Fome, no sentido social, é a condição em que a privação involuntária e prolongada de alimentos causa desconforto, fraqueza, doença ou dor. No monitoramento mundial, a FAO acompanha a fome pela prevalência de subalimentação, isto é, a parcela da população cujo consumo habitual de energia alimentar é insuficiente para uma vida ativa e saudável. Esse uso não equivale ao apetite, o desejo de comer, nem à desnutrição, que também abrange deficiências de nutrientes, excessos e desequilíbrios, nem à insegurança alimentar, que mede dificuldades de acesso a alimentos em sentido mais amplo. A carestia é uma crise extrema, na qual falta grave de alimentos, desnutrição aguda e mortalidade elevada atingem simultaneamente uma população.
A fome não depende apenas da quantidade de alimentos produzida ou disponível. Ela pode persistir quando há comida nos mercados, mas parte da população não tem renda, meios físicos ou estabilidade para obtê-la. Desemprego, perda de renda, alta de preços, guerras, deslocamentos, bloqueios e falhas de transporte podem cortar o acesso, enquanto secas, enchentes, calor extremo e perdas de colheita podem reduzir produção e renda ao mesmo tempo. Em crises graves, esses fatores costumam se combinar, e decisões políticas podem agravar ou aliviar a privação.
Quando a ingestão insuficiente se prolonga, a fome pode levar à subnutrição, perda de peso, enfraquecimento do sistema imunológico e maior vulnerabilidade a doenças. Crianças são especialmente suscetíveis. A emaciação aumenta o risco de morte, e a privação nutricional prolongada pode prejudicar o crescimento e o desenvolvimento. A Organização Mundial da Saúde estima que quase metade das mortes de crianças menores de cinco anos esteja relacionada à subnutrição.
A prevalência mundial de fome caiu entre meados dos anos 2000 e meados da década de 2010, voltou a subir nos anos seguintes e chegou a 8,6% em 2021 e 2022. O número estimado de pessoas subalimentadas alcançou seu pico recente em 2022. Nos três anos seguintes, as duas medidas voltaram a cair. Em 2025, cerca de 645 milhões de pessoas, 7,8% da população mundial, ainda estavam subalimentadas, com diferenças acentuadas entre as regiões e a maior prevalência na África.
O combate à fome combina respostas imediatas, como assistência alimentar, refeições escolares e transferências em dinheiro ou vales, com políticas de nutrição, proteção social, produção agrícola e apoio aos meios de subsistência. O ODS 2 fixa a meta de acabar com a fome até 2030, mas as projeções publicadas em 2026 ainda colocavam centenas de milhões de pessoas em situação de subalimentação no fim da década.
Definição e medição
miniatura|Criança com marasmo na Índia, fotografada em 1972.
Para acompanhar a fome como problema social em diferentes países, a FAO usa principalmente a prevalência de subalimentação, que estima quantas pessoas não conseguem obter, de forma habitual, energia suficiente dos alimentos para manter uma vida ativa e saudável. Essa medida é útil para acompanhar a fome em grandes populações, mas não substitui conceitos mais amplos, como desnutrição e insegurança alimentar.
A fome, na medida usada pela FAO, é acompanhada pela prevalência de subalimentação, conhecida pela sigla PoU. O indicador estima a parcela da população que consome habitualmente menos energia dos alimentos do que necessita. Para fazer esse cálculo, a FAO considera a quantidade média de energia alimentar disponível para consumo, a necessidade mínima de energia da população e a maneira como o acesso aos alimentos se distribui entre as pessoas. As necessidades energéticas variam conforme fatores como idade e sexo. No acompanhamento mundial, a FAO estima o consumo médio de cada país por meio de seus balanços alimentares e usa pesquisas domiciliares ou outros levantamentos representativos para estimar as diferenças de consumo dentro da população.
A desnutrição é um conceito mais amplo e inclui falta, excesso ou desequilíbrio de energia e nutrientes. Uma pessoa pode consumir calorias suficientes para não ser considerada subalimentada pela PoU e, mesmo assim, ter deficiência de micronutrientes, como vitaminas e minerais. Também é possível consumir energia em excesso e desenvolver obesidade.
A insegurança alimentar ocorre quando uma pessoa ou família não consegue ter acesso regular a alimentos seguros, nutritivos e suficientes para crescer, se desenvolver e levar uma vida ativa e saudável. Ela pode existir antes que a falta de comida se torne grave ou duradoura o bastante para aparecer nas estimativas de subalimentação. Para medir essa experiência, a FAO usa pesquisas domiciliares, entre elas a Food Insecurity Experience Scale. A PoU, por sua vez, procura estimar a falta habitual de energia alimentar em grupos maiores da população.
A insegurança alimentar aguda corresponde a uma falta de alimentos grave o bastante para ameaçar a vida das pessoas ou os meios que elas usam para se sustentar, independentemente da causa ou de quanto tempo a crise dure. A escala IPC divide essas situações em cinco fases. Para um domicílio, a fase 5 recebe o nome de "Catástrofe". Para que uma área inteira seja classificada como "Carestia", também precisam ser atingidos limites específicos de desnutrição aguda e mortalidade.
Como a PoU foi criada para acompanhar populações relativamente grandes, ela não permite saber quais indivíduos específicos estão subalimentados e também não é adequada para medir mudanças de curto prazo, como o efeito imediato de uma política pública ou de uma alta temporária nos preços dos alimentos. O próprio termo "fome" também pode ser usado de maneira mais ampla por organizações que trabalham com alimentação, aproximando-se dos conceitos de desnutrição e insegurança alimentar. Esse uso social e estatístico é diferente da sensação comum de querer comer, que também pode ser sentida por uma pessoa com acesso regular e suficiente à alimentação.
