A Vila Maria Zélia foi fundada dentro de um contexto histórico específico iniciado na segunda metade do Século XIX, em que o Estado fazia investimentos na área de higiene. Os cortiços eram o tipo de habitação coletiva mais comum na época. Entretanto, além de custar metade do salário do trabalhador, eram marcados pela condição insalubre de sobrevivência - sendo a construção de vilas uma parte das políticas públicas para melhorar o setor. Existia ainda a questão moral: se os operários estivessem próximos às fábricas em que trabalhavam, a fiscalização seria mais fácil contra hábitos tidos como bohêmios. Nos planos político, social e econômico o Brasil estava se transformando pela inserção dentro do capitalismo internacional, permitindo que a Cidade de São Paulo passasse por uma modernização no setor urbano. Este momento foi possibilitado, sobretudo, pela lavoura cafeeira. Assim, a capital paulista foi adquirindo uma nova composição. Belém, Belenzinho, Bom Retiro, Brás e Mooca são exemplos de bairros operários – onde surgiram as vilas operárias - localizados próximos às linhas ferroviárias. Essas vilas foram elemento chave para aliviar os problemas de habitação – visto que a população aumentava consideravelmente – e de mão de obra.PENTEADO, Jacob., Belenzinho 1910 Retrato de uma Época, São Paulo: Martins, 1962.SUZIGAN, Wilson., Indústria Brasileira: Origem e desenvolvimento, São Paulo: Brasiliense, 1986.DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo. "A vida fora das fábricas: Cotidiano operário em São Paulo (1927 – 1934)". Campinas: UNICAMP, 1983.

História

A história da Vila Maria Zélia começou com o médico carioca Jorge Street, nascido em 22 de setembro de 1863. Ele adquiriu por herança as ações da Tecelagem de Juta São João, em 1896, e desde então sua atividade industrial foi crescendo. Fundou a Companhia Nacional de Tecidos de Juta mais tarde, em 1904 – sendo a fábrica matriz localizada nas imediações da Rua Gabriel Piza, em Santana (bairro de São Paulo). O trabalho acontecia em tempo integral e a fábrica chegava e atingir sua capacidade máxima de produção. Por isso, Street decidiu aumentar as instalações e construir uma filial, escolhendo o bairro do Belenzinho como sede – região que já contava com muitas indústrias na época. O empresário, então, adquiriu as terras que pertenciam ao Coronel Fortunato Goulart, um proprietário de grandes terras naquela região. O terreno ia da atual Avenida Celso Garcia (próximo ao Marco da Meia Légua) até as margens do Rio Tietê. Atualmente o local é retificado, mas entre o Século XIX e o Século XX era bastante sinuoso.BLAY, Eva Alterman. Eu não tenho onde morar: Vilas Operárias na cidade de São Paulo., São Paulo: Nobel, 1985.VIEIRA, Antônio. Maria Zélia. 2º ed. São Paulo, Cupolo, 1957.

A Vila começou a ser construída em 1912 e foi inaugurada cinco anos mais tarde, em 1917 – quando a fábrica já contava com aproximadamente 1000 funcionários – enquanto na unidade de Santana haviam 3500. Apesar de menos funcionários, a filial da Maria Zélia também era bastante grande. Contava com instalações para tecelagem, estamparia de algodão, fiação e possuía 2 mil teares, 84 mil fusos e 3 mil motores elétricos – o que tornou a empresa uma das maiores consumidoras de energia na capital.Caderno Vila Maria Zélia, CONDEPHAAT, 2015, p. 4

A inauguração oficial da Vila Maria Zélia foi um acontecimento marcante para São Paulo. A cerimônia contou com a participação de moradores, políticos, industriais e também do Cardeal Arcebispo de São Paulo Dom Duarte Leopoldo e Silva, que ficou no responsável pela missa inaugural. Ele visitou e abençoou todas as localidades da Vila enquanto era seguido por uma multidão. Outro aspecto importante é o motivo da Vila ter o nome de Maria Zélia. Em 1915 – portanto um ano antes da inauguração – a filha de Jorge Street contraiu tuberculose e acabou falecendo aos 16 anos de idade. O empresário, então, prestou homenagem a ela e batizou o local com seu nome. Ela está sepultada no túmulo da família localizado no Cemitério da Consolação, quadra 48, terreno 38. Ao todo, Jorge Street teve seis filhos.DELMO, Chiquito. Vila Maria Zélia. A primeira vila operária do Brasil.

