Luiz Cláudio Cunha (Caxias do Sul, 15 de abril de 1951) é um jornalista brasileiro.
Trabalhou para diferentes órgãos de imprensa como os jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Correio Braziliense, Zero Hora, Diário da Indústria e Comércio, e as revistas Veja, IstoÉ e Afinal. Foi também editor-contribuinte da revista Playboy. Comandou a redação da Veja em Porto Alegre (1973-1980) e em Brasília (1981-1983). Também em Brasília, chefiou a redação de IstoÉ (1984)e Afinal (1985-1986), e de O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Zero Hora e Diário da Indústria e Comércio. Sua carreira jornalística está marcada pela reportagem investigativa e pelo jornalismo político. Ganhador de vários prêmios jornalísticos, cobriu episódios políticos marcantes da história recente do Brasil e escreveu sobre crimes contra os direitos humanos realizados pelas ditaduras militares do Cone Sul. Dentre seus trabalhos mais importantes, destaca-se a série de reportagens realizadas entre 1978 e 1980, sobre o episódio conhecido como “Sequestro dos Uruguaios”, uma tentativa ilegal de militares brasileiros e uruguaios para a prisão de ativistas uruguaios, no âmbito da clandestina Operação Condor. O trabalho, realizado em conjunto com o fotógrafo J.B. Scalco, rendeu-lhe o prêmio principal do Esso de Jornalismo de 1979, importante premiação da imprensa brasileira. Em 2008, lançou o livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios -- uma reportagem dos tempos da ditadura, recebendo da Câmara Brasileira do Livro um Prêmio Jabuti e também a menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ambos na categoria de Livro-Reportagem . É detentor do Título de Notório Saber em Jornalismo pela Universidade de Brasília.
Início da Carreira em Porto Alegre
Luiz Cláudio Cunha começou sua carreira, em 1969, aos 18 anos, na cidade de Londrina. Primeiro como locutor da rádio Londrina, ZYD-4 e, logo, como redator da Editoria de Interior do principal jornal da região, a Folha de Londrina.biografia no sítio da Editora LPM Um ano depois, em 1970, mudou-se para Porto Alegre e ingressou na Rede Brasil-Sul de Comunicação (RBS) como aprendiz na seção de 'Cidade' para, meses depois, passar a repórter especial do jornal Zero Hora. Em 1971, foi convidado para ingressar na revista Veja, criada três anos antes. Fez trabalhos eventuais para outras revistas da Editora Abril, como a Realidade, onde escreveu um perfil do novo gaúcho, ilustrado com fotos de Leonid Streliaev.'O fim do gaúcho', publicado na revista Realidade, Ano VII, n° 84 março/1973. A reportagem de Cunha foi credenciada, por equívoco, com o nome de José Antônio.
Em 1973, com a transferência de Paulo Totti para a editoria de Brasil na sede da Veja em São Paulo, Cunha foi indicado para assumir a chefia da sucursal da Editora Abril em Porto Alegre. Além de escrever para Veja, Cunha teve sob sua responsabilidade as revistas Quatro Rodas, Exame e a esportiva Placar, um detalhe que pesaria, em 1978, durante a investigação do sequestro dos uruguaios quando se fez acompanhar por um repórter fotográfico da área de esportes.Ver Cunha, L. C. O sequestro dos uruguaios. Uma reportagem dos tempos da ditadura. Porto Alegre: L&PM, 2008. Ver também http://sequestrouruguaios.wordpress.com/ocaso/
Na Veja de Porto Alegre, Cunha cobriu acontecimentos marcantes no Uruguai e Argentina. Em abril de 1974, fez a primeira entrevista com Leonel Brizola no exílio. Na fazenda do ex-governador do Rio Grande do Sul no interior do Uruguai, Cunha registrou a declaração literal de Brizola – “Fui derrotado militarmente. Politicamente, eleitoralmente, não” Veja no 293, 17/4/1974, p.23. – que, de acordo com a historiadora Maria Fernanda Lopes, causou profunda irritação nos quartéis.Almeida,Maria Fernanda, Veja sob censura: 1968-1976, São Paulo: Jaboticaba, 2009: 131-33.
