miniaturadaimagem|"O eu lírico é a voz de um poema, o seu narrador" Eu lírico, ou eu poético, é um conceito literário que designa a voz de um poema, o seu narrador. É um personagem criado por um poeta para transmitir um conteúdo subjetivo seu em um poema.
Considerando-se a poesia a expressão literária do "eu", o conteúdo expresso será ocasionalmente relacionado à própria subjetividade do eu poético, de modo que um poema - principalmente um poema lírico - é a expressão da subjetividade do seu eu lírico. Nas palavras de Massaud Moisés: "o eu poético define-se como um eu que se autoexpressa para se conhecer e para se comunicar ao leitor".
O imaginário popular costuma associar a voz de um poema ao seu autor, mas isso é uma afirmação equivocada. Primeiro, porque um poeta pode muito bem escrever um poema se passando por "outra pessoa", como fez Noel Rosa na canção "Pela décima vez", onde a voz do poema é de uma mulher (embora o autor seja um homem). Depois, porque mesmo que o autor queira expressar a sua voz em um poema, só poderá transcrever aquilo que pensa de si ou então uma parte do seu eu, e não o que ele realmente é por completo. Assim, de qualquer maneira, o eu lírico será um personagem à parte do poeta.
Alguns autores, porém, como o professor Massaud Moisés, afirmam que o eu lírico é uma entidade criada para autoexpressão do poeta que o criou. Assim, em todos os poemas de um mesmo poeta, haverá apenas um eu lírico: "o poeta transfere as estratégias criativas para uma única entidade. Os vários textos que elabora - os poemas - ressoam uma única voz, um único narrador". Outros afirmam que cada poema apresenta um eu lírico diferente.
Tipos de eu lírico miniaturadaimagem|298x298px|"Mesmo o caso singular de Fernando Pessoa não foge à regra: os heterônimos, incluindo o Fernando Pessoa ortônimo, são de tonalidades de uma única voz, um único narrador, à semelhança de várias mutações, aparentemente autônomas e contraditórias, sofridas por um poeta no curso dos anos." A atitude do eu lírico definirá drasticamente o poema. "T. S. Eliot distingue [...] três vozes em poesia: primeira, "a do poeta falando a si próprio - ou a ninguém", segunda, "a do poeta que se dirige a uma audiência, seja grande ou pequena", terceira, "a do poeta quando intenta criar uma personagem dramática exprimindo-se em verso". No primeiro caso, teríamos a poesia lírica, pois que "o poema expressa diretamente os pensamentos e sentimentos do poeta"; no segundo, a poesia épica; e no terceiro, o teatro". Mas a questão é mais complicada, e muitos autores contemporâneos afirmam que não podemos definir o gênero de um poema apenas pela da atitude do eu lírico, embora ela seja um fator relevante.
Em geral, podemos identificar pelo menos cinco tipos de eu lírico:
eu lírico pessoal: muito comum na poesia lírica, seu discurso está geralmente centrado na primeira pessoa do singular (eu). Representa um indivíduo falando a si mesmo, a uma segunda pessoa ou a ninguém, e o seu objetivo é expressar os seus próprios conteúdos subjetivos;
eu lírico coletivo: bastante comum na poesia épica moderna, seu discurso está centrado na primeira pessoa do plural (nós). Representa um grupo social, do qual o eu lírico faz parte;
eu lírico impessoal: comum em todos os gêneros de poesia, seu discurso está centrado na terceira pessoa (ele/a, eles/as). É uma voz que costuma descrever ou comentar um assunto externo;
eu lírico narrativo: bastante comum na poesia épica antiga (epopeias), seu discurso está centrado na terceira pessoa também. É uma voz que se dedica a narrar fatos e eventos, geralmente fictícios, mas ainda em linguagem poética;
eu lírico dramático: bastante comum no teatro antigo e renascentista, seu discurso pode se centrar em qualquer tipo de pessoa. É uma voz que representa um personagem teatral, as suas falas.
Alguns autores defendem, ainda, a existência de um eu lírico reflexivo, que se caracteriza, basicamente, por questionar, exprimindo dúvidas filosóficas.
Há poemas, porém, que fazem uso de mais de um tipo de eu lírico.
Bibliografia
MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia e prosa. São Paulo: Cultrix, 2012.
Categoria:Conceitos literários