Manguebeat (também grafado como manguebit ou mangue beat) é um movimento de contracultura brasileiro. Surgiu a partir de 1991, na cidade de Recife, e se destaca pela combinação original de diversos gêneros musicais, unindo ritmos regionais, como o maracatu, o rock, o hip hop, o funk e a música eletrônica. O movimento preza pela valorização das culturas regionais nordestinas e desenvolvimento de um senso local de identidade própria, além de criticar as condições de vida da população e o estado de conservação do manguezal. É representado por um caranguejo, animal típico dos mangues e fonte de alimentação para as comunidades locais, sendo o início do movimento marcado pelo manifesto Caranguejos com Cérebro — é interessante observar que no manifesto, a imagem símbolo descrita pelo seu autor, Fred Zero Quatro, é uma antena parabólica enfiada na lama e não um caranguejo). Alcançou sucesso internacional com a banda Chico Science & Nação Zumbi.
Etimologia O termo “manguebeat” vem da junção da palavra "mangue", um ecossistema típico da costa do Nordeste brasileiro, com a palavra "beat", do inglês, que significa batida.
O mangue pernambucano já havia sido abordado na literatura por João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina, de 1955, e por Josué de Castro em Homens e Caranguejos, de 1967. Entretanto, nos contextos destas obras, o ecossistema era descrito principalmente pela pobreza e pela fome. Chico Science, por outro lado, buscou associar a complexidade orgânica dos manguezais à diversidade da cena musical local.
O termo "Manguebit" foi utilizado pela primeira vez em 1992, por Fred Zero Quatro, como nome de uma faixa lançada por sua banda, Mundo Livre S/A, e composta em resposta a "Manguetown", de Chico Science & Nação Zumbi. Quando elaborou o termo, Fred Zero Quatro já pensava em gerar confusão entre os termos bit e beat, mas não tinha como objetivo dar este nome ao movimento. Segundo o grupo Nação Zumbi o movimento foi pensado simplesmente como "mangue", tendo sido apelidado de manguebeat pela mídia à época.
História thumb|180px|As obras de Josué de Castro, principalmente o romance "Homens e Caranguejos", foram importantes influências para a concepção do movimento Manguebeat. Antecedentes A base do Manguebeat começou no final da ditadura militar no Brasil, no início da década de 1980. O relaxamento da censura aumentou a disponibilidade de música importada, especialmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, levando a um aumento do rock brasileiro. No Recife, universitários, entre eles alguns dos fundadores do movimento, DJ Renato L. e Fred 04, iniciaram um programa de rádio chamado Décadas, facilitando ainda mais a influência do rock, principalmente da música underground da Inglaterra, levando a um grande aumento em bandas de rock de Recife. Fred 04 observa que quando a Mundo Livre S/A começou em 1984, as condições econômicas precárias e a falta de um circuito musical no Recife tornaram especialmente difícil para eles e grupos musicais semelhantes encontrarem lugares para tocar. No início dos anos 90, Paulo André Pires, que se tornaria o empresário da Nação Zumbi, começou a produzir shows em Recife e convidou bandas locais e internacionais para se apresentar.
Em 1990, a Organização das Nações Unidas publicou um estudo que colocava Recife como a quarta pior cidade do mundo para se viver, levando em conta aspectos como cultura e segurança pública. Temas como desigualdade social seriam de interesse de Fred Zero Quatro e Renato L, tornando-os próximos às obras de Josué de Castro, pioneiro na interpretação da fome como uma questão política, e não natural, no livro Geografia da Fome.
O romance "Homens e Caranguejos" é tido como a base conceitual do manguebeat. No prefácio do livro, Josué de Castro afirma que bairros do Recife como Afogados, Pina, Santo Amaro e Ilha do Leite o fizeram tomar conhecimento do fenômeno da fome, e não as universidades. O autor prosseguiria com este raciocínio ao comparar em seu texto os caranguejos que vivem nas lamas dos manguezais aos seres humanos que viviam da venda da carne dos mesmos crustáceos. Fred Zero Quatro falaria sobre este "ciclo do caranguejo" e seu eventual colapso em Sob o Calçamento, presente no álbum Samba Esquema Noise, enquanto Chico Science abordaria a dinâmica em Manguetown, lançada no álbum de 1996, Afrociberdelia, mas já performada em shows da Nação Zumbi desde antes de seu álbum de estreia.
No final da década de 1980 e começo de 1990, os polos boêmios do Recife, principalmente os bairros de Pina, Boa Viagem e Brasília Teimosa, eram importantes pontos culturais locais, com shows de bandas novas, como Mendigos da Corte e Orla Orbe, aliados a apresentações periódicas de artistas consagrados como Marco Polo Guimarães, Lula Côrtes e o show de lançamento do álbum Olho de Peixe, de Lenine.
Ao ouvir Chico Science pela primeira vez em uma performance mashup de Loustal e Lamento Negro, Fred 04 pensou que a combinação da justaposição local/global, bem como a localização geográfica, poderia lançar o que viria a ser o movimento Mangue em algo que destacaria a diversidade do Recife.
Início e ascenção comercial
Em 1991, foi publicado o manifesto Caranguejos com Cérebro, escrito pelos jornalistas Fred Montenegro e Renato Lins, que posteriormente ficariam conhecidos como Fred 04 e DJ Renato L. Seu título refere-se aos habitantes do Recife como caranguejos que vivem no ambiente de mangue da cidade. Um dos principais símbolos associados ao manguebeat é o de uma antena presa na lama recebendo sinais de todo o mundo.
O objetivo do movimento surgiu de uma metáfora idealizada por Fred 04, ao trabalhar em vídeos ecológicos. O ecossistema manguezal é chave na biodiversidade global, sendo o autor do primeiro manifesto do manguebeat em 1992, intitulado Caranguejos com Cérebro.
