Le Orme (As pegadas, em português) é um grupo de rock progressivo italiano nascido na década de 1960 como banda de músicas beat. Convencionalmente representa com a Premiata Forneria Marconi e Banco del Mutuo Soccorso a tríade do rock progressivo italiano, além de ser um dos grupos que mais goza de prestígio e visibilidade no exterior. Nos últimos anos, participou de algumas entre as mais importantes manifestações mundiais do gênero.
O período beat-psicodélico: 1966 a 1970 O nascimento do grupo e nome O primeiro núcleo do grupo se formou em Marghera, periferia industrial de Veneza, sob iniciativa do guitarrista veneziano Nino Smeraldi e do jovem Aldo Tagliapetra, que acabara de vencer um concurso de cantores e insatisfeito com o grupo em que tocava, "Corals", a típica banda cover do fim dos anos 1960. Foi assim que fundaram Le Orme, junto ao baixista Claudio Galieti e o baterista Marino Rebeschini.
A escolha pelo nome da banda recaíra inicialmente em "Le Ombre" (as sombras), em homenagem aos ingleses Shadows, paixão comum do grupo, mas segundo a versão oficial, os quatro optaram por "Le Orme" para evitar irônicos duplos sentidos, enquanto "ombra", em língua vêneta, significa também "copo de vinho", do vêneto n'ombra de vin, um pouco de vinho). Além disso, já existia na região um grupo emergente com o mesmo nomeleormefanclub.com.
Os primeiros singles e Ad Gloriam Recusado pela EMI italiana para a qual haviam feito um ensaio, essa primeira formação criou um único single, Fiori e colori (1967), produzido por Tony Tasinato para a CAR Juke Box, do maestro Carlo Alberto Rossi. O single, segundo a moda da época, foi também gravado em inglês com o título Flowers and Colours.
Somente um dia após a publicação, Rebeschini abandonou o grupo para adentrar ao serviço militar e foi substituído na bateria por Michi Dei Rossi, proveniente da banda Hopopi, na época, o grupo de ponta da cena veneziana, o qual havia acabado de participar do Festival Beat de Liverpool sob convite do Los Bravos.
Em 1968, Le Orme adquiriu uma certa fama graças às suas exibições ao vivo no então renomeado Piper Club, de Roma. O grupo criou um novo single, Senti l'estate che torna. Com essa música, também publicada em inglês com o título Summer Comin''', participou do concurso canoro "Un disco per l'estate". Para essa participação um novo músico compôs o elenco, o tecladista Tony Pagliuca, fundador do Hopopi, que havia se dissolvido.
No fim do mesmo ano os cinco entraram em estúdio para gravar o disco de estreia, Ad gloriam. Como dizia o título, o 33 rotações foi criado somente "para a glória", enquanto os cinco estavam bem conscientes que a operação era arriscada e a obra teria tido um escasso sucesso comercial, como de fato acontece, e isso causou o fim da relação com a CAR.
A reviravolta alternativa Em 1969, as obrigações com o serviço militar obrigaram também Galieti a abandonar o projeto. Foi o mesmo Tagliapetra a substituí-lo no baixo. Dei Rossi, também chamado para às armas, permaneceu na formação, sendo substituído por um breve tempo por Dave Baker, um inglês, com o qual haviam criado o single Irene, além de dois covers estranhos para a época, ao menos na Itália, uma breve reproposição do Concerto brandeburguês n. 3 de Johann Sebastian Bach e Blue Rondò à la Turk, standard de Dave Brubeck.
A criação desse single representou, de fato, a gênese do rock progressivo, mas foi publicada somente em 1973, enquanto em 1969 não era considerada adaptada ao público italiano. Essas duas músicas assinalaram a reviravolta musical do grupo que assim abandonava para sempre as fáceis notas do Beat.
Naquele período Le Orme criou e publicou outros 45 rotações, os quais foram reunidos em L'aurora delle Orme, uma espécie de compilação, que publicada sem a autorização do grupo, logo foi retirada do mercado. Seria reeditada somente muitos anos depois.
