Marcolina de Oxum (Abeocutá, 18?? - Bahia, 19??) foi uma sacerdotisa afro-brasileira que viveu, provavelmente, entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do XXLOPES. 2004, p. 544.. Integrante da Irmandade da Boa Morte, destacou-se como uma das matriarcas religiosas mais influentes de sua geração — embora, paradoxalmente, tenha sido alvo de silenciamentos e apagamentos históricos.
Na Bahia, a Ìyálòdè ajudou a fundar — ou, como se dizia, “plantar” — diversos axés e templos religiosos. Muitos desses espaços, entretanto, renegaram posteriormente sua participação, contribuindo para o obscurecimento de sua memória. Seu templo tornou-se um lugar sagrado de intensas hibridizações afro-brasileiras, reunindo tradições ibominas, iorubás, fons, muçurumins (malês) e outras matrizes. Marcolina é matriarca do Axé Igbomina Malê.
Alcunha A ibomina Marcolina era conhecida como Marcolina da Cidade da Palha, por ter residido em uma localidade assim denominadaPossuía vários casebres de palha para abrigar leprosos., correspondente à atual Cidade Nova, em Salvador. A designação não lhe era exclusiva: era comum que comunidades de culto aos orixás fossem identificadas pelo nome do lugar onde se estabeleciam.
Origem africana Segundo a tradição oral igbomina no Brasil, Marcolina nasceu em terra ebá, em AbeocutáDr. Jonathan Olumide Lucas. A religião dos yorubas. Lagos, Livraria CMS: 1948: Segundo Olumide Lucas, Eba é sinônimo de Ibô (Ibomina)., cidade associada ao culto de Ogum. Não era descendente direta de Iemanjá, como por vezes se supôs. Aos defensores da autenticidade e do purismo étnico, é importante ressaltar que não há pureza étnica no que tange ao ser humano. Logo, o mesmo vem em contínuos processos de hibridações desde sempre. O fato de ela ser iniciada e descendente de Oxum não interfere (ou contradiz) em sua natalidade em terra ebá. Em criança, ela fora iniciada e consagrada no culto à divindade e ancestral Oxum, tornando sacerdotisa de sua família e etnia.
Seu nome de família era Oxunuoim Faderô (Òṣunwoyin Fadérò). Ainda criança, foi iniciada no culto à ancestral e divindade Oxum, tornando-se sacerdotisa no âmbito de sua família e etnia.
Foi traficada durante o período de intervenção inglesa em Abeocutá, a partir de 1850, quando conflitos regionais e disputas internas intensificaram o comércio escravista e invasão daomeanaGEBARA, Alexsander L. de Almeida. A África presente no discurso Richard Francis Burton. São Paulo: USP, p. 88.. Chegou à Bahia muito jovem, na condição de escravizada, pertencendo à Família Santos. Trazia consigo, amarrado ao busto, um pequeno seixo (ocutá) consagrado à sua ancestral OxumPENNA. 2008, p. 18. — gesto que simboliza a continuidade da linhagem espiritual mesmo na ruptura violenta do cativeiro.
Trajetória no Brasil Chegada à Bahia ainda menina, com cerca de dez a quinze anos, Marcolina foi instalada como escravizada. Pouco se sabe sobre os primeiros anos de sua vida no Brasil. Sua alforria teria sido adquirida por membros de sua própria etnia ou por irmãos e irmãs de religiosidade, embora não haja documentação conclusiva a esse respeito.
Já liberta, passou a circular por diferentes localidades do Recôncavo Baiano. Em Ilhéus, ao lado de companheiros de fé, iniciou o culto a seus ancestrais e aprofundou os conhecimentos ligados às tradições familiares e às Ìyàmi. Mais tarde estabeleceu-se em Cachoeira, já tornada mulher, onde consolidou sua atuação religiosa.
