miniaturadaimagem|Mapa-múndi de Abu Abedalá Maomé Alidrisi no qual a África aparece no topo (norte) do mapa

O eurocentrismo é uma visão de mundo que coloca a Europa como o elemento fundamental na constituição da sociedade moderna, sendo necessariamente a protagonista da história da humanidade. Estabelecido durante o renascimento, o eurocentrismo estabelece a hierarquia das relações de poder mundial e uma narrativa histórica de superioridade da Europa Ocidental, servindo como modelo teórico de interpretação e dominação. É baseado em valores como Modernidade, Estado-nação, pluralismo cultural, desenvolvimento econômico, indivíduo, distinção entre público e privado, sociedade civil, esfera pública e racismo, e parte de um discurso colonialista que vê a Grécia como berço da civilização. Dessa forma, o eurocentrismo gera uma distorção do mundo não europeu, enquanto narra a história da Europa, colocada como modelo e ponto de partida para outras narrativas, isolada da influência externa.

Ao longo do , na Ásia, nas Américas e no continente africano, a preocupação em teorizar as relações centro-periferia colabora para o questionamento da visão eurocêntrica do mundo expressa de longa data por intelectuais europeus e norte-americanos. Próximos da filosofia e da teoria crítica, autores como James Morris Blaut e Samir Amin, que popularizou o termo na década de 1970, buscaram definir o eurocentrismo a partir do fim do . O mesmo trabalho foi realizado, na América Latina, por autores próximos da teoria decolonial, como Aníbal Quijano e Enrique Dussel, e há trabalhos como os de André Gunder Frank, que propõem uma perspectiva "globalcêntrica" da história, em oposição a eurocentrista comumente vista. A sociologia histórica, a teoria pós-colonial e o decolonialismo despontam, assim, como importantes perspectivas de oposição ao eurocentrismo.

Na geografia, a visão eurocêntrica se faz perceptível ao dividir o mundo espacialmente com o intuito de reafirmar a supremacia da Europa em um aspecto global. Termos como “Ocidente” e “Oriente”, assim como as definições de “Oeste” e “Leste”, foram construídos historicamente. Partindo da Europa como referência, divide-se o mundo em três partes, onde o Primeiro Mundo engloba o continente Europeu e outros países que são considerados potências capitalistas, enquanto o Segundo e Terceiro Mundo são os países considerados pobres e não capitalistas.

A União Europeia foi consolidada politicamente como um Estado-nação unido e coeso sob uma identidade nacional, mais especificamente uma identidade europeia, que abarca elementos culturais, políticos, econômicos, sociais e históricos em comum. A criação de símbolos, mitos, bandeiras, hinos, ajudou a afirmar essa identidade europeia, que também é um sentimento de pertencimento político, cívico e democrático. Mas esse sentimento se estrutura na ideologia eurocêntrica de hierarquização e racialização do modelo colonial de dominação e exploração. Ao passo que os direitos dos cidadãos europeus foram regulamentados e as políticas externas com relação aos direitos migratórios reforçam a discriminação entre europeus e não europeus.

Surgimento da discussão teórica A preocupação em teorizar as relações centro-periferia colaboraram para o questionamento da visão eurocêntrica do mundo expressa de longa data por intelectuais europeus e norte-americanos. Na Ásia, surgiram os estudos pioneiros de Edward Said, Homi Bhabha e Ranajit Guha, um dos fundadores dos estudos subalternos. Na América Latina, o eurocentrismo foi largamente questionado a partir da preocupação com a descolonização real e imaginária dessa região pelos marxistas José Carlos Mariátegui e Frantz Fanon, os dependentistas Ruy Mauro Marini e André Gunder Frank, o filósofo da libertação Enrique Dussel, o sociólogo Orlando Fals Borda e os decoloniais Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Santiago Castro-Gómez. Na África, Cheikh Anta Diop defendeu as origens negras da cultura egípcia, o que levantou grande polêmica entre as décadas de 1950 e 1970, e Achille Mbembe pontuou a relação entre racismo e eurocentrismo a partir da teoria pós-colonial e da necropolítica. Outros historiadores elaboraram histórias da África que questionavam a visão eurocêntrica de que as sociedades africanas não possuíam história por causa de sua cultura oral, como Joseph Ki-Zerbo, Djibril Tamsir Niane, Elikia M'Bokolo e J. F. Ade Ajayi.

Terminologia Alguns autores próximos da filosofia e da teoria crítica buscaram definir o termo eurocentrismo desde finais do . Em uma perspectiva marxista de análise, James Morris Blaut definiu o eurocentrismo como a ideia mítica de que o Ocidente possui uma superioridade permanente devido à alguma vantagem histórica exclusiva e qualidade especial. Também em uma postura marxista, Samir Amin define o eurocentrismo como um paradigma que distorce a verdade para encobrir o domínio global do Ocidente. Na América Latina, autores próximos da teoria decolonial, como Aníbal Quijano e Enrique Dussel, através da ênfase da estreita relação entre eurocentrismo e poder, buscaram definir o eurocentrismo como a imposição do etnocentrismo europeu como um falso universal, que criou uma epistemologia baseada na hegemonia europeia do sistema-mundo colonial moderno.

