Guerra dos Toyota foi o nome dado à fase final do Conflito Chade-Líbia, travada principalmente entre as forças do Chade e da Líbia entre o final de 1986 e setembro de 1987. O conflito recebeu esse nome devido ao amplo emprego, pelas forças chadianas, de Toyota Hilux e Toyota Land Cruiser adaptados para funções militares.

A guerra caracterizou-se pela elevada mobilidade das forças chadianas, pelo emprego de mísseis antitanque MILAN fornecidos pela França e pelos ataques rápidos contra as posições líbias. Apesar de possuir forças convencionais superiores em número de tanques, aeronaves e artilharia, a Líbia sofreu uma série de derrotas e acabou retirando-se de grande parte do território chadiano.

Contexto

O conflito entre Chade e Líbia vinha se desenvolvendo desde a década de 1970. A Líbia de Muammar Gaddafi apoiava diferentes grupos políticos e militares envolvidos na guerra civil chadiana e mantinha tropas no norte do país.

A principal disputa territorial envolvia a Faixa de Aouzou, uma região no norte do Chade reivindicada pela Líbia. A região havia sido ocupada pelas forças líbias em 1973.

Em 1986, o governo de Hissène Habré conseguiu consolidar suas forças e passou a receber importante apoio militar francês. A França estabeleceu o chamado Operação Épervier, destinada a impedir uma nova ofensiva líbia em direção ao sul.

Forças em campo

As forças chadianas eram compostas principalmente pelas Forças Armadas Nacionais do Chade (FANT), sob o comando de Hissène Habré.

Os chadianos possuíam relativamente poucos veículos blindados pesados e aeronaves. Em compensação, empregavam centenas de veículos comerciais, principalmente Toyota Hilux e Toyota Land Cruiser, equipados com metralhadoras pesadas, canhões sem recuo e mísseis antitanque.

A Líbia possuía uma força convencional muito mais poderosa, equipada com tanques T-55, veículos blindados, artilharia, aeronaves de ataque e helicópteros.

A vantagem chadiana estava na mobilidade. Pequenas unidades podiam percorrer grandes distâncias rapidamente, atacar posições líbias e retirar-se antes que a superioridade de fogo líbia pudesse ser empregada de maneira eficaz.

Batalha de Fada

Em janeiro de 1987, as forças chadianas lançaram uma ofensiva contra Fada, importante posição líbia no norte do Chade.

A guarnição líbia contava com tanques, veículos blindados, artilharia e fortificações defensivas. Os chadianos, entretanto, conseguiram aproximar-se rapidamente utilizando veículos Toyota e atacaram as posições líbias de diferentes direções.

A velocidade do ataque dificultou a reação das forças líbias. Os chadianos destruíram ou capturaram grande quantidade de equipamentos e conseguiram tomar a cidade.

Estimativas frequentemente citadas apontam para centenas de soldados líbios mortos e dezenas de tanques destruídos ou capturados. As perdas exatas variam conforme a fonte.

A derrota em Fada representou um dos primeiros grandes golpes contra as forças líbias na campanha de 1987.

Batalha de Ouadi Doum

Em março de 1987, as forças chadianas atacaram a importante base aérea líbia de Ouadi Doum.

A instalação era protegida por campos minados, fortificações, artilharia e veículos blindados. Mesmo assim, as forças chadianas conseguiram romper as defesas e tomar a base.

A captura de Ouadi Doum foi particularmente importante porque permitiu aos chadianos obter grande quantidade de armas, munições, veículos e outros equipamentos abandonados pelas tropas líbias.

A derrota provocou uma crise no comando líbio e levou Gaddafi a ordenar uma retirada de várias posições no norte do Chade.

Retirada de Faya-Largeau

Após a queda de Ouadi Doum, as posições líbias no norte do Chade ficaram cada vez mais isoladas.

A guarnição líbia de Faya-Largeau, uma das principais posições militares da região, acabou abandonando a localidade.

A retirada permitiu que as forças de Habré recuperassem grande parte do território que havia sido ocupado pela Líbia nos anos anteriores.

Ofensiva de agosto

Durante agosto de 1987, as forças chadianas continuaram avançando em direção ao norte.

