350px|miniatura|direita|"Soldados índios da província de Curitiba, escoltando índios prisioneiros", tela de Jean-Baptiste Debret, 1834. A escravização indígena no Brasil iniciou-se no processo da colonização portuguesa e continuou no período imperial em conjunto com a escravização de africanos e seus descendentes. No período colonial, a principal fonte de mão de obra indígena escrava eram as entradas e bandeiras de apresamento, facilitadas pelas desavenças e guerras intertribais dos indígenas brasileiros, nas quais os prisioneiros passaram escravizados.

Enfrentando diferentes realidades políticas ao longo dos séculos e a pressão do expansionismo colonial, apesar de sucessivas leis para limitar a escravidão de indígenas no Brasil e dos esforços dos jesuítas contra sua prática, a escravização de indígenas continuou. Também o extermínio das comunidades decorrentes das guerras declaradas aos indígenas, o que também resultavam na sua escravização, foi uma prática recorrente.

Alianças e escravidão: os povos indígenas na colonização portuguesa A expansão portuguesa sobre o território que posteriormente seria denominado Brasil ocorreu em espaços já habitados por milhões de indígenas pertencentes a centenas de povos distintos, com diferentes línguas, organizações sociais e interesses políticos. Estima-se que, no início do século XVI, cerca de 4,5 milhões de indígenas viviam no território brasileiro. Assim, a ocupação portuguesa não se deu sobre um espaço vazio ou desconhecido, mas por meio da inserção dos europeus em redes de relações já existentes. Os primeiros contatos entre indígenas e europeus foram marcados pelo escambo, sistema de trocas através do qual portugueses e franceses obtinham pau-brasil, alimentos, conhecimento do território e trabalho indígena em troca de mercadorias manufaturadas.

Nas primeiras décadas da presença portuguesa, especialmente entre 1530 e 1560, a consolidação dos núcleos coloniais dependia profundamente dos povos indígenas. Os colonizadores não possuíam força militar suficiente para controlar extensos territórios apenas pela coerção. Como observou Russell-Wood, o império português foi construído "com e não isoladamente contra os povos com os quais entrou em contato".Quando os índios escolhem os seus aliados: as relações de "amizade' entre os minuanos e os lusitanos no sul da América portuguesa (c.1750-1800 Nesse contexto, alianças foram estabelecidas com diferentes grupos indígenas, sobretudo com povos tupiniquins da costa, em regiões como São Vicente e Bahia. Ao mesmo tempo, diversos grupos tupinambás aproximaram-se dos franceses, que tentavam invadir o domínio dos portugueses, especialmente durante a experiência da França Antártica na baía de Guanabara (1555-1567). Os conflitos entre portugueses e franceses pela ocupação do litoral foram, em grande medida, disputas travadas através das alianças indígenas.ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

As guerras intertribais, que já existiam antes da chegada dos europeus, foram incorporadas à dinâmica colonial. Os portugueses aproveitaram rivalidades pré-existentes entre diferentes povos, mas também contribuíram para sua intensificação ao introduzirem novas demandas por cativos, fornecerem armamentos e incentivarem expedições de captura. Os indígenas, por sua vez, continuaram empregando suas próprias técnicas de combate, como armadilhas, emboscadas e o uso de arcos e flechas. Longe de constituírem blocos homogêneos, os diferentes grupos indígenas alteravam suas alianças conforme seus interesses políticos, militares e econômicosGARCIA, Elisa Frühauf. Trocas, guerras e alianças na formação da sociedade colonial. In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (org.). O Brasil colonial: 1443-1580. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. v. 1, cap. 7.. As relações entre indígenas e europeus formavam uma complexa rede de negociações, conflitos e acordos que se modificavam constantemente.ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. A atuação dos indígenas na História do Brasil: revisões historiográficas. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 37, n. 75, 2017.

Nesse contexto, difundiu-se a prática do resgate de indígenas capturados em guerras. Os chamados "índios de corda" eram prisioneiros destinados à morte ou ao cativeiro em suas próprias sociedades e que passaram adquiridos pelos colonizadores como escravos. A expressão deriva da legislação colonial que se referia aos cativos "presos à corda".PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial (séculos XVI a XVIII)”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura; FAPESP, 1992. Embora o discurso português apresentasse o resgate como uma forma de salvação, na prática ele frequentemente resultava na incorporação desses indivíduos ao trabalho compulsório. Os locais onde os indígenas capturados eram mantidos passaram a ser conhecidos como "casas de preamento", revelando a institucionalização do apresamento indígena como parte da economia colonial.

A administração portuguesa classificava os indígenas em categorias como "índios mansos" e "índios bravos". Essas denominações não correspondiam a identidades indígenas reais, mas eram classificações pragmáticas coloniais utilizadas para diferenciar aliados de inimigos. Os chamados "mansos" eram aqueles integrados aos aldeamentos, aliados militarmente aos portugueses ou subordinados à autoridade colonial. Já os "bravos" eram frequentemente aqueles que resistiam à ocupação portuguesa ou mantinham alianças com grupos rivais. Tal distinção possuía importantes consequências jurídicas, pois servia para legitimar as chamadas "guerras justas" e a escravização de populações classificadas como inimigas.PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial (séculos XVI a XVIII)”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura; FAPESP, 1992. Muitos desses inimigos foram construídos pelos próprios colonizadores interessados em obter mão de obra cativa.GARCIA, Elisa Frühauf. Trocas, guerras e alianças na formação da sociedade colonial. In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (org.). O Brasil colonial: 1443-1580. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. v. 1, cap. 7.

