O Castelo de Lagos, oficialmente conhecido como Muralhas e Torreões de Lagos e Cerca Urbana e Frente Fortificada de Lagos, é um monumento militar na cidade de Lagos, na região do Algarve, em Portugal. Embora o conjunto das estruturas defensivas da cidade seja conhecido como Castelo de Lagos, esta designação aplica-se principalmente à fortaleza conhecida como Castelo dos Governadores, enquanto que o restante perímetro, composto por vários lanços de muralha e baluartes, é conhecido como Muralhas de Lagos.

A zona onde se situa a moderna cidade de Lagos, na margem direita da Ribeira de Bensafrim, poderá ter sido fundada pelos cartagineses em meados do primeiro milénio a.C. Esta povoação teria provavelmente algumas estruturas defensivas, mas a primeira fortificação equiparada a um castelo só terá sido construída durante a época islâmica, sendo provavelmente uma alcáçova, que poderá ter sido a origem do posterior Castelo dos Governadores. Após a reconquista, iniciou-se a construção de um conjunto de muralhas em redor da cidade, que nessa altura seria apenas a área entre a Porta de São Gonçalo, a Porta da Vila, o castelo e a futura Igreja de Santo António. As obras iniciaram-se durante o reinado de D. Afonso III (1248-1279), e foram provavelmente concluídas no século XIV.

Devido à progressiva expansão urbana da cidade de Lagos, e à sua importância como parte dos Descobrimentos Portugueses, nos princípios do século XVI começou a ser pensada a construção de uma segunda linha de muralhas, que foram concluídas durante o reinado de D. João III (1502-1557). Este programa de obras também abrangeu o castelo em si, que foi ampliado, tendo ainda nesse século começado a ser utilizado como residência para os governadores, pelo que ficou popularmente conhecido como Castelo dos Governadores. A cidade e as suas defesas entraram numa fase de declínio após a Restauração da Independência, em 1640, e em 1755 foi devastada por um sismo, que destruiu o castelo e a maior parte das muralhas. o castelo nunca chegou a ser reconstruido, tendo acabado por ser parcialmente convertido num hospital. O conjunto das muralhas e do castelo foram elevados a Monumento Nacional em 1924, e na década de 1950 o Estado Novo realizou extensas obras de restauro, como parte das comemorações centenárias do Infante D. Henrique. Desde então, as muralhas e o castelo foram alvo de várias intervenções pontuais de conservação, destacando-se os trabalhos feitos nos anos 80 pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, e na década de 2010, pela Câmara Municipal de Lagos.

Descrição Importância e conservação O conjunto das muralhas de Lagos está classificado como Monumento Nacional. Foi considerado pela Ordem dos Arquitectos como o principal monumento entre o património edificado de Lagos, devido à sua história, por ser um exemplo único de estrutura militar dentro do período em que foi construído, e pelo seu papel na delimitação e organização do centro histórico. Com efeito, o investigador Rui Mendes Paula referiu que surgiam «na paisagem urbana como elemento estruturante, caracterizando fortemente a sua imagem.PAULA, 1992:157

Composição O perímetro defensivo de Lagos é composto por vários lanços de muralha, pontuados por baluartes, e por uma fortificação de maiores dimensões, conhecida como Castelo dos Governadores. A muralha divide-se em duas partes distintas, correspondente à Cerca Medieval e à Cerca Renascentista. Embora a cidade tenha originalmente estado totalmente coberta pelas muralhas, uma parte considerável do seu perímetro já foi demolida, devido principalmente à expansão urbana. O historiador Pinho Leal refere na sua obra Portugal Antigo e Moderno, publicada em 1873, que «as muralhas são altas e teem 9 baluartes para o rio, com 4 portas (S. Gonçalo, Caes, S. Roque e Nova) e outras 4 para terra (a de Portugal, Postigo, Quartos e a da Villa)».

