Resultados do Grande Prêmio da Europa de Fórmula 1 realizado em Jerez em 26 de outubro de 1997. Décima sétima etapa do campeonato, foi vencido pelo finlandês Mika Häkkinen, que subiu ao pódio junto a David Coulthard numa dobradinha da McLaren-Mercedes, com Jacques Villeneuve em terceiro pela Williams-Renault. Este resultado fez do canadense filho de Gilles Villeneuve o novo campeão mundial, sendo este o último título de um não europeu até hoje.

Resumo da prova Reminiscências Ibéricas Quatro mundiais de Fórmula 1 foram decididos na Península Ibérica até hoje, a começar pelo Grande Prêmio da Espanha de 1951, onde a vitória de Juan Manuel Fangio pela Alfa Romeo em Pedralbes, garantiu o primeiro título do argentino. Anos depois, a categoria deslocou-se rumo ao sudoeste, atravessou a Serra da Estrela e realizou o Grande Prêmio de Portugal de 1960 no Circuito da Boavista. Quem compareceu às ruas do Porto naquele fim de semana, vivenciou três fatos históricos: primeira pole position de John Surtees, primeiro pódio de Jim Clark, ambos da Lotus, e o bicampeonato de Jack Brabham, então na Cooper.

Definida como última etapa do mundial de Fórmula 1 após 24 anos, a Península Ibérica vivenciou o seguinte: em vantagem na tabela, um piloto de ascendência germânica buscava o tricampeonato, enquanto seu rival de origem francesa almejava uma glória inédita após um vice-campeonato no ano anterior. No caso em questão, trata-se do Grande Prêmio de Portugal de 1984, inserido no calendário graças ao ladino Bernie Ecclestone, após a recusa de Flushing Meadows em Nova York e a impossibilidade de correr nas ruas de Fuengirola, no litoral espanhol. Vencedor no Autódromo do Estoril, o francês Alain Prost fez dobradinha com o austríaco Niki Lauda, seu companheiro de equipe na McLaren, com Ayrton Senna em terceiro lugar a bordo da Toleman. Graças a esse resultado, Niki Lauda sagrou-se tricampeão mundial com meio ponto de vantagem sobre Alain Prost. Entretanto, o francês foi o segundo colocado com a Williams no Grande Prêmio de Portugal de 1993, assegurando seu quarto e último campeonato.

Retirado do calendário de 1997, o Grande Prêmio de Portugal foi trocado pelo Grande Prêmio da Europa no Circuito de Jerez, local onde Michael Schumacher venceu em 1994. Agora na Ferrari, o alemão quer o tricampeonato, enquanto Jacques Villeneuve, da Williams, almeja uma conquista inédita para a sua carreira. Sobre o circuito português, este não retornou à Fórmula 1 desde então, sequer foi palco dos testes de inverno inerentes à categoria.

Schumacher ou Villeneuve? Michael Schumacher estreou no Grande Prêmio da Bélgica de 1991 como piloto da Jordan e na corrida seguinte já estava na Benetton e foi sob as ordens de Flavio Briatore que o alemão conquistou os títulos mundiais de 1994 e 1995. No primeiro caso, o desfecho aconteceu no Grande Prêmio da Austrália quando, com um ponto de vantagem na tabela, bateu de maneira proposital na Williams de Damon Hill, mas no ano seguinte o título veio em terras japonesas ao vencer o Grande Prêmio do Pacífico, encerrando o certame algum tempo depois com 33 pontos de vantagem sobre o filho de Graham Hill. Contratado pela Ferrari em agosto de 1995 a fim de soergue-la, o germânico fez seu primeiro teste com a nova equipe em 21 de novembro daquele ano, estreando pela mesma sob a direção de Jean Todt no Grande Prêmio da Austrália de 1996. Embora tenha sofrido quebras por falta de confiabilidade do equipamento, ele venceu na Espanha, Bélgica, e Itália, terminando o campeonato em terceiro, atrás de Damon Hill e Jacques Villeneuve, então pilotos da Williams.

