thumb|Monumento comemorativo do V Centenário da descoberta dos Açores, inaugurado em 15 de Agosto de 1932, em Vila do Porto. Posteriormente, em 11 de Julho de 1960, colocou-se-lhe uma Palma de Bronze, símbolo das comemorações henriquinas thumb|Convento de Cristo, Tomar: sede da Ordem da Cristo, a cujos quadros pertencia Gonçalo Velho thumb|Castelo de Almourol, Portugal thumb|Monumento dos 500 anos da passagem de Cristóvão Colombo por Santa Maria (1493-1993) thumb|Calhau da Roupa, Vila do Porto: aqui desembarcaram corsários thumb|Cerâmica típica mariense: talhão
Uma historiografia da história da ilha de Santa Maria, no arquipélago dos Açores, Portugal, iniciar-se-á necessáriamente pela obra "Saudades da Terra", do padre Gaspar Frutuoso (1522-1591). O manuscrito, escrito entre 1586 e 1590,RODRIGUES, Rodrigo. "Notícia biográfica do Dr. Gaspar Frutuoso". In Saudades da Terra, Livro I, p. XXXIX. divide-se em seis volumes, e inscreve-se numa história mais ampla, a da região que hoje referimos como Macaronésia, numa dimensão atlântica. A ilha de Santa Maria é abordada no Livro III.
Na era Moderna, destacam-se o "Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores", de frei Diogo das Chagas (1584-1661), as "Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores", de frei Agostinho de Monte Alverne (1629-1726),Destacando-se, por exemplo, a descrição dos templos e conventos da ilha à época, em seu Livro I. e a "História Insulana das Ilhas a Portugal Sujeitas no Oceano Ocidental", do padre António Cordeiro (1641-1722).
No século XIX, nomeadamente com o advento do Liberalismo, renovam-se os estudos sobre o tema, destacando-se a "Corografia Açórica" (1822), de João Soares de Albergaria de Sousa (1776-1875). Este período é marcado ainda pela recolha de textos e documentos, como por exemplo a "Coleção de Variedades Açorianas", de José de Torres (1827-1874), do "Arquivo dos Açores", por Ernesto do Canto, e as "Escavações", de Francisco Maria Supico.COSTA, Susana Goulart. Açores, Nove Ilhas, Uma História. Institute of Government Studies Press / University of California, Berkeley, 2008. ISBN 978-0-9819336-0-3 p. xxv-xxvi. Em termos de literatura de viajantes, destacam-se as impressões sobre Santa Maria registadas pelo capitão Boid, secretário do almirante britânico George Rose Sartorius, que à época da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), a bordo do brigue "Conde de Vila Flôr", aqui aportou para tomar refrescos,BOID (Captain). "A Description of the Azores, or Western Islands from personal observation". London: Bull & Charton, 1834. 376p. il. e as do escritor português Raul Brandão, em meados de 1924, a bordo do vapor "N/T S. Miguel" (Empresa Insulana de Navegação), quando visitou os arquipélagos da Madeira e dos Açores.BRANDÃO, Raul. "As Ilhas Desconhecidas", 1926.
No século XX destacam-se a publicação da "Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores", com prefácio de Manuel Monteiro Velho Arruda, em edição comemorativa do V Centenário do Descobrimento dos Açores (1432-1932), e da "Descripção da Ilha de Sancta Maria por José Carlos de Figueiredo, Tenente Coronel d'Engenheiros, que em 1815 ali foi em Comissão" na revista Insulana, em 1960.
De uma forma geral, a pesquisa histórica para a ilha é dificultada pela ausência de fontes documentais, nomeadamente para os séculos XVII e XVIII, espalhadas por arquivos fora da ilhaOs principais fundos documentais sobre a ilha encontram-se depositados na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, a saber: (a) o "fundo Manuel Monteiro Velho Arruda", constituído por cópias de documentos feitas por este pesquisador, e em sua maior parte publicadas no Arquivo dos Açores em seu volume XV; (b) o "fundo José António Velho Arruda", descendente do primeiro e autarca de Vila do Porto na década de 1950, constituído por documentação original dos séculos XVII a XX, por ele reunida em vida e legada em testamento à instituição; e (c) o "fundo Branca Leandres de Sousa", constituído por documentos diversos, ainda não inventariado. Adicionalmente, no "fundo Ernesto do Canto", na mesma instituição, encontra-se depositado um volume de testamentos de Santa Maria, do século XVI. ou mesmo perdidas devido a fatores históricos, ambientais, ou mesmo destruição deliberada. Revestem-se assim, de maior relevância, outras fontes como as patrimoniais, arqueológicas e linguísticas.
Uma listagem das personalidades que exerceram cargos de governação em Santa Maria pode ser encontrada na Lista de governantes dos Açores.
Antecedentes
A descoberta, denominação e povoamento inicial da ilha Embora em termos de historiografia se admita hoje a data do descobrimento do arquipélago dos Açores por Diogo de Silves em 1427,Conforme a carta de Gabriel de Valseca de 1439 que refere "Estas ilhas foram achadas por Diogo de Silves [ou Sunis?] piloto de El-Rei de Portugal no ano de 1427". O original, entretanto, apresenta uma mancha de tinta sobre o nome do piloto e a data da descoberta, o que historiograficamente deu margem a diversas interpretações, quer do nome, quer da data – 1432 - , pelos seus diversos estudiosos: 2° visconde de Santarém, Ernesto do Canto, Gonçal de Reparaz i Ruiz, Aires de Sá, Júlio Mees e Damião Peres o cronista Diogo Gomes de Sintra em 1460 referiu a ilha simplesmente como Ilha de Gonçalo Velho:
"A mais chegada ylha dos Açores se chama Sancta Maria he ylha pequena e redonda. E tem huas baixas quasi em meo que se chamõ as Formigas por q sõ oyto bicos penedos sobre agoa.