Muralhas e baluartes Cerca Medieval A Cerca Antiga ou Cerca Medieval protegia a zona antiga da cidade, um burgo de forma aproximadamente octogonal que foi modernamente classificado como o Núcleo Primitivo de Lagos ou Vila-a-dentro. Durante as épocas romana e visigótica, esta área estava provavelmente organizada de forma semelhante a um acampamento militar romano, de forma sensivelmente quadrangular, cercada por muralhas, e com as ruas e edfícios dispostos de forma reticular, com o centro urbano no canto Sudoeste e uma fortaleza no lado Nordeste. O traçado destas muralhas primitivas começava na Porta da Vila, junto à antiga Igreja de Santa Maria da Graça, passava junto ao largo formado pela Rua 5 de Outubro e pela Travessa do Cotovelo, e nas imediações da Igreja de Santo António, transitava pelo local onde foi depois construída a Igreja de Santa Maria, e seguia depois para o castelo. A muralha tinha três portas principais, provavelmente defendidas por torres albarrãs, sendo uma destas conhecida igualmente como Porta da Vila, e situava-se junto à Igreja de Santo António, tendo sido descobertos vestígios das duas torres e de parte das muralhas durante as obras de remodelação do museu e da antiga esquadra da Polícia de Segurança Pública. Neste local também foram feitos outros achados, como uma fossa com cinco esqueletos, um dos quais com sinais de grande violência, e uma manilha, que era usada como um tipo de moeda para comprar escravos, sendo portanto duas importantes evidências do período da escravatura em Lagos. Segundo a arqueóloga Elena Morán, a fossa é também de grande interesse devido à sua localização, uma vez que não se situava fora das muralhas, como sucedeu com a vala comum junto à Gafaria de Lagos, mas dentro do perímetro urbano, junto a um arruamento e nas imediações de várias igrejas. Por outro lado, também poderá estar associada ao edifício da antiga cadeia, que estava em funcionamento no século XVI, data na qual a fossa também foi sobreposta por uma calçada. Este imóvel poderá ter sido a primeira sede da Câmara Municipal de Lagos, devido a possuir uma cadeia no piso térreo.

Além das portas, também contava com vários acessos de menor importância, conhecidos como postigos. cuja presença permaneceu na configuração viária do centro urbano, tendo alguns sido igualmente registados na cartografia. Por exemplo, o antigo postigo da Gafaria correspondia no cruzamento entre as ruas Dr. Mendonça e 5 de Outubro, enquanto que o postigo da Misericórdia ficava no ponto onde a Rua do Castelo dos Governadores desemboca na Praça do Infante, tendo este último sido representado igualmente na carta das muralhas de Lagos de meados do século XVI, pelo que provavelmente ainda seria utilizado. Um outro postigo estaria situado no Torreão da Ribeira, embora a sua ausência do mapa indique que já teria sido entaipado nessa altura.

O lanço sobrevivente deste perímetro amuralhado é igualmente conhecido como Pano Nascente, e corresponde ao lanço das muralhas entre o Castelo dos Governadores e o Torreão da Ribeira, e inclui a Porta de São Gonçalo, também conhecida como de Santa Bárbara ou da Ribeira, ladeada por duas torres albarrãs. O Torreão da Ribeira é provavelmente semelhante aos baluartes que pontuavam a muralha islâmica.PAULA, 1992:25 Na Porta ou Arco de São Gonçalo encontra-se um oratório dedicado a São Gonçalo, uma vez que segundo a tradição, o santo terá nascido em 1360, numa casa situada nas imediações deste local, que era então conhecido como Portas do Mar. Sobre o arco encontrava-se uma igreja dedicada a Santa Bárbara. Em frente do Castelo dos Governadores e do Pano Nascente encontra-se um espaço verde, o Jardim da Constituição. Também foram encontrados alguns caboucos e outros vestígios da cerca medieval perto da Porta da Vila, e que estavam integrados no contexto da segunda fase de utilização daquele local como cemitério.

