A hepatite C é uma doença infecciosa causada pelo vírus da hepatite C (VHC) que afeta sobretudo o fígado. No momento da infeção inicial, é frequente que as pessoas não manifestem sintomas ou que manifestem apenas sintomas muito ligeiros. Ocasionalmente pode verificar-se febre, urina mais escura, dor abdominal ou icterícia. Após a infeção inicial, o vírus permanece no fígado de 75% – 85% das pessoas inicialmente infectadas, tornando-se uma infecção crónica. No início da fase crónica geralmente não se manifestam sintomas. No entanto, ao longo dos anos a infeção pode levar ao aparecimento de doenças hepáticas e ocasionalmente cirrose. Em alguns casos, os indivíduos com cirrose manifestam complicações como Insuficiência hepática ou cancro do fígado, podendo ainda ocorrer complicações que apresentam risco imediato de vida, como varizes esofágicas ou gástricas.

O contágio com VHC é feito através de contacto sanguíneo, associado sobretudo com a partilha de seringas, uso de materiais médicos mal esterilizados e transfusões de sangue. No entanto, com rastreio de sangue o risco de contágio por transfusão é inferior a um por cada dois milhões. A infeção pode também ser transmitida de mãe para filho durante o nascimento. Não se transmite por contacto superficial. o VHC é um dos cinco tipos conhecidos de vírus da hepatite: A, B, D e E. O diagnóstico é realizado com análises ao sangue que detectam a presença de anticorpos para o vírus ou ARN do vírus. O rastreio é recomendado para grupos de risco.

Não existe vacina contra a hepatite C. As medidas de prevenção incluem não partilhar seringas e o rastreio do sangue doado. A infeção pode ser tratada com os medicamentos sofosbuvir ou simeprevir, cuja taxa de cura é de 90%. Antes destes tratamentos estarem disponíveis era usada uma combinação de peginterferão e ribavirina, que tinha uma taxa de cura de apenas 50% e maiores efeitos adversos. No entanto, o acesso aos novos medicamentos tem custos elevados. Os indivíduos que desenvolvem cirrose ou cancro do fígado podem necessitar de um transplante de fígado. A é a principal causa de transplantes de fígado, embora o vírus normalmente se volte a manifestar mesmo depois do transplante.

Estima-se que haja em todo o mundo 130 a 200 milhões de pessoas infectadas com . Em 2013 houve cerca de 11 milhões de novos casos. A doença é mais comum em África e na Ásia oriental. No mesmo ano, a doença foi a causa de mortes por cancro do fígado e mortes por cirrose. A existência da foi proposta durante a década de 1970 e demonstrada em 1989. A doença afeta apenas seres humanos e chimpanzés.

Sinais e sintomas Infecção aguda A infecção da manifesta-se através de sintomas agudos em 15% dos casos. Os sintomas são geralmente pouco intensos e imprecisos, entre os quais a falta de apetite, fadiga, náuseas, dores musculares ou nas articulações e perda de peso. A maior parte dos casos de infecção aguda não tem relação com a icterícia. A infecção desaparece por si própria e de forma espontânea em 10 a 50% dos casos, o que ocorre com mais frequência em indivíduos jovens do sexo feminino.

Infecção crónica Cerca de 80% daqueles que são expostos ao vírus contraem uma infecção crónica. Durante as primeiras décadas, a maior parte dos infectados não nota qualquer sintoma significativo, embora a crónica esteja associada à fadiga. Após vários anos, a doença torna-se a principal causa de cirrose e de câncer do fígado. Cerca de 10 a 30% dos indivíduos infectados desenvolve cirrose num prazo de 30 anos. A cirrose é mais frequente entre os que estão igualmente infectados com a hepatite B ou o VIH, entre alcoólicos e em indivíduos do sexo masculino. Os que desenvolvem cirrose apresentam um risco vinte vezes maior de contrair um hepatocarcinoma, ao ritmo de 1 a 3% ao ano, e no caso de estar associado ao excesso de álcool o risco aumenta para 100 vezes. A está na origem de 27% dos casos de cirrose e de 25% dos casos de hepatocarcinoma em todo o mundo.