Em determinado momento, unidades chadianas chegaram a recuperar posições na própria Faixa de Aouzou, território reivindicado pela Líbia.

A ofensiva provocou uma reação de Gaddafi, que decidiu aumentar os ataques aéreos contra as forças chadianas e contra localidades próximas à zona de combate.

A Líbia ainda possuía superioridade aérea e grande quantidade de equipamentos pesados, mas encontrava dificuldades para impedir os ataques móveis das forças chadianas.

Batalha de Maaten al-Sarra

Em setembro de 1987, as forças chadianas realizaram uma ofensiva contra a base aérea líbia de Maaten al-Sarra, localizada em território líbio, próxima à fronteira com o Chade.

A operação surpreendeu as forças líbias.

As tropas chadianas utilizaram novamente veículos Toyota e avançaram rapidamente contra a instalação. A batalha resultou em pesadas perdas para os líbios e na destruição ou captura de grande quantidade de equipamentos.

Estimativas variam, mas algumas fontes apontam para cerca de mil soldados líbios mortos e centenas capturados. Dezenas de aeronaves também foram destruídas ou danificadas.

A derrota demonstrou que as forças chadianas ainda eram capazes de realizar operações ofensivas mesmo depois de terem avançado profundamente contra as posições líbias.

Reação francesa

A França desempenhou papel importante no conflito ao apoiar o governo de Hissène Habré.

O governo francês forneceu equipamentos, treinamento, inteligência e apoio logístico às forças chadianas. A Força Aérea Francesa também participou da proteção do espaço aéreo chadiano.

A estratégia francesa procurava impedir que a Líbia avançasse para o sul do Chade, sem transformar a França em participante direto de uma guerra total contra a Líbia.

A presença francesa foi um dos principais fatores que limitaram a capacidade líbia de ampliar a ofensiva para o sul.

Cessar-fogo

Após a derrota em Maaten al-Sarra e diante das perdas acumuladas, a Líbia aceitou negociar.

Em 11 de setembro de 1987, Chade e Líbia chegaram a um cessar-fogo.

A guerra havia terminado com uma importante derrota militar para a Líbia. As forças de Habré controlavam novamente grande parte do norte do Chade, enquanto as forças líbias haviam recuado para suas posições ao norte da fronteira.

O cessar-fogo, entretanto, não resolveu imediatamente a disputa pela Faixa de Aouzou.

Consequências

A Guerra dos Toyota demonstrou que uma força relativamente leve e altamente móvel poderia derrotar uma força convencional numericamente e tecnologicamente superior em determinadas condições.

O uso dos veículos Toyota permitiu às forças chadianas realizar operações rápidas em grandes áreas desérticas.

A combinação de mobilidade, conhecimento do terreno, ataques concentrados e mísseis antitanque permitiu aos chadianos neutralizar parte da vantagem dos tanques e veículos blindados líbios.

O conflito também consolidou a influência francesa no Chade e representou uma das maiores derrotas militares sofridas pela Líbia durante o governo de Muammar Gaddafi.

Relações entre Chade e Líbia

Em maio de 1988, Gaddafi reconheceu o governo de Hissène Habré como legítimo governo do Chade.

Chade e Líbia posteriormente retomaram relações diplomáticas, embora a disputa territorial pela Faixa de Aouzou permanecesse sem solução definitiva.

Em 1994, a Corte Internacional de Justiça decidiu que a Faixa de Aouzou pertencia ao Chade. A Líbia posteriormente retirou suas forças da região.

Importância militar

A Guerra dos Toyota é frequentemente utilizada como exemplo de guerra móvel em ambiente desértico.

O conflito demonstrou a importância da mobilidade operacional, da dispersão das unidades, da inteligência e da capacidade de concentrar rapidamente forças leves contra posições convencionais.

Os veículos Toyota utilizados pelos chadianos tornaram-se um dos símbolos mais conhecidos do conflito e contribuíram para a popularização do termo "Guerra dos Toyota".

