Eadbaldo (inglês antigo: Ēadbald, ? – 640) foi o rei de Kent de 616 até sua morte em 640. Era filho do rei Etelberto e sua esposa Berta, filha do rei merovíngio Cariberto.Kelly, S.E. Eadbald. Oxford Online Dictionary of National Biography, 2004. Durante seu reinado, Etelberto transformou Kent na força dominante da Inglaterra e se tornou o primeiro rei anglo-saxão a se converter do paganismo ao cristianismo. A ascensão de Eadbaldo ao trono foi um revés significativo para o crescimento da Igreja, já que ele manteve-se pagão e não se converteu ao cristianismo por pelo menos um ano (ou talvez por até oito anos). Eadbaldo foi finalmente convertido por Lourenço ou Justo e se separou de sua primeira esposa, que havia sido sua madrasta, por influência da Igreja. A segunda esposa de Eadbaldo foi Emma, possivelmente uma princesa franca. Ela lhe deu dois filhos, Eormenredo e Earcomberto, e uma filha, Eansvida.

A influência de Eadbaldo era menor que a de seu pai, mas o reino de Kent ainda era poderoso o suficiente para ser omitido da lista de conquistas de Eduíno da Nortúmbria. O casamento de Eduíno com a irmã de Eadbaldo, Etelburga, estabeleceu um bom relacionamento entre os reinos de Kent e Nortúmbria, que parece ter continuado durante o reinado de Osvaldo. Quando Etelburga fugiu para Kent após a morte de Eduíno em meados de 633, ela enviou seus filhos à Frância como medida de segurança, temendo as intrigas de ambos Eadbaldo e Osvaldo. A linhagem real de Kent fez vários casamentos diplomáticos durante os anos seguintes, incluindo o casamento de Eanfleda, sobrinha de Eadbaldo, com Osvio, e de Earcomberto com Sexburga, filha do rei Ana da Ânglia Oriental.

Eadbaldo morreu em 640, sendo sucedido no trono por Earcomberto. Eormenredo pode ter sido seu primogênito, mas se ele sequer reinou foi apenas como rei subalterno.

Kent nas fontes primitivas thumb|200px|Situação da Inglaterra anglo-saxã na época do nascimento de Eadbaldo

A colonização de Kent por povos continentais, principalmente jutos, foi concluída até o final do .Yorke (1990), p. 26. O pai de Eadbaldo, Etelberto, provavelmente chegou ao trono em 589 ou 590, embora a cronologia de seu reinado é muito difícil de determinar com precisão.Kirby (1992), pp. 31–33. Etelberto foi registrado pelo cronista primitivo Beda como tendo soberania – ou imperium – sobre outros reinos anglo-saxões.Beda (1991), p. 111 Este domínio levou à prosperidade sob a forma de tributo, e Kent era um poderoso reino na época da morte de Etelberto em 616, com um bem-estabelecido comércio com a Europa continental.

A Britânia romana tinha sido totalmente cristianizada, mas os anglo-saxões mantiveram sua fé nativa. Em 597, Agostinho foi enviado à Inglaterra pelo Papa Gregório I com a missão de convertê-la ao cristianismo. Agostinho aportou no leste de Kent e logo conseguiu converter Etelberto, que lhe ofereceu terras na Cantuária. Dois outros monarcas, Seberto de Essex e Redualdo da Ânglia Oriental, foram convertidos através da influência de Etelberto.Beda (1991), p. 74Kirby (1992), pp. 30–37.

Uma importante fonte para este período na história de Kent é A História Eclesiástica do Povo Inglês, livro escrito em 731 por Beda, monge beneditino de Nortúmbria. O foco de Beda é, primeiramente, a cristianização da Inglaterra, mas ele também fornece informações substanciais sobre a história secular, incluindo os reinados de Etelberto e Eadbaldo. Um dos correspondentes Beda era Albino, abade do mosteiro de São Pedro e São Paulo (posteriormente rebatizado de Santo Agostinho), na Cantuária. Uma série de textos relacionados, conhecidos como lenda de Santa Mildreda, fornece informações adicionais sobre os eventos nas vidas dos filhos de Eadbaldo e lança alguma luz sobre o próprio Eadbaldo. A Crônica Anglo-Saxônica, uma coleção de anais reunidos em cerca de 890 no reino de Wessex, também fornece informações. Outras fontes incluem cartas papais, listas dos reis de Kent e cartas régias. Cartas régias eram documentos elaborados para gravar doações de terras pelos reis aos seus súditos ou para a Igreja, fornecendo algumas das fontes documentais mais antigas da Inglaterra. Nenhuma delas da época do reinado de Eadbaldo existe em sua forma original, mas há algumas cópias posteriores.Yorke (1990), p. 25.