Em Santo Amaro conheceu Feliciano Fagberu, alufá muçurumim, ex-escravizado e iniciado para Obatalá. Uniu-se a ele, passando a viver entre Cachoeira e São Félix. Sob a orientação conjunta do casal, os neófitos do sexo masculino eram introduzidos no culto de IfáPrática que se tornou prosaica nos templos de seus descendentes religiosos., preservando uma tradição que articulava herança igbomina e cultura malê.Segunda a tradição ibomina, no Brasil, todas as pessoas iniciadas/consagradas no culto a orixá devem também ser apresentadas a Ifá, já que, para "cuidar" dos seus ancestrais, é preciso ter essa apresentação/iniciação. Se for do caminho individual da pessoa (aquele para o qual veio destinado a trilhar no mundo), a mesma, posteriormente, deverá ser iniciada nesse culto, tornando-se um alufá ou ianifá.
Já com cerca de quarenta anos, retorna com o companheiro a Abeocutá, onde recebeu o título de ialodê (iyá egbé gelede), na sociedade de Oxum, em Oxobô. Esse retorno à terra de origem marcou um momento decisivo de reafirmação identitária e religiosa.
De volta ao Brasil, fixou-se por um período na Cidade de Palha (atual Cidade Nova, em Salvador). Em 1905, seu nome apareceu em registros policiais relacionados ao tratamento espiritual de uma jovem chamada Eudóxia Machado, que frequentava seu candomblé. O episódio evidencia tanto sua notoriedade quanto a vigilância constante exercida sobre os templos afro-brasileiros naquele período.
Espaço religioso Seu espaço religioso localizava-se na antiga Estrada das Boiadas — posteriormente Estrada da Liberdade (atual Lima e Silva) — nas proximidades da Cidade de Palha. O templo era consagrado a Obatalá, orixá de seu marido, na cumeeira mantinha-se o ibá (cabaça, assentamento) contendo a pedra de OxumPrática que se tornou prosaica nos templos de seus descendentes religiososque a sacerdotisa trouxera da África. A casa tornou-se conhecida como candomblé muçurumim ou culto dos alufás, revelando a forte presença da tradição malê em sua organização ritual.
Marcolina não se filiou aos axés que se institucionalizavam na Bahia, embora tenha ajudado a fundar diversas casas religiosas. Ela manteve sua própria família, preservando ensinamentos de sua tradição ancestral e de seu companheiro muçurumim. Falava fluentemente iorubá e era reconhecida pelo domínio dos saberes ligados às folhas, tanto medicinais quanto espirituais.
Em seu templo iniciou muitos neófitos, embora não haja dados acerca disso ou pessoas suficientes que a reconheçam como tal. É como se seu nome fosse apagado da história.
Personalidade e conflitos De personalidade firme e independente, não se submetia às hierarquias emergentes. Era descrita como mulher alta, forte, vistosa, de canela fina, negra massuda, de presença imponente, comunicativa e combativa. Embora não se importasse com a opinião alheia, era conhecida como brigona. Era capaz de ir à casa da pessoa e chamá-la para briga. Não admitia, por exemplo, que fosse chamada de "figueira do inferno".Mulher infértil. Sua postura gerou conflitos com sacerdotisas de outras casas. Foi pioneira ao iniciar um homem como elegum (rodante, incorporação) — e não como ogã — para um eboráNa parte do Baixo Salvador, já havia homens eleguns iniciados para vodum.: Procópio Xavier de Souza, o célebre Procópio d’Ogum. Essa decisão rompeu convenções vigentes e contribuiu para o isolamento posterior da sacerdotisa e de seu iniciado.
Procópio também enfrentou resistência em determinados templos, onde era alvo de críticas e preconceitos por exercer função considerada imprópria para homens (entrar na roda das baianas) segundo normas hegemônicas da época. No entanto, algumas oralidades dizem que, por ser bastante brigão, ele impunha respeito à força.Procópio: notório homossexual, segundo o Grupo Atobá. Todavia, em relato oral, sua filha Edna diz que seu pai era um homem tranquilo. Ainda assim, ambos mantiveram seguidores e aliados, sobretudo entre comunidades jeje e em localidades como Cachoeira, Boa Ventura e São Félix. Foi contemporânea e amiga de sacerdotisas como Dionísia Francisca, Pulchéria, Massi e Bada.
