Ossónoba foi uma antiga cidade situada na zona Sudoeste da Península Ibérica, no mesmo local em que foi depois construída a cidade de Faro, na região do Algarve, em Portugal. Também foi conhecida, na antiguidade, como Osónoba (Osonoba), e nas suas moedas surgia com o nome abreviado OSVNBA (OSUNBA). A povoação foi fundada cerca de 400 a 300 anos antes de Cristo, embora só tenha atingido o seu apogeu durante o domínio romano, a partir do . A cidade entrou em declínio nos finais da civilização romana na Península Ibérica, nos séculos IV e V, com as invasões bárbaras.CAPELO et al, 1994:11-13 Voltou a ganhar importância após a conquista muçulmana em 713, tornando-se num importante centro cultural e político, que controlava a região do Algarve.COUTINHO, 2008:22 Durante o domínio mouro, Ossónoba mudou de nome por diversas vezes, terminando como Santa Maria ibne Harune, que posteriormente deu origem ao topónimo Faro.
thumb|esquerda|Mapa do Golfo de Cádis durante o período romano, incluindo a cidade de Ossónoba thumb|Doca de Faro, com o Hotel EVA ao fundo à esquerda
Descrição Localização e organização Segundo a obra De Situ Orbis de Pompónio Mela, a cidade de Ossónoba situava-se na zona conhecida como Promontório Cúneo, parte da região romana da Lusitânia.CARRASCO et al, 2008:84-85 De acordo com o Itinerário de Antonino, Ossónoba ficaria a cerca de 16 milhas romanas de outra povoação importante, Balsa, situada perto da moderna cidade de Tavira, e que também fazia parte do Promontório Cúneo. Foi descoberto um fragmento de um marco romano perto de Balsa, estudado por Fernandes Mascarenhas, que indicava a distância desde aquela cidade até Ossónoba.
A área onde se inseria Ossónoba corresponde à localização da cidade moderna de Faro, tendo sido encontrados vestígios de edifícios romanos, incluindo na zona da estação ferroviária, junto à margem da Ria Formosa, que provam que aquela área estaria já urbanizada durante esse período. Naquela área foram identificadas cetárias para a produção de garo, dois pátios ao ar livre que eram normalmente utilizados para a preparação do peixe, e vários edifícios para habitação e armazenagem, dos quais sobraram algumas tégulas e ímbrices. Também foi naquela área que foi encontrado o mosaico do Deus Oceano, entre as Ruas Infante D. Henrique e Ventura Coelho. Foram igualmente encontrados vários tanques de salga de peixe em frente ao Hotel da EVA. O centro da cidade romana era o fórum, cujo templo estava situado sensivelmente no mesmo local onde posteriormente foi construída a Sé Catedral.
Ao contrário da moderna cidade de Faro, que está ligeiramente afastada da faixa costeira, Ossónoba era uma cidade plenamente litoral. Com efeito, as correntes e os ventos arrastaram areia ao longo de centenas de anos, criando um sistema de dunas, ilhas e sapais em redor da costa, separando a cidade do mar, mas no período romano Ossónoba estava situada ainda na orla marítima, facilitando o acesso ao oceano e potenciando o seu uso como porto marítimo. Também foi encontrada uma sepultura romana na Quinta do Fumeiro, existindo vestígios de outras sepulturas na mesma zona. Outros indícios da cidade romana foram descobertos na moderna Rua de Santo António, onde foram encontrados restos humanos, telhas e ânforas. A cidade romana contava com estruturas de defesa, incluindo muralhas e torres de defesa, que tinham forma semicircular.
Nas imediações de Faro foram encontrados os vestígios de três importantes núcleos de vestígios romanos, correspondentes à cidade de Balsa e às villas de Quinta do Marim e Milreu.
Economia Ossónoba era uma importante cidade portuária, com uma economia fortemente baseada no mar, não só como entreposto comercial mas também como centro piscatório. Desta forma, possuía vários complexos para a preparação de produtos baseados no peixe, como o garo. O porto servia principalmente para exportar os produtos agrícolas e piscícolas gerados localmente ou em quintas em redor da cidade, como Milreu, embora também servisse para a entrada vários produtos que não eram produzidos na região, como as lucernas, que não eram fabricadas na região, e que tinham de ser importadas de Itália e do Norte de África.