Jaz esta ylha norte sull cõ a ylha de Sã Miguel e ha no traues 12 legoas e as Formigas quasi no meo.
Anno de 1444 mãdou ho Iffãte Dom Anrrique por capitã huu caualleyro chamado Gonçalo Velho comêdador da Ordê de Christus a pouorar esta ylha e outras, e pos a esta seu nome. s. ylha de Gonçalo Velho e despois da sua morte lhe poserõ nome ylha de Sancta Maria. Este capitã lançou nella porcos e vacas e ouelhas e cabras. E viueo nesta ylha alguns ãnos.""De inventione insularum de Açores", Manuscrito Valentim Fernandes.
Frutuoso, posteriormente, confirma que, no Verão de 1431 Gonçalo Velho Cabral terá descoberto os ilhéus das Formigas:
"Pelas informações e notícia que o Infante D. Henrique tinha destas ilhas dos Açores, (...) no ano do Senhor de mil e quatrocentos e trinta e um, (...) tendo o dito Infante em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro, chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem, por sua virtude, grande esforço e prudência, tinha muita confiança, o mandou descobrir destas ilhas dos Açores a ilha de Santa Maria, ou, porventura, também esta de São Miguel; o qual, aparelhando o navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e, navegando com próspero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar e se vêem da ilha de Santa Maria, e de uns marulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem; (...).
Vindo a estas Formigas Frei Gonçalo Velho no novo descobrimento (...), não achando ilha frutuosa e fresca, senão estériles e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras, tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante seu senhor se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, donde partiram, sem mais ver outra coisa que terra parecesse, e dando esta nova ao Infante D. Henrique, juntamente dizendo seu parecer, que não havia por este mar outras terras senão aquelas duras pedras que nele somente acharam."FRUTUOSO, Gaspar. Saudades da Terra, livro III, capítulo I.
O cronista prossegue, narrando a descoberta da ilha de Santa Mariano (1432) e referindo a de São Miguel (1444):
"Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra coisa (...) no ano seguinte tornou, com rogos e com promessas (como alguns dizem), a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem, (...) houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1458. Mas isto não pode ser, porque commumente se disse e afirmou sempre, e assim se acha em algumas lembranças de homens graves desta ilha de São Miguel, que foi achada depois da ilha de Santa Maria ser descoberta doze anos, e se achou na era de 1444, como depois direi tratando dela; pois se esta ilha de São Miguel se achou nesta era de 444 e a ilha de Santa Maria foi achada primeiro que ela doze anos, como todos dizem, e nunca caiu isto da memória dos homens, quem de 1444 tira doze ficam 1432, que é o ano em que se achou a ilha de Santa Maria."FRUTUOSO, Gaspar. Saudades da Terra, livro III, capítulo II.
O arranque oficial da colonização do arquipélago foi determinado por carta régia de D. Pedro (regente durante a menoridade de D. Afonso V) passada em 2 de Julho de 1439, ao mesmo Gonçalo Velho, que deveria povoar as sete ilhas então conhecidas, onde já anteriormente mandara lançar gado:
"A quantos esta carta virem fazemos saber que o infante D. Henrique, meu tio, nos enviou dizer que ele mandara lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores e que, se nos aprouvesse, que as mandaria povoar. E porque a nós isso apraz, lhe damos lugar e licença que as mande povoar."ANTT. Chancelaria de D. Afonso V, Liv. 19, fl. 14.
O povoamento iniciou-se naquele mesmo ano pela ilha de Santa Maria, seguida pela de São Miguel. Para incentivá-lo, a carta de 5 de Abril de 1443 concedeu a Gonçalo Velho, comendador do arquipélago, e aos moradores e povoadores das ilhas a isenção do pagamento da dízima e portagens "de todas as coisas que delas trouxerem ao reino".
Quanto ao local do primeiro estabelecimento, terá sido o do desembarque inicial pelos descobridores, erguendo-se a primeira casa e iniciando-se a lavoura de trigo:
"Como entraram, e a primeira terra que tomaram, onde saíram, foi, da banda de Oeste, em uma curta praia de uma abra que se faz antre a ponta da terra, que se chama a Praia dos Lobos, e outra ponta, que se chama o Cabrestante, onde vai sair ao mar uma pequena ribeira que corre todo o ano, chamada a ribeira do Capitão, por correr pelas suas terras, que naquela parte depois tomou para si, que são a Faneca, Monte Gordo, Flor da Rosa, Paúl, Roça das Canas, donde nasce aquela ribeira que vai ter ali ao mar, junto do Cabrestante; onde se fez pelo tempo adiante o primeiro coval [sementeira], junto da mesma ribeira, em uma pedra mole, como tufo, e amarela, como barro, que se corta à enxada, a que chamam saibro, no qual saibro, onde quer que o há na ilha, se dá o melhor vinho dela; onde se encovou o primeiro trigo que deu a terra.
(...) Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto do mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha, e por isso escolheu depois ali o Capitão suas terras, que são as melhores da ilha, e dão mais e melhor fruto e trigo, quase como o de Alentejo, quando o ano é temperado e bom."FRUTUOSO, Gaspar. Saudades da Terra. Livro III, capítulo II.