thumb|300px|Chefe Tupinambá com o corpo adornado com plumas. Xilogravura que ilustra o livro Duas Viagens ao Brasil de Hans Staden (1557). Os atavios dos indígenas, que desde o início da colonização chamaram a atenção dos europeus, podem ser comparados ao paletó dos ocidentais como marcas de sua identidade cultural. Os aparatos dos grandes líderes, por sua vez, são comparáveis em riqueza visual e função simbólica e honorífica aos mantos e coroas das figuras reais europeias, proclamando a dignidade dos personagens.
A arte plumária indígena brasileira é uma das expressões plásticas mais conhecidas e impactantes das culturas nativas do Brasil. A definição usual de arte plumária diz respeito aos objetos confeccionados com penas e plumas de aves, amiúde associadas a outros materiais, e em sua maioria usados como ornamento corpóreo, seja de uso cotidiano seja em funções solenes e ritualizadas. A definição também inclui a fixação de penas diretamente sobre o corpo humano, em geral com os mesmos objetivos e significados, e a confecção de objetos emplumados para outros usos além do adorno do corpo.
Chamou a atenção dos europeus desde que primeiro chegaram ao território brasileiro no século XVI, e vários exemplares foram coletados e enviados às cortes do além-mar, mas acima de tudo eram na época apresentados à Europa como troféus da conquista americana e como produto estranhamente atraente de povos bárbaros. Até pouco atrás esta fascinante forma de expressão não era considerada mais do que um artesanato exótico, mas hoje a produção plumária dos indígenas brasileiros é reconhecida como uma verdadeira linguagem visual, um reflexo requintado de culturas ricas e complexas, transmissora de mensagens específicas, merecedora do estatuto de arte e digna de sério estudo. Porém, a despeito de sua recente consagração entre os estudiosos e o grande público, esse rico acervo de tradições, significados e formas corre o risco de se desvirtuar pela aculturação das tribos e a transformação de objetos simbólicos em produto comercial e turístico, e pode vir mesmo a desaparecer, como desapareceram inúmeras etnias que antigamente povoavam o território brasileiro, perdendo-se com elas uma riqueza imensa em visões de mundo e experiências vitais, coisas de que a arte plumária sempre foi veículo privilegiado.
Características thumb|esquerda|Pictogramas na Cachoeira Resplendor, Pará, mostrando seres humanos adornados com penas thumb|esquerda|Indígena nos Jogos dos Povos Indígenas, com destaque para seu grande cocar São registrados no Brasil pelo menos trinta grupos étnicos indígenas que possuem marcantes tradições culturais expressas através da arte plumária, incluindo entre eles os Kagwahíva, Erekibatsa, Tapirapé, Kamaiurá, Xavante, Waurá, Juruna, Kaingang, Kayapó, Tukano, Urubu-Kaapor, Assurini e Karajá, mas são raros os povos que não possuem nenhuma tradição deste tipo. É uma prática que tem grande antiguidade; há pinturas rupestres em alguns sítios arqueológicos do Nordeste onde é clara a representação de seres humanos com adornos plumários; alguns desses registros datam pelo menos do século IX.Martin, Gabriela. Pré-história do Nordeste do Brasil. Editora Universitária UFPE, 2008. pp. 223-224 Essa antiguidade e universalidade se manifestam na variedade imensa da arte plumária nacional, sendo impossível estabelecer dela um perfil senão muito sumário, pois se espraia em um vasto leque de técnicas, materiais, formas, usos e categorias.John, Liana. "A Arte Plumária Indígena é sustentável?" . In: Estado de São Paulo, 05.10.2000