Mosaicos Foram encontrados importantes painéis de mosaicos entre as ruínas de Ossónoba, que provavelmente foram executados pelo mesmo grupo de artistas africanos que trabalharam nos mosaicos na villa romana de Milreu.CARRASCO et al, 2008:19-20 Um dos mais importantes vestígios de Ossónoba é o chamado Mosaico do Deus Oceano, com cerca de 9 m de comprimento por 3,5 m de largura, com um grande retrato da figura mitológica do Oceano no centro, decorado com motivos vegetais, e com vários nomes na parte inferior. A peça, que foi classificada pelo governo como Tesouro Nacional, foi reconstruída e preservada no Museu de Faro, numa sala própria.
thumb|esquerda|Busto romano encontrado na Praça Alexandre Herculano, em Faro Espólio Foram encontradas várias moedas relativas a Ossónoba, que, como era habitual durante a civilização romana, eram cunhadas com desenhos relativos à região, e com a efígie do imperador que reinava durante aquele período. Também foram descobertos materiais de construção, como telhas, e vários artefactos do quotidiano perto da estação ferroviária, como anzóis, moedas e muitos fragmentos de objectos de vidro, metal e cerâmica. Na zona da Horta do Pinto, foi encontrado um conjunto de lucernas decoradas do período romano, que é considerado de grande importância para o estudo deste tipo de objectos, uma vez que permite um maior conhecimento sobre a sua evolução, desde o até ao , especialmente durante a república e o declínio da civilização romana. Com efeito, as lucernas foram mais do que simples instrumentos quotidianos, tendo-se assumido também como objectos decorativos ou símbolos de devoção religiosa, demonstrando as crenças, ideologias e tendências artísticas dos seus possuidores, e a sua evolução ao longo dos tempos. Por exemplo, um dos símbolos das lucernas é um cordeiro, que representava Cristo, mostrando desta forma a introdução do cristianismo na religião. Foram igualmente desenterradas ossadas humanas na Quinta do Fumeiro, e na Rua de Santo António. Na mesma área foram encontrados fragmentos de mosaicos, colunas e de cerâmica.
Em termos de espólio do período muçulmano, foi encontrada uma candeia, e um pequeno tesouro, que incluía os fragmentos de uma pequena taça de prata, que continha um anel, possivelmente em electro, e três objectos de ouro: um par de arreacadas, uma bracelete em espiral, e uma pequena barra. A bracelete, de grandes dimensões, foi esculpida em espiral, em secção poligonal, enquanto que as arrecadas, fabricadas em ouro batido, tinham sido decoradas com uma rosácea no centro, com pétalas ponteagudas dispostas em forma de estrela, que talvez tenham servido para encaixar pedras preciosas, rodeadas por duas faixas onduladas que se cruzavam e formavam espaços circulares entre si. A forma geral destes três objectos, e especialmente das rosáceas, recorda a arte muçulmana, enquanto que as faixas lavradas assemelham-se a um antigo estilo oriental, que remonta à Arte assíria.
História thumb|Fotografia aérea de Faro, em 2015. A cidade em si fica no centro, a Sul fica a Ria, e a Oeste da cidade situa-se o Aeroporto. A cidade de Ossónoba ocupava sensivelmente a zona mais antiga de Faro, ao longo da margem da ria thumb|Frente ribeirinha de Faro, no . No centro à direita está o Arco da Vila, que dá acesso ao centro histórico thumb|Núcleo histórico de Faro
Fundação e primeiros anos A povoação de Ossónoba foi fundada cerca do , durante um período de expansão da civilização fenícia, e cedo se afirmou como uma das mais importantes cidades na região Sudoeste da península, sendo um importante entreposto para o comércio de minérios e de produtos piscícolas e agrícolas. Também foram descobertos vestígios do ocupação por parte dos Cartagineses.
