Caracóis são os moluscos gastrópodes terrestresDicionário Michaelis - Caracol de concha espiralada calcária, pertencentes à subordem Stylommatophora, que também inclui as lesmas. São animais com ampla distribuição ambiental e geográfica. Respiram através de um poro respiratório.

O nome thumb|left|Caramujo-gigante-africano

O nome "caracol" vem de "cochleolus" e, no Brasil e em certas partes de Portugal, é usado principalmente para as espécies terrestres, enquanto que as espécies aquáticas são chamadas caramujos. A espécie Achatina fulica, introduzida de forma ilegal no Brasil, é conhecida como "caramujo-gigante-africano".Santana Teles, Horácio Manuel., Faria Vaz, Jorge., Roberto Fontes, Luiz e Domingos, Maria de Fátima. 1997. Registro de Achatina fulica Bowdich, 1822 (Mollusca, Gastropoda) no Brasil: caramujo hospedeiro intermediário da angiostrongilíase.Rev. Saúde Pública, 31(3): São Paulo jun.

Características comuns

Descrição thumb|Da esquerda para a direita, o Caracol-da-Borgonha (Helix pomatia), o Caracol-pequeno-cinzento (Cornu aspersum) e o Caracol-dos-jardins (Cepaea hortensis), três espécies de Helicinae. thumb|300px|alt=Corte longitudinal de um caracol, esquema mostrando os diferentes órgãos situados na concha ou na parte externa do corpo|Anatomia de um caracol, esquema em corte. 1: concha; 2: fígado; 3: pulmão; 4: ânus; 5: poro respiratório; 6: olho; 7: tentáculo; 8: cérebro; 9: canal salivar; 10: boca; 11: pança; 12: glândula salivar; 13: orifício genital; 14: pénis; 15: vagina; 16: glândula mucosa; 17: oviduto; 18: saco de dardos; 19: pé; 20: estômago; 21: rim; 22: manto; 23: coração; 24: canal deferente. Os caracóis dispõem de um ou dois pares de tentáculos retrácteis (um par nos Basommatophora, dois nos Stylommatophora), chamados cornos ou "antenas" na linguagem familiar..

Na parte superior da cabeça, o primeiro par de "cornos" alberga os olhos, mas a visão é um sentido pouco utilizado pelos caracóis. Eles possuem sobretudo um bolbo olfactivo sob o olho e o segundo par de tentáculos é um órgão olfactivo e táctil (epitélio) que é, por outro lado, muito utilizado.

A borda situada na abertura da concha é chamada perístoma. A forma, a espessura e a cor do perístoma têm frequentemente uma grande importância na identificação das espécies de gastrópodes.

O seu orifício respiratório é chamado pneumostoma. Situa-se mesmo ao lado do seu ânus.

Independentemente do seu aspeto, a concha do caracol é sempre helicoidal. Na maior parte das vezes, a hélice enrola-se para a direita, e fala-se então de caracol de concha dextra ou dextrogira. Existe também, mas de forma mais rara e anormal, caracóis de concha senestra ou levogira, isto é, cuja concha roda para a esquerda, "ao contrário". Um dos seus representantes mais célebres é o londrino Jeremy.. Existe, contudo, uma exceção a esta regra: no Japão, nas ilhas Yaeyama, a serpente Pareas iwasakii tem um regime alimentar especializado em caracóis. Sendo a sua mandíbula assimétrica, pois possui mais dentes à direita, o seu ataque posiciona-se sempre pelo lado direito da concha. Exerce assim uma pressão seletiva sobre os caracóis de concha dextra que favorece as populações de concha senestra.

O caracol, como muitos outros moluscos, dispõe de neurónios gigantes que permitem a implantação de elétrodos intracelulares amplamente utilizados em investigações neurológicas para compreender melhor o modo de funcionamento do neurónio humano.

Deslocação thumb|A deslocação de um caracol de uma folha de roseira para outra. thumb|Um caracol a escalar os cumes alpinos no Parque Natural Paneveggio - Pale di San Martino em Trentino-Alto Ádige. O caracol desloca-se, apenas para a frente, graças ao seu pé, que é na verdade um gigantesco músculo que se contrai e se alonga alternadamente: é o fenómeno de reptação. A velocidade média, por exemplo, de um caracol-turco adulto é de um milímetro por segundo, ou seja, seis centímetros por minuto.