Embora não dispusesse do melhor carro do grid (afinal a Williams foi campeã de construtores em 1997), a Ferrari melhorou com a contratação do engenheiro Ross Brawn, do projetista Rory Byrne e a experiência de Michael Schumacher, que tornou-se líder do mundial de pilotos graças à sua regularidade, pois pontuou em treze das dezesseis corridas anteriores ao Grande Prêmio da Europa somando 78 pontos, embora tivesse duas vitórias a menos que Jacques Villeneuve. Graças a esse retrospecto, o caminho do alemão rumo ao título é relativamente simples, basta chegar à frente de seu adversário ou torcer para que o canadense não pontue, uma tarefa relativamente simples, pois o único erro de Schumacher durante o ano foi sua largada bisonha no Grande Prêmio da Argentina, quando uma disputa roda a roda com Olivier Panis, da Prost, fez o germânico tocar na Stewart de Rubens Barrichello e abandonar a prova, mesmo destino da McLaren de David Coulthard.

Vencedor de sete corridas ao longo do ano, Jacques Villeneuve necessita pontuar e manter Michael Schumacher atrás de si, do contrário não conquistará seu desejado título mundial. Filho de Gilles Villeneuve, iniciou sua carreira no kart em 1984, correu no Campeonato Italiano de Fórmula 3, Campeonato Japonês de Fórmula 3 e na Formula Atlantic, até chegar na Fórmula Indy em 1994, recebendo o título de "estreante do ano". Após vencer as 500 Milhas de Indianápolis de 1995, meses depois foi campeão da Fórmula Indy. Ao ser contratado pela Williams, submeteu-se a nove mil quilômetros de testes antes de estrear no Grande Prêmio da Austrália de 1996, onde fez a pole position e liderou 50 das 58 voltas, mas devido a um vazamento de óleo no motor, abdicou da vitória e terminou em segundo lugar, atrás de Damon Hill, então seu companheiro de equipe. Ao todo, Villeneuve somou quatro vitórias e terminou seu ano de estreia na Fórmula 1 como vice-campeão.

Promovido a piloto número um da Williams após a saída de Damon Hill, o canadense empata com Michael Schumacher em abandonos por abalroamento e falhas mecânicas, mas a depender do ponto de vista, é um milagre que o piloto de Grove ainda seja candidato ao título. Vide a bizarrice de Mônaco, onde Heinz-Harald Frentzen (pole position) e Jacques Villeneuve (terceiro colocado) largaram com pneus para pista seca (confiando na previsão de um meteorologista) enquanto as outras equipes escolheram pneus intermediários para correr no asfalto molhado. Assim, enquanto a Ferrari celebrou a vitória de Michael Schumacher e o terceiro lugar de Eddie Irvine, com a Stewart de Rubens Barrichello entre eles. Mas e o time de Frank Williams? Seus carros bateram e ficaram pelo caminho. Porém, o infortúnio de Villeneuve é, essencialmente, culpa dele próprio ao bater na entrada da reta dos boxes e abandonar o Grande Prêmio do Canadá logo na segunda volta, quando estava na vice-liderança, além de rodar e ficar preso na caixa de brita quando defendia o quinto lugar no Grande Prêmio da Alemanha, mas nada supera a tolice cometida no Grande Prêmio do Japão.

Durante o treino realizado na manhã de sábado, a Stewart do neerlandês Jos Verstappen saiu da pista à saída da curva Spoon e por isso os fiscais agitaram as bandeiras amarelas, obrigando os pilotos a reduzirem a velocidade, não ultrapassar ninguém e mudar de direção, afastando-se do local da ocorrência. Outrora punido por desrespeitar esta regra no fim de semana do Grande Prêmio de San Marino, Villeneuve infringiu novamente o regulamento durante o warm up do Grande Prêmio da Itália, motivo pelo qual os comissários esportivos aplicaram uma corrida de suspensão ao canadense, sentença convertida numa espécie de "observação condicional" durante nove corridas. Omitindo suas infrações anteriores, Villeneuve considerou o veredicto "um pouco severo" ao relembrar esse fato em 2025, numa entrevista ao Canal+.