Ancestralidade e família thumb|450px|esquerda|Árvore genealógica de Eadbaldo

A ancestralidade de Etelberto, o pai de Eadbaldo, é fornecida por Beda, que afirma que ele é descendente do legendário fundador de Kent, Hengist. Entretanto, os historiadores acreditam que Hengist e seu irmão Horsa foram, provavelmente, figuras da mitologia.Yorke, Barbara. Kent, kings of. Oxford Online Dictionary of National Biography, 2004. Sabe-se que Etelberto se casou duas vezes, uma vez que Eadbaldo se casou com sua madrasta após a morte de seu pai, o que causou consternação à Igreja.Kelly, S.E. Æthelberht I. Oxford Online Dictionary of National Biography, 2004.

Eadbaldo tinha uma irmã, Etelburga, que também era provavelmente filha de Berta. Etelburga se casou com Eduíno, rei da Nortúmbria, um dos reis anglo-saxões do . É possível que eles tenham tido um irmão, Etelvaldo; a evidência para isso é uma carta papal endereçada a Justo, arcebispo da Cantuária de 619 a 625, que se refere a um rei chamado "Adulualdo", que é aparentemente diferente a "Audubaldo", que se refere a Eadbaldo. Não há consenso entre os pesquisadores modernos: "Adulualdo" pode ser Etelvaldo e, assim sendo, indicar outro rei, talvez um sub rei de Kent Ocidental;Yorke (1990), pp. 32–33. ou pode ser meramente um erro ortográfico que deve ser lido como uma referência a Eadbaldo.Kirby (1992), pp. 37–42.

O arcebispo de Lourenço de Cantuária persuadiu Eadbaldo a aceitar o cristianismo e a renunciar sua esposa. Ele então se casou de novo e sua segunda esposa, segundo a tradição local registrada na lenda de Santa Mildreda, chamava-se Ymme e tinha sangue real dos francos, apesar de que tem sido sugerido, por pesquisadores modernos, que ela era a filha de Erquinoaldo, mordomo do palácio da Nêustria, parte ocidental da Frância.Yorke (1990), p. 29.Rollason (1982), p. 9.

Kent Ocidental e Oriental

As listas reais sobreviventes mostram apenas um rei governando Kent naquela época, mas sub reinos eram comuns entre os anglo-saxões e há evidências, do reinado de Clotário no final do , de que Kent era geralmente governada por dois reis, apesar de que apenas um deles dominava a política de fato. É menos concreto se esse era o caso antes de Clotário. Cartas forjadas preservam a tradição de que Eadbaldo governou durante o reinado de seu pai, presumivelmente como sub rei de Kent Ocidental. A carta papal que tem sido interpretada como indicadora da existência de Etelvaldo, irmão de Eadbaldo, se refere a ele como rei; se ele existiu, foi presumivelmente sub rei de Eadbaldo.

Os dois reinos de Kent eram Kent Ocidental e Kent Oriental. Kent Ocidental tem menos descobertas arqueológicas de tempos remotos do que Kent Oriental; as descobertas do reino oriental se distinguem em seu caráter por mostrarem influências dos jutos e francos. A evidência arqueológica, combinada com a divisão política em dois reinos, torna provável que a origem dos sub reinos tenha sido a conquista da porcão ocidental (que seria outro reino) por Kent, que teria sido a primeira área ocupada pelos invasores.Yorke (1990), p. 27.

Ascensão e reação pagã Eadbaldo ascendeu ao trono após a morte de seu pai em 24 de fevereiro de 616 (ou 618). Apesar de Etelberto ter sido cristão desde meados de 600 e de sua esposa Berta também ter sido cristã, Eadbaldo era pagão. Berta morreu algum tempo antes da ascensão de Eadbaldo e Etelberto se casou de novo. O nome da segunda esposa dele não foi registrado, mas é possível que ela fosse pagã, já que se casou com Eadbaldo, seu enteado, após a morte do marido – tal união era proibida pela Igreja.