As glândulas dos caracóis secretam também diferentes tipos de múcus (a "baba") contendo numerosos compostos (alantoína, colagénio, elastina) que lhe permitem simultaneamente avançar mais facilmente deslizando sobre os obstáculos e fixar-se mesmo verticalmente em certas paredes. Pode assim também ultrapassar obstáculos particularmente agressivos, tais como fiadas de espinhos ou lâminas de barbear. O múcus serve também para o caracol se livrar de certas substâncias, como os metais pesados, e entra também na composição da concha. O múcus é espesso, endurece e seca ao contacto com o ar, deixando um rasto brilhante à luz.

Alimentação thumb|alt=Um caracol visto de frente, a comer salada, veem-se uma espécie de cornos apontados para a frente, dois longos em cima, dois curtos em baixo, terminados por pequenas bolas|Os dois pares de tentáculos de um caracol brasileiro a comer. thumb|Caracol a comer uma folha. Os caracóis, tal como as lesmas, alimentam-se graças a uma língua dentada chamada rádula (). Esta língua está coberta de asperezas muito duras, dispostas em fileiras regulares, de forma análoga, por exemplo, a uma grosa de carpinteiro.

A alimentação dos caracóis varia consoante a espécie: alguns são fitófagos, detritívoros, outros necrófagos, outros finalmente predadores, por vezes canibais. Os caracóis podem atacar as plantas cultivadas dos jardins (alface, tomates esmagados, rama de cenoura, de aipo...) causando por vezes grandes danos nas colheitas.

Os caracóis fitófagos alojam no seu intestino uma flora bacteriana que participa na digestão dos vegetais. As bactérias mantêm-se vivas durante a estivação ou a hibernação, alimentando-se do múcus que é secretado pelo epitélio intestinal.

O parasitismo parece raro nos caracóis, mas conhece-se pelo menos uma espécie marinha da Nova Caledónia (Hydroginella caledonica) que pode parasitar de noite, durante o seu sono, certas espécies de peixes das famílias Scaridae, Serranidae e Pomacentridae. O caracol introduz a sua probóscide nos tecidos do peixe e parece poder aspirar por este meio fluidos corporais.

Cantos e ruídos Podem ouvir-se emitidos por muitas espécies de moluscos "espécies de cantos" e ruídos: Planorbes, grandes Murex, Búzios, Vieiras, Mias, Canivetes, Cefalópodes. Parecem todos reduzir-se, com variantes, a um único fenómeno físico: sob o efeito de uma retração brusca e rápida do animal, retirado do seu elemento e excitado, uma masa de gás, como bolhas de ar, aprisionada numa cavidade qualquer (cavidades paleais, interstícios entre a concha e o pé, sifões, etc.), é violentamente expulsa e passa através de um orifício estreito, cheio de líquido mais ou menos viscoso, e borbulha: o ruído assim produzido pode, segundo as circunstâncias, e sobretudo segundo a pressão, ir de um simples chilreio a um som quase musical.

Por analogia fisiológica e acústica, o som é próximo do beijo. Da mesma forma, o contacto entre a concha do caracol e uma vidraça emite, aquando da deslocação do animal, um ruído semelhante ao de um dedo molhado num copo; a concha desempenhando, em relação à vidraça, o papel de um arco que provoca uma vibração num instrumento de cordas..

Helix aperta e Lymnaea stagnalis produzem sons, nomeadamente quando são apanhados. Foi observado que Planorbis corneus em cativeiro emitem uma nota aguda, que se pode aproximar do som produzido por uma flauta, a cada ingestão diária de alimento. Certos caracóis, como Helix aspersa, emitem também ruídos agudos que podem fazer lembrar "gritos de agonia", quando são cozinhados vivos.

Estes ruídos estiveram na origem de crenças europeias, que atribuíam ao "canto" os caracóis um valor maléfico e premonitório.

