Os Museus Castro Maya são dois museus brasileiros localizados na cidade do Rio de Janeiro – o Museu do Açude, no Alto da Boa Vista, junto à Floresta da Tijuca, e o Museu da Chácara do Céu, no bairro de Santa Teresa. São museus públicos federais, subordinados ao Instituto Brasileiro de Museus, e têm por objetivo preservar, pesquisar e divulgar a coleção de arte do empresário brasileiro Raymundo Ottoni de Castro Maya.
Os Museus Castro Maya são sucessores da Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya, organização privada sem fins lucrativos criada em 1963 por Castro Maya para perpetuar sua coleção e promover atividades culturais. Em 1983, ameaçada por uma séria crise financeira, a fundação foi extinta, e todos os seus bens foram incorporados ao patrimônio da União, visando assegurar a integridade da coleção.
Os Museus Castro Maya conservam um acervo amplo e diversificado, composto por mais de 22.000 peças, a maior parte adquirida por Castro Maya entre as décadas de 1920 e 1960, e outras herdadas de seu pai, amealhadas desde o fim do século XIX. O acervo contempla amplos conjuntos de arte brasileira e brasiliana, do século XVI em diante (destacando-se as maiores coleções públicas de obras de Jean-Baptiste Debret e Cândido Portinari), arte européia dos séculos XIX e XX (incluindo um vasto núcleo de azulejaria e louça do Porto), artes aplicadas e arte oriental, além da biblioteca. Os museus mantêm agendas fixas de atividades culturais e educativas e contam com a participação da sociedade civil por meio de uma associação de amigos.
Formação do acervo Castro Maya, o pai A coleção hoje conservada pelos Museus Castro Maya tem início muito antes da instituição legal da fundação responsável por administrá-los em 1963. Sua origem remonta ao fim do século XIX, quando foi iniciada pelo engenheiro e diplomata maranhense Raymundo de Castro Maya, pai do quase homônimo Raymundo Ottoni de Castro Maya. Homem de grande cultura, integrante da corte do Segundo Reinado, Castro Maya fora convidado pessoalmente por D. Pedro II para ser preceptor de seus netos. Era casado com Theodósia Ottoni de Castro Maya, herdeira da tradicional família mineira dos Ottoni e filha de Christiano Benedicto Ottoni, primeiro diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II, em cujo projeto Castro Maya havia trabalhado.Alencar (ed.), 1996, pp. 28. 200px|thumb|right|Raymundo de Castro Maya e sua esposa, Theodósia Ottoni de Castro Maya. Após a queda da monarquia e o subsequente banimento da Família Imperial do território brasileiro, o governo republicano provisório decidiu livrar-se dos bens dos Orléans e Bragança e de qualquer objeto que lembrasse o regime deposto ou a figura do imperador. Com este intento, organizou o "leilão do Paço de São Cristóvão", pondo a venda objetos históricos, obras de arte, artefatos arqueológicos, mobiliário e antiguidades que pertenciam à família. Foi por ocasião do "leilão do Paço" que Castro Maya iniciou sua coleção, adquirindo um grande número de lotes (quase todos doados por seu filho ao Museu Imperial, décadas mais tarde). Após as aquisições, seguindo os passos da Família Imperial, os Castro Maya deixaram o Brasil, estabelecendo-se em Paris.
Na capital francesa, Castro Maya deu continuidade à coleção, formando o núcleo do que viria a ser os Museus Castro Maya. Em 1892, adquiriu em leilão no Hôtel Drouot telas de Gustave Courbet, Théodore Rousseau, Hippolyte Bellangé e, nomeadamente, Vista da baía do Rio de Janeiro tomada das montanhas da Tijuca, de Nicolas-Antoine Taunay, outrora pertencente à coleção do dramaturgo Étienne Arago.Herkenhoff, Paulo, in Alencar (ed.), 1996, pp. 11. Colecionou gravuras, na condição de membro-fundador da Société des Amis de l'Eau-Forte. Devotou-se igualmente à bibliofilia, adquirindo raros volumes de brasiliana e tornando-se membro da Société des Cents Bibliophiles. Também dedicou-se a formar um notável núcleo de numismática, adquirindo moedas da antiguidade grega, romana e bizantina (este núcleo do acervo foi leiloado por seu filho em 1957, após encomendar moldagens em gesso das peças).