Beda registrou que o repúdio de Eadbaldo ao cristianismo foi um "severo empecilho" ao crescimento da Igreja. Seberto, rei de Essex, se tornou cristão por influência de Etelberto, mas, com a morte dele, no mesmo período, seus filhos expulsaram Melito, bispo de Londres. Segundo Beda, Eadbaldo foi punido por sua falta de fé com "ataques frequentes de insanidade" e possessão por um "espírito do mal" (provavelmente em referência a ataques de epilepsia),Yorke (1990), p. 175. mas foi finalmente persuadido a renunciar sua esposa e adotar o cristianismo. A segunda esposa de Eadbaldo, Ymme, era franca, e pode ser que os fortes laços de Kent com a Frância tenham influenciado em sua conversão. É possível que os missionários da Cantuária tivessem o apoio dos francos. Na década de 620, a irmã de Eadbaldo, Etelburga, retornou a Kent, mas enviou seus filhos para a corte do rei Dagoberto I da Frância; além de laços diplomáticos, o comércio com os francos era importante para Kent. Especula-se que a pressão franca teve papel fundamental na conversão de Etelbaldo, assim como na conversão e no casamento de Eadbaldo, que teriam sido, todas, decisões diplomáticas.Yorke (1990), p. 39.

Em duas sepulturas de um preservado cemitério anglo-saxão dos séculos VI e VII em Finglesham foram encontrados um pingente de bronze e uma fivela dourada com desenhos que se relacionam um com o outro e podem ser símbolos de atividade religiosa envolvendo a divindade germânica de Odin. Esses objetos são provavelmente datados do período da reação pagã ao cristianismo liderada por Eadbaldo.Campbell (1991), pp. 24–25 e 48–49.

Descrição de Beda A descrição de Beda sobre a rejeição de Eadbaldo à Igreja e sua subsequente conversão é bastante detalhada, mas inconsistente. A versão de Beda para os eventos é a seguinte:

24 de fevereiro de 616: Etelberto morre e Eadbaldo ascende ao trono. 616: Eadbaldo lidera uma reação pagã ao cristianismo. Ele se casa com sua madrasta, em oposição à lei da Igreja, e se recusa a ser batizado. Na mesma época, Melito, bispo de Londres, é expulso pelos filhos de Seberto em Essex e foge para Kent. 616: Melito e Justo, bispo de Rochester, partem de Kent para a Francia. 616/617: Algum tempo após a partida de Melito e Justo, Lourenço da Cantuária planeja partir para a Francia, mas tem uma visão na qual São Pedro o flagela. Na manhã seguinte, ele mostra as cicatrizes a Eadbaldo, que se converte ao cristianismo.Beda (1991), p. 113. 617: Justo e Melito retornam da Francia. Justo é restabelecido em Rochester. 619: Lourenço morre e Melito o substitui como arcebispo da Cantuária.Beda (1991), p. 114. 619-624: Eadbaldo constrói uma igreja que é consagrada por Melito. 24 de abril de 624: Melito morre e Justo o substitui como arcebispo da Cantuária. 624: Após a ascensão de Justo, o Papa Bonifácio V escreve-lhe para dizer que ficou sabendo através das do rei "Aduluald" (possivelmente um erro do escriba) da conversão do rei de Kent. Bonifácio lhe envia um pálio com a carta, acrescentando que este somente deve ser usado para celebrar "os santos mistérios".Beda (1991), p. 116. Até 625: Eduíno de Deira, rei da Nortúmbria, pede a mão em casamento de Etelburga, irmão de Eadbaldo. Eduíno descobre que, para se esposar com ela, deveria praticar o cristianismo e se batizar.Beda (1991), p. 117. 21 de julho de 625: Justo consagra Paulino como bispo de Iorque. Julho de 625 ou mais tarde: Eduíno se concorda com os termos e Etelburga viaja para a Nortúmbria, acompanhada de Paulino. Páscoa de 626: Etelburga dá a luz a uma filha, Eanfleda. 626: Eduíno completa uma campanha militar contra a Saxônia Ocidental. Quase ao mesmo tempo, Bonifácio escreve cartas para Eduíno e Etelburga. A carta para Eduíno o orienta a aceitar o cristianismo e se refere à conversão de Eadbaldo. A carta para Etelburga menciona que o papa ouviu falar da conversão de Eadbaldo e encoraja-a a incentivar a conversão de seu marido, Eduíno.Beda (1991), p. 120.

Cronologia alternativa