Longevidade A duração de vida dos caracóis varia segundo as espécies. Na natureza, os Achatinidae vivem de cinco a sete anos, enquanto os Helix ultrapassam raramente a idade de três anos. A sua morte deve-se frequentemente a predadores ou a parasitas.

Em cativeiro, a sua longevidade é muito superior e vai de dez a quinze anos, para a maioria das espécies. Alguns caracóis viveram mais de trinta anos.

Hibernação dos caracóis terrestres thumb|alt=Concha de caracol, ao contrário, selada por uma divisória branco-bege|Caracol-da-Borgonha tendo formado o seu epifragma. thumb|Aglomeração de Theba pisana numa planta para se proteger do calor. Os caracóis terrestres só estão ativos quando a humidade é suficientemente elevada. Caso contrário, o animal retrai-se para o interior da sua concha, que fecha com um véu mucoso (curta inatividade) ou com um epifragmaLonga inatividade como estivação, hibernação..., o que lhe evita a desidratação. Alguns caracóis sobem a uma parede ou ao topo de caules de erva para fugir à fornalha do solo, outros como Sphincterochila boissieri (caracol do deserto) vivem nos desertos do Neguev e do Sinai graças à sua xerotolerância, retirando-se nas últimas espiras a fim de formar na primeira uma câmara de ar que isola do ar seco. A hibernação de um caracol pode durar de . O caracol do deserto pode excecionalmente sobreviver até 3 anos em hibernação.

O fotoperíodo e a temperatura são variáveis sazonais que induzem os estados de inatividade. Hibernação e estivação são respostas a stresses ambientais previsíveis. Cada espécie apresenta uma estratégia adaptada para resistir a esses stresses.

O epifragma é uma tampa de múcus, mais ou menos impregnada de calcário, que endurece ao secar.

Reprodução thumb|Acasalamento de caracóis. thumb|right|Ovos de caracol. thumb|Caracóis em casal. Quase todos os caracóis são hermafroditas, produzindo espermatozoides e óvulos. Alguns caracóis de água doce e marinhos têm, contudo, sexos diferentes e são, portanto, ao invés, gonocóricos (machos ou fêmeas).

Antes da reprodução, todos os caracóis terrestres praticam uma corte de duas a doze horas antes do acasalamento. Os caracóis terrestres pulmonados, prolíficos reprodutores, inseminam-se reciprocamente em pares a fim de fertilizar os seus óvulos. Cada postura pode conter até cem ovos.

Os caracóis terrestres pulmonados e as lesmas têm uma abertura de reprodução de um lado do corpo, perto da frente, através da qual o órgão reprodutor externo é extruído para que a troca de espermatozoides possa ocorrer. A fecundação pode então ter lugar e os ovos desenvolverem-se. Desde o início do acasalamento, cada indivíduo espeta um dardo calcário ou quitinoso na carne do seu congénere; este dardo do amor contém uma glândula que secreta hormonas que favorecem a fecundação na bolsa copuladora.

Os caracóis, entre outros animais, possuem uma espermateca. Quando chega uma nova postura de ovos, estes são, portanto, fecundados por uma mistura de espermatozoides provenientes de diferentes indivíduos. Isto favorece o cruzamento genético indispensável a qualquer população.

Os caracóis dos jardins enterram os seus ovos no limite da superfície, a cinco ou dez centímetros de profundidade, principalmente quando o tempo está ameno e ligeiramente húmido, cavando com o seu "pé" (a parte de trás da sua cauda). O tamanho dos ovos difere segundo as espécies, de três milímetros de diâmetro até seis centímetros para os caracóis terrestres gigantes africanos. Após duas a quatro semanas de clima favorável, estes ovos eclodem e os jovens saem. Os caracóis podem pôr ovos até uma vez por mês.

Ambiente thumb|alt=Pequenos caracóis em espiral redonda, com listas castanhas e brancas|Caracóis do género Helicella em caules de umbelífera.

Os caracóis podem, em parte, refletir a qualidade do seu ambiente acumulando na sua carne ou na sua concha certos poluentes ou tóxicos presentes no seu meio.