Cerca renascentista A Cerca Nova ou Muralha renascentista inclui algumas partes reaproveitadas da antiga muralha medieval, e inicia-se no Baluarte da Porta da Vila ou de Santa Maria da Graça, no canto Sudoeste daquele perímetro defensivo, junto à entrada conhecida como Porta da Vila. Este baluarte estava situado nas imediações da antiga igreja de Santa Maria da Graça, num local elevado que permitia dominar a área em redor e as muralhas. Esta igreja não é a moderna matriz de Lagos, situada na Praça do Infante, mas um outro templo, situado no alto de uma colina no lado Sudoeste da cidade,PAULA, 1992:150 e que foi destruída pelo Sismo de 1755.COUTINHO, 2008:88 Este baluarte foi construído de forma a adaptar-se às novas capacidades da artilharia de então, com uma planta poligonal, três orelhões com cunhais em pedra aparelhada, e um parapeito com canhoneiras. Posteriormente, foi ali instalado um observatório astronómico. Em seguida vem o Baluarte da Praça de Armas, do Coronheiro ou de Santo António, cujo nome veio de um antigo convento dedicado a Santo António de Lisboa. O terceiro baluarte é o da Gafaria, da Cerca das Freiras ou de Nossa Senhora da Conceição, cujas denominações foram inspiradas por duas estruturas situadas nas proximidades - a Ermida de Nossa Senhora da Conceição, posteriormente integrada no Convento de Nossa Senhora do Carmo, e um antigo hospital de leprosos, que também era conhecido como gafaria. No canto Sudoeste na cerca, e portanto no ponto mais ocidental das muralhas, situa-se o Baluarte da Horta, das Freiras, da Alcaria ou de São Nicolau, de planta quadrangular, e dois orelhões de grandes dimensões, com cunhais em pedra aparelhada. A plataforma tem um parapeito com canhoneiras, podendo ser acedida por uma escadaria. O Baluarte da Porta dos Quartos situa-se na face ocidental da cerca, e recebeu o seu nome depois de ter sido construído o alojamento para os militares dos quarteis localizados naquela área, em 1695. Apresenta igualmente uma planta de forma quadrangular, e possui três orelhões com cunhais em cantaria aparelhada, e um parapeito com canhoneiras. A plataforma superior é acedida através de uma escadaria e uma porta com moldura em cantaria. Depois encontra-se o Baluarte do Paiol ou de Santo Amaro, em referência à ermida de Santo Amaro. Em seguida surge o Baluarte do Jogo da Bola ou de São Francisco, cujo nome provém de um antigo convento, e que está situado na ponta Norte da cerca. Possui uma planta de forma quadrangular, e dois orelhões rematados por cunhais com revestimento em cantaria. A plataforma superior, à qual se acede por uma rampa, apresenta um parapeito com canhoneiras.

As muralhas continuavam ao longo da frente ribeirinha de Lagos, com pelo menos três baluartes, tendo este conjunto desaparecido devido à expansão urbana de Lagos, tendo a sua presença perdurado apenas na toponímia local, como a Rua da Barroca e a Rua das Portas de Portugal. Um deles era o de São Manuel, que também era conhecido como da Porta Nova depois de ter sido instalada uma nova porta da cidade, substituindo a antiga Porta de São Roque, tendo este baluarte sido demolido de forma a ser construído no seu local o edifício original dos Paços do Concelho. A chamada Porta de Portugal dava acesso ao Rossio de São João, onde se encontrava a ponte sobre a Ribeira de Bensafrim. O Baluarte da Porta do Postigo também já desapareceu, sendo esta entrada conhecida por ser a que ficava aberta para os mais retardatários. O baluarte da Porta de Portugal protegia a entrada com o mesmo nome, e situava-se na face Norte da muralha, orientado para o interior do país. Um lanço das muralhas correspondia à moderna Rua da Barroca, que se situou nas margens da Ribeira de Bensafrim até à década de 1960. Alguns dos panos da cerca junto à Praça do Infante foram aproveitados para construir a plataforma elevada onde foi instalado o edifício da Messe Militar.PAULA, 1992:323 Parte do terreno exterior às muralhas, no lado de terra, foi transformado numa zona verde, o Anel Verde ou Parque da Cidade.