O Cerco de Lisboa teve início a 1 de julho de 1147 e durou até 25 de outubro, integrou a Reconquista cristã da Península Ibérica, culminando na conquista desta cidade aos mouros pelas forças do rei D. Afonso Henriques, com o auxílio de Cruzados que se dirigiam para a Terra Santa. Foi o único sucesso da Segunda Cruzada.

Contexto Portugal encontrava-se envolvido na reconquista de território aos mouros desde a sua fundação em 868. Em 1128, Afonso Henriques assumiu o governo do condado portucalense após a Batalha de São Mamede e em 1139 declarou a independência.

Já em 1142 Afonso Henriques tentara a conquista de Lisboa com o auxílio de uma frota de cruzados a caminho da Terra Santa, porém a cidade não pôde então ser conquistada devido a desentendimentos com os cruzados e à falta de meios do rei.Martins, Miguel Gomes: De Ourique a Aljubarrota: A Guerra na Idade Média, 2011, Círculo dos Leitores, pp. 59-75.

Em 1143 veio a Portugal o legado papal Guido de Vico e D. Afonso Henriques aproveitou para solicitar ajuda internacional à conquista de território aos mouros.

A Segunda Cruzada No ano seguinte, após a queda de Edessa, em 1144, o Papa Eugénio III convocou uma nova cruzada. O Papa ainda autorizou uma cruzada para a Península Ibérica. Já o Papa Urbano II teria pedido aos ibéricos que permanecessem na sua terra nos primeiros meses da Primeira Cruzada em 1095, dado que a sua própria guerra era considerada tão importante como a dos Cruzados em direcção a Jerusalém. Eugénio reiterou a decisão, autorizando Marselha, Pisa, Génova e outras grandes cidades mediterrânicas a participar na guerra da Reconquista.

Em finais de 1146 ou inícios de 1147 chegou a D. Afonso Henriques uma carta do abade Bernardo de Claraval, que pregara a cruzada pela Europa e dava conta ao rei de uma nova frota de cruzados que passaria em breve por Portugal a caminho da Terra Santa. A 15 de Março de 1147, D. Afonso Henriques conquistou Santarém, deixando assim em aberto o caminho para esta cidade em aberto antes que chegassem os cruzados.

A 19 de Maio zarparam de Dartmouth, na Inglaterra, os primeiros contingentes de Cruzados. Segundo Odo de Deuil, perfaziam no total 164 navios — valor este provavelmente aumentado progressivamente até à chegada a Portugal. Não era comandada por nenhum rei. A expedição dividia-se entre contingentes alemães sob o comando de Arnaldo IV de Aerschot (sobrinho de Godofredo de Bulhão), flamengos e franceses do condado de Bolonha sob o comando Cristiano de Gistelles, ingleses de Norfolk sob Hervey de Glanville, de Dover sob Simão de Dover, de Londres sob o italiano André Buccuinte, e escoceses, entre outros, sob Saério de Archell.

A chegada da frota de Cruzados a Portugal

Reunida a hoste portuguesa, em inícios da segunda semana de Junho o rei D. Afonso Henriques iniciou a marcha em direcção a Lisboa, deixando instruções ao bispo do Porto para que recebesse os cruzados e os convencesse a juntarem-se a ele na conquista de Lisboa.Martins, 2017, p. 142. A armada chegou à cidade do Porto a 16 de Junho, sendo ali convencidos pelo bispo do Porto, Pedro II Pitões, a tomarem parte na projectada operação militar. Ora como tivéssemos chegado ao Porto, o bispo com seus clérigos veio ao nosso encontro. O rei achava-se então ausente com o seu exército, lutando contra os mouros. Feitas a todos as saudações conforme o costume da sua gente, disse-nos o bispo que já sabia que nós havíamos de chegar, e na véspera recebera do rei uma carta, em que se dizia isto:

«Afonso, rei de Portugal, a Pedro, bispo do Porto, saúde. Se porventura arribarem aí os navios dos Francos, recebei-os diligentemente com toda a benignidade e doçura e, conforme o pacto que com eles fizerdes de ficarem comigo, vós e quantos o quiserem fazer, como garantia da combinação feita, vinde em sua companhia a ter comigo, junto de Lisboa. Adeus !»

