O Castelo de Silves é um monumento militar localizado na cidade, freguesia e município de Silves, no distrito de Faro, no Algarve, em Portugal. O conjunto das estruturas defensivas de Silves era constituído por dois elementos: uma muralha exterior que protegia parte da cidade, formando uma medina, e a fortaleza no seu interior, conhecido como alcáçova, situada no ponto mais elevado da colina. A alcáçova é a maior estrutura deste tipo no Algarve, e um dos mais importantes monumentos na região, sendo também considerado como o mais belo exemplo da arquitectura militar islâmica no país.

As defesas exteriores foram construídas logo nos primeiros anos da ocupação islâmica, no século VIII, nos primeiros anos do domínio muçulmano sobre a região, tendo atingido o seu auge no século XI, quando Silves se tornou na capital de uma taifa, um tipo de reino autónomo. A alcáçova foi provavelmente construída muito depois, durante o califado almóada (1121 - 1269). Porém, tanto a cidade como o castelo em si entraram em declínio após terem sido pela primeira vez pelas forças cristãs, em 1189. Foi retomada pelos muçulmanos apenas cerca de ano e meio depois, em 1191, mas a destruição provocada pelas campanhas militares impediu o seu renascimento. Ainda assim, o castelo foi depois alvo de grandes obras nos séculos XII e XIII. Silves foi definitivamente reconquistada em 1249, mas continuou em franca regressão, principalmente devido ao assoreamento do Rio Arade, apesar das várias tentativas da coroa em fomentar o seu desenvolvimento. No século XV, destaca-se a permanência do Infante D. Henrique em Silves, como alcaide. O castelo em si foi classificado como Monumento Nacional em 1910, enquanto que as muralhas da cidade e a Porta Almedina também foram protegidas como Monumento Nacional em 2012. Na década de 1940, a alcáçova foi alvo de grandes obras de restauro por parte do governo, tendo grande parte das muralhas e das torres sido reforçados ou reconstruídos.

Caracterização left|thumb|200px|left|Pormenor de uma ameia no castelo. Importância e localização O castelo de Silves é considerado como uma das mais importantes fortificações da época muçulmana no país. É um dos principais monumentos na região, e o mais importante do ponto de vista turístico no concelho de Silves, tendo recebido mais de 200 mil visitantes em 2014. Tanto a alcáçova como os vestígios da cerca da vila, incluindo a sua antiga entrada conhecida como Porta da Almedina, foram classificados como Monumento Nacional.

Situa-se na cidade de Silves, sobre uma pequena colina nas imediações da margem direita do Rio Arade, num local que permitia controlar toda a região em redor, principalmente a navegação fluvial pelo Rio Arade. A partir da alcáçova consegue-se ver a cidade de Portimão e a Serra de Monchique. Do ponto de vista geográfico, esta área situa-se na transição entre o barrocal algarvio e a região do Baixo Alentejo. A área urbana desenvolve-se pelas encostas nascente, sul e poente. As habitações definiam ruas íngremes e irregulares que se estendiam até ao rio Arade. Foi construído na extremidade nascente do topo de um cerro com 56 m de cota máxima, junto à margem direita deste rio, onde o casario era entrecortado por ruas íngremes e irregulares. Nos lados norte e levante da elevação referida, as encostas, muito inclinadas, proporcionavam boas condições naturais de defesa.

Composição O conjunto das defesas de Silves era principalmente constituído pela alcáçova, situado no ponto mais alto do cerro, e pela cerca da vila, formado por uma cintura de muralhas em redor da cidade. que originalmente encerravam uma área de cerca de 9,75 a 12 hectares. Estas muralhas externas rodeavam quase completamente a povoação, formando uma almedina. Existia também um terceiro conjunto de muralhas, de importância secundária, e que protegiam algumas partes da cidade não cercada pela cerca da vila, e a couraça, uma muralha que ia até às margens do rio. Tanto a alcáçova como a cerca da vila foram dispostas de forma a melhor se adaptar ao terreno, acompanhando as curvas de nível, com os lanços dos lados setentrionais e nascente a uma cota mais elevada, enquanto que os tramos Sul e poente estavam instalados a meia encosta. Estas estruturas enquadram-se na tipologia das fortalezas do período omíada, tendo vários elementos em comum com edifícios do mesmo periodo de construção sírio-palestiniana.

