As Brigadas Revolucionárias (BR) foram uma organização portuguesa que defendia a luta armada como forma de derrubar o regime fascista e de conseguir a autonomia das Províncias ultramarinas portuguesas. Foram fundadas em 1970 por um grupo de dissidentes do Partido Comunista Português, liderado por Isabel do Carmo e Carlos Antunes, como colaboradores dos sector de católicos progressistas.
O primeiro alvo das BR foi o Depósito de Munições NATO de Lisboa, em Setúbal, em 7 de novembro de 1971. As ações seguintes teriam como alvo o regime e suas instituições (Ministério das Corporações; Movimento Nacional Feminino) e o esforço de guerra colonial (15 camiões Berliet; o recrutamento militar; Serviços Mecanográficos e cartográficos). Ações de índole simbólica como a largada de porcos vestidos de almirante no Rossio e Alcântara denunciaram a farsa eleitoral da renomeação do Almirante Américo Tomás como Presidente da República em 1973.
Após dois anos de propaganda política, as BR conseguiram criar pequenos grupos partidários nos sindicatos, associações de trabalhadores e organizações católicas, que dariam origem ao Partido Revolucionário do Proletariado (PRP), em setembro de 1973. A articulação entre as duas entidades foi bastante evidente após o 25 de Abril de 1974 e principalmente durante o PREC numa estrutura/organização apelidada da Partido Revolucionário do Proletariado/Brigadas Revolucionárias (PRP/BR).
O PRP-BR acabaria por se extinguir em 1980, devido a disputas internas e à perda de diversos integrantes, incluindo os dirigentes Carlos Antunes e Isabel do Carmo, presos por acusações de assaltos a bancos e à colocação de engenhos explosivos. Outros elementos foram presos e condenados por acusações de assaltos a bancos, morte de pessoas e à colocação de engenhos explosivos. A dIscussão relacionada dividiu a sociedade civil e o parlamento, em que Natália Correia, deputada do PSD defenderá a sua libertação "Pela democracia, pela justiça", em conjugação com o Presidente Ramalho Eanes. Muitos militantes continuaram a sua atividade política, transferindo-se para a Organização Unitária de Trabalhadores.
Das origens durante a ditadura e o período antes do 25 de Abril de 1974
Contexto da ditadura A ditadura oprimiu a população portuguesa durante décadas. Enquanto isso, a sociedade mudou, favorecendo uma oposição natural ao regime. A primavera Marcelista seria ineficaz perante a incapacidade de resolver a questão da guerra colonial e a crescente radicalização da juventude, como por exemplo após as "eleições" de 1969.Cardina, Miguel (2010) O Essencial sobre a Esquerda Radical. Biblioteca Mínima. Angelus Novus. Uma parte desta juventude decidiu recorrer à luta armada.
Fundação A criação das Brigadas Revolucionárias em 1970 marcou a segunda grande ruptura política dentro do Partido Comunista Português (PCP) no que diz respeito à violência armada. Esta ruptura foi o culminar da resistência de alguns militantes do PCP como Isabel do Carmo e Carlos Antunes, à narrativa pacifista dominante no partido. Esta posição reforçada pela continuação da Guerra Colonial e pela desilusão que se seguiu à Primavera Marcelista. O uso da violência revolucionária era visto pelos fundadores das BR como uma arma política e como uma forma de solidariedade para com a luta dos movimentos independentistas em África.
As BR sempre defenderam a estruturação revolucionária do proletariado, em que a luta armada e a luta de massas deveriam convergir. Assim, a luta armada foi o racional para a constituição de uma organização armada e a razão que explica porque é que a organização politica que normalmente sustentam os grupos terroristas só surgiu anos mais tarde, em Outubro de 1973, com a criação do Partido Revolucionário do Proletariado (PRP), passando a actual quase como uma única organização, a partir dessa data.