Os indígenas aliados desempenharam papel fundamental na manutenção da colonização. A própria legislação indigenista reconhecia que a defesa dos domínios portugueses dependia dos povos aldeados, que constituíam grande parte das tropas coloniais. Além de participarem diretamente dos combates, forneciam técnicas de guerra, conhecimento geográfico, intérpretes, guias e estratégias de sobrevivência. Por essa razão, os portugueses frequentemente se referiam aos seus aliados como "muros" ou "baluartes", metáforas que expressavam sua função como linha de defesa da presença colonial. Muitas campanhas militares, expedições de conquista e ocupações territoriais teriam sido inviáveis sem a participação indígena.

Em troca dos serviços prestados, determinadas lideranças indígenas recebiam privilégios concedidos pela Coroa, como terras, rendimentos, títulos honoríficos e acesso a cargos administrativos. Alguns receberam hábitos de ordens militares, o título de "dom" e posições como juízes, vereadores ou governadores de índios. Essas concessões contribuíram para a formação de uma elite indígena colonial, especialmente em contextos de guerra. Contudo, tais privilégios não eliminavam as hierarquias raciais e sociais da sociedade colonial. Um bom exemplo é o cargo de governador dos índios, primeiramente atribuído a Filipe Camarão, um grande guerreiro e hábil estratégia da tribo dos potiguares, tinha também, como função, organizar os aldeamentos indígenas e o recrutamento dos terços dos índios, onde tinha servido como capitão-mor.O Terço de Antônio Filipe Camarão: sua cooptação e evolução militar durante a invasão holandesaA visibilidade do primeiro Camarão no processo de militarização indígena na capitania de Pernambuco no século XVII

Alguns grupos indígenas não só guardavam as fronteiras como também controlavam os escravizados africanos, propensos a se insurgir ou fugir e se juntarem aos europeus inimigos dos portugueses. Por serem exímios em seguirem pistas, eles eram também contratados pelos proprietários de engenhos para capturar e resgatar escravizados fugidos dos engenhos e fazendas. Nesse processo também poderiam auxiliar os capitães do mato (negros ou mulatos livres) na captura de escravizados fugidos.A convivência entre Índios e negros nas danças folclóricas brasileiras: uma análise histórico-antropológica

A partir do século XVI, os jesuítas passaram a desempenhar papel central na política indigenista portuguesa. Contrários à escravização indiscriminada dos indígenas, defenderam sua incorporação aos aldeamentos missionários. Contudo, a catequização não significou o fim da exploração indígena e muito menos uma posição dos religiosos contra o sistema colonial. Nos aldeamentos, os indígenas eram submetidos ao trabalho compulsório, à reorganização de seus modos de vida, à vigilância religiosa e à tentativa de substituição de práticas culturais consideradas incompatíveis com o cristianismo. Além disso, os próprios jesuítas dependiam do trabalho indígena para sustentar suas missões. A disputa entre missionários e colonos envolvia, muitas vezes, o controle dessa mão de obra e não necessariamente a defesa da autonomia indígena, um exemplo do conflito chamado "A botada dos padres fora" de 1640.

Ambivalências do Discurso sobre os Povos Indígenas e a "Guerra Justa" A literatura portuguesa do século XVI produziu representações ambíguas sobre os povos indígenas do Brasil. Nos primeiros relatos, como a carta de Pero Vaz de Caminha, os indígenas foram descritos de forma positiva, associados à simplicidade, à inocência e à vida em harmonia com a natureza. Entretando, com o avanço da ocupação colonial e o aumento dos conflitos entre europeus e indígenas, essa percepção foi gradualmente substituída por representações negativas. Práticas como a antropofagia, as guerras intertribais e a suposta ausência de instituções políticas, jurídicas e sociais passaram a ser interpretadas pelos portugueses como sinais de inferioridade moral e cultural. Dessa forma, consolidou-se uma visão do indígena como incapaz de viver em sociedade sem ser tutelado.

Essa mudança de percepção não pode ser compreendida como resultado do contato cultural. O julgamento negativo dos indígenas esteve profundamente relacionado aos interesses econômicos da colonização. A difusão da ideia de que os povos indígenas eram inferiores ou mesmo desprovidos de plena racionalidade serviu para justificar sua exploração e escravização. Como observam diversos autores, a construção dessa imagem foi menos determinada por características reais das sociedades indígenas do que pela necessidade de legitimar juridicamente e moralmente a sua exploração como força de trabalho. Nesse sentido, os próprios jesuítas reconheceram que a escravização indígena era frequentemente sustentada por argumentos que mascaravam interesses econômicos, embora, em muitos casos, sua posição não se diferenciasse substancialmente da mentalidade predatória colonial vigente.