A História de Action Comics, uma revista em quadrinhos americana, teve início em 1938 e desde então confunde-se com a história de seu protagonista, o super-herói Superman, embora outros personagens tenham figurado em destaque em suas páginas - os heróis da "Era de Ouro" Tex Thompson, Vigilante, Zatara e Congo Bill; a heroína Supergirl durante a "Era de Prata"; Asa Noturna, Canário Negro, Deadman, Falcão Negro e o Vingador Fantasma entre 1988 e 1989, durante o breve período em que a revista foi publicada semanalmente; e o vilão Lex Luthor, entre 2010 e 2011.

Lançada originalmente em abril de 1938 — sendo posterior à Adventure Comics (dezembro de 1935) e à Detective Comics (março de 1937), que, apesar da menor quantidade de edições, é a mais longeva revista em quadrinhos publicada continuadamente, pelo período em que já vem sendo lançada ininterruptamente — é considerada uma das mais importantes e emblemáticas revistas em quadrinhos existentes, e é atualmente comercializada em edições lançadas mensalmente e simultaneamente de forma digital e impressa. Apesar das alterações em suas periodicidade e formato, inclusive com a suspensão de sua publicação em mais de uma oportunidade, já teve mais de 900 edições lançadas, o que a torna, em quantidade de edições, a maior série de seu gênero na história dos Estados Unidos.

Dentre as histórias publicadas desde seu surgimento destacam-se, além do trabalho original de Jerry Siegel e Joe Shuster nas décadas de 1930 e 1940, responsável por estabelecer Superman como um personagem popular nos Estados Unidos e no mundo, as histórias Luthor Unleashed e Rebirth!, publicadas em Action Comics #544 (1983), uma edição comemorativa que celebrou o 45° aniversário da publicação, e responsáveis por reformular, respectivamente, os vilões Lex Luthor e Brainiac, e estabelecer algumas características que os acompanhariam a partir dali, e Whatever Happened to the Man of Tomorrow?, escrita pelo britânico Alan Moore e considerada uma das melhores e mais importantes histórias de Superman, cuja conclusão foi publicada em Action Comics # 583 (1986). A conclusão do evento crossover que encerraria a continuidade até então estabelecida, a minissérie Crise nas Infinitas Terras, levaria ao estabelecimento de uma nova continuidade, denominada "pós-Crise", que se estenderia até 2011

Entre 1986 e 2011, a revista passaria por três hiatos, com a suspensão de sua publicação em distintos períodos de 1986, 1993 e 2010. Nesse período foram publicadas histórias significativas como What's so Funny about Truth, Justice & the American Way?, escrita por Joe Kelly, publicada em Action Comics #775 (2001) e considerada pela Revista Wizard como uma das mais bem escritas da década de 2000. Nos anos seguintes, escritores como o americano Geoff Johns e o britânico Paul Cornell estiveram envolvidos de forma significativa na produção da revista. Mais de 900 edições haviam sido publicadas entre abril de 1938 e setembro de 2011, quando ocorreu o relançamento da revista sob um novo número 1, e o início de uma nova continuidade denominada "Os Novos 52". O escritor Grant Morrison foi o responsável pelos roteiros da revista no início dessa nova fase, estabelecendo uma história de origem reformulada para Superman durante as primeiras 18 edições da revista. Posteriormente, Morrison seria sucedido por outros profissionais, dentre estes destacando-se o trabalho de Greg Pak e Aaron Kuder. Entre 2015 e 2016, uma série de mudanças na editora levaria à uma revisão das decisões tomadas em 2011, e após 52 edições desde o relançamento, a revista retomaria sua numeração clássica a partir da sua 957ª edição, publicada em junho de 2016.

