thumb|Saruma henryi.
alt=|thumb|Aristolochia clematitis com flor apresentando a forma tubular característica da família Aristolochiaceae. .
Aristolochiaceae é uma família de plantas com flor da ordem das Piperales que agrupa cerca de 400 espécies repartidas por 7 géneros em 4 subfamílias. Com grande diversidade morfológica, os membros desta família podem ser herbáceas, lenhosas ou então arbustivas, de fruto seco, sementes achatadas, com flores solitárias com estrutura tubular semelhante a um cachimbo. O género tipo é Aristolochia L.. A família tem distribuição natural nas regiões tropicais e subtropicais e na região temperada holártica. Descrição Os membros da família Aristolochiaceae são na sua maioria plantas perenes, herbáceas, com porte arbustivo ou lianas. As folhas são simples, membranosas e cordadas são largas, crescendo alternadamente ao longo do caule em pecíolos foliares. As margens das folhas são geralmente inteiras. Não há estípulas presentes. As flores são de tamanho grande a médio, crescendo nas axilas das folhas, com uma estrutura incomum semelhante a um cachimbo. São bilaterais ou radialmente simétricas.
As espécies da família Aristolochiaceae estão distribuídas pelas regiões temperadas tropicais e subtropicais. Ocorrem predominantemente em áreas abertas com vegetação rasteira, como savanas ou em florestas decíduas temperadas.
Algumas espécies possuem ácidos aristolóquicos, óleo etéreo, óleo resinoso e substâncias aromáticas voláteis, motivo pelo qual essas plantas são utilizadas na medicina tradicional de diversos povos. Os princípios ativos são empregados mais comumente como antissépticos, diuréticos e estimulantes, e promovem melhor funcionamento dos órgãos de secreção interna. Morfologia Os exemplares desta família são encontrados na forma de ervas, lianas ou, eventualmente, arbustos. Podem exibir estruturas subterrâneas de reserva. https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/50590 Os agentes polinizadores das flores da família Aristolochiceae são, usualmente, moscas. As flores desenvolveram, durante o curso evolutivo, mecanismos especializados para a captura do inseto e fixação do pólen neste culminando em otimização da polinização. Nesta família, as flores liberam fragrâncias para a atração dos polinizadores (podendo estas serem adocicadas como a de uma fruta ou fétidas como uma carcaça em putrefação), além de produzir néctar pelas glândulas no tubo do cálice, funcionando como recompensa açucarada para o díptero. Uma vez atraído até a flor, o cálice floral, altamente modificado, atua como uma armadilha, prendendo o inseto. Durante a primeira fase da vida da flor, o pólen é depositado no estigma o qual circunscreve o gineceu, projetando-se além das anteras. Depois da polinização, o estigma murcha e se torna ereto, expondo as anteras deiscentes. As moscas ficam cobertas por pólen e saem da armadilha, podendo, portanto, pousar em outra flor e fecundá-la.
As sementes desta família são aplainadas e muito leves. Estas características permitem que sejam dispersas pelo vento, tal qual um paraquedas. Entretanto, algumas oscilações morfológicas observadas em outras espécies adaptaram-nas para a dispersão pela água ou por animais (ao grudar-se no pelo de vertebrados mediante uma secreção pegajosa ou por formigas).
As folhas são alternas, pecioladas, simples, inteiras ou (raramente) lobadas e com venação palmada. Nesta família as estípulas geralmente são ausentes. Já as flores são bissexuais além de exibirem simetria radial ou bilateral, dependendo da espécie. As pétalas geralmente são ausentes ou vestigiais, entretanto, são encontradas (bem desenvolvidas, amarelas e imbricadas) no género Saruma. As flores apresentam 3 sépalas de simetria bilateral. Quanto a aparência, estas podem apresentar-se de forma tubular, em S ou em formato de cachimbo. As sépalas são delimitadas por limbos (1 a 3 limbos) os quais são vistosos, de cor avermelhada (verdes em Saruma), valvares e decíduas. As flores exibem de 6 a 12 estames ligados ao estilete. Com exceção do género Saruma, cujo grão de pólen é classificado como monossulcado, o pólen produzido nos estames não apresenta aberturas. As flores possuem de 4 a 6 carpelos conatos e retorcidos. Os frutos são frequentemente secos e deiscentes, com abertura partindo desde a base. As sementes, por sua vez, são achatadas, com embrião pequeno, basal ou indiferenciado, podendo ser aladas ou com associações de tecidos carnosos.