A análise de Samir Amin O termo eurocentrismo é popularizado na década de 1970 pelo economista franco-marxista Samir Amin. Segundo ele, o eurocentrismo é uma ideologia cultural originária da Europa Ocidental, que surge durante o Renascimento, construída a partir da junção de três momentos históricos, que se tornam os pilares da narrativa de uma história universal eurocêntrica. O primeiro deles é a reivindicação de uma herança histórica, filosófica e cultural da Grécia Antiga enquanto única e singular. Em seguida, vem a construção da Modernidade a partir do processo de colonização das Américas, de modo que a Europa, vista como o Velho Mundo, deveria estabelecer controle e civilizar os povos do Novo Mundo. E, por fim, no terceiro momento, a partir da razão filosófica hegeliana, se constrói a dialética entre povos que possuem história e que são avançados em relação ao progresso social e tecnológico, e os povos desprovidos de história, desenvolvimento ou complexidade social.

A partir da mistura das culturas dos estados europeus, segundo Amin, a ideologia eurocêntrica estabeleceu um paradigma para a concretização das relações globais de poder entre "o Ocidente e os outros". Em sua obra Eurocentrismo: crítica de uma ideologia, lançada em 1988, o economista rejeita a leitura do eurocentrismo como um fenômeno cultural de silenciamento de histórias que nunca foram contadas e passa a analisá-lo como uma orientação prática moderna que interfere no método e no conteúdo da consciência histórica humana, construindo a percepção de que a experiência histórica europeia é a única correta ou possível, pois se encaminha para um estágio avançado de civilização. Contudo, segundo ele, essa perspectiva está ligada a um universalismo contraditório que impõe uma perspectiva de um progresso homogêneo da humanidade ao mesmo tempo em que proclama um elogio à diferença.

A análise de James Blaut miniaturadaimagem|200px|Selo postal angolano (1938). A figura de Vasco da Gama ilustra a crença eurocêntrica baseada no empirismo, nos feitos coloniais, de navegação e técnicas mercantilistas e militares europeias. Na obra The Colonizer’s Model of the World, com primeira edição em 1993, o geógrafo marxista estadunidense James Morris Blaut argumenta que o eurocentrismo é um modelo teórico de interpretação e dominação com premissas difusionistas no qual estruturas narrativas e teóricas contribuem para a legitimação das empreitadas coloniais e para a formação de uma certa excepcionalidade da experiência histórica europeia. Para ele, eurocentrismo não pode ser resumido a um tipo de etnocentrismo ou a preconceitos e valores. Assim, propõe que eurocentrismo é um conjunto de crenças embasadas na realidade empírica e utilizada por especialistas sem o intuito de marginalizar povos e civilizações, mas como uma proposição verdadeira baseada em fatos.

Para Blaut, as premissas eurocêntricas foram difundidas largamente através de interpretações historiográficas fundadas no pressuposto tácito de superioridade técnica e cultural europeia, da modernização como sentido da história e do progresso como dádiva das nações que não sofrem de falhas espirituais e intelectuais, entre outras deficiências. Com isso, por ser algo tão intrínseco à prática cultural cotidiana, o difusionismo eurocêntrico é transmitido inconscientemente e quase sempre passa despercebido nas narrativas da disciplina de História.

A análise de André Gunder Frank Na obra Reorient: Global Economy in the Asian Age, André Gunder Frank faz uma crítica aos estudos que situaram a Europa como "o umbigo do mundo". Seu intuito nesse trabalho é reconfigurar a leitura sobre a história através de uma perspectiva "globalcêntrica" em oposição à visão eurocêntrica. Com isso, Frank propõe uma rediscussão do conceito de totalidade social, procurando questionar as teses da excepcionalidade europeia, autoproclamadas como universais. Assim o historiador germano-estadunidense parte da prerrogativa de que as ditas periferias do mundo nunca alcançarão o modelo europeu e estadunidense de desenvolvimento. "Para Frank, o sistema-mundo, ao longo da história, reconfigurou as relações entre as civilizações consideradas centrais e seus satélites, gerando um desenvolvimento subordinado, ou, partindo de seu postulado mundialmente famoso, um desenvolvimento do subdesenvolvimento".

Definições Eurocentrismo enquanto narrativa histórica A narrativa eurocêntrica parte de um ponto de vista segundo o qual a Modernidade teve origem no Atlântico Norte, região cuja centralidade é justificada pela ideia de que dela deriva o progresso tecnológico e a civilização que teriam se estendido para o restante do mundo. Nela, o excepcionalismo europeu, tendo em vista que a Europa teria sido a primeira região do globo a combinar os ideais de Modernidade e progresso, seria suficiente para legitimar o modelo histórico europeu como exemplar para o desenvolvimento da humanidade.

A universalização da experiência histórica das sociedades europeias tem início no Iluminismo a partir da atribuição de características como singularidade, universalidade e desenvolvimento contínuo à história. A história passa a ser vista como um fenômeno singular no qual a humanidade se encontra em um processo de desenvolvimento e evolução progressivos. Na narrativa eurocêntrica da história universal, segundo Marcel van der Linden, o Atlântico Norte é tido como o mais avançado e, por conta disso, o ritmo de seu desenvolvimento serve como matriz para pensar a periodização do mundo. Assim, a civilização europeia não apenas lidera o caminho a ser seguido pela humanidade, como também percebe a história dos outros povos tendo como base o seu próprio passado, como se estes povos estivessem em estágio mais rudimentar na trajetória de desenvolvimento percorrida pelos europeus. Esse tipo de atitude gera o emprego indiscriminado de termos e conceitos ocidentais para o estudo de populações não ocidentais e provoca a expectativa de que os outros se conformem ao modelo de sociedade desenvolvido na Europa.