thumb|Pintura de 1789 mostrando o sultão otomano Selim III em audiência em frente ao Portão da Felicidade, no Palácio Topkapı, a residência imperial e centro de poder do Império Otomano

thumb|Esculturas de cabeças de touro descobertas em Çatalhüyük, provavelmente uma das cidades mais antigas do mundo

A História da Turquia inicia-se nos tempo pré-históricos mais antigos. A Turquia como país com a configuração atual só surgiu na década de 1920, quando o Império Otomano foi abolido e substituído pela República da Turquia, mas esta pode considerar-se uma legítima sucessora de uma série de impérios que tiveram o seu centro de poder no que é a Turquia contemporânea.

Apesar do nome do país e da longa história, a migração dos povos turcos para o território da atual Turquia é um fenómeno relativamente recente, com cerca de mil anos. Os turcos, povos cuja língua pertencem ao ramo das línguas turcomanas, começaram a emigrar das suas terras ancestrais para a Anatólia no .

Antiguidade e impérios romano e bizantino

A Península da Anatólia, que constitui a maior parte do que é hoje a Turquia, é uma das regiões continuamente habitadas desde há mais tempo em todo o mundo. Os assentamentos neolíticos mais antigos, como Pınarbaşı, Aşıklı Höyük, Kaletepe Deresi, Çatalhüyük, Çayönü, Nevalı Çori, Hacılar e Göbekli Tepe e Yumuktepe (esta última dentro da atual cidade de Mersin), encontram-se entre os mais antigos do mundo.

left|thumb|Parte dos lendários muros de Troia (VII), identificado como cenário da Guerra de Troia (c. )

O assentamento de Troia foi fundado no Neolítico e foi habitado até à Idade do Ferro. Ao longo da história, os anatólios falaram línguas indo-europeias, semíticas e caucasianas meridionais, além de outras de filiação incerta. A antiguidade da língua hitita indo-europeia e das línguas luvitas levou alguns estudiosos a pôr a hipótese da Anatólia ter sido o centro a partir do qual as línguas indo-europeias se difundiram.

Os hatitas (ou Hati) foram um povo que habitou o centro da Anatólia cerca de , senão antes. Os hititas estabeleceram-se na Anatólia e gradualmente absorveram os hatitas, cerca de , fundando primeiro grande império da área, que existiu entre os e , rivalizando em poder com o Antigo Egito.

O assentamento calcolítico de Canés (Nesa em hitita), situada junto à atual aldeia de Cultepe, perto de Caiseri, habitado desde o , tornou-se o primeiro entreposto comercial da história. No existiam no local duas localidades — a cidade hitita de Caneche e a de Carum, uma colónia assíria, onde florescia o comércio entre hititas e assírios. Os assírios colonizaram partes do que é hoje o sudeste o centro-leste da Turquia entre e , ano em que os Caldeus da Babilônia conquistaram o Império Neoassírio.

thumb|upright|Vaso cerâmico de fruta hitita do primeiro quarto do encontrado em Cultepe. Do acervo do Museu das Civilizações da Anatólia (Anadolu Medeniyetleri Müzesi), em Ancara

Após o colapso do império hitita, os frígios, outro povo indo-europeu, estabeleceu o Reino da Frígia, o mais poderoso estado da região até que foi destruído pelos cimérios no Os estados mais poderosos dentre os sucessores da Frígia foram os reinos da Lídia, da Cária e da Lícia.

A partir de , as costas da Anatólia foram intensamente colonizadas por gregos eólios e jónicos, que fundaram inúmeras cidades importantes, como Mileto, Éfeso, Esmirna e Bizâncio. O primeiro estado estabelecido na Anatólia que foi chamado de Arménia pelos povos vizinhos, mencionado por Hecateu de Mileto e na inscrição de Beistum, foi o da dinastia orôntida, fundado no , durou até .

A Anatólia foi conquistada pelo Império Aqueménida nos séculos VI e e posteriormente por Alexandre, o Grande em Após a morte de Alexandre, a Anatólia foi dividida em pequenos reinos helenizados, nomeadamente Bitínia, a Capadócia, Pérgamo e o Ponto. Todos estes reinos tinham sido absorvidos pela República Romana em meados do A Arménia Arsácida, o primeiro estado da história a adotar o Cristianismo como religião oficial, ocupava parte da Anatólia Oriental.