Antecedentes e contexto

Em dezembro de 1935, a então "National Allied Publications" lançou sua segunda série mensal, sob o título New Comics. Tal qual a revista em formato tabloide New Fun, publicada pela editora desde fevereiro daquele ano, a revista se dedicava à publicação de histórias cômicas e de aventura. Em sua décima-segunda edição, publicada em janeiro de 1937, o título foi alterado para New Adventure Comics e assim seguiria até novembro de 1938, quando seu título foi novamente alterado para Adventure Comics, o qual manteria por todo o restante de sua publicação.

Nesse ínterim, Malcolm Wheeler-Nicholson, proprietário da National, visando quitar um débito com Harry Donenfeld, um dos donos da distribuidora de revistas Independent News, tornou-se sócio de Jack Liebowitz, contador de Donenfeld, formando a empresa "Detective Comics". A fusão com Liebowitz possibilitou o lançamento, em março de 1937, de uma terceira revista, intitulada Detective Comics e a continuidade de dois títulos publicados até então pela National. No início do ano seguinte, Donenfeld assumiu o controle da editora e foi sob a sua gestão que fora lançado aquela que se tornaria a mais emblemática série da editora — Action Comics, responsável por lançar em sua primeira edição o personagem Superman.

Histórico de produção inicial

thumb|180px|Jerry Siegel, um dos criadores de Superman. Foto:Alan Light/1976

Jerry Siegel e Joe Shuster viram sua criação, Superman, ser lançada em Action Comics #1 em abril de 1938 — a capa não aponta a data de lançamento, mas de recolhimento da edição: junho de 1938 — após por anos tentar, sem sucesso, encontrar uma editora para seu personagem, originalmente concebido para ser publicado como uma tira de jornal. Superman foi originalmente um louco careca criado por Siegel e Shuster, que usou suas habilidades telepáticas para destruir a humanidade. Esta versão apareceu em um fanzine americano intitulado "Science Fiction"JONES, p. 80-84 na história The Reign of the Super-Man. Siegel, em seguida, comentou:

No ano seguinte o personagem passaria por uma série de reformulações nas mãos dos dois autores, que passariam a oferecê-lo a diversas empresas, sempre com resultados negativos, até que em 1938 a "National Periodical Publications" — com quem os dois já haviam trabalhado anteriormente, tendo sido os responsáveis por uma das história publicadas na primeira edição de Detective Comics, criando o detetive Slam Bradley — os convidou para contribuir com um novo personagem para a mais recente publicação da National. Mostraram Superman para apreciação, e uma vez aprovado, passaram a recortar e colar as tiras de jornal da amostra que tinha preparado no formato de páginas de uma revista em quadrinho.JONES, p.124

A escolha de Superman como o personagem que figuraria na capa, em meio aos vários personagens que também apareceriam no interior daquela primeira edição, seria posteriormente citada por Liebowitz como "quase acidental", em razão do escasso prazo de fechamento da revista, mas se mostraria acertada: toda a tiragem seria vendida rapidamente e, a partir de sua quarta edição, Action já começaria a apresentar um significativo aumento em suas vendas, em comparação com os demais títulos da National: entre 1938 e 1939, já possuía uma tiragem de mais de 500 mil exemplares — mais que o dobro da tiragem inicial da primeira edição, de 200 mil exemplares.

1938-1940: As primeiras histórias de Superman na "Era de Ouro" thumb|left|Action Comics #23 (1940): Superman, "o defensor dos oprimidos", lidava com questões urbanas, enfrentando majoritariamente empresários e políticos corruptos, quando encontrou o cientista "Luthor" durante a continuação da história War in Europe, iniciada na edição anterior.

A publicação de Action Comics #1 marca o início da "Era de Ouro" das histórias em quadrinhos americanas. A "Era de Ouro" compreenderia o material produzido entre o final da década de 1930 e o final da década seguinte, aproximadamente. Alguns dos mais conhecidos super-heróis foram criados nesse período — além de Superman, Batman, Mulher Maravilha, Capitão Marvel e Capitão América. Posteriormente, as revistas tornaram-se um divertimento barato, quase descartável, que se tornaria bastante popular entre a população, particularmente com as tropas durante a Segunda Guerra Mundial.