Carta do cruzado inglês Osbernominiaturadaimagem|Monumento ao bispo D. Pedro Pitões, erigido no local onde se dirigiu aos cruzados, no Porto. Diz: "No dia 17 de Junho de 1147 o Bispo do Porto D. Pedro Pitões pregou neste lugar aos Cruzados Norticos exortando-os a auxiliar D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa aos Mouros empreza guerreira em que devotada gente participou. Município do Porto em 17-VI-1947, mandou gravar esta inscrição"

Os cruzados aceitaram o pedido de ajuda e cinco navios adiantaram-se em direcção à foz do Tejo, junto da qual já se encontrava acampado Afonso Henriques com a hoste portuguesa. A 27 de Junho zarparam todos do Douro, levando com eles o bispo D. Pedro Pitões e o arcebispo D. João Peculiar.Martins, 2017, p. 170. A frota ancorou em Peniche para que os passageiros pudessem passar a noite em terra firme e, em inícios da tarde do dia seguinte, os navios cruzaram a barra do Tejo e ancoraram entre o acampamento português e Lisboa.Martins, 2017, pp. 170-171.

As defesas de Lisboa Lisboa dispunha de muralhas com 2 a 2,5 metros de largura, 8 a 10 metros de altura e reforçada por 26 torres mas que só protegia 15 dos seus 60 hectares.Martins, 2017, pp. 147-160. Tinha oito portas: a Porta Norte, a Porta da Alfofa, a Porta do Ferro, a Porta do Furadouro, a Porta de Alfama, a Porta do Sol e duas portas abertas no lanço da muralha virado para o rio. A cidade dividia-se entre a elevada alcáçova, de 4 hectares, na qual se encontravam os edifícios nobres, a medina, com 11 hectares, no declive da colina virada para o rio e os arrabaldes, a leste e a ocidente.

O cerco Nesse dia, alguns cruzados desembarcaram, ao passo que a maioria dos habitantes do arrabalde ocidental de Lisboa abandonou rapidamente as suas casas para procurarem refúgio dentro das muralhas, tendo muitos largado tudo o que estavam a fazer no momento.

Os primeiros combates, 28 de Junho Deu-se então o primeiro combate entre alguns sitiantes e sitiados, que partiram ao encontro dos cruzados para impedi-los de desembarcar mas uma segunda vaga de cruzados anglo-normandos conseguiu obrigar os muçulmanos a retirarem-se para o interior da cidade através da Porta do Ferro.Martins, 2017, pp. 167-183. Saério de Archell mandou regressar e os cruzados decidiram adiar o desembarque da maioria das suas tropas para o dia seguinte. Na praia ficaram, porém, Saério de Archell e Harvey de Glanville que, com 40 homens, montaram um acampamento para guardar o local de desembarque. Por temerem um contra-ataque dos muçulmanos passaram a noite equipados e armados.

Discurso aos cruzados, 29 de Junho miniaturadaimagem|O rei D. Afonso Henriques A 29 de Junho, provavelmente recorrendo a diversos intérpretes, Afonso Henriques dirigiu aos cruzados um discurso em que lhes propunha o ataque em conjunto à cidade lisboeta, começando por elogiar a bravura dos combatentes mas avisando que qualquer recompensa ficaria sempre aquém das expectactivas - o que não o preocupava porque sabia que as motivações de cruzados não eram económicas, disse.

Partido Afonso Henriques para o seu acampamento, os cruzados reuniram-se em assembleia para decidir se participariam ou não no cerco, tendo os flamengos demonstrado imediatamente vontade de participar, o que causou tamanha exaltação que a reunião foi temporariamente interrompida. Eventualmente todos os contingentes norte-europeus aceitaram participar.

Negociações e instalação dos arraiais, 30 de Junho Quando alguns navios cruzados já se tinham deslocado para diante do arrabalde oriental de Lisboa, a 30 de Junho Afonso Henriques reuniu-se com os representantes escolhidos pelos cruzados para negociar a partilha de eventuais despojos. Ficou decidido que a cidade ficaria para o rei e o saque para os cruzados.