Segundo relatos sobre a época e estudos aprofundados sobre a Vila Maria Zélia, a relação de Jorge Street com o operariado não se resumia às fábricas. Ele também os visitava em casa, tendo laços mais próximos. Para o empresário, as habitações antes da construção da Vila estavam em um nível de precariedade que “degradavam a dignidade humana, interferiam no processo produtivo e produziam um sentimento de revolta”. A chefia de execução de todos os projetos do local foram assumidos pessoalmente por Street, que parecia querer transmitir os ideais de justiça social.MORAES FILHO, Evaristo de. Idéias sociais de Jorge Street. 2° ed. Brasília/ Rio de Janeiro: Senado Federal/ Fundação Casa de Ruy Barbosa, MEC, 1980.

Uma das maiores preocupações dele na Vila Maria Zélia era com as crianças. Nas palavras de Street, “a criança abandonada e desamparada constitui um grande perigo de se transformar em breve uma criança delinquente”; “A oficina é preferível à rua”. Por isso, a educação na Vila era prioridade e não custava nada aos moradores. Foram construídos três prédios: um destinado ao ensino das meninas, um ao ensino dos meninos e outro à creche e ao jardim de infância. A Escola de Meninos e a Escola de Meninas foram feitos um de frente por outro e tinham simetria em suas construções, uma das marcas do arquiteto Paul Pedraurrieux. Elas eram tidas como duas das melhores escolas da região e eram abertas para moradores de ruas vizinhas de fora da Vila, como da rua Cachoeira e da rua Catumbi. Tinham capacidade para 400 alunos divididos em três períodos. Na creche, as crianças recebiam roupas, alimentação, tomavam banho e recebiam o leite para tomar em casa durante a noite. Até os sete anos de idade, os tratamentos médico e odontológico eram gratuitos.

Nessa mesma idade, elas passavam a estudar na escola e tinham aula com professores da rede oficial de ensino. Existia aula nos períodos diurno e noturno – este último destinado às crianças que trabalhavam. O ensino feminino também contava com aulas de bordado e todas as etapas de aprendizado eram acompanhadas de perto por Dona Zélia Fria Street, esposa de Jorge Street – porque existia uma preocupação com o preparo delas para afazeres domésticos. A missa aos domingos, o catecismo e a primeira comunhão eram obrigatórios a partir do ensino primário – inclusive, meninas recebiam também gratuitamente peças de roupas, calçados, grinalda e terços. O sacramento só era permitido após a realização do retiro e do jejum por três dias. As crianças recebiam ainda medicamentos gratuitos, enquanto para os adultos o valor era descontado dos salários. Outro aspecto de valorização da qualidade de vida do trabalhador promovida pela Companhia Nacional de Tecidos de Juta era a realização de atividades recreativas, como festas, bailes, concertos musicais e jogos de futebol. Com todos esses benefícios incomuns para a época e com a forte influência católica na Vila, a livre manifestação política era inibida – naquele período da história houve um o avanço do movimento operário e do debate entre as relações de capital e trabalho. Normas de conduta, horários a serem seguidos e apitos era parte da rotina dos moradores da Vila Maria Zélia. Evidentemente, mesmo com as melhores condições de trabalho, ainda existiam alguns conflitos com o patrão Jorge Street – decorrentes, sobretudo, da jornada diária de 10 horas, ausência de férias e licença-maternidade, discrepância entre os salários de homens e mulheres, além do trabalho infantil.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009. A Vila Maria Zélia: A fascinante história de um memorial ideológico das relações de trabalho na cidade de São Paulo, Palmira Petratti- Teixeira.TEIXEIRA, Palmira Petratti. A fábrica do sonho: trajetória do industrial Jorge Street. Rio de Janeiro:.Paz e Terra, 1990.

