thumb|260px|Mapa do Califado Abássida entre 750 e 885, antes do período expansionista bizantino durante o qual João Curcuas foi um dos mais destacados protagonistas. Em destaque está o Emirado da Arménia
João Curcuas (; ; foi um dos generais mais notórios do Império Bizantino. As suas vitórias em batalhas contra os estados muçulmanos do Oriente inverteram definitivamente o curso das guerras bizantino-árabes que se prolongavam há séculos, e marcaram o início da chamada "Era das Conquistas" bizantinas do . Ele era membro da família Curcuas, de origem arménia, à qual pertenceram diversos generais bizantinos notáveis. Como comandante de um dos regimentos da guarda imperial, Curcuas era um dos principais apoiantes do imperador , que ajudou a ascender ao trono.
Durante o , o Império Bizantino tinha recuperado gradualmente o seu poder e estabilidade interna, enquanto que o Califado tinha vindo a enfraquecer e fraturar-se. Em 923, João Curcuas foi nomeado comandante-em-chefe dos exército bizantinos estacionados ao longo da fronteira oriental, face ao Califado Abássida e aos emirados muçulmanos fronteiriços semiautónomos. Manteve este posto por mais de vinte anos, supervisionando sucessos militares decisivos para os bizantinos e alterando o equilíbrio estratégico da região. Sob a sua liderança, os exércitos bizantinos entraram profundamente nos territórios muçulmanos pela primeira vez em quase 200 anos, expandindo as fronteiras do império. Os emirados de Melitene e Calícala foram conquistados, estendendo o controlo bizantino ao Alto Eufrates e à Arménia Ocidental. Os restantes príncipes ibérios e da Arménia tornaram-se vassalos dos bizantinos.
Curcuas também desempenhou um papel importante na derrota de uma grande expedição rus em 941 e recuperou o Mandílio de Edessa, uma relíquia sagrada que se acreditava representar a face de Jesus Cristo. João Curcuas foi demitido em 944 em resultado de intrigas dos filhos de Romano Lecapeno, mas voltou a ter a confiança imperial com , do qual foi embaixador em 946. Desconhece-se o que lhe aconteceu depois disso.
Biografia Primeiros tempos
thumb|esquerda|Histameno de esquerda|thumb|Soldo de com o seu filho e coimperador Cristóvão
João era um membro da família nobre arménia Curcuas, uma das muitas que se tinha refugiado no Império Bizantino fugindo às invasões islâmicas. O nome de família original, Gurgen, foi helenizado para Curcuas. A família tinha-se notabilizado ao serviço dos bizantinos no e estabeleceu-se como uma das grandes famílias da aristocracia de militares e latifundiários da Anatólia. O avô homónimo de João tinha sido um comandante do tagma (regimento) de elite Hicanátos durante o reinado de . O irmão de João, Teófilo também foi um general proeminente, o mesmo acontecendo com o próprio filho, Romano Curcuas e o seu sobrinho-neto, João Tzimisces, que reinaria como imperador entre 969 e 976.
Pouco se sabe sobre os primeiros anos de João Curcuas. O seu pai era um oficial abastado do palácio imperial. João nasceu em Doceia (atual Tocate), na região de Darbido, parte do Tema Armeníaco e foi educado por um dos seus parentes, Cristóvão, o bispo de Gangra. Durante a regência de Zoé Carbonopsina, em data desconhecida, João foi nomeado comandante (drungário da guarda) do tagma Vigla da guarda imperial do palácio.
Com este posto, Curcuas apoiou o seu colega arménio, o almirante Romano Lecapeno, e prendeu vários oficiais superiores que a ele se opunham. Isto abriu o caminho para Lecapeno ser nomeado regente no lugar da imperatriz Zoé em 919. Lecapeno foi gradualmente assumindo mais poderes, até que foi coroado imperador sénior em dezembro de 920. Como recompensa pelo apoio à sua causa, Romano Lecapeno promoveu Curcuas ao posto de doméstico das escolas, o que na prática era equivalente a comandante-em-chefe de todos os exércitos imperiais da Anatólia. Segundo a crónica de Teófanes Continuado, João Curcuas manteve esse posto sem interrupção durante o tempo sem paralelo de 22 anos e sete meses.
