thumb|200px|Gregório Palamas, principal defensor do hesicasmo durante a controvérsia hesicasta
A controvérsia hesicasta foi uma disputa teológica no Império Bizantino durante o entre os defensores e oponentes de Gregório Palamas. Ainda que ela não tenha sido a causa principal da Guerra civil bizantina de 1341-1347, ela influenciou e foi influenciada pelas forças políticas em jogo nesta guerra. A disputa terminou com a vitória dos chamados "palamistas" e a inclusão da doutrina palamita como parte do dogma da Igreja Ortodoxa e com a canonização de Palamas.
Por volta de 1337, o hesicasmo atraiu a atenção de um erudito membro da Igreja Ortodoxa, Barlaão de Seminara, um monge calabrês que havia vindo para Constantinopla sete anos antes. Em reação às críticas feitas aos seus escritos teológicos que Gregório Palamas, um monge de Monte Atos e expoente do hesicasmo, havia lhe feito, Barlaão se encontrou com hesicastas e ouviu descrições de suas práticas. Treinado na teologia escolástica ocidental, Barlaão ficou escandalizado pelas descrições que ouviu e escreveu diversos tratados ridicularizando as práticas hesicastas. Ele ficou particularmente chocado que com a doutrina - que ele considerava herética e blasfema - da chamada "luz não criada", cuja natureza os hesicastas acreditavam ser a mesma da luz que manifestara aos discípulos de Jesus na Transfiguração no Monte Tabor e cuja experiência o objetivo da prática hesicasta. As informações que ele obteve atestavam que a crença era de que esta luz não seria parte da essência divina e era contemplada como sendo uma outra hipóstase ("existência").Parry (1999), p. 231 Barlaão acreditava que este conceito era politeísta, pois postularia a existência de dois seres eternos, um Deus imanente visível e um outro transcendente invisível.
Gregório Palamas, que depois se tornaria arcebispo de Tessalônica, recebeu um pedido dos monges de Atos para que defendesse o hesicasmo dos ataques de Barlaão, o que ele fez fazendo uso de seu excelente conhecimento da filosofia grega e da dialética, métodos também utilizados no ocidente. Ele escreveu uma série de obras e participou de diversos sínodos realizados em Constantinopla na década de 1340, sempre em defesa do hesicasmo.
Em 1341, a disputa foi levada perante um sínodo em Constantinopla que, levando em consideração o apreço tido pelas obras de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, condenou Barlaão, que abjurou suas ideias e retornou para a Calábria. Ele se converteu ao catolicismo e se tornou bispo de uma diocese de rito bizantino em comunhão com o papa. Cinco outros sínodos foram realizados sobre o assunto, com uma breve vitória dos oponentes de Palamas no terceiro. Contudo, em 1351, num sínodo presidido pelo imperador bizantino , a real distinção Essência-Energias de Palamas foi estabelecida como uma doutrina da Igreja Ortodoxa.
Gregório Acindino, que havia sido discípulo de Gregório e tinha tentado mediar a disputa entre ele e Barlaão, se tornou um crítico do antigo mestre após a partida do monge calabrês em 1341. Outro oponente do palamismo foi Manuel Calecas, que era um defensor da reconciliação entre as igrejas do ocidente e do oriente, separadas desde o Grande Cisma de 1054. Após a decisão de 1351, iniciou-se uma forte repressão contra os pensadores anti-palamistas, reporta por Calecas ainda 1397, e os teólogos que discordavam de Palamas. A única saída foi emigrar e se converter ao catolicismo, caminho seguido por Calecas, Demétrio Cidones e João Ciparissiota.
Contexto Monasticismo e o hesicasmo Hesicasmo é uma forma de oração interior, propositadamente constante e com forte carga de experiência pessoal que, a partir do final do , tomou a forma de "uma técnica psicossomática combinada com a Oração de Jesus". Mesmo antes da adoção da técnica, hesicasmo, como a "prática da oração interior, com o objetivo de obter a união com Deus num nível além das imagens, conceitos e linguagem", com ou sem o uso da Oração de Jesus, tem sua origem em períodos muito anteriores.
