O Shangri-lá (por vezes denominado Shangrilá, Changri-lá ou Changrilá) foi um pequeno navio pesqueiro brasileiro afundado a tiros de canhão, em 22 de julho de 1943, ao largo de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro, pelo submarino alemão U-199, um dos mais modernos e poderosos u-boot da marinha alemã.
Com apenas vinte toneladas, pertencia a um armador particular do Rio de Janeiro, e operava na pesca artesanal na Região dos Lagos. Foi o trigésimo-primeiro ataque a uma embarcação brasileira na Segunda Guerra Mundial, no qual morreu toda a tripulação de dez pescadores, cujos corpos jamais foram encontrados.
Embora tenha sido a menor embarcação atacada pelos submarinos do Eixo, o seu afundamento suscitou uma série de pesquisas e investigações dentre os especialistas na literatura naval brasileira, o que levou, quase sessenta anos após o final da guerra, à descoberta da real causa de seu naufrágio, cujos efeitos ainda hoje repercutem nos tribunais do Brasil.
Na investigação instaurada à época para apurar o desaparecimento do barco, concluiu-se que a embarcação teria sido vítima de um simples naufrágio (tempestade, fortuna-do-mar ou falha humana), igual a tantos outros que, corriqueiramente, sucediam-se na região, e, assim, o processo foi arquivado em 1945.
Somente em 1999, o Tribunal Marítimo, com novas provas, colhidas pelo historiador Elísio Gomes Filho, reabriu o processo e, em 2001, concluiu que o pesqueiro havia sido, de fato, alvo de ação de um submarino alemão, o U-199.
As provas basearam-se no fato de que o pesqueiro era o único barco desaparecido na mesma coordenada em que estava o U-199, o qual seria afundado dias depois por aviões aliados, em uma operação conjunta do Brasil e dos Estados Unidos. O capitão alemão Hans Werner Krauss e outros tripulantes sobreviventes foram enviados como prisioneiros de guerra aos Estados Unidos, e, lá admitiram ter afundado um veleiro de carga próximo ao litoral do Rio de Janeiro.
Em 2004, em cerimônia no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, finalmente os tripulantes da embarcação tiveram seus nomes inscritos no Panteão dos Heróis de Guerra.
Apesar da homenagem, os descendentes dos pescadores ajuizaram diversas ações na Justiça Federal do Rio de Janeiro, contra a União Federal e também contra a República Federal da Alemanha, pleiteando indenizações por danos morais e materiais. Em 2021, o STF decidiu que a Alemanha não é protegida pela imunidade e deve indenizar os herdeiros das vítimas (Recurso Extraordinário com agravo n. 954.858).
Em alusão ao evento, foi lançado o filme O Destino do Changri-lá (2005) do cineasta Flávio Cândido.
O navio e sua história Pouco se sabe acerca do pesqueiro no que se refere ao local e à data de sua construção, assim como também são desconhecidas eventuais denominações que pudesse ter antes de ser batizado de Shangri-lá.
Construído em casco de madeira, tinha 9,5 metros de comprimento; 2,85 metros de largura; 1,10 metro de pontal, e 20 toneladas de arqueação bruta, propelidas por uma vela de ré (popa) combinada com um motor semidiesel,Designação de um motor de combustão interna, do tipo Diesel quanto ao uso de óleo pesado como combustível, mas que trabalha com compressão menor do que esse e difere dele também no modo de ignição. com potência de 28 HP e velocidade máxima de sete nós.
Estava inscrito na Capitania dos Portos do Distrito Federal e Rio de Janeiro sob o número 735 e pertencia à Colônia de Pesca Z-5, localizada no bairro do Caju, no Rio de Janeiro. Tinha equipagem de seis pessoas, capacidade de 500 kg em dois tanques, um bote para oito pessoas, onze coletes salva-vidas ingleses e o mesmo número de coletes salva-vidas comuns.