Durante os primeiros anos do mandato de Curcuas, os bizantinos estiveram ocupados principalmente nas guerras nas Balcãs contra o Primeiro Império Búlgaro, após a desastrosa derrota que sofreram na Batalha de Anquíalo em 917. A primeira missão de Curcuas como "Doméstico do Oriente" foi a supressão da revolta de {ilc|nl=s|Bardas Boilas}}, o estratego (governador militar) do Tema da Cáldia, uma área de grande importância estratégica na fronteira do nordeste da Anatólia. A missão foi cumprida com sucesso rapidamente, e o irmão de João, Teófilo Curcuas, substituiu Boilas como governador da Cáldia. Como comandante do setor mais a norte da fronteira oriental, Teófilo provou ser um soldado competente e prestou apoio valioso às campanhas do seu irmão.
Primeira submissão de Melitene e campanhas na Arménia thumb|Mapa dos temas (regiões militares) bizantinos em 1025 thumb|Iluminura do mostrando em negociações com
Após as conquistas muçulmanas de meados do , o conflito bizantino-árabe caracterizou-se por constantes raides e contrarraides ao longo de uma fronteira relativamente estável definida grosso modo pela linha formada pelas cordilheiras do Tauro e Antitauro. Até à década de 860, a superioridade dos exércitos muçulmanos tinha mantido os bizantinos na defensiva. Só após 863, com a vitória na batalha de Lalacão (ou de Por[s]ão), é que os bizantinos conseguiram começar a recuperar gradualmente alguns territórios perdidos para os muçulmanos, tendo lançado raides no interior da Síria e Mesopotâmia e anexando o estado pauliciano centrado em Tefrique (a atual Divriği, na província turca de Sivas).
Em 912 os árabes tinham sido sido forçados a manter-se atrás do Tauro e do Antitauro e encorajavam os arménios para rechaçarem a aliança com os bizantinos e aliarem-se ao califado. Muitos arménios passaram então a servir nos exércitos do califado, cada vez em maior número. O reavivamento do poder bizantino foi ainda facilitado pelo progressivo declínio do Califado Abássida, particularmente durante o reinado de Almoctadir , durante o qual o governo central enfrentou várias revoltas. Na periferia do califado, o enfraquecimento do controlo central permitiu o aparecimento de vários estados semiautónomos. Além disso, o tratado de paz acordado com os búlgaros após a morte do czar permitiu que a atenção e os recursos dos bizantinos se virassem para o leste.
Em 925, Romano Lecapeno sentiu-se com poder suficiente para exigir o pagamento de tributo às cidades muçulmanas no lado ocidental do Eufrates. Quando estas recusaram, em 926, Curcuas atravessou a fronteira à frente de um exército. Com o apoio do irmão Teófilo e um contingente arménio comandado pelo estratego do Tema de Licando, Melias (Mleh nas fontes em árabe), Curcuas marchou sobre Melitene (atualmente Malátia), então capital de um emirado que há muito era um espinho para os bizantinos. As tropas bizantinas devastaram a cidade, mas a cidadela resistiu, acabando o conflito com um tratado pelo qual o emir aceitava ser tributário do Império Bizantino.
Em 927-928, Curcuas lançou um raide de grande envergadura no interior da Arménia controlada pelos árabes, tomando Samósata (perto da atual Samessate), um importante reduto no Eufrates, e avançando pelo menos até à capital arménia de Dúbio. Uma contraofensiva árabe forçou os bizantinos a retirar de Samósata alguns dias após a conquista. Dúbio foi também abandonada, com grande perda de vidas, segundo fontes árabes. Ao mesmo tempo, Tamal Adulafi, o emir de Tarso, conduziu raides vitoriosos no sul da Anatólia e neutralizou ibne Daaque, um líder curdo local que apoiou os bizantinos. Os bizantinos viraram depois a sua atenção para o sul da Arménia e saquearam a região em volta do Lago de Vã, tomando a cidade de Queliate (atual Aquelate) e provocando um êxodo dos muçulmanos da região. Esta incursão, a mais de 500 quilómetros do território bizantino mais próxima, contrastou fortemente com a estratégia orientada para uma atitude defensiva que os bizantinos tinham vindo a seguir durante os séculos anteriores e evidenciou as novas capacidades do exército imperial. No entanto, a fome que grassava na Anatólia e as exigências das campanhas no sul de Itália enfraqueceram as tropas de Curcuas. A campanha arménia de 929 foi derrotada e repelida por Mufli Açaji, um gulam do emir sájida do Azerbaijão Abu Almuçafir Alfaite .
