Os terafosíneos (Theraphosinae) formam uma subfamília de aranhas migalomorfas da família Theraphosidae, endêmica do Novo Mundo. É a subfamília mais diversa de tarantulas no mundo, com mais de 500 espécies conhecidas distribuídas exclusivamente nas Américas.
A subfamília é caracterizada por um mecanismo singular de defesa: o uso de pêlos urticantes abdominais que podem ser liberados no ar quando perturbados. As maiores e mais longevas aranhas do mundo pertencem a esta subfamília, incluindo a aranha-golias-comedora-de-pássaros (Theraphosa blondi), que pode pesar até 175 gramas e atingir 28 centímetros de envergadura das pernas.
Características
Morfologia
As espécies de Theraphosinae apresentam grande variação de tamanho. A menor espécie conhecida, Aphonopelma paloma, possui corpo de apenas 12 milímetros de comprimento, enquanto a maior, Theraphosa blondi, pode atingir 13 centímetros de comprimento corporal e envergadura de pernas de até 28 centímetros, com massa podendo chegar a 175 gramas.
Como todas as Mygalomorphae, possuem quelíceras robustas voltadas para baixo, com presas que podem atingir até 4 centímetros de comprimento em espécies grandes como T. blondi. O corpo é geralmente robusto, coberto por pelos densos, e as pernas são equipadas com duas garras terminais.
Pêlos urticantes
A característica mais distintiva da subfamília Theraphosinae é a presença de pêlos urticantes especializados no abdômen, uma adaptação defensiva exclusiva de tarantulas do Novo Mundo. Foram documentados sete tipos morfológicos diferentes de pêlos urticantes em Theraphosinae (tipos I a VII), sendo os tipos I, III e IV os mais comuns na subfamília.
Esses pelos podem ser liberados de duas maneiras: esfregando as pernas traseiras contra o abdômen para lançá-los no ar em direção ao predador, ou por contato direto. Os pêlos urticantes causam irritação intensa em pele e mucosas, sendo particularmente eficazes contra mamíferos predadores. Além do uso defensivo direto, as fêmeas incorporam esses pelos em seus casulos de ovos e algumas espécies os utilizam para forrar as paredes de suas tocas como proteção adicional.
Algumas espécies, como Theraphosa blondi, também são capazes de produzir sons audíveis (estridulação) esfregando cerdas especializadas nas pernas, criando um ruído de advertência que pode ser ouvido a até 4,5 metros de distância.
Hábitos e comportamento
As espécies de Theraphosinae são predominantemente terrestres e construtoras de tocas, habitando buracos no solo que forram com seda para maior estabilidade. Vivem em praticamente todos os ambientes terrestres dentro de sua distribuição, desde o nível do mar até altitudes de 4.524 metros nos Andes, o maior registro altitudinal conhecido para qualquer tarântula.
São predadores generalistas noturnos que se alimentam principalmente de grandes artrópodes, mas espécies maiores podem ocasionalmente capturar pequenos vertebrados como roedores, lagartos e anfíbios. Apesar do nome popular "comedoras de pássaros" atribuído ao gênero Theraphosa, a predação de aves é extremamente rara e oportunística.
Distribuição geográfica
A subfamília Theraphosinae é endêmica do Novo Mundo, com distribuição que se estende desde o sudoeste dos Estados Unidos até as zonas temperadas do norte da Argentina e sul do Chile. Nos Estados Unidos, as tarantulas são encontradas a oeste do Rio Mississípi, ao sul de uma linha que atravessa Missouri, Kansas, Colorado, Utah e Nevada, e através do norte da Califórnia.
A subfamília está presente em praticamente todos os países da América Central e América do Sul, incluindo México, Guatemala, Belize, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Brasil, Peru, Equador, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile, além de diversas ilhas do Caribe como Trinidad, Cuba e Antilhas Menores.
As espécies habitam uma ampla variedade de ambientes, incluindo florestas tropicais, savanas, pampas, desertos, florestas de montanha e regiões semiáridas. A maior diversidade de espécies concentra-se nas regiões tropicais da Amazônia e florestas da América Central, embora gêneros como Aphonopelma tenham se diversificado extensivamente em ambientes áridos e desérticos da América do Norte.
Gêneros
A subfamília Theraphosinae inclui aproximadamente 50 gêneros reconhecidos e mais de 500 espécies descritas:
Acanthoscurria Aenigmarachne Aphonopelma Bonnetina Brachypelma Chromatopelma Citharacanthus Clavopelma Crassicrus Cyclosternum Cyriocosmus Cyrtopholis Euathlus Eupalaestrus Grammostola Hapalopus Hapalotremus Hemirrhagus Homoeomma Lasiodora Lasiodorides Magulla Maraca Megaphobema Melloleitaoina Metriopelma Neostenotarsus Nesipelma Nhandu Ozopactus Pamphobeteus Paraphysa Phormictopus Plesiopelma Proshapalopus Pseudhapalopus Reversopelma Schismatothele Schizopelma Sericopelma Sphaerobothria Stichoplastoris Theraphosa Thrixopelma Tmesiphantes Vitalius Xenesthis
Estudos filogenéticos recentes baseados em dados genômicos sugeriram a necessidade de reorganização taxonômica da subfamília, com propostas de divisão em três tribos: Theraphosini, Hapalopini e Grammostolini. O gênero Aphonopelma, amplamente distribuído nos Estados Unidos e México, foi recuperado como polifilético, indicando que pode representar múltiplas linhagens evolutivas distintas.
Taxonomia e evolução
A subfamília Theraphosinae foi formalmente revisada e definida por Fernando Pérez-Miles et al. em 1996, com base em análise cladística que identificou os pêlos urticantes como principal sinapomorfia do grupo.
Estudos filogenômicos recentes utilizando dados de transcriptoma e elementos ultraconservados confirmaram a monofilia de Theraphosinae e sua posição como grupo-irmão de Aviculariinae, outra subfamília americana com pêlos urticantes. A diversificação do grupo nas Américas ocorreu principalmente nos últimos 5 milhões de anos, com rápida radiação adaptativa em ambientes áridos e desérticos, particularmente no gênero Aphonopelma.
Conservação
Diversas espécies de Theraphosinae enfrentam ameaças devido à destruição de habitat e coleta excessiva para o comércio de animais de estimação. Todas as espécies do gênero Brachypelma, endêmico do México, estão listadas no Apêndice II da CITES, com algumas espécies no Apêndice I devido ao risco crítico de extinção.
A espécie Brachypelma smithi foi a primeira aranha a ser incluída na CITES, em 1985, devido à coleta excessiva para o comércio internacional. A criação em cativeiro tem se expandido significativamente, ajudando a reduzir a pressão sobre populações selvagens, embora o tráfico ilegal ainda represente uma ameaça significativa para várias espécies.
Categoria:Terafosíneos