Ver também

Conflito Chade-Líbia Guerra Civil do Chade Faixa de Aouzou Hissène Habré Muammar Gaddafi Operação Épervier

Referências

Categoria:Conflito Chade-Líbia Categoria:Guerras envolvendo o Chade Categoria:Guerras envolvendo a Líbia Categoria:Guerras do século XX Categoria:1987 no Chade Categoria:1987 na Líbia

Contexto

Desde 1983, o Chade estava de facto particionado, com a metade norte controlada pelo rebelde Governo de Transição de Unidade Nacional (GUNT) liderado por Goukouni Oueddei e apoiado no terreno por forças líbias, enquanto o sul era mantido pelo governo chadiano apoiado pelo Ocidente e guiado por Hissène Habré. Essa partição no paralelo 16 (a chamada Linha Vermelha) em zonas de influência líbia e francesa foi informalmente reconhecida pela França em 1984, seguindo um acordo entre a França e a Líbia para retirar suas forças do Chade. O acordo não foi respeitado pela Líbia, que manteve pelo menos 3.000 homens estacionados no norte do Chade.

Durante o período entre 1984 e 1986, no qual nenhum grande confronto ocorreu, Habré fortaleceu muito sua posição graças ao apoio ocidental e ao fracasso da Líbia em respeitar o acordo franco-líbio de 1984. A partir de 1984, o GUNT também sofreu crescentes tensões faccionais, centradas na luta entre Goukouni e Acheikh ibn Oumar pela liderança da organização. Aproveitando as dificuldades do GUNT, Habré fechou uma série de acordos com facções rebeldes menores, o que deixou o GUNT no início de 1986 com apenas três das onze facções que haviam originalmente assinado o Acordo de Lagos em 1979. As facções restantes eram as Forças Armadas Populares (FAP) de Goukouni, o braço armado do Conselho Democrático Revolucionário (CDR) de Acheikh e aquela parte das Forças Armadas Chadianas (FAT) que havia mantido sua lealdade a Wadel Abdelkader Kamougué.

Forças em campo

miniaturadaimagem|esquerda|Um mapa do Chade, com a Prefeitura de Borkou-Ennedi-Tibesti, onde a guerra ocorreu

No início de 1987, o último ano da guerra, a força expedicionária líbia ainda era impressionante, compreendendo 8.000 soldados, 300 tanques, lançadores múltiplos de foguetes (artilharia de foguetes) e peças de artilharia regular, helicópteros Mi-24 e sessenta aeronaves de combate. Essas forças não tinham um comando unificado, mas estavam divididas em um Grupo Operacional Sul, ativo em Tibesti com 2.500 homens, e um Grupo Operacional Leste, centrado em Faya-Largeau.

Embora formidável, a disposição militar líbia no Chade estava prejudicada por falhas graves. Os líbios estavam preparados para uma guerra na qual forneceriam apoio terrestre e aéreo aos seus aliados chadianos, que então agiriam como infantaria de assalto e forneceriam reconhecimento. Em 1987, no entanto, Muammar Gaddafi havia perdido seus aliados, expondo o conhecimento inadequado da Líbia sobre a área. As guarnições líbias passaram a se assemelhar a ilhas isoladas e vulneráveis no Saara chadiano. Também significativo foi o baixo moral entre as tropas, que estavam lutando em um país estrangeiro, e a desorganização estrutural do exército da Líbia, que foi em parte induzida pelo medo de Muammar Gaddafi de um golpe militar contra ele. Esse medo o levou a evitar a profissionalização das forças armadas.

Os líbios também tiveram que lidar com as Forças Armadas Nacionais Chadianas (FANT) muito fortalecidas, que eram compostas por 10.000 soldados altamente motivados, liderados por comandantes experientes e capazes, como Idriss Déby, Hassan Djamous e o próprio Chefe de Estado Hissène Habré. E enquanto a FANT anteriormente não tinha poder aéreo, mobilidade limitada e poucas armas antitanque e antiaéreas, em 1987, ela podia contar com a Força Aérea Francesa para manter as aeronaves líbias no chão e, mais importante, para fornecer 400 novas caminhonetes Toyota equipadas com míssil antitanque guiado MILAN. São esses caminhões que deram o nome "Guerra do Toyota" a esta última fase do conflito chadiano-líbio.

Expulsão líbia