No Uruguai, cobriu também a crise político-militar que levou o país à ditadura, com reportagens sobre os bastidores do golpe de Estado de 1973. Uma dessas reportagens foi sobre a diáspora provocada pela ditadura uruguaia, que levou à emigração em massa de uruguaios nos anos 1970, com meio milhão de uruguaios – 1/6 da população do país – partindo para o exílio, fugindo do endurecimento político e da crise econômica até então desconhecida na “Suíça da América Latina”, deixando para trás um país de gente cada vez mais idosa.[‘O êxodo’. Veja, No 302, 14/6/1974. Fotos de Ricardo Chaves.] Na Argentina, em 1974, cobriu para Veja a morte, o drama nacional e o enterro de Juan Domingo Perón, que foi matéria de capa.[ ‘O choque do presidente’, Veja, No 305, 10/7/1974. Fotos de Leonid Streliaev.]
Em junho de 1977, um ano antes da Copa do Mundo na Argentina, cobriu os preparativos da ditadura para reprimir a guerrilha no país. Integrou depois a equipe de Veja na cobertura da Copa do Mundo de 1978. Nessa ocasião, um artigo seu – em co-autoria com Carlos Maranhão – foi traduzido para a revista de jornalismo estadunidense Atlas World Press Review.[Cunha, L. C. e Maranhão, C. ‘The World's Cup Unhappy home - what didn't appear on global TV’ Atlas World Press Review, agosto/ 1978. No Uruguai e na Argentina, respectivamente, entrevistou o líder da coligação de esquerda uruguaia Frente Ampla nos anos 1970, general Líber Seregni, e o escritor argentino Jorge Luis Borges.[‘Ninguém quis defender o presidente’, Veja, No 233, 21/2/1973; e ‘No futebol, só 22 se sentem felizes’, Veja, No 509, 7/6/1978.
Foi eleito para a diretoria do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre (1977-1979) e ajudou a fundar, com mais de 300 pessoas, a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (1974-78), CooJornal, a primeira entidade do gênero no país. "Coojornal, a cooperativa que incomodou a ditadura", no sítio do Sul 21 No mensário CooJORNAL – jornal publicado pela Cooperativa – Cunha escreveu a coluna 'Perdão Leitores', um espaço de media criticism que, nos moldes do 'Jornal dos Jornais' assinado por Alberto Dines na Folha de S.Paulo, avaliava o desempenho dos jornais e jornalistas.[A coluna foi o tema da monografia ‘Perdão, Leitores: uma análise da crítica política na seção opinativa do Coojornal’, de Rozana Ellwanger, no Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) em 2009. Sobre a coluna, ver também o artigo ‘Perdão, leitores: a crítica ao regime militar nas páginas do Coojornal’, de Rozana Ellwanger e Veridiana Pivetta de Mello, publicado pelo Grupo de Estudos em Jornalismo Popular e Alternativo, Escola de Comunicação da Universidade de São Paulo, na revista ALTERJOR, Ano 1, vol. 2, ed. 2., jul-dez. 2010, pp. 1-15.] Em dezembro de 1977, Cunha escreveu no CooJORNAL o artigo ‘Uruguai: Terror e Silêncio’Matéria publicada na edição do Coojornal, no. 3, de agosto de 1978. Ver também o livro Coojornal - Um jornal de jornalistas sob o regime militar (Libretos, 2011), organizado por Rafael Guimaraens, Elmar Bones e Ayrton Centeno, pp. 105-107. sobre a ditadura militar naquele país. No artigo, Cunha relatou a prisão em Montevidéu, em junho de 1976, do jornalista brasileiro Flávio Tavares, correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires.
Sequestro dos Uruguaios
Em novembro de 1978, alertado por um telefonema anônimo, Luiz Cláudio Cunha testemunhou com o fotógrafo da revista Placar J. B. Scalco uma ação em Porto Alegre da Operação Condor, um grande aparato de terrorismo de Estado conjunto entre diversos países do Cone Sul. Era o sequestro dos ativistas políticos uruguaios Universindo Díaz e Lilian Celiberti e seus dois filhos, Camilo e Francesca. Eles são hoje os únicos sobreviventes uruguaios da Operação Condor, graças ao testemunho de Cunha e Scalco e à investigação jornalística empreendida por sua equipe de Veja.Depoimento de Hugo Cores gravado em Montevideo em novembro de 1993, quinze anos após o sequestro em Porto Alegre, para o vídeo 'O sequestro dos Uruguaios: 15 anos depois", dirigido por João Guilherme Reis e apresentado por Luiz Cláudio Cunha na RBS TV, no dia 21/11/1993.