O que é regra geral nessa arte é que ela é veículo de mensagens relativas a ritos de passagem, estados de espírito, distinções de prestígio e poder, imagens de identidade da pessoa, da família, do clã e da nação, não raro de importância vital na economia interna de suas culturas. Nas sociedades indígenas não existe uma divisão formal entre e arte e artesanato. Todos os objetos produzidos incorporam elementos de fruição estética e afirmações étnicas. Mais do que mero adorno, a arte plumária é forma de comunicação, ela fala, e diz mil coisas, apresenta-se de mil modos e formas. E fosse adorno apenas, já seria rico o bastante para exigir detido estudo.Cartilha apresenta a arte plumária dos povos Kagwahíva. INPA, Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia, Portal Oficial do Governo do Estado do Amazona, 2009Dolabella, Renato Melo et alii. Arte Plumária: índios Brasileiros. Grupo de Estudo do Projeto Experimental Artesanato. UFMG. s/dSedoguch, Fabiana Barbosa. Tecelagem, Trançado e Arte Plumária. Um paralelo entre a artêxtil indígena e a arte contemporânea. Museu do Índio – Instituto de História – UFU, s/d.Hamada, Katsue e Zenun, Valeria Maria Alves Adissi. Ser índio hoje. Edições Loyola, 1999. pp. 59-62 Em algumas tribos, como os Bororo, é a principal forma de arte plástica, seu luxo contrastando vivamente com a austeridade dos outros objetos que fabricam.Passetti, Dorothea Voegeli. "Papagenos Tropicais". In: Brait, Beth & Bastos, Neusa Barbosa. Imagens do Brasil: 500 anos. Editora da PUC-SP, 2000. pp. 107-108 Nas palavras de Darcy Ribeiro e Bertha Ribeiro,
"É na plumária que encontramos a atividade mais eminentemente artística dos nossos indígena, aquela em que revelam os mais elaborados impulsos estéticos e mais vigorosas características de criação própria e singular. E é natural que assim seja, porque a plumagem dos pássaros, com sua variedade de formas e riqueza de colorido, constitui o material mais precioso e mais acabado, por assim dizer, que a natureza oferece aos indígenas para se exprimirem artisticamente. o seu maior interesse estético, por outro lado, está voltado para o embelezamento do próprio corpo. Da combinação daqueles recursos e desta tendência, resultaria a elaboração de uma técnica requintada que, associando penas e plumas a diversos outros materiais, permitiria criar obras de arte capazes de competir em beleza com os mesmos pássaros".Ribeiro, Darcy & Ribeiro, Bertha. Arte plumária dos Índios Kaapor. IN Educação em Linha: Índios, os primeiros brasileiros. Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. Ano IV, n.º 13, jul/set de 2010. p. 51 thumb|Meninas Tapirajé com diademas e adornos pendentes thumb|Flechas e outras armas adornadas com plumas, aquarela de Jean-Baptiste Debret, 1834 thumb|Meninos Yanomami adornados com plumagem branca diretamente aplicada nos cabelos thumb|Indígena Pataxó com variados adornos plumários
O estudo da arte plumária vem recebendo recentemente considerável atenção dos pesquisadores, já havendo diversas publicações para tratar do tema, mas ainda existe certa controvérsia em sua categorização. Júlio Melatti propôs a divisão em duas categorias principais: os objetos emplumados e as penas coladas diretamente ao corpo.Melatti, Julio Cezar. Índios do Brasil. EdUSP, 2007. p. 225 De acordo com Dorta & Van Velthem, seriam três categorias maiores: a primeira fazendo uso de penas longas associadas a suportes rígidos, dando um aspecto grandioso e monumental ao artefato, destacando-se os grandes toucados ou cocares. Neste grupo estão incluídos os Bororo, Karajá, Tapirapé, Kayapó, Tiriyó, Aparai e Wai-Wai, entre outros. O segundo emprega penas diminutas fixas em suportes flexíveis, com um aspecto delicado, incluindo braçadeiras, tangas, cintos, colares, pulseiras, tornozeleiras, protetores penianos, etc. Seus mais típicos representantes são os Munduruku, os Urubu-Kaapor e outros grupos Tupi. Ainda alguns grupos comporiam um terceiro estilo, com elementos das duas grandes divisões.Silva, Aracy Lopes da & Grupioni, Luis Donizete Benzi (orgs). A temática Indígena na Escola: novos subsídios para professores de 1º e 2º graus. Brasília: MEC/MARI/UNESCO, 1995. pp. 394-397 Já Darcy e Bertha Ribeiro consideram como digna do estatuto de arte plumária apenas aquela em que fica evidente o trabalho da imaginação, da sensibilidade e de uma artesania requintada. Só