Apesar do sucesso da fábrica, para o crescimento da produção e boa administração da Vila Maria Zélia, Jorge Street acumulou dívidas e precisou vender o complexo em 1924 – e viria a falecer catorze anos mais tarde, em fevereiro de 1938. O comprador foi o industrial Francisco Scarpa, que deu à fábrica e à vila seu sobrenome (Cotonifício Scarpa e Vila Scarpa) - o que desagradou os moradores do local. Com a Grande Depressão ocorrida em 1929, o industrial teve dificuldades para quitar algumas hipotecas e precisou revender o complexo. A Família Guinle assume a administração em pareceria com o Banco do Brasil (que mais tarde venderia sua parte aos Guinle) e a vila volta a se chamar Maria Zélia.

Na virada dos anos de 1930, porém, os maiores problemas começaram a surgir. A família Guinle devia muitos impostos ao Governo Federal e, por isso, a fábrica e a vila foram confiscadas pelo IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários – atual INSS). Em 1931 a fábrica foi desativada, mas os moradores da vila continuaram a residir no local sem pagar nenhum aluguel – antes pagos aos patrões – porque o governo ainda não sabia como proceder com as moradias.

Cinco anos mais tarde, em 1936, a antiga Companhia Nacional de Tecidos da Juta passou a ser usada como presídio político pelo Estado Novo (Brasil), período ditatorial de Getúlio Vargas, até o final do no seguinte. O presídio foi criado depois de diversas revoltas que ficaram conhecidas como Intentona Comunista. Ao todo, foram aproximadamente 700 presos políticos dentre intelectuais que se opunham ao governo e pessoas ligadas ao Partido Comunista Brasileiro. Alguns dos prisioneiros que passaram por lá eram conhecidos, como por exemplo Caio Prado Jr, Fúlvio Abramo, Quiniro Pucca, Paulo Emílio Sales Gomes e Abdon Prado Lima. O presídio, então, foi apelidado de “Universidade Maria Zélia”, clara referência ao grande número de intelectuais e historiadores detidos no local – que organizavam leituras coletivas de jornais, pequenas bibliotecas e realizavam atividades físicas. Outra peculiaridade era a circulação do jornal clandestino “O Juventude”, que rodava tanto dentro como fora da prisão – quando alguém era liberado, levava consigo exemplares escondidos em malas com fundos falsos. Estima-se que tenham sido feitas doze edições do jornal, sempre com conteúdos antifascistas, críticas duras ao Governo Getúlio Vargas, à justiça, à economia e à polícia – além do incentivo à adesão de grupos que tinham menos espaço no âmbito político, como negros, mulheres e jovens. Evidentemente, quando alguma autoridade pegava algum exemplar, ele era confiscado.

Apesar de toda movimentação intelectual, a vida no presídio Maria Zélia não deixava de ser difícil. Eram oito blocos nomeados de A até H separados por madeiras. Mesmo quando doentes pela tuberculose, os presos ficavam amontoados em celas cheias. A água vinha do Rio Tietê, a comida era escassa e de má qualidade, provocando constantes greves de fome numa tentativa de conseguir melhoras estruturais. Em 21 de abril de 1937, vinte e quatro prisioneiros tentaram fugir, mas acabaram capturados. Eles foram espancados e quatro deles acabaram sendo mortos a tiros: João Varlota, Augusto Pinto, Mauricio Maciel Mendes e José Constâncio.VIEIRA, Ronaldo da Mota. Vila Maria Zélia, (UNIFAI/FACEQ), 2014.