O papel da navegação de pesca durante a Guerra Constituindo-se em uma atividade restrita à sobrevivência das populações litorâneas e ribeirinhas, as atividades pesqueiras no Brasil estiveram vinculadas à Marinha do Brasil, através das capitanias dos portos, de 1845 até 1912, quando foram transferidas para o Ministério da Agricultura, por não apresentarem para a Marinha nenhum interesse especial.
Em 1920, a pesca voltou à esfera de influência da Marinha, tendo como fator preponderante a participação de pescadores ingleses e franceses durante a Primeira Guerra Mundial, com fundamento na Convenção Internacional de Haia, que considerava a pesca um direito exclusivo dos naturais do país, justamente por ser o pescador detentor de segredos que interessam à segurança nacional.
Dos argumentos apresentados para justificar essa nova transferência, foram bem enfatizados aqueles referentes à defesa nacional, em face da extensa fronteira marítima, o valor de uma pesca desenvolvida visando as operações de varredura de minas e de caça aos submarinos. Ressaltando ainda, a constituição de excelente fonte de pessoal de reserva para a Marinha.
Assim, a Marinha tratou de incorporar essa nova atribuição à sua estrutura orgânica, criando a Diretoria de Pesca e Saneamento do Litoral. Sendo alvo de críticas da imprensa, a qual apontava a inadequabilidade de uma atividade essencialmente econômica e civil ser entregue a um órgão militar, em 1933, o governo resolveu mais uma vez transferir as atribuições da pesca para o Ministério da Agricultura. Mas, mesmo tendo perdido o controle sobre a atividade pesqueira como um todo, permaneceu com a Marinha o controle sobre os pescadores e embarcações de pesca, o que atendia o propósito da fiscalização das águas territoriais brasileiras.
Durante a Segunda Guerra Mundial, essa possibilidade de considerar os pescadores como elementos auxiliares das forças navais nos serviços de vigilância e observação de navios e aviões encontrados nas áreas de pesca, devendo as informações obtidas serem comunicadas à capitania dos portos mais próxima que, após avaliá-las, as retransmitia para as autoridades navais, foi bastante utilizada.
Por ocasião da declaração de guerra ao Eixo, em 22 de agosto de 1942, havia cerca de 75 mil pescadores brasileiros associados nas colônias de pesca espalhadas pela costa. Com as pessoas da família e agregados, esse número atingia 150 mil, tornando-se assim um excelente corpo de observadores dos submarinos, navios e aviões inimigos que porventura se aventurassem próximos ao litoral. Com a finalidade de oficializar essa nova atividade dos pescadores, as colônias de pesca foram transferidas para a jurisdição do Ministério da Marinha. A Marinha preparou, então, para a distribuição pelas referidas colônias, folhetos mostrando as silhuetas dos submarinos inimigos para o conveniente reconhecimento, caso fossem eles avistados.
O desaparecimento A embarcação havia zarpado do porto do Rio de Janeiro em 28 de junho, com destino ao litoral de Cabo Frio. A previsão era passar um mês em alto-mar. Devido às más condições do tempo, aportou em Arraial do Cabo no dia 4 de julho, tendo desembarcado um tripulante, Gabriel Soares Cardoso, e embarcado outros quatro pescadores, que não constavam do rol de equipagem. Naquele mesmo dia, fez-se ao mar para reiniciar suas atividades pesqueiras naquela região.
Nas semanas seguintes, contudo, não houve novas notícias sobre a embarcação, até que seu proprietário, preocupado com seu desaparecimento, comunicou, por escrito, à Capitania dos Portos do Distrito Federal e Rio de Janeiro o fato, achando inicialmente que ele havia naufragado.