O Manguebeat precisava formar uma cena musical tão rica e diversificada como os manguezais. Devido a principal bandeira do movimento ser a diversidade, a agitação na música contaminou outras formas de expressão culturais como o cinema, a moda e as artes plásticas, influenciando muitas bandas do Brasil, principalmente em Pernambuco. Com o surgimento de várias bandas no cenário local, gravadoras como Sony, Virgin e outras em destaque deram início a uma contratação dessas bandas.
O movimento é marcado pela presença de diversas classes sociais. Enquanto Chico Science nasceu em uma família de classe média baixa no bairro de Rio Doce, na cidade de Olinda, a banda Mundo Livre S/A tinha sede no bairro de Candeias, área nobre de Jaboatão dos Guararapes. Fábio Trummer, vocalista da pernambucana Banda Eddie, precursora do manifesto dos Caranguejos com Cérebro, cita a convivência de diferentes tribos e grupos sociais nas praias de Pernambuco como uma influência para as bandas do movimento misturarem diferentes estilos musicais.
Trecho do manifesto:"um rótulo que usamos para um tipo de cooperativa cultural… que reunia algumas bandas [particularmente Nação Zumbi e Mundo Livre S/A], alguns artistas visuais, alguns jornalistas, alguns desempregados. E a ideia, o rótulo mangue surgiu porque Recife é uma cidade construída sobre os manguezais. Nossa ideia na época [no início dos anos 1990] era tentar criar uma cena cultural aqui no Recife que fosse tão rica e diversificada quanto os manguezais, porque os mangues são talvez o ecossistema com a maior biodiversidade do planeta. Então a ideia era criar uma cena cultural… que tivesse a mesma diversidade, que não ficasse presa a um único ritmo, a um único estilo ou a uma única moda."O Manifesto dos Caranguejos com Cérebro foi incluído no encarte de "Da Lama ao Caos", álbum de estreia de Chico Science & Nação Zumbi lançado em 1994 que vendeu mais de 100 mil cópias. Josué de Castro é citado como pessoa de interesse do movimento Manguebeat no manifesto e na faixa "Da Lama ao Caos", apesar de José Teles afirmar que Chico Science não teria lido nenhuma obra do geógrafo até pouco antes de sua morte.
No ano seguinte seria lançado pela banda Sepultura o álbum Roots, incorporando ao death metal elementos percussivos das culturas indígena e afrobrasileira. O álbum foi influenciado pelo álbum Da Lama ao Caos e publicamente dedicado ao movimento Manguebeat. Posteriormente, Roots inspiraria várias bandas, como Korn, Slipknot e System of a Down, a realizarem fusões sonoras no subgênero que ficaria conhecido como nu metal
A divulgação da cultura popular e sua fusão à cultura de massa presente no Movimento Manguebeat foi por vezes comparada à antropofagia, à Tropicália e ao Movimento Armorial. Morte de Chico Science e declínio thumb|180px|O uso de acessórios tradicionais, como o chapéu de palha, aliado a itens da cultura pop, como os óculos escuros, é um aspecto importante da identidade visual do Manguebeat. Em 1996, Chico Science entendia que o manguebeat não tinha alcançado sucesso comercial coletivamente pois o mercado nacional estava mais interessado em grupos como É o Tchan! e as bandas do movimento não pretendiam fazer parte disso. O jornalista Ricardo Alexandre entende que bandas de manguebeat como Mestre Ambrósio e Paulo Francis Vai Pro Céu não tiveram sucesso nessa época pois o rock alternativo não conseguia mais ter o destaque dos anos anteriores.
Em 1997, a Mundo Livre S/A também não tinha alcançado sucesso comercial com a venda de seus dois primeiros discos, apesar de relevantes no cenário musical e de alavancarem uma série de shows na América do Norte. Em 2 de fevereiro, Chico Science morreria em um acidente de carro próximo ao Recife. Sua imagem era tão relevante para o estado de Pernambuco que Ariano Suassuna esteve presente em seu funeral. Apesar da relevância cultural do movimento e das bandas que fizeram parte, apenas Chico Science & Nação Zumbi obtiveram números relevantes de vendas. Os próprios músicos não pensavam em fazer parte do mainstream e da world music.
Otto declarou que, graças à influência de Chico Science, aspectos tradicionais da música pernambucana foram incorporadas à MPB, como na faixa "Inclassificáveis", lançada por Arnaldo Antunes em 1996 com participação de Science. Em 1998, foi lançada em Portugal a coletânea Tejo Beat, cujo nome faz referência ao Manguebeat, com o objetivo de divulgar bandas novas. No início da década de 2000, o surgimento do Re:Combo, movimento copyleft que carrega músicas meio sampleadas para download, é entendido como o início da segunda onda do Manguebeat. Contemporaneamente, surge o grupo Cordel do Fogo Encantado a partir de uma trupe de teatro itinerante com raízes em uma forma de literatura conhecida como literatura de cordel.
Na atualidade miniatura|Monumento Caranguejo com Cérebro, localizado na Rua da Aurora, no Recife. Um dos fundadores da Nação Zumbi, Gilmar Bolla 8, citou festivais pernambucanos como Abril Pro Rock, Rec Beat e Coquetel Molotov como fatores para a constante renovação da cena cultural do estado. O percussionista formou, na década de 2010, o grupo Combo X, ao lado de Naná Vasconcellos e Jadson Vale
O nome artístico da cantora pernambucana Duda Beat faz referência ao movimento. Em 2025, o rapper Mago de Tarso declarou ter sido influenciado pelo Manguebeat em seu álbum O Som do Litoral.