200px| esquerda| thumb| Transfiguração de Jesus, mostrando a chamada Luz de Tabor, um dos temas da controvérsia.Por Carl Bloch (ca. 1800)
Esta forma de contemplação, chamada "theoria", pelo foco da mente em Deus e rezando para Ele incessantemente tem sua origem no versículo de Mateus , e na Filocalia. A tradição de contemplação em silêncio e tranquilidade tem suas raízes nas tradições monásticas egípcias dos chamados Padres do Deserto, como Santo Antão, e é compartilhado pelos ascetas cristãos.
No início do , Gregório do Sinai aprendeu com Arsênio de Creta uma forma de hesicasmo que combinava a experiência interna com a Oração de Jesus e espalhou a doutrina, levando-a até os monges de Monte Atos. Estes, por sua vez, afirmavam que nos estágios mais avançados de sua prática contemplativa era possível a real união com a "Luz de Tabor", ou seja, a Luz Divina Não-Criada, a mesma que teria sido vista pelos apóstolos na Transfiguração de Jesus e por Paulo de Tarso na estrada para Damasco.
Monasticismo versus clero secular Meyendorff caracterizou a controvérsia hesicasta como um conflito entre os intelectuais bizantinos (amantes da cultura secular "helênica") e os palamitas (defensores da tradição monástica mística). Por toda a história do Império Bizantino, duas facções tomaram pontos de vista opostos com relação ao valor relativo entre o misticismo e o racionalismo intelectual. A facção monástica era conservadora e se opunha ferrenhamente ao estudo secular. A facção geralmente referida como "intelectuais bizantinos" era mais liberal e apoiava a síntese entre a antiga filosofia grega e a teologia cristã. Esta última incluía muitos entre o alto clero secular. Nick Trakakis cita a controvérsia hesicastas como um dos mais significativos exemplos de conflito entre as duas facções.
Teologia da disputa Aristotelismo versus Neoplatonismo De acordo com James Hankins, geralmente se afirma que os hesicastas representariam a tradição nativa "platônica" da Igreja Ortodoxa, enquanto que seus opositores representariam o ocidente, de tradição aristotélica. Hankins argumenta que "o debate original entre Barlaão e Palamas não era sobre aristotelismo x platonismo, mas ele cresceu de uma disputa metodológica sobre a melhor forma de defender a Ortodoxia contra os ataques dos controversalistas ocidentais".
De maneira similar, John Meyendorff afirma que "o ponto de vista generalizado de que o pensamento cristão oriental é platônico, em contraste com aristotelismo ocidental" é incorreta. As universidades bizantinas ensinavam a lógica aristotélica como parte de um "currículo geral", mas as crianças de famílias piedosas abandonavam a escola antes de chegarem nos níveis mais altos, onde Platão era ensinado. Meyendorff propõe que o alvo dos monges bizantinos em geral e de Palamas em particular era de fato a "filosofia secular" e a chamada "sabedoria helênica". Ele conjectura que a validade da filosofia grega permanecia me questão na sociedade bizantina precisamente por que os bizantinos eram falantes do grego e "pensavam em grego". Em radical contraste com a cultura helênica, o pensamento monástico bizantino continuamente enfatizava que tinham uma "fé pregada por um Messias judeu" e que o seu destino era se tornarem uma "nova Jerusalém".
Nominalismo versus Realismo
De acordo com Robert E. Sinkewicz, o único objetivo de Palamas era "preservar o realismo da participação do homem na vida de Deus". Caracterizando Barlão como um agnóstico nominalista, Meyendorff escreveu que, "em sua fuga do realismo intelectual da escolástica tomista, Barlaão entrou em confronto com o realismo místico dos monges orientais".