Para além do rei, do lado dos portugueses, marcaram presença, entre outros, os bispos do Porto, Viseu, Coimbra, Lamego, o arcebispo de Braga, Fernão Mendes de Bragança, Fernão Peres de Soverosa, Gonçalo Rodrigues de Palmeira, Gonçalo Mendes de Sousa, Mendo Afonso, Afonso Viegas de Ribadouro, Pedro Pais da Maia, João Viegas de Baião e Gonçalo Sotero, ao passo que do lado dos cruzados é provável que Henry de Glanville, Simão de Dover, André Buccuinte, Saério de Archell, Cristiano de Gistelles e Arnaldo de Aerschot tenham sido os intervenientes.

Ainda a 30 de Junho foram enviados aos muçulmanos o arcebispo de Braga, o bispo do Porto e alguns cruzados a entregar às autoridades de Lisboa uma proposta de rendição mas que, depois de trocados alguns reféns, é recusada.

miniaturadaimagem|O cerco de Lisboa e os acampamentos cristãos

Concluídas todas as negociações, os portugueses deslocaram-se para o Monte de São Gens, onde hoje fica o Miradouro da Senhora do Monte. Um pouco afastado deste acampamento, por razões sanitárias, foi montado um recinto onde ficaram guardados os cavalos e os animais de carga. Os alemães e flamengos estabeleceram-se onde hoje se ergue o Mosteiro de São Vicente de Fora. Os anglo-normandos montaram o seu acampamento no Monte Fragoso.Martins, 2017, pp. 185-217

A destruição dos arrabaldes, 1 de Julho Na manhã de 1 de Julho Afonso Henriques encontrou-se com os chefes cruzados para planear o cerco. Ficou agendado para o dia seguinte um ataque aos arrabaldes mas, enquanto ainda durava a reunião, os alemães e flamengos precipitaram-se sobre os arrabaldes orientais, ao passo que os anglo-normandos atacaram os arrabaldes ocidentais, depois dos muçulmanos que o defendiam não se terem deixado atrair pelo tiro dos fundibulários ingleses. Os muçulmanos rechaçaram as primeiras investidas dos anglo-normandos lançando pedras, setas e virotes de besta mas pouco a pouco as apertadas ruas foram ocupadas e os defensores obrigados a recuar para as muralhas. Pelo pôr-do-sol, os cristãos controlavam já a face oeste da alcáçova e avançam na face norte, correspondente à actual Costa do Castelo.

Cada vez mais combatentes juntavam-se ao ataque do lado ocidental e apesar de Afonso Henriques ter pedido a Saério de Archell que mandasse os ingleses retirar para evitar um desastre devido à grande desordem, este juntou-se à investida. O bispo do Porto, entretanto, encontrava-se no acampamento anglo-normando a distribuir palavras de encorajamento, bençãos e absolvições.miniaturadaimagem|Painel de azulejos dedicado a Martim Moniz Ao ver o que se sucedia, D. Afonso Henriques mandou os seus homens descer do monte de São Gens para se juntarem aos ingleses. Aproximando-se já a noite, os portugueses e ingleses empurraram os muçulmanos para a Porta Norte mas como um grande número de cruzados se lançou então ao saque das casas, não puderam os cristãos penetrar no interior do recinto. É possível que tenha sido aqui que se deu o famoso episódio de Martim Moniz, que morreu entalado no ataque à Porta Norte, ainda que a cidade não tenha sido conquistada na ocasião.

Nos arrabaldes foram capturadas grandes reservas de alimentos e encontrado muitos silos cheios de cereais. Caída a noite, os arrabaldes foram incendiados, por serem necessários muitos homens para defendê-los, tendo grassado neles um enorme incêndio.

O ataque à cidade amuralhada Nos dias que se seguiram à destruição dos arrabaldes de Lisboa, os muçulmanos lançaram constantes surtidas contra os acampamentos cristãos. A vigilância foi reforçada e instituído um sistema por turnos. Nestes dias, os alemães e flamengos também lançaram ataques contra as muralhas do lado oriental. Entre combates, lançavam-se insultos e provocações de parte a parte. Enquanto não se intensificavam os ataques, os portugueses levaram a cabo razias às aldeias das regiões circundantes, tendo um destacamento regressado de Sintra com valioso saque, sendo possível que tenha sido neste contexto que, entre 8 e 11 de Julho, se deu a Batalha de Sacavém. miniaturadaimagem|Batalha junto àponte romana em Sacavém