Abu Abedalá Xurabil ibne Haçana (; ) foi um companheiro de Maomé, escriba da revelação e comandante militar do Califado Ortodoxo. Figura entre os primeiros convertidos ao islã e participou das Guerras da Apostasia e da conquista muçulmana do Levante, durante a qual se destacou como um dos quatro principais generais nomeados pelo califa Abu Becre para comandar os exércitos enviados contra o Império Bizantino. Depois de acompanhar Maomé em diversas gázuas e , atuou como emissário ao Egito e exerceu a função de escriba da revelação.

Durante a conquista da Síria, combateu em importantes campanhas, incluindo os cercos de Bostra e Damasco e as batalhas de Ajenadaim, Fal e Batalha do Jarmuque, desempenhando papel destacado na incorporação da Palestina, da Transjordânia e de parte do litoral sírio ao domínio muçulmano. Após a vitória no Jarmuque, foi encarregado da conquista do norte da Palestina e posteriormente governou Alurdune, participando ainda da entrada do califa Omar ibne Alcatabe em Jerusalém após a rendição da cidade. Morreu durante a Peste de Emaús, em 639. As tradições islâmicas também o recordam como um dos escribas da revelação e transmissor de hádices.

Vida

miniatura|275px|Templo de Xurabil ibne Haçana na Jordânia

Xurabil nasceu em Meca em 573 ou 574. Era filho de Abedalá ibne Muta ibne Anre, membro da tribo árabe dos quindaítas, embora algumas fontes antigas o considerem pertencente à tribo dos tamimitas. Recebeu o nome de sua mãe, Haçana, pois seu pai morreu quando ele ainda era muito jovem. Algumas tradições afirmam que Haçana sequer era sua mãe biológica, mas a mulher que o adotou na infância. Por meio dos casamentos posteriores de Haçana, passou a manter vínculos com os clãs coraixitas dos zuraítas e jumaítas, em Meca, sendo criado por seu padrasto, . Passou a juventude em Meca, onde desfrutou de certo prestígio por saber ler e escrever. Converteu-se ao islã por volta dos 35 anos de idade e figura entre os companheiros de Maomé. Durante a perseguição aos primeiros muçulmanos pelos coraixitas pagãos, integrou a segunda migração muçulmana, emigrando de Meca para a Abissínia. Após a Hégira, mudou-se para Medina, estabelecendo-se junto aos , parentes de seu padrasto, chegando à cidade por ocasião da Campanha de Caibar, em 628. Posteriormente, Xurabil participou de diversas gázuas e conduzidas por Maomé contra as tribos árabes pagãs. Exerceu ainda a função de escriba da revelação, redigindo tanto trechos da revelação corânica quanto documentos oficiais e tratados celebrados pelo profeta. Entre eles figurava o acordo enviado ao governante de Aila, Iuana ibne Ruba, durante a Campanha de Tabuque. Pouco antes da morte de Maomé, foi enviado como emissário ao Egito, regressando a Medina apenas após o falecimento do profeta.

Após a morte de Maomé, em 632, muitas das tribos árabes que haviam abraçado o islã abandonaram a nova religião e romperam com o nascente Estado muçulmano. Em resposta, o primeiro califa do Califado Ortodoxo, Abu Becre , desencadeou as Guerras da Apostasia em toda a Arábia para submeter essas tribos. Inicialmente, Xurabil foi enviado à frente de um contingente destinado a reforçar Icrima ibne Abi Jal na campanha contra Muçailima, levando também uma carta em que Abu Becre conclamava o líder rebelde a submeter-se novamente ao Estado islâmico. Entretanto, tanto Icrima quanto Xurabil atacaram prematuramente e fracassaram diante das forças de Muçailima, sendo a rebelião finalmente derrotada apenas com a chegada de Calide ibne Alualide. Durante essa campanha, Xurabil combateu como comandante subordinado de Calide na campanha de Ácraba ou Iamama, no Négede. Após a vitória muçulmana nas Guerras da Apostasia, Xurabil foi nomeado comandante de um dos quatro exércitos enviados para a conquista do Levante pertencente ao Império Bizantino e a seus aliados árabes cristãos. Como quarto comandante da expedição, marchou para a Síria através de Tabuque, chegando ao Junde de Alurdune com três mil soldados. Após receber reforços, seu exército passou a contar com cerca de sete mil e quinhentos homens, e sua zona de operações correspondia ao território da antiga Palestina Secunda. Poucos detalhes são conhecidos sobre suas campanhas. Sua missão inicial provavelmente consistia em manter sob controle as tribos cudaaítas estabelecidas na região correspondente ao sul da atual Jordânia, as quais haviam aderido, rompido e posteriormente reconciliando-se com o nascente Estado muçulmano sediado em Medina nos anos anteriores.