thumb|Sé Catedral de Faro, no thumb|Gravura da cidade de Faro,publicada no jornal O Panorama n.º 50, de 1842 thumb|Planta de um cemitério romano em frente do Teatro Lethes, desenhada por Estácio da Veiga em 1878 Domínio romano Nos últimos anos antes do Nascimento de Cristo e nos primeiro séculos da Era Cristã, a Península Ibérica este sob o domínio da civilização romana, centrada na cidade de Roma, e que no seu apogeu chegou a controlar a maior parte da Europa, o Norte de África e parte da Ásia. As incursões romanas na Península Ibérica iniciaram-se cerca de 200 anos antes de Cristo, durante as guerras contra Cartago, e por volta de começou a Guerra Lusitana, contra as tribos nativas da península, que terminou no , com a conquista total da península.CAPELO et al, 1994:9-10 A região do Algarve foi conquistada pelos romanos nos finais do , incluindo a cidade de Ossónoba. Ossónoba foi referida pelo geógrafo grego Estrabão como um exemplo das povoações que os nativos estabeleceram junto aos esteiros dos rios, tendo sido a única cidade que indicou na região do moderno Algarve.
Durante o domínio de Roma, a zona que depois corresponderia ao Algarve tornou-se um destino de excelência para as elites, devido ao clima ameno, à estabilidade em relação ao resto da península, pelos terrenos férteis e pela extensa faixa costeira, que possibilitava a criação de uma rica indústria da pesca. Os romanos abastados construíram para si grandes quintas com mansões decoradas, como as do Cerro da Vila, em Vilamoura, Milreu, em Estoi, e Abicada, na Mexilhoeira Grande.
Cerca do ou II, foi construído um complexo de salgas junto à margem da Ria Formosa. Entre os séculos II e III, a cidade de Ossónoba conheceu o seu auge como centro económico e urbano, estando já completamente organizada em termos políticos, sociais e religiosos. Terá sido nos finais do ou nos princípios do III que foi executado o famoso mosaico do Deus Oceano, provavelmente encomendado por abastados empresários romanos na área da pesca nas costas do Algarve e de Marrocos.
Com os Romanos a cidade perde o carácter de entreposto comercial e transforma-se em urbe. A Vila-a-Dentro estrutura-se segundo dois eixos principais (actuais Ruas do Município e do Repouso), ambos de acesso a uma área central, o fórum, onde se implantavam os edifícios administrativos e religiosos mais importantes. De entre eles salienta-se o templo (), cuja localização coincidia, parcialmente, com a da actual Sé, se bem que a uma cota cerca de três metros abaixo. A Vila-a-Dentro ocupava então uma área inferior àquela que hoje ocupa e teria sido muralhada sobre o traçado da actual circular interior (Ruas Monsenhor Boto, Rasquinho e antiga Travessa das Freiras). Pouco a pouco a cidade desenvolve-se e salta para o exterior das muralhas, estabelecendo-se então dois núcleos extramuros: o primeiro, na zona do Lethes-Alagoa-Artistas, acompanhando o traçado dos canais; o segundo, de estrutura linear, sobre o traçado da actual Rua Conselheiro Bivar. Envolvendo estes núcleos constituiu-se uma vasta zona de construção dispersa, onde se situavam as hortas que abasteciam a cidade, e hoje são descobertos inúmeros vestígios de edificações, estatuária, utensílios vários e túmulos um pouco por toda esta área .
Ossónoba estava ligada por uma estrada a Pax Júlia (Beja), que provavelmente passaria pela villa romana de Milreu, perto da moderna vila de Estói.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:14-15 A via partia de Ossónoba e dirigia-se para norte, e passaria pelas villae romanas de Milreu e de Vale do Joio (São Brás/ Faro), cujos arqueológicos podemos encontrar ao longo de dois troços Esta estrada era de categoria secundária, sendo apesar disso parte do XXI Itinerário de Antonino, uma das vias de comunicação mais importantes na Península Ibérica, ligando Ossónoba a Emérita Augusta (Mérida, em Espanha), passando por Paz Júlia e Olissipo (Lisboa).