As defesas de Silves, como surgiam antes da campanha militar de 1189, foram descritas desta forma por Alexandre Herculano: «A linha das fortificações abrangia no seu ambito os edificios todos da povoação, que não continha menos de vinte a trinta mil almas. Circumdava uma extensa muralha o arrabalde, ao qual de certo modo se ligavam a almedina e a kassba pela couraça e por uma estrada cuberta, a qual, descendo pela encosta, vinha entrar na torre albarran, que juncto da cidade inferior atalaiava a campanha. Esta torre servia não tanto de defesa ao ponto em que estava situada, como á almedina; porque com os tiros disparados della seriam feridos pelas costas os que se aproximassem dos muros da cidade alta. A couraça que descia para o lado do rio Drade, [sic] defendida por quatro torres, offerecia passagem segura para os que moravam na almedina e na kassba descerem a prover-se de agua, que lá escaceava e que tinham abundancia num poço situado na extremidade daquela fortificação. Todas essas linhas de muralhas eram coroadas de torres, tão proximas, que a pedra despedida de qualquer dellas, salvando a immediata, ía bater na seguinte; e ainda nos logares ou mais expostos ou mais fracos a distancia de uma a outra se reduzia a metade. As entradas, emfim, das portas eram por tal modo tortuosas, formando angulos successivos, que seria mais facil transpôr os muros á escala vista do que penetrar por ellas».HERCULANO, 1875:172-176

Alcáçova A alcáçova tem uma planta em forma de polígono irregular, e possui onze torres quadrangulares, com cunhais reforçados em silharia. Duas das torres são albarrãs e nove são adossadas, e são compostas por uma alta torre de menagem, três torreões e sete quadrelas, com ameias, ligados por uma cortina de muralhas com adarve, rematadas por ameias com seteiras, ocupando uma área plana. As torres estão ligada ao caminho da ronda, com cerca de 388 m de extensão. Algumas das torres ainda apresentam elementos que foram introduzidos durante as grandes obras de restauro nos séculos XIV e XV, como portas com arcos góticos, de volta quebrada, e salas com cobertura em abóbada. A alcáçova foi construída com um maciço aparelho em taipa militar. O acesso é feito por por uma porta dupla com átrio, protegida por duas torres, junto das quais foi instalada a recepção e uma loja para os visitantes. Junto a esta entrada encontra-se uma estátua em bronze do rei D. Sancho I, que conquistou pela primeira vez o castelo de Silves. No lado setentrional da alcáçova encontra-se uma entrada secundária, a Porta da Traição, que permitia ultrapassar as muralhas exteriores de forma mais discreta, garantindo assim uma maior autonomia da alcáçova em relação à cidade em si.

Em termos de espaços verdes, foi feita a reconstituição de como seriam os jardins do Palácio das Varandas, de ambiência muçulmana, tendo sido plantadas várias espécies distintas como pimenteiras, romãzeiras, loendreiros, laranjeiras, limoeiros, figueiras, alecrim, mirtilos, hortelã, roseiras e canas-de-açúcar. Os jardins originais eram alimentados por canais, passando por debaixo do edifício contemporâneo onde foi instalada a casa de chá. Noutro ponto da alcáçova, junto às ruínas encontra-se uma tília de grandes dimensões, anterior às obras de reconstrução, e que é considerada como um dos símbolos do monumento.