Pela série de reportagens sobre o Sequestro dos Uruguaios publicadas em Veja durante 86 semanas, 630 dias, quase vinte meses, Cunha recebeu, junto com o fotógrafo João Batista Scalco, o Prêmio Esso de Jornalismo de 1979, na categoria principal. O júri foi presidido pelo repórter Joel Silveira e composto por Paulo Henrique Amorim, Carmo Chagas, Luiz Carlos Lisboa e Mário Moraes. O trabalho de Cunha conquistou ainda premiação principal do Prêmio Nacional TELESP; o I Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo http://www.premiovladimirherzog.org.br/busca-resultado.asp?busca=1979&x=0&y=0, e ainda o Prêmio Hors Concours da Editora Abril.
O trabalho profissional de Luiz Cláudio Cunha e sua postura em favor dos direitos humanos recebeu voto de louvor encaminhado pelo jurista Jean-Louis Weil em nome do SIJAU, Secretariat Internatonal des Juristes pour l’Amnistie en Uruguay, durante o Colóquio sobre la Política de Institucionalizacion del Estado de Exception y su rechazo por el Pueblo Uruguayo, realizado em Genebra, 27-28 de fevereiro de 1981.Motta, Luiz G. (2010) O saber notório da prática. In: CUNHA, Luiz Cláudio et al. Todos temos que lembrar. A lição e a missão do jornalista. Brasília: Editora da UnB, 2013, pp. 53-67.
Carreira em Brasília
Em 1980, Luiz Cláudio Cunha transferiu-se de Porto Alegre para Brasília, como editor-assistente de Veja. Nesse ano, viajou à Bolívia para a reportagem 'O ministro da coca’ sobre a conexão entre a droga e a estrutura de poder boliviana.[Veja, No. 631, 8/10/1980.] A reportagem era parte de uma matéria especial da revista intitulada ‘Rota da cocaína’, que incluiu ainda o Peru e a Colômbia, cobertos respectivamente por Marcos Sá Correa e Roberto Garcia. Na investigação jornalística, Cunha teve acesso a documentos secretos da Inteligência Americana, comprovando a conexão dos militares bolivianos com o narcotráfico. O documento identificava o coronel Luiz Arce Gomez, ministro do Interior do general Luiz Garcia Meza, como o principal nome do narcotráfico na Bolívia. Garcia Meza e seu grupo tomaram o poder com a ajuda da ditadura militar argentina e do grupo terrorista boliviano Novios de La Muerte, comandado pelo criminoso de guerra nazista Klaus Barbie.MOTTA, Luiz G. O saber notório da prática. In: CUNHA, Luiz Cláudio et al. Todos temos que lembrar. A lição e a missão do jornalista. Brasília: Editora da UnB, 2013, pp. 53-67.
Recebeu, em 1980, o Destaque em Economia do V Prêmio Abril de Jornalismo com a matéria ‘Delfim entra em campo’ e, em 1981, o Destaque em Política do VII Prêmio Abril de Jornalismo com a reportagem sobre a bomba que explodiu no Riocentro. Ambas as reportagens foram publicadas em Veja.
Em 1981, assumiu a direção da sucursal de Veja em Brasília. Também nesse ano, de Brasília, escreveu o editorial do CooJornal sobre os quatro jornalistas – Elmar Bones, Osmar Trindade, Rosvita Saueressig e Rafael Guimarães – presos por publicarem os relatórios secretos do Exército sobre a guerrilha no Vale da Ribeira, em São Paulo, e a perseguição ao líder guerrilheiro Carlos Lamarca no sertão da Bahia.GUIMARAENS, Rafael; CENTENO, Ayrton; BONES. Elmar (orgs.) Um jornal de jornalistas sob o regime militar. Porto Alegre: Libretos, 2011.