A cirrose hepática pode levar à hipertensão portal, acumulação de líquidos no abdómen, susceptibilidade a hemorragias, varizes (sobretudo no estômago e esófago), icterícia, e uma síndrome de alteração psíquica conhecido como encefalopatia hepática. É uma das causas mais comuns na requisição de transplantes hepáticos.

Complicações extra-hepáticas Ainda que muito raramente, a está associada ao Síndrome de Sjögren (um transtorno auto-imune), à trombocitopenia, ao lichen planus, à diabetes mellitus e a transtornos linfoproliferativos das células B. Estima-se que a trombocitopenia se manifeste entre 0,16% a 45,4% dos indivíduos com crónica. Têm também sido apontadas associações prováveis com o prurigo nodularis e com a glomerulonefrite membranoproliferativa. A infecção por está ainda associada a uma condição conhecida como crioglobulinemia, uma inflamação dos vasos sanguíneos pequenos e médios causada pela deposição de complexos imunes envolvendo crioglobulinas.

Infecção oculta Embora algumas pessoas infectadas com hepatite C possam aparentar ter eliminado o vírus, podem no entanto permanecer infectadas. O vírus não é detectável nos exames convencionais, embora possa ser confirmado através de exames ultra-sensíveis. O primeiro método de detecção consistia em demonstrar a presença do genoma viral em biópsias do fígado. Os métodos mais recentes incluem um teste de anticorpos às principais proteínas do vírus e a detecção do genoma viral na sequência da concentração das partículas virais com ultracentrifugação. Também se tem verificado a existência de uma forma de infeção com enzimas hepáticas no soro moderadamente elevadas de forma persistente, mas sem anticorpos da hepatite C.

A este tipo de infeção têm sido associados diversos cenários clínicos. Pode ser observada em pessoas com anticorpos anti-hepatite C, mas com níveis normais de enzimas hepáticas no soro; em pessoas sem anticorpos com níveis enzimáticos elevados de causa desconhecida; em populações saudáveis sem evidências de doença hepática: e em grupos de risco de infeção por VHC, incluindo pessoas em hemodiálise ou familiares de pessoas com VHC oculto. A relevância clínica desta forma de infeção ainda está a ser investigada. As consequências da infeção oculta aparentam ser menos graves do que as da infecção crónica, mas podem variar desde mínimas a carcinoma hepatocelular.

A taxa de infecção oculta entre os indivíduos aparentemente curados é controversa, mas aparenta ser baixa. 40% das pessoas com hepatite, mas com serologia negativa e ausência de genoma viral detectável no soro, apresentam o vírus da hepatite C durante a biópsia. No entanto, desconhece-se ainda a prevalência em crianças.

Virologia

O vírus da hepatite C (VHC) é um Vírus ARN de senso positivo, de reduzida dimensão, de estirpe única e encapsulado. É um membro do género hepacivírus da família Flaviviridae. Existem sete principais genótipos de VHC, ordenados de um a sete. Nos Estados Unidos, cerca de 70% dos casos têm origem no genótipo 1, 20% no genótipo 2, sendo atribuído a cada genótipo restante cerca de 1% dos casos. O genótipo 1 é igualmente o mais comum na América do Sul e na Europa.

Transmissão thumb|Causas da infecção de Hepatite C nos Estados Unidos em 1999.|223x223px A principal forma de transmissão em países desenvolvidos é através da partilha de seringas, enquanto que nos países em desenvolvimento o contágio tem origem sobretudo em transfusões sanguíneas e práticas clínicas pouco seguras. A causa do contágio é desconhecida em cerca de 20% dos casos, embora se acredite que possam ser contabilizados na partilha de seringas.