Mas, surpreendentemente, não foram encontrados os restos mortais dos tripulantes, nem o bote de salvatagem. Todavia, pedaços da embarcação foram dar em uma praia de Arraial do Cabo, tendo sido reconhecidos como pertencentes ao barco desaparecido. A principal peça achada foi uma tábua do corrimão da borda, identificada pelo carpinteiro que a confeccionou. Tal peça, não se encontrava quebrada, ao contrário, estava intacta, com marcas de chamuscamento e com um aspecto característico de que havia sido expelida de dentro para fora, devido a um forte impacto sofrido pela embarcação.
As testemunhas ouvidas à época, que conheciam muito bem o barco sinistrado, foram enfáticas em afirmar que o pesqueiro não teria naufragado com facilidade, por ser uma embarcação bem aparelhada para o que se propunha, inclusive dotada de bastante solidez.
O desaparecimento do Shangri-lá foi apreciado pelo Tribunal Marítimo, através do Processo nº 812, de fevereiro de 1944, e, sem dispor de elementos confiáveis para determinar a causa de seu desaparecimento, já que, naquela época, eram escassas as informações a respeito do misterioso sumiço da embarcação, concluiu-se que teria ido a pique por outras causa mais comuns, como tempestade, falha humana, choque contra rochedos submersos etc.
O fim do mistério No período do desaparecimento do pesqueiro, havia uma intensa operação de guerra no Atlântico Sul, como comprovado pela presença de mais de uma dezena de submarinos alemães nas águas sob jurisdição brasileira. Submarinos que não hesitavam em afundar tudo o que aparecia à sua frente, mesmo que fossem inofensivos barcos de pesca.
Com abertura dos arquivos militares norte-americanos sobre a Segunda Guerra Mundial aos pesquisadores brasileiros,SANDER. Roberto. Op.cit., p. 237. no final da década de 1990, o mistério do desaparecimento do pesqueiro, que já durava mais de 50 anos, finalmente pôde ser esclarecido.
Em 9 de setembro de 1999, o historiador e Diretor do Museu Histórico Marítimo de Cabo Frio, Elísio Gomes Filho, enviou um ofício pormenorizado à Marinha do Brasil solicitando que se averiguasse a possibilidade de o Shangri-lá ter sido afundado pelo "u-boot" alemão U-199, em operação de guerra na costa brasileira.
A evidências eram robustas, pois o historiador havia pesquisado nos arquivos militares norte-americanos, os depoimentos dos doze sobreviventes do U-199, que foi posto a pique por aviões brasileiros e americanos no litoral do Rio de Janeiro no dia 31 de julho. Os alemães contaram que, dias antes, por ordem do capitão Hans Kraus, haviam afundado a tiros de canhão de 105 milímetros uma pequena embarcação no litoral de Cabo Frio. Foi, segundo eles, um mero exercício de tiro ao alvo para testar os potentes canhões do submarino que, até então, não tinha testado seu poder bélico. A data — 22 de julhoAté então, o dia 4 de julho, quando o barco foi visto pela última vez, ao zarpar de Arrial do Cabo, era considerado como a data do sinistro. Talvez por isso, algumas fontes europeias ainda trazem tal data como sendo a do afundamento.– e, principalmente, o local do ataque relatados coincidiam perfeitamente com a data e o local onde se encontrava o pesqueiro brasileiro desaparecido.
A única dúvida que havia quanto ao fato do U-199 ter sido o causador do afundamento do barco pesqueiro era em relação à declaração dos tripulantes alemães sobreviventes de que haviam afundado um barco com uma vela na popa, o que desfigurava completamente, a característica de um pesqueiro. Contudo, durante as pesquisas, foi provado tratar-se de uma prática comum aos barcos de pesca da época, colocar uma vela na popa, chamada de "vela de fortuna", para auxiliar na propulsão da embarcação, fato este que os alemães desconheciam.
O caso foi encaminhado à Procuradoria Especial da Marinha, que solicitou ao Tribunal Marítimo, a reabertura do processo. O Tribunal, por sua vez, com o surgimento de novas evidências considerou a necessidade de alterar por completo, o rumo traçado no inquérito anterior.