As divergências de opinião entre Pagliuca, que queria queria centralizar o som do grupo nos teclados e Smeraldi, que queria na sua própria guitarra solista, foi a causa da saída deste último.
Smeraldi não foi substituído, e assim o grupo em breve tempo passou de quinteto a terceto, ou aquela que seria geralmente identificada como a formação clássica. Tagliapetra ao baixo, guitarra e voz, Pagliuca nos teclados e Dei Rossi na bateria.
O período progressive: 1970 a 1978 Após a saída de Smeraldi, Pagliuca é o primeiro dos músicos italianos a intuir que a música beat já está ultrapassada e que o novo pop sinfônico proveniente da Inglaterra será em breve um sucesso na Itália. O fato se confirma na sua primeira viagem a Londres onde encontra Armando Gallo, jornalista e fotógrafo da revista especializada Ciao 2001, que o introduz na Londres pós-Beatles recheada de grupos como Quatermass, Nice, Yes e Emerson, Lake & Palmer.
De volta a Veneza convence os companheiros de Le Orme, Aldo Tagliapetra e Michi dei Rossi a experimentar e desenvolver novas linguagens musicais. Nasce também uma viagem à Ilha de Wight, para "toccare con mano", a nova onda do Festival de 1970.
Collage e Uomo di pezza O terceto mudou de casa discográfica, passando antes à Telegram, uma afiliada da Phonogram e, posteriormente, à Philips, para a qual realizou o single Il profumo delle viole e, em 1971, o álbum Collage.
O disco, realizado, com o aporte decisivo do produtor Gian Piero Reverberi, e muito influenciado pela audição do Quatermass, é convencionalmente considerado o primeiro disco de rock progressivo, e serviu de precursor para esse novo gênero musical que em pouco tempo estaria impregnado em todo o país.
O disco é caracterizado por sonoridades típicas do gênero com a utilização maciça de teclados. As músicas Era inverno e Morte di un fiore falam respectivamente de prostituição e de uma morte violenta, devida talvez a overdose. Será uma característica frequentemente constante do grupo o querer afrontar, com as próprias canções, temáticas polêmicas ou, na época, consideradas tabus.
Em 1972, depois de um período de repouso na Sardenha, Le Orme realizou o álbum Uomo di pezza, uma espécie de disco conceitual que se tornaria um dos seus maiores sucessos, e o primeiro disco de ouro. Sobretudo graças ao 45 rotações Gioco di bimba, que afronta o tema do abuso sexual perpetrado nos confrontos de uma moça muito jovem, que contrasta com um som onírico e um conto de fadas.walter mac mazzieri - home page.
No instrumental Alienazione emerge a pleno a influência de grupos como Emerson, Lake & Palmer. A partir de dezembro do mesmo ano, Peter Hammill, líder do Van Der Graaf Generator, participou como hóspede fixo no tour teatral do grupo.
Felona e Sorona e Contrappunti Em 1973, ano de ouro do rock progressivo, também Le Orme publicou o seu primeiro e verdadeiro disco conceitual Felona e Sorona, disco de tema cósmico sobre dois planetas opostos e complementares. Esse 33 rotações conquistou velozmente os primeiros lugares das paradas de venda italianas, valendo ao grupo o segundo disco de ouro. Hoje é considerado por muitos como o vértice artístico do grupo, ainda que na época uma parte da crítica o considerasse como "ingênuo".
Uma versão em inglês com letras de Peter Hammill foi publicada no mesmo ano pela importantíssima etiqueta discográfica Charisma Records, à qual publicavam gigantes do rock progressivo como os já citados Van Der Graaf Generator e Genesis. Em seguida, parece que Hammill desconheceu a operação, já que entre as suas falhas, existiu a dificuldade de inserir em inglês o significado das letras e a interpretação não sempre convincente de Tagliapetra no canto.
O disco não teve êxito no mercado inglês, e Le Orme chegou assim ao seu primeiro tour no Reino Unido tocando, entre outros, no célebre Marquee Club.