Partilha de seringas A partilha de seringas é um dos maiores comportamentos de risco para a transmissão da em grande parte do mundo. Entre 77 países que dispõem de dados, 25 deles revelaram ter taxas de prevalência de entre a população de toxicodependente de 60% a 80%, e doze deles superior a 80%. Acredita-se que dez milhões de toxicodependentes estejam infectados com a doença. A China (1,6 milhões), Estados Unidos (1,5 milhões) e a Rússia (1,3 milhões) são os países com o maior número absoluto de infecções. A incidência de entre reclusos nos Estados Unidos, por exemplo, é dez a vinte vezes maior do que a verificada na generalidade da população. Tem sido apontada como causa a existência de múltiplos comportamentos de alto risco dentro das prisões como a troca de seringas durante o consumo de drogas e a tatuagem com equipamento não esterilizado.

Contágio em meio hospitalar As transfusões sanguíneas, as transfusões de produtos sanguíneos, ou o transplante de órgãos sem o devido rastreio do vírus da representam um avultado risco de infecção. O rastreio universal de VHC tornou-se obrigatório no Canadá em 1990 e nos Estados Unidos em 1992. Esta medida reduziu o risco de contágio de uma em cada 200 unidades de sangue para entre uma em cada 10 000 a 10 000 000 unidades de sangue. Embora muito residual, o risco de contágio continua a existir, já que entre o momento em que um potencial dador de sangue é infectado e a possível detecção da doença através de análises tem que decorrer um período de 10 a 70 dias, dependendo do método usado. Devido ao elevado custo financeiro dos testes, alguns países ainda não rastreiam a presença de .

Indivíduos que tenham sido alvo de uma lesão provocada por uma agulha contaminada com VHC têm uma probabilidade de 1,8% de vir a contrair a doença. O risco é maior se a agulha em questão é oca ou o golpe é profundo. Embora baixo, existe também algum risco na exposição de mucosas ao sangue infectado, não havendo no entanto qualquer risco se a exposição ao sangue infectado ocorrer na pele intacta.

O equipamento hospitalar tem igualmente sido referido como um dos meios de transmissão da , através da reutilização de seringas, da reutilização de recipientes para administração de medicamentos, de sacos de infusão, e de equipamento cirúrgico mal esterilizado, entre outros factores de risco. A ausência ou insuficiente implantação de medidas estritas de prevenção em instalações clínicas ou dentárias, públicas ou privadas, é apontada como a principal causa da disseminação do VHC no Egito, o país com a maior taxa de infecção em todo o mundo.

Relações sexuais A probabilidade da transmissão da através de contacto sexual é uma questão controversa. Embora haja uma associação entre comportamentos sexuais de risco e a , desconhece-se se a transmissão da doença se deve à própria atividade sexual enquanto factor de risco ou ao consumo não admitido de drogas. A maioria das conclusões sustenta que não haja risco para casais heterossexuais monogâmicos. No entanto, são factores de risco as práticas sexuais que envolvam um maior risco de trauma da mucosa anogenital, como o sexo penetrativo anal, ou práticas que sejam realizadas quando haja uma doença sexualmente transmissível concorrente, como o VIH ou úlceras genitais. Nos Estados Unidos, o uso de preservativo enquanto método de protecção contra a , é apenas recomendado no contexto de múltiplos parceiros sexuais.

Piercings e tatuagens Uma tatuagem representa um risco duas a três vezes maior de contrair . Isto pode dever-se tanto à má esterilização do equipamento como à própria contaminação da tinta usada. As tatuagens ou piercings realizados antes de meados da década de 80, de forma clandestina ou de forma não profissional são um motivo de preocupação adicional, uma vez que é provável que não tenham sido usados quaisquer mecanismos de esterilização. O risco também aparenta ser maior consoante a dimensão da própria tatuagem. Estima-se que cerca de metade dos reclusos partilhem equipamento de tatuagem não esterilizado. Mas é raro para os tatuadores em estúdios licenciados estarem ligados diretamente com as infecções virais.

Partilha de objectos de uso pessoal