Reconhecimento e memória Segundo a sacerdotisa Dazinha de Ogum (Bahia, 1916), Marcolina foi uma das guardiãs dos segredos da Irmandade da Boa MorteEm setembro de 1912, no jornal A ORDEM, o nome de Marcolina aparece como Juíza-Dd da Irmandade da Nossa senhora da Boa Morte. "Cachoeira, 15 de agosto de 1912", sendo sua madrinha quando jovem. Ela diz que era uma negra de pele fina, cabelo comprido, usando um pente largo no cabelo, intrépida e atrevida. Ajudou a criar inúmeras filhas da roça do Ventura e do Capivari. Já idosa, retornou à fazenda do Capivari, onde faleceu, sendo velada por senhoras integrantes da Irmandade da Boa Morte. Pressentindo a morte, devolveu ao rio o seixo (ocutá) que trouxera da África — gesto simbólico de restituição à ancestral Oxum.
A africana Marcolina de Abeocutá, ex-propriedade da Família Santos, ex-companheira do malê Feliciano de Obatalá, sacerdotisa ibomina de Oxum, mais conhecida como Marcolina da Cidade de Palha, faleceu esquecida aproximadamente pelos idos de 1940, com quase 110 anos de idade. Segundo fontes orais, foi enterrada no Cemitério dos Pretos, em Cachoeira (BA). Segundo fontes orais, foi enterrada no chamado Cemitério dos Pretos, em Cachoeira (BA).
Registros históricos Em Águas de Meninos (Bahia), Mãe Marcolina tinha uma banca em que vendia na feira fato (bucho) de boi e moqueca de fato de boi. Era especialista no assunto, uma grande cozinheira. No entanto, se alguém desaprovasse seu "fato", xingava e espraguejava a pessoa. Era uma ialorixá bastante famosa, pois era muito procurada por seus conhecimentos religiosos. Marcolina foi mencionada no jornal Diário de Notícias, em 9 de maio de 1905, em notícia policial referente ao tratamento espiritual de Eudóxia Machado. Também é citada por Nina Rodrigues em Os Africanos no BrasilRODRIGUES. 1982, p. 367..
De acordo com a notícia:"A autoridade policial abriu inquérito a fim de descobrir a verdade sobre o fato propalado da loucura da moça, que deu motivo ao cerco, constando chamar-se ela Eudóxia, e já se achar, em continuação do tratamento, no candomblé de uma tal Marcolina, na cidade de Palha, 2° distrito de Santo Antônio".Segundo Antônio Penna de Obatalá (2008, p. 18), Marcolina de Oxum é reconhecida como a grande matriarca do Axé Obá Ibo (sociedade religiosa afro-brasileira em homenagem a Obatalá), sendo sua trisavó de santo.
Parte dessas informações foi transmitida pelo sacerdote Vicente do Matatu, responsável pelos ritos fúnebres de Procópio d’Ogum.
Bibliografia LUCAS, Jonathan Olumide. A religião dos yorubas. Lagos, Livraria CMS: 1948 GEBARA, Alexsander L. de Almeida. A África presente no discurso Richard Francis Burton. São Paulo: USP. LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. Rio de Janeiro: Selo Negro, 2004. PENNA, Antonio dos Santos. Mérìndilogun Kawrí - Os Dezesseis Búzios. Rio de Janeiro: A. Santos Penna, 2008. PENNA, Fábio Rodrigo. Um confraria dos igbominas no Brasil. Rio de Janeiro. F. R. Penna, 2011. Base textual para este artigo. RODRIGUES, R. Nina. Os Africanos no Brasil. 6ª ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1982. D. Ishaq Al-Sulaimani. The Greater Igbo Nation - Identifying Igbo variants during the ERA of the slave trade. Cultural Education Institute of New Jersey.
Categoria:Sacerdotes de religiões afro-brasileiras