Entre as suas críticas sobre a apresentação de Meyendorff sobre a controvérsia hesicasta, John Romanides reserve suas críticas mais duras à caracterização feita por Meyendorff de Barlaão como sendo ao mesmo tempo um nominalista e um platonista/neoplatonista afirmando que as histórias da filosofia e da teologia até aquele momento terem apresentado as duas visões como mutuamente exclusivas. Romanides prossegue argumentando que Barlaão era claramente um cristão platonista e não um nominalista.
Cronologia da controvérsia Sendo um monge de Monte Atos, Palamas aprendeu a prática do hesicasmo e, embora ele já tivesse escrito sobre o assunto, foi somente após Barlaão tê-lo atacado que Palamas foi levado a defender a prática com uma exposição completa, que se tornaria depois um componente central da teologia ortodoxa. O debate entre os "palamitas" e "barlamitas" continuou por mais de uma década e numa série de sínodos que culminaram finalmente em 1351, quando a doutrina de Gregório foi declarada um dogma.
Início do conflito entre Barlaão e Palamas thumb|200px|Pseudo-Dionísio, cuja obra tanto Barlaão quanto Gregório citavam como apoio às suas interpretações
Por volta de 1330, Barlaão de Seminara veio para Constantinopla vindo da Calábria, no sul da Itália, onde ele havia crescido como membro de uma comunidade grega. Ele trabalhou por um tempo em comentários sobre a obra de Pseudo-Dionísio sobre o patrocínio de João VI Cantacuzeno. Por volta de 1336, Gregório Palamas recebeu cópias de tratados escritos por Barlaão contra a igreja ocidental, condenando a inserção da cláusula Filioque no credo de Niceia. Mesmo a posição de Barlaão sendo a correta na teologia ortodoxa, Palamas se incomodou com o argumento que ele utilizava para defendê-la, uma vez que ele declarou que a natureza de Deus (especificamente, a natureza do Espírito Santo) deveria ser abandonada, pois Deus estaria, em última instância , além do conhecimento e da experiência humana. Assim, Barlaão afirmava que seria impossível determinar de onde o Espírito Santo procederia (do Pai, do Filho ou de ambos). De acordo com Sara J. Denning-Bolle, Palamas via o argumento de Barlaão como "perigosamente agnóstico". Em sua resposta, Palamas insistiu que seria possível demonstrar que o Espírito Santo teria procedido do Pai, mas não do Filho. Iniciou-se então uma troca de correspondências entre os dois, sem contudo ser possível que chegassem num consenso amigavelmente.
O ataque de Barlaão ao hesicasmo Segundo Steven Runciman, enfurecido com os ataques de Palamas contra ele, Barlaão teria jurado humilhá-lo atacando os ensinamentos do hesicasmo, cujo principal proponente era Gregório. Ele visitou a Tessalônica e conheceu diversos monges hesicastas. Runciman descreve estes monges como ignorantes, que não tinham nenhum real conhecimento sobre os verdadeiros ensinamentos hesicastas. Barlaão então publicou uma quantidade de tratados zombando das práticas que ele considerava absurdas, entre as quais, segundo seu reporte, "milagrosas separações e reuniões do espírito e da alma, das trocas que demônios tem com a alma, das diferenças entre as luzes vermelhas e brancas, da entrada e saída da inteligência pelas narinas com a respiração, de escudos que se juntam à volta do umbigo e, finalmente, da união de Deus com a alma, que se realiza em completa e sensível certeza no umbigo". Barlaão afirmava ainda que estes monges alegavam ver a essência divina com os próprios olhos, o que ele entendia como sendo messalianismo puro. Quando perguntados sobre a luz que alegavam ver, os monges contaram que ela não era nem a Essência Divina, nem a essência angélica e nem o próprio Espírito, mas que o espírito contemplado era uma outra hipóstase, ao que Barlaão teria comentado com desdém "Preciso confessar que eu não sei o que é esta luz. Apenas sei que ela não existe".