Apesar da diversidade morfológica e de hábito, as principais características morfológicas da família são as seguintes: Herbáceas rizomatosas ou lenhosas, perenes ou trepadeiras. Tubérculos hipocotiledonares presentes em algumas espécies adaptadas a fortes mudanças climáticas sazonais. Eleócitos presentes em várias partes da planta, especialmente na epiderme das folhas, contendo óleos essenciais. Indumento de tricomas unisseriados, sendo a célula apical por vezes uncinada; Folhas alternadas (pseudo-opostas em Asarum), disticuladas, simples, inteiras, 2-3-lobadas, palmadas-lobadas ou pedunculadas, pecioladas, base frequentemente cordada, sem estípulas (por vezes aparecem ramos axilares curtos com escamas sésseis que se assemelham a estípulas intra-especiolares, denominadas pseudo-estípulas), vernação conduplicada. Estomas anomocíticos. Caules com ramificação monopodial ou simpodial, com nós 3-lacunares. Flores solitárias ou em ripídio, terminais ou axilares, muitas vezes caulifloras ou ramificadas, perfeitas, geralmente epígeas, raramente semi-epígeas ou quase hipóginas, basicamente tri-meras. Perianto univerticilado (2-verticilado em Saruma), geralmente gametosepalado, 1-3-meroso, raramente 6-meroso, actinomorfo ou zigomorfo. Androceu de (4-)5-12(-40 ou mais) estames em 1-4 espirais, geralmente 6 ou 12 em 1 ou 2 espirais, livres, ou monadelfos, ou solitários ao estilete formando um ginostema, anteras com 2 tecas extrorsas ou as externas quase laterrâneas, cada teca com 2 esporângios, deiscência por fenda longitudinal, conectivo frequentemente proeminente apicalmente. Gineceu sincarpo (apocárpico em Saruma), com 4-6 lóculos, incisos ou semi-incisos, estilete único 3-6-lobado ou muito ramificado (estipe separado em Saruma), estigma variado, uncapitado, seco ou húmido, papiloso, óvulos 4-50(-100) por carpelo, horizontais ou pendentes, anatrópicos, apotróficos, bitégmicos, crassinucelados, placentação parietal nos ovários uniloculares, central ou axial nos pluriloculares. Fruto em cápsula septicida e valvular ou irregularmente deiscente, plurifolículo em Saruma, baga indeiscente, bastante seca e de paredes espessas em Aristolochia, esquizocarpo em Aristolochia do tipo Euglypha. Semente com endosperma abundante, oleoso, sem amido, por vezes ruminado, embrião muito pequeno; rafe por vezes formando um eleossoma ariloide. Pólen inaperturado, tectado, ectexina granular-columelar, exceto em Saruma (pólen semi-arquitecturado-reticulado com sulco reduzido) e em algumas espécies de Asarum e em Aristolochia punjabense com grãos polifurcados ou mais raramente policolpados, uma aquisição derivada. Número cromossómico: Asarum tem cromossomas muito grandes; 2n = 24-52 tendendo em formas avançadas para 8-28; são conhecidos os seguintes números: em Asaroideae: n = 6, 12, 13, 18, 20, 26; em Aristolochioideae: (4-)6-7(-28). Assume-se que x = 7.
Fitoquímica Muitos membros do género Aristolochia e alguns do género Asarum contêm a toxina ácido aristolóquico (ou aristoloquina), que desencoraja os herbívoros e é conhecida por ser carcinogénica em ratos. As espécies de Aristolochia são considerdas cancerígenas para os humanos.