Segundo os relatos do de Ibne Isaque e Aluaquidi, Xurabil participou do Cerco de Bostra, conduzido por Calide ibne Alualide em maio de 634. Bostra foi a primeira grande cidade síria conquistada pelos muçulmanos. Em julho, serviu como comandante subordinado de Anre ibne Alás na decisiva Batalha de Ajenadaim, travada entre Ramla e Bete-Jibrim, onde comandou, ao lado de Anre, a ala direita do exército muçulmano. O combate também resultou em pesadas perdas para os muçulmanos, mas Xurabil distinguiu-se por sua atuação. Aparentemente, os muçulmanos perseguiram os bizantinos para o norte e voltaram a derrotá-los na Batalha de Fal, travada entre dezembro de 634 e janeiro de 635, ocasião em que Xurabil novamente atuou como comandante subordinado. Segundo o historiador do Ceife ibne Omar, Abu Ubaida ibne Aljarrá deixou Xurabil e Anre encarregados de Fal (Pela), de onde partiram para sitiar Bete-Seã, que acabou rendendo-se após alguns dias de pequenos combates. É provável ainda que Xurabil tenha desempenhado papel de comando na conquista de Gérasa (Jeraxe) e da região do Golã entre o final de 634 e o início de 635. Durante o Cerco de Damasco, ocupou a Porta Faradis e, após a conquista da cidade, entrou nela com suas tropas por esse setor das muralhas. Também participou da Batalha do Jarmuque, desempenhando papel importante na vitória muçulmana.

Após a derrota do exército bizantino do imperador Heráclio no Jarmuque, Xurabil foi encarregado da conquista do norte da Palestina. Depois da vitória, Abu Ubaida ibne Aljarrá designou-o governador do Junde de Alurdune. Nessa condição, conquistou Acre, Tiro, Tiberíades e outras localidades da Síria-Palestina, além de acompanhar o califa Omar ibne Alcatabe quando este entrou em Jerusalém para receber oficialmente a rendição da cidade. Cumpriu sua missão com exceção de Cesareia Marítima, que só seria conquistada posteriormente por outros comandantes muçulmanos, após um cerco que se prolongou por vários anos. Xurabil morreu em 639 durante a Peste de Emaús, na Palestina central, juntamente com Iázide ibne Abi Sufiane, outro dos quatro principais comandantes muçulmanos da conquista da Síria. Segundo o historiador do Albaladuri, tinha 69 anos de idade quando morreu, enquanto Ibne Alatir, escrevendo no , afirma que faleceu aos 67 anos. Seu túmulo é tradicionalmente localizado na aldeia de Uádi Iabis, no norte da Jordânia, embora tradições que o situam no Egito ou em Quilis sejam consideradas incorretas. As fontes também o mencionam entre os escribas da revelação e registram que transmitiu alguns hádices, tendo entre seus discípulos os filhos Rebia e Abederramão, além de Abu Abedalá Alaxari.

Bibliografia

Categoria:Escribas da revelação Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes Categoria:Conquista muçulmana da Síria Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Generais do Califado Ortodoxo