assim o objeto poderia adquirir autonomia como arte, tornando-se capaz de suscitar uma resposta estética no observador através "da harmonia da forma, da felicidade na combinação cromática e, ainda, por uma consistência táctil suave e atrativa", ultrapassando o valor plástico das plumas em si. Ficariam, pois, excluídas as formas que simplesmente agregam ao corpo e outros objetos um material em estado bruto ou pouco trabalhado. E outros ainda, como Els Lagrou e Maria Castilho Costa, questionam a atribuição do nome de arte para essa expressão, já que o conceito corrente de arte é uma importação europeia que não encontra paralelo nas atividades das comunidades indígenas.Costa, Maria Castilho. A imagem da mulher: um estudo de arte brasileira. Senac, 2002, p. 53Lagrou, Els. "Arte ou artefato? Agência e significado nasartes indígenas". In: Revista Proa, n° 2, vol. 01, 2010, p. 2
Tradicionalmente a confecção de objetos plumários é uma tarefa dos homens adultos, e suas técnicas são aprendidas depois dos ritos de iniciação. A manufatura envolve várias atividades preliminares: caça das aves ou retirada das penas de aves cativas, seleção e classificação, preparo do material e coleta e preparação de materiais acessórios.Dorta, Sonia Ferraro & Cury, Marília Xavier. A plumária indígena brasileira no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. EdUSP, 2000. pp. 36-37 Grande parte da arte plumária participa da natureza da tecelagem, pois a fixação das penas é feita através de amarração e trançamento de fibras. Outras formas fixam as penas diretamente ao corpo através de resinas e colas, como fazem os Kayapó e Yanomami, que usam a plumagem fina e branca dos urubus-rei colada diretamente no cabelo, ou por um sistema de perfurações corporais (piercing). Outros objetos também podem ser adornados com penas, como armas, objetos litúrgicos, distintivos de guerra, brinquedos infantis, bolsas e instrumentos musicais e de trabalho. O material é usado de diversas formas: em estado natural ou transformando suas características originais com cortes, deformações, desfiamentos e tingimentos. Também não raro as penas são usadas em associação com outros materiais, como couros e peles, ossos, sementes, garras de animais, fibras diversas.
Embora alguns artefatos emplumados possam ser usados cotidianamente, os mais elaborados e importantes se destinam às grandes festividades.Dorta & Cury, p. 37 É, pois, uma arte de caráter cenográfico, usada em ritos públicos onde participam integradamente outras formas de expressão, como o canto, a declamação, a narrativa teatralizada e a dança, e transfigurando a aparência de quem a usa de uma forma mágica e teatral.Arruda, Rinaldo. "Mitos Rikbaktsa: História, Sociedade e Natureza". In: Silva, Ana Amélia da; Chaia, Miguel Wady & Junqueira, Carmen. Sociedade, cultura e política: ensaios críticos. Universidade Pontificia de Comillas, 2004. p. 48 A pesquisadora Lux Vidal deu eloquente depoimento sobre as formas de uso da arte plumária na Festa do Tatu, um ritual Kayapó-Xikrím, tratando dos aspectos recém mencionados:
"Importante é também ver que não é só a pintura, não é só a plumária, mas tem também os cantos, as danças, os gestos e especialmente a palha.... Os Jês são as sociedades da palha... usada não só em contraste de cores, mas também nesse desfiamento amarelo; quando depois eles se movimentam, eles dançam, essa coisa se mexe, se move, é extremamente leve e faz contraste com o preto e com o vermelho, e também o verde e o azul da máscara. Isso é de uma beleza extraordinária.... (Importa) realmente todo o momento, acompanhado da dança e do canto, essas coisas que se movimentam e formam esse todo especial. E são coisas extremamente efêmeras, não são coisas que duram. A palha é jogada fora, a penugem depois é guardada e reutilizada de uma outra forma, mas são coisas transitórias. O momento de beleza certo do ritual, quantas coisas aconteceram! Isto que é o belo". Dorta & Cury, pp. 409-410