Em 1894, Castro Maya assumiu o cargo honorífico de Vice-Cônsul brasileiro em Paris, mas ficou pouco tempo na função, retornando com a família para o Brasil em 1899. O patriarca, entretanto, continuaria empreendendo viagens constantes à Europa até a década de 1920. Aproveitava essas ocasiões para ampliar sua coleção, trazendo para o Rio de Janeiro telas de Rosa Bonheur, Antoine Vollon e Félix Ziem, entre outros, bem como peças orientais, objetos artísticos para fins decorativos, como tapetes persas, mobiliário de luxo, elementos arquitetônicos coloniais, prataria e ourivesaria, estatuetas em bronze etc. Aproveitava também as oportunidades que apareciam no mercado interno, tendo adquirido nos leilões de J. Dias dos Santos no Rio de Janeiro, por exemplo, uma segunda pintura de Taunay (Festa napolitana) e uma paisagem de Constant Troyon. Foi também o primeiro Castro Maya o responsável por adquirir as propriedades onde, futuramente, seriam instalados os museus que hoje levam o nome da família. Em 1898, comprou a Chácara do Céu e, em 1913, o Sítio do Açude. A residência principal da família, entretanto, continuava a ser o palacete da Rua Guanabara (atualmente, Rua Pinheiro Machado), no bairro de Laranjeiras.Herkenhoff, Paulo, in Alencar (ed.), 1996, pp. 12. 200px|thumb|right|A falésia de Étretat, óleo de Gustave Courbet (1869). Adquirida por Castro Maya no leilão do Hôtel Drouot em 1892. A coleção de arte amealhada por Castro Maya é altamente representativa do interesse desenvolvido pelos colecionadores brasileiros na segunda metade do século XIX pela arte francesa. É também uma das quatro grandes coleções de arte francesa do Rio de Janeiro que seriam posteriormente legadas a instituições públicas (juntamente com as coleções particulares do Conde de Figueiredo, do joalheiro Luiz de Rezende e dos Barões de São Joaquim, todas herdadas pelo Museu Nacional de Belas Artes). É particularmente interessante o fato de que todas as coleções supracitadas revelam, ainda que com graus variados de intensidade, indícios de interesse pelo Realismo de Courbet, pelas paisagens da Escola de Barbizon e pelo Pré-Impressionismo. Castro Maya e outros destacados colecionadores do Rio de Janeiro pareciam dispostos a superar o interesse pela afetada arte pompier que até então imperava nas coleções particulares nacionais, em parte devido ao debate estético mais avançado e ao ambiente artístico mais desenvolvido da então capital federal (em comparação às demais regiões do território brasileiro), mas, sobretudo, porque o Realismo, a Escola de Barbizon e os pré-impressionistas eram símbolos, quer na França, quer no Brasil, da "emergência do espírito da Revolução Industrial, assentado no individualismo frente à natureza e distanciado da invenção acadêmica da paisagem", conforme definição de Paulo Herkenhoff - espírito que poderia ser facilmente associado às famílias Ottoni e Castro Maya, estreitamente vinculadas ao processo de modernização dos transportes no Brasil.Herkenhoff, Paulo, in Alencar (ed.), 1996, pp. 13.