Atividades As Brigadas Revolucionárias realizaram a sua primeira ação, dia 7 de novembro 1971, com um ataque à bomba a uma base da NATO na Fonte da Telha. As ações seguintes teriam como alvo o regime e suas instituições (Ministério das Corporações; Movimento Nacional Feminino) e o esforço de guerra colonial (15 camiões Berliet; o recrutamento militar; Serviços Mecanográficos e cartográficos). Também inclui ações de índole simbólica como a largada de porcos vestidos de almirante no Rossio e Alcântara, para denunciar a farsa eleitoral da renomeação do Almirante Américo Tomás como Presidente da República em 1973.
A 31 de Dezembro de 1972, as BR aproveitaram a famosa acção de ocupação e vigília da Capela do Rato para efectuarem um conjunto de atentados à bomba em vários locais de Lisboa. Duas crianças, Jaime Costa, de sete anos, e Ana Paula Costa, de dez anos, decidiram brincar com um objecto onde era visível um relógio, que acabou por explodir-lhe nas maos. Era um dos muitos engenhos explosivos que as Brigadas Revolucionárias tinham colocado em caixotes do lixo de Lisboa e arredores. As crianças eram filhas de uma mulher-a-dias, analfabeta e de um jardineiro da Câmara Municipal de Lisboa. O rapaz, Jaime ficou sem os dedos de uma das mãos e um defeito de visão. Ana Paula Costa perdeu a visão de um dos olhos. Segundo o historiador António Araújo um processo crime que mais tarde veio a ser instaurado pela DGS, em finais de 1973, a um conjunto de pessoas, muitas das quais tinham participado na Vigilia da Capela do Rato, nomeadamente Nuno Teotónio Pereira, permite concluir que o lançamento da vigília do Rato se inscreve numa lógica de trabalho clandestino que vinha sendo desenvolvido já há bastante tempo por alguns católicos em íntima ligação com as Brigadas Revolucionárias.
Contudo dentro das BR o debate sobre que tipo de ações violentas a desenvolver foi sempre muito intenso. Os militantes vindos do PCP, incluindo os seus fundadores, foram sempre contra o uso de violencia letal, defendendo a realização de ações espetaculares e mediáticas para chamar a atenção nacional e internacional para as questões políticas e coloniais portuguesas. As Brigadas Revolucionárias defendiam inicialmente uma luta armada não letal, focada em destruição de infraestruturas e veículos, tendo no seu militantismo conjunto com o Partido Revolucionário do Proletariado vindo a falhar neste propósito, por vezes acidentalmente, por vezes premeditadamente. A direção conjunta com o PRP terá empurrado a união para o terrorismo, havendo inclusive directrizes internas que "traidores eram para matar", algo que alguns ex-dirigentes se viriam a tentar demarcar.
O surgimento do PRP-BR "Em fins de 1973, ainda sobre regime fascista" surge o PRP-BR, juntando ex-membros da CDE, as BR e outros anti-fascistas e anti-capitalistas, alguns vindos da Frente Patriótica de Libertação Nacional- FPLN. Em face da então fraude eleitoral recorrente em Portugal e do golpe anti-democrático de Pinochet no Chile, o PRP defendia a revolução socialista e a ditadura do proletariado. As ações vão focar-se na sabotagem ao quartel general do exército em Bissau e na do navio Niassa.
O PRP/BR não era uma organização política que tinha um braço armado, nem tão pouco um aparelho militar que tinha um braço político mas muitas vezes confundiam-se entre si. Os militantes das BR estavam enquadrados no PRP, mas nem todos os militantes do PRP participavam nas actividades das BR. Ainda assim, durante a sua existencia e principalmente após o 25 de Abril, o PRP confundiu-se com as BR, sendo esta ultima responsável pelas acções armadas e assaltos a bancos e instituições de finanças, sendo que os valores roubados nos assaltos serviriam para financiar o PRP recebendo em troca cobertura politica, agitação e propaganda. Na pratica, não existiam muitas fronteiras entre os dois grupos, nem politicas nem humanas. A apresentação pública em 1975, na conferência de imprensa da passagem à clandestinidade das BR, com dirigentes conhecidos do PRP de cara descoberta e militantes do BR encapuçados é demonstrativo disso mesmo.