Em 324, o imperador romano Constantino escolheu Bizâncio para capital do Império Romano, rebatizando-a de Nova Roma (após a sua morte mudaria de nome para Constantinopla e atualmente chama-se Istambul). Constantinopla foi também a capital do Império Romano do Oriente, que existiu intermitentemente entre 286 e o , e que passaria a ser conhecido como Império Bizantino, sobretudo depois da Queda do Império Romano do Ocidente, no final do .

Primeiros reinos turcos e Império Otomano

upright=1.2|thumb|esquerda|O topo da Kızıl Kule (Torre Vermelha) e Castelo de Alanya, construções seljúcidas do em Alanya

Os seljúcidas eram um ramo dos turcos oguzes (Kınık Oğuz ou Oğuzlar) que no viviam na periferia dos domínios muçulmanos dos Abássidas, a norte dos mares Cáspio e de Aral, num dos yabghu khagans da confederação oguz. No os seljúcidas começaram a abandonar as suas terras ancestrais e a migrar para as regiões orientais da Anatólia, que se tornariam a pátria dos oguzes após a Batalha de Manzicerta, em 1071, na qual os turcos derrotaram os bizantinos. Esta vitória foi determinante para a formação do Sultanato seljúcida da Anatólia (ou Sultanato de Rum), que começou como um ramo separado do Império Seljúcida que dominava partes da Ásia Central, Irão, Anatólia e Sudoeste Asiático.

Em 1243 os exércitos seljúcidas foram derrotados pelos mongóis, o que causou a progressiva desintegração do poder seljúcida, que na prática passou para as mãos de uma série de principados (beilhiques ou beyliks) que, tendo começado por ser tributários do Sultanato de Rum, ganharam independência a partir do . Um destes beilhiques, o dos otomanos (osmanlı), acabou por se impor aos restantes, principalmente a partir do reinado de , que declarou a independência em 1299 e é oficialmente considerado o fundador da dinastia otomana. O beilhique otomano expandiu-se ao longo dos dois séculos seguintes, absorvendo os restantes estados turcos da Anatólia, e conquistando territórios na Trácia, Bálcãs e no Levante, tornando-se o Império Otomano. Em 29 de maio de 1453 os otomanos liderados pelo sultão (Fatih), acabaram com o Império Bizantino ao conquistarem a sua capital, Constantinopla, um acontecimento que muitos consideram marcar o fim da Idade Média.

thumb|O Império Otomano em 1683

O Império Otomano atingiu o seu apogeu nos séculos XVI e XVII, quando foi uma das maiores potências mundiais, particularmente durante o reinado de Solimão, o Magnífico, que durou de 1520 a 1566. No final do os territórios sob administração otomana estendiam-se sobre uma área de 5,6 milhões de km², que ia desde os Balcãs e partes da Hungria a oeste, até ao que são hoje os países árabes, além de quase toda a costa mediterrânica do Norte de África e de todas as áreas costeiras do Mar Negro.

Os otomanos confrontaram-se em várias ocasiões com Sacro Império Romano-Germânico nos seus avanços em direção à Europa central através dos Balcãs e das regiões meridionais da República das Duas Nações (Comunidade Polaco-Lituana), chegando a cercar Viena em 1529 e 1683. A expansão dos turcos para ocidente só foi travada graças a coligações que envolveram a maiores potências cristãs.