Castro Maya, o filho thumb|right|Raymundo Ottoni de Castro Maya na década de 1930. Raymundo Ottoni de Castro Maya nasceu em Paris, em março de 1894, pouco antes de o pai assumir o cargo de Vice-Cônsul do Brasil na capital francesa. Veio com a família para o Brasil em 1899, passando a residir no bairro carioca de Santa Teresa. Frequentou o Colégio Santo Inácio entre 1905 e 1911 e, em 1915, graduou-se em direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Em 1917, começou a auxiliar o pai nas atividades empresariais, assumindo o cargo de diretor-tesoureiro da Companhia Geral de Melhoramentos no Maranhão. Ao lado do irmão, Paulo de Castro Maya, Raymundo passou a compor a direção da empresa. Além das atividades corporativas, Raymundo interessava-se, nesse período, pela pesca e esportes aquáticos. Dedicava-se, ademais, com pouca regularidade, ao colecionismo. Suas primeiras aquisições, feitas em colaboração com seu irmão, Paulo, tinham finalidade decorativa, sendo destinadas à residência na Chácara do Céu em Santa Teresa e ao apartamento que ambos dividiam em Paris.Alencar (ed.), 1996, pp. 21.Alencar (ed.), 1996, pp. 52.Alencar (ed.), 1996, pp. 58.
No campo das artes visuais ocidentais, a primeira aquisição de relevo de Raymundo foi o óleo A fazenda de Saint Siméon do pré-impressionista Eugène Boudin, comprado em um leilão em 1923. É possível que tal aquisição tenha sido influenciada pela doação, feita no ano anterior, de um conjunto de vinte pinturas de Boudin à Escola Nacional de Belas Artes, pelos barões de São Joaquim. Junto com Paulo, Raymundo também buscou reunir, na década de 1920, peças orientais, como pinturas, gravuras, esculturas e biombos, a maioria provenientes da Índia, da China e do Japão. O estímulo talvez tenha sido a visita feita à Exposição Colonial Francesa, sediada em Marselha em 1922, que teve na arte oriental um dos grandes destaques. De toda forma, quer no campo da arte ocidental ou da arte oriental, as primeiras aquisições dos irmãos Raymundo e Paulo ecoam referências estéticas herdadas do pai, como o apreço pela pintura francesa de paisagensAlencar (ed.), 1996, pp. 84. e o desejo de registrar um generalizante "exotismo" que era atribuído, no Ocidente, à arte oriental. thumb|left|Mulher com criança num bote, óleo de Berthe Morisot (1892). Com a morte do pai em 1935, Raymundo tornou-se o único herdeiro de uma tradição colecionista. Seu irmão mais velho, Christiano, falecera em 1923 e Paulo, por sua vez, morreu em um acidente aéreo sobre a Baía de Guanabara em 1928. Raymundo herdou 25% dos bens do pai, incluindo-se a maior parte de sua coleção, bem como as residências da Chácara do Céu e do Sítio do Açude. Passou a dedicar-se com progressivo afinco ao incremento do acervo, criando uma ponte entre o interesse paterno - centrado no Realismo e na Escola de Barbizon - e a arte de seu próprio tempo. Reuniu exemplares da produção dos artistas do Impressionismo, adquirindo obras de Claude Monet, Edgar Degas e Berthe Morisot, bem como obras de autores pré e pós-impressionistas. No campo da arte brasileira, buscou consolidar o núcleo da Coleção Brasiliana de seu pai, constituindo um sólido conjunto de obras relacionadas à Missão Artística Francesa e aos artistas viajantes, do século XVII ao século XIX.Herkenhoff, Paulo, in Alencar (ed.), 1996, pp. 14. Entre 1939 e 1940, Raymundo adquiriu amplos lotes de desenhos e aquarelas de Jean-Baptiste Debret, comprados por intermédio da Casa Heymann de uma sobrinha-neta do artista.Herkenhoff, Paulo, in Alencar (ed.), 1996, pp. 17.Herkenhoff, Paulo, in Alencar (ed.), 1996, pp. 18. Em 1940, organizou a primeira mostra com os originais de Debret no Museu Nacional de Belas Artes, intitulada A Missão Artística Francesa. Neste mesmo ano, viajou a Lisboa, onde comprou um lote de azulejos para decorar a residência do Açude.Alencar (ed.), 1996, pp. 22. thumb|left|Desembarque da princesa Leopoldina, aquarela de Jean-Baptiste Debret (1817).