Causas
miniatura|Migrant Mother, de Dorothea Lange, 1936.
As causas da fome costumam se combinar, e um país pode ter alimentos suficientes nos mercados sem que todas as pessoas consigam comprá-los ou recebê-los. A segurança alimentar depende de quatro dimensões: disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade. O acesso pode ser limitado pela falta de renda, mesmo quando há comida à venda, ou por problemas físicos e geográficos, como longas distâncias, transporte precário, conflitos e interrupções no abastecimento. Crises econômicas, guerras e eventos climáticos extremos podem afetar mais de uma dessas dimensões ao mesmo tempo.
Inacessibilidade econômica
miniatura|esquerda|As respigadoras, de Jean-François Millet, 1857. Mulheres recolhem espigas deixadas no campo depois da colheita, uma prática historicamente usada por pessoas pobres para obter alimento.
miniatura|Mulher com uma criança entre famílias que aguardavam entrada no campo de Dadaab, no Quênia, em 2011, depois de fugirem da seca e dos conflitos na Somália.
Quando a renda cai ou desaparece, conseguir comida suficiente pode se tornar difícil mesmo que os mercados estejam abastecidos. Desemprego, queda de salários reais, perda de bens ou dos meios usados para ganhar a vida, endividamento, recessões e inflação podem levar uma família a comprar menos alimentos ou a trocar produtos mais nutritivos por outros mais baratos.
Renda, preços e poder de compra
miniatura|O meeiro Bud Fields com sua família no condado de Hale, Alabama, em 1936. Fotografia de Walker Evans para a Farm Security Administration.
O preço que chega ao consumidor depende de muitos elementos, desde a produção e os estoques até o comércio, a taxa de câmbio, a energia, o transporte, o processamento e o varejo. Quando os preços dos alimentos sobem mais depressa que a renda, o poder de compra diminui, e as famílias mais pobres costumam ter menos espaço no orçamento para compensar essa alta. Alimentos nutritivos também ficam mais caros quando estradas são ruins, falta armazenagem ou refrigeração adequada, a energia é pouco confiável ou os mercados funcionam de maneira ineficiente. Esses custos pesam especialmente sobre frutas, hortaliças e alimentos de origem animal.
Quando uma crise econômica reduz a renda ao mesmo tempo que eleva o preço dos alimentos, famílias e países têm menos opções para se adaptar. Países pobres que dependem de importações costumam ter menos recursos para enfrentar uma quebra de safra ou uma alta internacional por meio de estoques, crédito ou compras no exterior. Entre as famílias de baixa renda, uma das primeiras respostas costuma ser diminuir a variedade da alimentação. Nas projeções da OCDE e da FAO para 2026-2035, aumentos no preço da energia e dos fertilizantes afetam de maneira mais intensa a produção, as importações e o consumo nos países de baixa renda, onde há menos recursos para absorver esses custos.
Demanda, biocombustíveis e mercados
miniatura|200px|Criança fotografada nas montanhas Simien, na Etiópia, em 2011.
À medida que a população cresce, aumenta também a quantidade total de alimentos necessária, enquanto o aumento da renda pode mudar o tipo de alimento consumido. Em países de renda média, uma parte dessa mudança ocorre quando cresce o consumo de produtos de origem animal, o que também aumenta o uso de cereais e oleaginosas na ração dos animais. A OCDE e a FAO projetam que cerca de 34% dos cereais consumidos no mundo em 2035 serão destinados à ração. Esse aumento da demanda não causa fome por si só, porque a produção e o comércio também podem crescer, mas pode contribuir para altas de preços quando os estoques estão baixos ou a oferta sofre uma quebra.
Os biocombustíveis também criam demanda por produtos agrícolas que poderiam ser usados na alimentação humana ou animal. Etanol produzido de milho ou açúcar e biodiesel feito com óleos vegetais continuam entre os principais biocombustíveis de primeira geração. O efeito dessa produção sobre os alimentos varia conforme a cultura usada, o tamanho da safra, os estoques disponíveis, os preços da energia e as políticas adotadas. Durante a crise de preços de 2007 e 2008, o aumento da procura por biocombustíveis ocorreu junto com estoques reduzidos, problemas nas safras, petróleo caro e restrições ao comércio.
Depois da crise de 2007 e 2008, a especulação financeira nos mercados de commodities passou a receber grande atenção, embora não explique sozinha as altas dos preços dos alimentos. Um estudo da FAO encontrou sinais compatíveis com bolhas de preços em poucos produtos durante 2008, mas atribuiu as altas de 2010 e 2011 principalmente às condições reais de oferta e procura. Quando os estoques estão baixos ou há restrições às exportações, os preços também podem reagir com mais força às operações financeiras nesses mercados.
Produção, custos e comércio
miniatura|direita|220px|Criança com kwashiorkor em um campo de socorro na Nigéria durante a Guerra Civil da Nigéria, no fim da década de 1960.
Produzir alimentos em quantidade suficiente depende de água, sementes, trabalhadores, fertilizantes, energia, crédito, estoques, tecnologia e meios para transportar a produção até os mercados. Quando a energia fica mais cara, também podem subir os custos dos fertilizantes, da irrigação, do processamento e do transporte. Esses aumentos pesam mais sobre agricultores com pouco acesso a crédito ou tecnologia e sobre países que não conseguem compensar uma queda da produção interna com importações.