Palácio das Varandas No interior da alcáçova foram encontrados os vestígios de um edifício, que provavelmente correspondia a um palácio-fortaleza de dois pisos, de planta rectangular e uma área de 320 m². Os compartimentos no interior incluíam salas e alcovas, pátios, dois núcleos habitacionais, zonas privadas para banhos de configuração omíada, e vários jardins interiores, um deles porticado e com uma galeria superior. Destacam-se igualmente os revestimentos dos pisos, em mármores e ladrilhos, e das paredes e das arcarias, além dos profusos detalhes dos estuques, que comprovam a riqueza que o palácio atingiu. Era conhecido como Palácio Almóada ou Palácio das Varandas, nome pelo qual surge num poema de Al-Mutamid sobre Silves. Este edifício é de grande importância, por ser o único palácio islâmico conhecido em território nacional, além de não se terem encontrado vestígios de outras residências palatinas deste tipo na região mais ocidental do Gharb al-ʼAndalus. Posteriormente, na parte identificada como o palácio foi feita a reconstituição de um arco, em materiais brancos, de forma a contrastar com as ruínas em redor.

No artigo O "Xarajibe" de Silves na poesia, na arte e na história, publicado no periódico Atlântico: revista luso-brasileira em 1947, o historiador José Garcia Domingues refere que «o palácio do Xarajibe, de Silves, foi, no Ocidente, uma autêntica visão das «Mil e uma noites»», acrescentando que «cantaram-no os poetas com o mais alto requinte, adornaram-no os artistas com obras de estranho lavor, celebraram-no os historiadores, como encantadora residência principesca», e que «evocar o Xarajibe é evocar [...] a época e o estilo de vida dos luso-árabes». Segundo Garcia Domingues, o poema de Al-Mutamid poderá ser a mais antiga referência ao palácio, tendo sido a única conhecida até à publicação da obra Scriptorum Arabum loci de Abbaditis, do investigador holandês Reinhart Dozy (1820-1883), onde foi feita a sua descrição. Numa outra obra de Reinhart Dozy, Historia Abbadidarum, é novamente referido o palácio e a cidade de Silves, feita pelo historiador Ibn Khaqan (es), alegadamente baseado num relato do filho de Al-Mutamid, Al-Motaze: «Este palácio do Xarajibe chegara então ao mais alto cimo da magnificiência e do esplendor. Era semelhante ao mais ínclito da cidade de Bagdade, no Iraque. Corriam nele os nobres cavalos dos seus átrios e brilhavam nos seus terraços os relâmpagos das coisas que mais se poderia desejar e ele oferecia. A fortuna, na verdade obediente, irradiava dele, desde aquele momento em que começava a viagem da manhã até ao fim da viagem da tarde, isto naqueles dias em que não eram afastados desse palácio os talismãs que constituíam a sua segurança. E não faltavam sequer, ao palácio, cálices com as flores da juventude. Esta cidade tinha-o como o local onde alegremente vivia a sua múltipla esperança e como a mais alta das suas riquezas. Ao que se acrescentava a beleza do panorama, a fragrância dos perfumes e das brisas e a disposição alegre e luxuriante dos jardins e dos tufos de arvoredo. Além do mais, era esta cidade quase rodeada pelos seus dois rios como um colar, do mesmo modo e no mesmo local em que o homem costuma usar o cinturão». Esta narrativa é de grande interesse não só por descrever o palácio e a cidade, mas por referir que Silves era rodeada por dois rios, dos quais um já desapareceu. Garcia Domingues especulou que este curso de água nascia na área do Encherim, a Norte de Silves e tinha a sua foz no Porto da Azóia, onde foi depois instalado o Jardim de Nossa Senhora dos Mártires. Menciona-se que a cidade não era totalmente rodeada pelos rios, sendo talvez uma referência à forma como o rio estava quase sempre seco na sua parte central, permitindo a sua passagem através de grande bancos de pedra, que segundo várias testemunhas ainda eram visíveis no século XIX. Outro historiador islâmico de relevo que fez referência ao Palácio das Varandas foi Ibne Anmar.

Cisternas e alcaidaria