As primeiras histórias de Superman refletiam os costumes da sociedade da época. Superman enfrentava políticos corruptos, ladrões e criminosos "comuns" com muita violência. Seus poderes eram reduzidos, pois a origem vigente estabelecia que os habitantes do planeta Krypton haviam evoluído para a perfeição física, e essa seria a origem "científica" de suas habilidades, ampliadas pela gravidade menor da Terra, permitindo-lhe dar grandes saltos, mas não voar, e ter uma força muito maior que um homem comum. Ao criar o personagem, Siegel e Shuster o firmaram como "a representação das máximas aspirações humanas naquele momento", um ser mitologicamente comparável a Hércules e "uma síntese mais perfeita da noção de herói" e com forte apelo político, pois se dedicava a combater injustiças sociais. O próprio Superman era identificado repetidamente nas histórias como um "defensor dos oprimidos".

Apenas dois "super-vilões" surgiriam nas primeiras histórias, mas ainda assim inseridos numa temática mais urbana, similar às demais histórias da revista: o Ultra-Humanoide seria introduzido em sua forma humana numa trama envolvendo companhias de táxi publicada em Action Comics #13 e Lex Luthor surgiria durante War in Europe, uma trama em duas partes publicada nas edições 22 e 23.

O jornalista Darren Mooney sintetizaria essa versão original do personagem ao elaborar uma resenha das primeiras histórias da revista: Esta é uma versão de Superman que não tem absolutamente nenhum escrúpulo na aplicação de seu poder absoluto. Ele não se importa com a lei ou com o sistema, e depende inteiramente de seu próprio código de ética para justificar suas ações". Por mais que o personagem tivesse uma origem alienígena, as suas primeiras histórias não exploravam isso, e sequer eram apresentados temas de ficção científica, algo típico de histórias posteriores. Eram apresentados crimes e temas mais sombrios, e Superman era praticamente um "anti-herói", que agia com agressividade e frieza. Nenhuma história de Action Comics nos primeiros anos sequer se importava em mostrar as implicações éticas ou morais das ações do personagem.

Whitney Ellsworth se tornou o editor responsável pelas histórias, e no início da década de 1940 determinou que o personagem não faria mais uso de força excessiva que lhe era característica em suas histórias, para evitar possíveis problemas com a censura americana. A mudança aumentaria o apelo infantil da revista.

Os primeiros anos de Action Comics além de Superman

Originalmente, Action Comics era uma antologia com uma série de outras histórias, além daquelas protagonizadas por Superman. Zatara, o mágico, era um dos outros personagens que tiveram suas próprias histórias publicadas nas primeiras ediçõesDOWELL, p. 65-66 — Zatanna, uma heroína introduzida na década de 1960, é filha de ZataraKNOWLES, p. 115 — e havia também o super-herói Tex Thomson, que eventualmente adotou as alcunhas de "Mr. América" e depois "Americommando".

O cowboy fictício "Vigilante" também teve uma longa participação na revista.PRESS, p. 2 Às vezes as histórias de personagens mais humorísticos eram incluídas, como os de Hayfoot Henry, um policial que falava por meio de rimas. Gradualmente, a quantidade de páginas da revista foi sendo reduzida, como forma de evitar com que o preço de capa de 10 centavos por edição fosse aumentado. Diminui-se a quantidade de histórias publicadas por edição e, consequentemente, havia menos espaço para outros personagens que não Superman — por um tempo, apenas as histórias de Congo Bill e de Tommy Tomorrow eram também publicadas na revista, mas logo após a introdução da Supergirl na edição #252 (maio de 1959)EURY, p. 129 as histórias não relacionadas ao Superman ficariam completamente esquecidas.

Décadas de 1940 e 1950: De antologia para publicação de Superman