Do 25 de Abril ao 25 de Novembro Apesar da liberdade conquistada com o 25 de Abril, as BR não deixaram à violência armada, os atentados, assaltos a bancos ou repartições da fazenda publica, sendo que a sua frequência foi aumentando.
Com a radicalização e dirigismo cada vez maior da extrema-esquerda, a seguir ao 11 de Março de 1975, com o apoio e protecção do Copcon liderado por Otelo Saraiva de Carvalho, o PRP/BR conquistou protagonismo e influência cada vez maiores. O PRP/BR defendia junto do Copcon que a forma de reforçar a Aliança Povo/MFA seria necessário constituir um grande exercício formado por militares e por membros das organizações populares de base (comissões de trabalhadores, de moradores, etc) devendo este constituir este um enorme exército revolucionário.
Em Setembro de 1975 recebem 1000 G3, entregues pelo capitão Álvaro Fernandes, a Isabel do Carmo e Carlos Antunes, o que foi publicamente denunciado pela imprensa afecta as forças democráticas do PS, PSD e CDS, o que faria abortar o resto da operação. Otelo não mostrou grande preocupação, "Sei pelo menos que as armas se encontram à esquerda e isso é uma satisfação muito grande. Se elas se encontrassem à direita, é que era perigoso. Como se encontram à esquerda, para mim estão em boas mãos".
Com a crescente tensão e polarização e violência crescente que se caracterizaram as semanas antes do 25 de Novembro, levam as BR a equacionar a clandestinidade. Com esta decisão, o PRP pretendia preservar a estrutura militar e os paióis de armamento de que já dispunha. Ao mesmo tempo, começou a apelar à insurreição armada como forma de os trabalhadores tomarem o poder, continuando a defender a urgente criação de um exército revolucionário, que articulasse os militares revolucionários e os civis armados organizados nas estruturas do poder popular.“Manifesto”, Revolução, n.º 53, 14 de Novembro de 1975 Assim, a 23 de outubro de 1975, as Brigadas Revolucionárias anunciam o seu regresso à clandestinidade separando-se, pelo menos em termos publicos, tentar-se distinguir do PRP.Expresso, 25 de Junho de 1985, Revista p13
Do 25 de Novembro até à prisão e julgamento
Em 1978, acentuaram-se as diferenças internas no seio das BR com consequência do bombardeamento de um comboio de mercadorias na Mauritânia, que causou a morte de oito soldados. O ataque foi reivindicado pela Frente Polisário, no entanto, foi organizado pelos Serviços Secretos argelinos e levado a cabo por militantes da BR. Este foi o primeiro ataque das BR intencionalmente destinado a causar mortes. A maioria dos líderes do PRP, que estavam na prisão por assaltos a bancos, negaram o conhecimento desta ação, sustentando que tinha sido realizado por um grupo de dissidentes que passou a iniciar o FP-25.
Entretanto, após a prisão dos operacionais ocorrida em Março e dos principais dirigente ocorrida em 20 de Junho de 1978, os réus liderados por Isabel do Carmo e Carlos Antunes exigiam para si o papel de presos políticos em contradição com a posição do Ministério Público que os considerava presos de delito comum, em virtude dos crimes pelos quais eram acusados, constarem assaltos a bancos e carrinhas de valores, atentados à bomba contra instalações militares, postos da GNR e destruição de propriedade privada. Várias das acusações terminaram juridicamente com a condenação de vários dos envolvidos, incluindo dos dirigentes (Carlos Antunes e Isabel do Carmo), entre outros.Expresso, 20 de Dezembro de 1980 pg 1R a 9RExpresso, 11 de Abril de 1981, Primeiro Caderno P9