Foi aquele um período de grande sucesso para o grupo que a CAR Juke Box, velha casa discográfica do grupo, pensou em publicar o single Concerto n. 3/Blue rondo à la Turk, criado em 1969. O disco obteve um discreto sucesso, embora tenha havido a oposição do grupo, que do ponto de vista legal, não pôde impedir o lançamento.
Em 17 de janeiro de 1974, Le Orme tocou no Teatro Brancaccio, de Roma. A exibição foi gravada por um personagem conhecido pelo pseudônimo de Ronny Torpe, o qual propôs aos discográficos de publicá-la. O grupo, inicialmente contrário à ideia, foi convencido pela promessa depois não mantida de que o disco seria vendido a preços reduzidos. Da versão final do álbum, o primeiro live em absoluto da história do rock progressivo italiano, foram eliminadas algumas músicas mal gravadas, salvando porém o inédito em língua inglesa Truck of Fire, que não seria mais interpretado em sala de gravação.
Após uma viagem de Pagliuca, Tagliapetra e Reverberi ao Sri Lanka foi criado Contrappunti, álbum que assinala uma nova reviravolta no som do grupo, que saiu mais obscuro e procurado. O disco agradará mais aos críticos que ao público. A música Aliante foi utilizada como sigla do programa televisivo La fede oggi.
Entre as músicas presentes Frutto acerbo que fala de puberdade, enquanto La fabbricante d'angeli é uma música que toma posição contra o aborto clandestino, e implicitamente, portanto, a favor do legalMirenzi, Francesco. Rock progressivo italiano. Vol. 2: I gruppi: il racconto dei protagonisti. Roma: Castelvecchi Editore (1997), pp. 22-23, ISBN 88-8210-008-1 embora os componentes do grupo tenham sempre se declarado católicos
A fase rock Em 1975, foi publicada nos Estados Unidos uma compilação de título Beyong Leng. Os títulos, mesmo sendo em versão original, são titulados em inglês.
O insucesso comercial de Contrappunti havia porém deixado o sinal. Para reconquistar popularidade o grupo deveria por isso atender a compromissos com a casa discográfica e participar do Festivalbar, de 1975 com o agradável single Sera, inédito em LP. Uma breve crise interna no grupo terminou com a decisão, inicialmente defendida por Tagliapetra, de contratar um guitarrista.
A escolha recaiu sobre o então desconhecido Tolo Marton, de apenas 24 anos, e originário de Treviso. Com ele na guitarra e na harmônica foi gravado, em Los Angeles, o álbum Smogmagica. O disco contém, entre outros, Amico di ieri e Laserium Floyd, declarada homenagem ao Pink Floyd. Em todas as músicas emerge a personalidade de Marton, mas a sonoridade rock-blues do disco não agradou a uma parte dos fãs de velha data. A capa do álbum é obra de Paul Whitehead, já autor de Genesis, Van Der Graaf Generator e outros.
Os últimos acontecimentos do grupo haviam deixado o sinal. De uma parte Tagliapetra, Pagliuca e Dei Rossi queriam se tornar músicos alternativos, mas a outra não podia prescindir dos interesses econômicos dos discográficos. O obedecer a compromissos com aqueles que os queriam como "grupo comercial" seria a causa da segunda grande crise do grupo que ocorreria depois de alguns anos.
Nessa ótica ressalta-se a ideia de Pagliuca de investir em um novo espetáculo, chamado "Rock-Spray", no qual se desejava, não sem uma certa dose de autoironia, brincar com os grandes da música rock, antecipando em quase vinte anos certos aspectos do ZooTV Tour, do U2. A escolha não agradou a Marton, que por conta disso abandonou o grupo depois de um ano de militança e praticamente nenhuma exibição ao vivo. Nos anos seguintes se tornaria um dos mais apreciados guitarristas de nível mundial, enquanto o seu lugar no Le Orme seria tomado pelo jovem Germano Serafin, de 19 anos, e também oriundo de Treviso.
Serafin estreou no Festivalbar de 1976, no qual o grupo participou com Canzone d'amore/È finita una stagione, outra peça destinada às rádios que teve uma boa vendagem, tocando nos primeiros lugares do hit-parade, graças ao ritmo e as melodias frescas, cativantes e rockejantes.