A subfamília Asaroideae é rica em lignoides em contraste com a Aristolochioideae, rica em alcaloides baseados em benzilisoquinolina, por exemplo aristoloquina (ácido aristolóquico). A inulina foi detetada em Aristolochia.
Distribuição e ecologia Aristolochiaceae tem ocorrência catalogada em inúmeras regiões de todo o mundo. Divide-se este grupo, habitualmente, em duas subfamílias distintas: Asaroideae e Aristolochioideae, às quais acresce duas pequenas subfamílias, Lactoridoideae, com uma única espécie nas ilhas Juan Fernández, e Hydnoroideae, um grupo de plantas parasíticas. A primeira conta com 85 espécies distribuídas, em sua maioria, ao Norte da Ásia, em regiões de clima, predominantemente, temperado. Já a segunda subfamília, Aristolochioideae, é amplamente difundida em regiões tropicais e subtropicais do mundo.
As borboletas da espécie Battus philenor põem os seus ovos sobre espécies do género Aristolochia e as suas larvas alimentam-se da planta, mas não são afectadas pela toxina, cuja concentração nos seus tecidos oferece à borboleta adulta proteção contra predadores.
Algumas espécies apresentam aposematismo, com folhas que imitam as de outras plantas (e.g. Passiflora), o que parece estar relacionado com a dependência das lagartas das borboletas do género Battus (Papilionidae) nestas plantas. Esta adaptação pode também ser a razão para as folhas palmato-pecioladas de Aristolochia platanifolia e de algumas outras espécies mexicanas de Aristolochia com folhas variáveis.
Flores usualmente protóginas, com polinização normalmente a cargo de dípteros (Ceratopogonidae, Milichiidae, Chloropidae). As flores são frequentemente portadoras de osmóforos para atrair os polinizadores, produzindo odores a carniça, almiscarado, frutado, a mofo ou urina, desenvolvendo estruturas semelhantes a fungos, com colorações contrastantes de roxo, preto e castanho com amarelo e verde, semelhantes a substâncias em decomposição. O tubo do perianto torna-se por vezes uma armadilha que retém os visitantes através de pequenas constrições basais que se abrem e conduzem a uma câmara final (utrículo) com pubescência araneiforme e nectários ou tricomas uncinados), óleos escorregadios ou ramentos rígidos que só os libertam após a polinização.
A autogamia existe nalgumas espécies com uma estrutura floral simples, como o Asarum europaeum. A dispersão é principalmente por mirmecocoria em espécies onde a rafe da semente desenvolve um eleossoma. Nas outras espécies, a dispersão é por anemocoria e as sementes têm frequentemente asas ou expansões membranosas. A epizoocoria é conhecida em espécies com sementes pequenas e pegajosas, como em Aristolochia odoratissima e a hidrocoria em Aristolochia clematitis, Aristolochia cornuta e Aristolochia weddellii, enquanto a endozoocoria está documentada em Aristolochia triactina, cuja polpa dos frutos cheira a banana e sabe a anona.
A maioria das espécies tropicais vive em habitats de floresta tropical, enquanto as formas temperadas estão adaptadas às mudanças sazonais de temperatura. A associação trófica com diferentes géneros de borboletas (Papilionidae) em diferentes regiões é notável, por exemplo, Battus na América do Norte, Archon e Zerynthia no Paleártico e vários outros géneros na Ásia oriental.
Usos Devido às substâncias farmacologicamente activas que contêm, as espécies desta família desempenharam e continuam a desempenhar um papel importante em diferentes farmacopeias, principalmente as pertencentes ao género Asarum devido aos óleos essenciais dos seus rizomas, ricos em sesquiterpenos e fenilpropanoides, e aos membros da subfamília Aristolochioideae devido ao ácido aristolóquico, derivado de alcaloides do tipo aporfinas.
O ácido aristolóquico é nefrotóxico e carcinogénico. A sua ingestão tem sido associada a um quadro clínico caracterizado por uma fibrose intersticial renal rapidamente progressiva (nefropatia da erva chinesa) que conduz rapidamente a uma insuficiência renal crónica, juntamente com o desenvolvimento de tumores uroteliais do trato urinário superior.