No mar, os otomanos combateram pelo controle do Mediterrâneo com a Liga Santa, constituída por diversos estados cristãos, nomedamente a República de Veneza, a Espanha e Áustria dos Habsburgos, os Cavaleiros de São João (Ordem de Malta) e a generalidade dos estados italianos. A expansão marítima otomana no Mediterrâneo só foi detida pela derrota na Batalha de Lepanto (7 de outubro de 1571). No Oceano Índico os otomanos combateram contra as armadas portuguesas para defenderem o monopólio ancestral do comércio marítimo entre a Índia e Ásia Oriental com a Europa, seriamente ameaçado pela descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama em 1498. Além dos confrontos militares com cristãos, os otomanos defrontaram-se ocasionalmente com os persas (por vezes aliados dos portugueses) nos séculos XVI, XVII e XVIII, quer por disputas territoriais, quer por diferendos religiosos.

upright=1.2|thumb|esquerda|A Batalha de Lepanto, travada em 1571 entre as armadas cristãs da Liga Santa (Mediterrâneo) comandadas por João de Áustria e a armada otomana, comandada por Müezzinzade Ali Paxá na costa grega, perto do . A vitória dos cristãos foi determinante para parar a expansão otomana no Mediterrâneo

Os séculos XVIII e XIX foram de declínio para o Império Otomano e durante este período o império foi gradualmente diminuindo em tamanho, poderio militar e riqueza. No final do e início do a Alemanha de Guilherme II tornou-se um dos principais aliados do império, o que levou os otomanos a entrar na Primeira Grande Guerra ao lado dos Impérios Centrais. Apesar das vitórias obtidas por Mustafa Kemal (que viria a ficar conhecido por Atatürk), nomeadamente a da Galípoli, uma derrota inesperada para as forças britânicas e francesas, onde morreram quase meio milhão de homens de ambos os lados e que fez de Mustafa Kemal um herói nacional, a guerra representou uma pesada derrota para o Império Otomano.

Durante a guerra, ocorreram deportações em massa e massacres contra as minorias cristãs, contrariando a tradição secular de tolerância e convivência pacífica que caracterizava o regime otomano. Os otomanos temiam que as comunidades cristãs pudessem apoiar subversivamente os Aliados, nomeadamente a Grécia, que não disfarçava os seus planos de ocupar uma parte considerável dos territórios otomanos, incluindo Constantinopla (a Megáli Idea), e o Império Russo, que apoiava a criação de um estado independente arménio. As populações arménias foram particularmente afetadas, calculando-se que o chamado genocídio arménio se tenha cifrado em cerca de 1,5 milhões de mortos. Além dos arménios, foram mortos muitos civis de etnia grega e assíria. Tais massacres continuam a ser oficialmente negados pelas autoridades turcas.

thumb|Fotografia tirada em Gallipoli em 7 de janeiro de 1916, pouca antes da evacuação final das forças britânicas

Poucos dias após o Armistício de Mudros, de 30 de outubro de 1918, que marcou o fim das hostilidades da Primeira Grande Guerra no Médio Oriente, as potências europeias vitoriosas ocuparam Constantinopla, tendo as primeiras tropas chegado à cidade a 12 de novembro. Esmirna foi ocupada por tropas gregas a 21 de maio de 1919.

Em 1917, antes do fim da guerra, a França, Itália e Reino Unido tinham assinado o Acordo de Saint-Jean-de-Maurienne, que previa a partilha do Império Otomano após o fim da guerra. A 10 de outubro de 1920 o débil governo imperial foi forçado a assinar o Tratado de Sèvres, o qual previa a entrega à França e ao Reino Unido da Palestina, Síria, Líbano e Mesopotâmia, a desmilitarização e transformação em zonas internacionais dos estreitos do Bósforo, dos Dardanelos e do Mar de Mármara. O tratado determinava ainda a entrega à Grécia de todos os territórios europeus à exceção de Constantinopla e da região de Esmirna, de grande parte do leste e sudeste da Anatólia à França e da região de Antália e as ilhas do Dodecaneso (estas já efetivamente ocupadas desde 1911) a Itália.

Guerra de independência

thumb|left|Mapa da partição do Império Otomano prevista no Tratado de Sèvres assinado em 1920|alt=|350x350px

A ocupação de Istambul pelos Aliados e de Esrmina pelos gregos, com o apoio tácito dos restantes Aliados, despoletou a criação do Movimento Nacional Turco, criado em 19 de maio de 1919 sob a liderança de Mustafa Kemal. O movimento opunha-se à divisão e ocupação do país e a sua fundação é geralmente apontada como o primeiro evento da Guerra de independência turca.