thumb|esquerda|Mapa do Reino da Armênia e dos Estados que o rodeavam . Grande parte dos territórios a leste e sudeste de Cesareia foram conquistados por João Curcuas
Em 930, Melias atacou novamente Samósata, mas sofreu uma pesada derrota, tendo sido feitos prisioneiros vários dos seus principais oficiais, entre eles o seu filho. Os prisioneiros foram enviados para Bagdade. Mais tarde, no mesmo ano, João e o seu irmão Teófilo cercaram Teodosiópolis (atual Erzurum), a capital do . A campanha complicou-se pelas intrigas dos seus pretensos aliados, os governantes ibéricos de Tao-Clarjécia. Ressentindo-se com a extensão do controlo bizantino nos territórios adjacentes às suas próprias fronteiras, os iberos tinham enviado fornecimentos à cidade sitiada. Quando os bizantinos investiram sobre a cidade, eles exigiram clamorosamente que os bizantinos lhes entregassem diversas cidades capturadas, mas quando uma delas, o forte de Mastato, lhes foi entregue, apressaram-se a devolvê-la aos árabes. Curcuas não reagiu à afronta, pois precisava de manter os iberos apaziguados e estava ciente que a sua conduta era cuidadosamente observada pelos príncipes arménios. Depois de vários meses de cerco, Teodosiópolis caiu na primavera de 931, tendo sido transformada em tributária dos bizantinos. Segundo a obra de , Sobre a Administração Imperial, todo o território a norte do rio Aras foi entregue ao rei ibérico . Tanto em Teodosiópolis como em Melitene, a manutenção do controlo bizantino revelou-se difícil e a população manteve-se irrequieta. Em 939 os bizantinos foram expulsos de Teodosiópolis por uma revolta popular. Curcuas só conseguiu subjugar a cidade em 949, incorporando-a então no Império Bizantino e expulsando a população muçulmana, que foi substituída por colonos gregos e arménios.
Conquista definitiva de Melitene
thumb|Zona fronteiriça árabe-bizantina thumb|Tomada de Melitene em 934 pelas tropas bizantinas de João Curcuas. Crónica de João Escilitzes (Escilitzes de Madrid)
A seguir à morte do emir Abu Háfece ibne Anre em 928, Melitene renunciou à aliança com os bizantinos. Depois de várias tentativas falhadas para tomar a cidade instigando tumultos e intrigas, os bizantinos estabeleceram um anel de fortalezas nas colinas em volta da planície de Melitene e devastaram metodicamente a área. No início de 931, os habitantes de Melitene foram forçados a negociar e concordaram em passar a ser tributários dos bizantinos e até a fornecer um contingente militar para combater ao lado deles.
Entretanto, os outros estados muçulmanos não ficaram inativos: em março, lançaram três raides sucessivos na Ásia Menor, organizados pelo comandante abássida Munis Almuzafar. Em agosto, um raide de grande envergadura comandado pelo emir tarsense Tamal Adulafi penetrou no território bizantino até Ancira (Ancara) e Amório fazendo 136 mil prisioneiros cujo resgate rendeu 136 mil dinares. Enquanto isso, os bizantinos empenhavam-se contra o emir do Azerbaijão no sul da Arménia, onde obtiveram várias vitórias. As fortalezas de Percri e de Manzicerta foram tomadas e seguidamente marcharam sobre a Mesopotâmia e capturaram novamente Samósata.