Recursos escassos em tempos de guerra foram empregados para treinar e manter regimentos de cavalaria que raramente eram utilizados. O emprego tático contínuo da carga de cavalaria resultou na perda de muitos soldados e cavalos em ataques infrutíferos contra metralhadoras. No início da guerra, ocorreram escaramuças de cavalaria em várias frentes, e tropas montadas foram amplamente utilizadas para reconhecimento. A cavalaria britânica era treinada para combater tanto a pé quanto montada, ao passo que a maior parte das demais cavalarias europeias dependia exclusivamente da tática de choque das cargas a cavalo. Houve casos isolados de combate de choque bem-sucedido na Frente Ocidental, onde as divisões de cavalaria também forneciam importante poder de fogo móvel. Já antes da guerra, a cavalaria era empregada juntamente com carros blindados e aeronaves; posteriormente, essa atuação passou a incluir a cooperação com tanques — notadamente na Batalha de Cambrai, onde se esperava que a cavalaria explorasse rupturas nas linhas inimigas que os tanques, mais lentos, não conseguiam aproveitar. Esse plano não se concretizou devido a oportunidades perdidas pelo comando. Em Cambrai, tropas da Grã-Bretanha, do Canadá, da Índia e da Alemanha participaram de ações de cavalaria montada. A cavalaria continuou sendo empregada até o final do conflito; tropas de cavalaria dos Aliados hostilizaram as forças alemãs em retirada em 1918, durante a Ofensiva dos Cem Dias, período em que cavalos e tanques foram utilizados simultaneamente nas mesmas batalhas. A cavalaria foi "literalmente indispensável" na Frente Oriental e no Oriente Médio.

O Manual de Cavalaria, escrito em 1912, permaneceu inalterado durante toda a guerra. Douglas Haig acreditava que a arma de cavalaria também poderia ser eficaz em termos estratégicos. Essa crença provou-se equivocada, recaindo a responsabilidade sobre os escalões superiores, que não conseguiram estabelecer uma estrutura de Comando, Controle e Comunicações capaz de integrar efetivamente o emprego de divisões ou corpos de cavalaria. A cavalaria também foi utilizada com êxito na Palestina, na Terceira Batalha de Gaza e na Batalha de Megido. Os oficiais de cavalaria britânicos, muito mais do que seus homólogos da Europa continental, insistiram na manutenção e no emprego da cavalaria, acreditando que as tropas montadas seriam úteis para explorar rupturas nas linhas de infantaria e que, nas circunstâncias adequadas, seriam capazes de enfrentar metralhadoras.

Império Britânico

Reino Unido esquerda|miniaturadaimagem|O 20º Regimento de Cavalaria do Decão formado em fileiras durante a Batalha do Bazentin Ridge, em 1916. Os britânicos haviam aumentado suas reservas de cavalaria após constatar a eficácia dos bôeres montados durante a Segunda Guerra dos Bôeres (1899–1902). Apenas 19 dias após o início da mobilização britânica para a guerra, em 24 de agosto de 1914, o 9º Regimento de Lanceiros, comandado por David Campbell, entrou em combate contra tropas alemãs; a ação envolveu um esquadrão do 4° Regimento de Dragões investindo contra a infantaria e a artilharia alemãs. Campbell cumpriu as ordens de realizar uma carga, embora acreditasse que a conduta mais prudente teria sido combater a pé. A carga resultou na perda de 250 homens e 300 cavalos do lado britânico. Em 7 de setembro, as tropas de Campbell realizaram uma nova carga, desta vez contra o alemão 1° Regimento de Dragões da Guarda, também uma unidade de cavalaria armada com lanças.

O Manual de Treinamento de Cavalaria de 1912 continuou a ser utilizado com grande eficácia por comandantes de escalões inferiores (vale notar que Douglas Haig participou de sua elaboração) e não sofreu alterações significativas durante os anos de guerra. No entanto, o que mudou — em benefício das pequenas formações de cavalaria — foi a alteração das táticas do exército alemão (adotando a defesa em profundidade), o que conferiu à cavalaria maior liberdade de ação no campo de batalha.

Os cavalos mostraram-se indispensáveis ​​ao esforço de guerra britânico na Palestina, particularmente sob o comando do Marechal de Campo Edmund Allenby, em cujas forças a cavalaria representava uma grande parcela do efetivo. A maior parte de suas tropas montadas não pertencia à cavalaria regular britânica, mas sim ao Corpo Montado do Deserto, composto por uma combinação de unidades australianas, neozelandesas e indianas, além de regimentos Yeomanry ingleses da Força Territorial — tropas equipadas majoritariamente como infantaria montada, e não como cavalaria propriamente dita. Em meados de 1918, a inteligência otomana estimava que Allenby comandava cerca de 11.000 cavaleiros. As forças de Allenby derrotaram as tropas otomanas em uma sequência de batalhas que envolveram o uso extensivo de cavalaria por ambos os lados. Alguns estrategistas de cavalaria veem essa ação como uma comprovação da utilidade da arma, mas outros ressaltam que, no final de 1918, os otomanos estavam em desvantagem numérica de dois para um e não eram tropas de primeira classe. Cavalos também eram utilizados pelos oficiais britânicos do Corpo de Transporte de Camelos do Egito durante as campanhas do Sinai e da Palestina.

Índia

Bibliografia

Categoria:Equipamentos militares da Primeira Guerra Mundial Categoria:Cavalos