Villeneuve ressaltou o quanto a situação no campeonato lhe era favorável ao chegar no Japão, descrevendo os fatos da seguinte forma: "Mas na manhã de sexta-feira, na primeira volta, havia um carro parado e bandeiras amarelas foram acionadas. O carro estava parado, tudo bem, continuamos. Depois, os comissários decidiram me desclassificar do fim de semana inteiro. Isso pareceu um pouco severo. Nunca tinha recebido uma punição assim, e nunca houve outra como essa desde então. Todos nós na Williams sentimos que os dados estavam viciados". Nada, porém, abrandou a irritação de Patrick Head por mais um erro cometido por Villeneuve e também pelo anúncio ao final daquele dia: o canadense, mesmo largando na pole position, estava suspenso e não correria no domingo.

A interposição de um recurso garantiu a participação de Jacques Villeneuve na corrida nipônica sob sursis, mas as ameaças de Max Mosley para que retirassem a apelação indicavam um possível agravamento da pena e também a proibição da Williams em participar do Grande Prêmio da Europa, razão pela qual a equipe de Grove aceitou o veredicto e o canadense perdeu o quinto lugar obtido em Suzuka. Com apenas dez pontuações em dezesseis possíveis, Villeneuve chega em baixa à decisão do título (mesmo na vice-liderança com 77 pontos), mas não pode reclamar da sorte: devido ao cancelamento da etapa portuguesa, o Grande Prêmio do Japão seria o último de 1997, mas o prestígio da Renault permitiu que a montadora francesa saísse da Fórmula 1 em solo europeu (não obstante tenha retornado à categoria em 2002 ao comprar a Benetton).Pioneira no desenvolvimento dos motores turbo, a Renault competiu na Fórmula 1 como equipe entre 1977 e 1985, encerrando sua primeira passagem pela categoria no ano seguinte ao fornecer motores para Lotus, Ligier e Tyrrell. Retornou em 1989 fornecendo motor para a Williams, sua principal cliente, retomando a parceria com a Ligier nos anos seguintes, até substituí-la pela Benetton.

FIA veta "decisão por acidente" Nelson Piquet garantiu a pole position no Grande Prêmio do Canadá de 1980, mas logo na primeira curva após a largada, sua Brabham foi espremida na mureta da Ilha de Notre Dame pela Williams de Alan Jones, resultando num pandemônio tão acentuado que exigiu o reinício da prova, fato capaz de eclipsar o caos da batida entre os candidatos ao título. Na vigésima terceira volta, o motor Ford de Piquet foi pelos ares e algum tempo depois o australiano venceu em Montreal e sagrou-se campeão do mundo. Acidentes são intrínsecos ao automobilismo, mas a conversão dos mesmos em "estratégia de corrida" mudou a percepção do público a respeito desse recurso extremo.

Alain Prost girou o volante e bateu em Ayrton Senna quando este tentou ultrapassá-lo na quadragésima sétima volta do Grande Prêmio do Japão de 1989. Naquele instante, os pilotos da McLaren lideravam a corrida e como Prost estava em primeiro e tinha dezesseis pontos de vantagem no topo da classificação, ele seguia rumo ao título, mas recorreu a uma medida extrema para derrotar seu adversário, deixando o local em seguida, como se tivesse cumprido seu objetivo. Senna, por sua vez atravessou a área de escape, fez um pit stop, guiou de maneira férrea e venceu a corrida. Desclassificado por violar o regulamento (segundo os comissários, ele deveria dar ré e entrar na chicane no mesmo ponto onde saíra), o brasileiro foi fustigado e ameaçado por Jean-Marie Balestre, presidente da FIA e da extinta FISA, nos meses seguintes e aguardou até o Grande Prêmio do Japão de 1990 para revidar e o fez na reta de Suzuka ao emparelhar sua McLaren com a Ferrari de Prost momentos após a largada, e quando os carros se tocaram e saíram da pista em alta velocidade, o campeonato foi decidido em favor de Senna.