Huceine ibne Ali Alhaximi (; Constantinopla, – Amã, ) foi um xarife dos Du Aune, emir de Meca de 1908 a 1916 e rei do Hejaz de 1916 a 1924. Neto do emir Maomé ibne Abede Almuine, passou parte da juventude em Meca e posteriormente viveu durante muitos anos em Constantinopla, onde integrou a administração otomana. Foi nomeado emir de Meca em 1908, depois da Revolução dos Jovens Turcos, e durante seu governo procurou preservar as prerrogativas tradicionais dos xarifes diante da crescente centralização promovida pelo governo otomano. Durante a Primeira Guerra Mundial, suas relações com o governo central deterioraram-se e Huceine iniciou negociações com a Grã-Bretanha acerca da criação de um Estado árabe independente. Em junho de 1916, rompeu com o Império Otomano e iniciou a Revolta Árabe, conduzida militarmente sobretudo por seus filhos e apoiada pelos britânicos. Destituído pelos otomanos do Emirado de Meca, proclamou-se naquele mesmo ano rei dos países árabes, embora as potências aliadas o reconhecessem apenas como rei do Hejaz.
Depois da guerra, opôs-se aos arranjos territoriais estabelecidos pelas potências europeias no antigo Oriente Médio otomano e recusou-se a ratificar os tratados propostos pelos britânicos. Em 1924, após a abolição do Califado Otomano, assumiu também o título de califa, reivindicação que não alcançou reconhecimento amplo no mundo islâmico. A expansão de Abedalazize ibne Saúde levou à invasão do Hejaz em 1924. Após a tomada de Taife pelas forças sauditas, Huceine abdicou em favor de seu filho Ali ibne Huceine e retirou-se para Ácaba. Posteriormente foi enviado para Chipre, onde permaneceu até receber autorização para se transferir, já gravemente doente, para Amã. Morreu em 1931 e foi sepultado em Jerusalém, no recinto do Haram Axarife, próximo da Mesquita de Alacça.
Vida
Huceine era filho de Ali Paxá ibne Maomé e pertencia aos aúnidas (Du Aune), ramo dos catádidas da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Era neto do emir Maomé ibne Abede Almuine e sobrinho dos emires Abedalá Camil Paxá, Huceine ibne Maomé, Aune Arrafique e Abede Alilá. Nasceu em Constantinopla em 1853. Durante o último governo de seu avô, entre 1856 e 1858, viveu em Meca, mas regressou depois a Constantinopla. Com a morte de seu pai, em 1861, voltou ao Hejaz e passou a viver junto de seu tio Abedalá, completando sua educação em Meca. Em 1880, quando Abede Almotalibe ibne Galibe foi novamente nomeado emir, Huceine retornou à capital otomana. Mais tarde recebeu a dignidade de vizir e tornou-se membro do Conselho de Estado. A partir de 1893 permaneceu continuamente em Constantinopla, onde viveu com sua família até ser nomeado emir. A oportunidade para assumir o Emirado de Meca surgiu depois da Revolução dos Jovens Turcos de 1908. Ali Paxá ibne Abedalá foi deposto em outubro e o governo otomano escolheu inicialmente Abede Alilá para substituí-lo. Este, porém, morreu subitamente em Constantinopla enquanto preparava sua partida para o Hejaz. Huceine foi então nomeado emir em novembro e chegou a Meca em dezembro de 1908. Uma das primeiras dificuldades de seu governo foi restabelecer a segurança das rotas do haje, perturbadas por tribos beduínas cujos rendimentos haviam sido afetados pela entrada em funcionamento da Ferrovia do Hejaz. Em janeiro de 1909, diante da insuficiência das forças disponíveis, Huceine encarregou seu irmão Nácer e seu filho Abedalá de acompanhar a caravana até Damasco, conseguindo assegurar seu retorno.
Desde os primeiros anos de seu emirado, Huceine procurou conservar as prerrogativas tradicionalmente exercidas pelos xarifes diante da política centralizadora do governo otomano. Em 1909, entrou em conflito com funcionários provinciais e com integrantes locais do Comitê para a União e o Progresso, e suas reclamações contribuíram para a substituição do governador Fuade Paxá por Xevquete Paxá. A transformação de Medina em sanjaco independente em 1910 também contrariou seus interesses, pois reduzia a extensão territorial sobre a qual exercia influência. Naquele mesmo ano, organizou uma expedição em direção a Alcacim sob o pretexto de arrecadar impostos e procurou afirmar sua autoridade sobre as tribos da região diante de Abedalazize ibne Saúde. A posição de Huceine fortaleceu-se nos anos seguintes. Nas eleições de 1912, seus filhos Abedalá e Faiçal foram eleitos representantes de Meca e Gidá no Parlamento otomano, e em 1913 Huceine participou da campanha otomana contra a revolta em Assir. As relações com o governo central voltaram a deteriorar-se às vésperas da Primeira Guerra Mundial. O governador e comandante do Hejaz, , nomeado em janeiro de 1914, procurou limitar a autonomia do emir, enquanto Huceine tentou preservar sua influência regional. Em julho, Uaibe recomendou sua destituição e substituição por outro xarife. Quando o Império Otomano entrou na guerra, Huceine declarou publicamente sua lealdade e afirmou que cumpriria seus deveres para com o Estado. Ao mesmo tempo, porém, evitou apoiar a proclamação otomana da jiade e procurou impedir que a Ferrovia do Hejaz fosse prolongada de Medina até Meca.
Durante 1915, Huceine passou a explorar a possibilidade de uma ruptura com o governo otomano. Seu filho Abedalá já havia mantido contatos anteriores no Cairo com autoridades britânicas, enquanto Faiçal, enviado a Damasco, estabeleceu contato com membros de organizações árabes clandestinas. Estes apresentaram-lhe o chamado , que propunha a formação de um Estado árabe independente abrangendo grande parte das províncias árabes do Império Otomano. A partir de julho de 1915, Huceine iniciou, por intermédio de Abedalá, negociações com o alto-comissário britânico no Egito, Henry McMahon. Na correspondência que se prolongou até março de 1916, Huceine procurou obter o reconhecimento britânico de um futuro Estado árabe, enquanto McMahon aceitou em princípio a independência árabe, mas formulou reservas territoriais cuja extensão posteriormente se tornou objeto de prolongada controvérsia. As negociações ocorreram paralelamente a acordos britânicos com outras potências e governantes da região. Pelo Acordo Sykes-Picot, concluído secretamente em maio de 1916, britânicos e franceses dividiram entre si zonas de influência em territórios que Huceine considerava incluídos no futuro Estado árabe; em dezembro de 1915, os britânicos também haviam concluído um tratado com Abedalazize ibne Saúde reconhecendo sua posição no Négede e em áreas do golfo Pérsico.
Em junho de 1916, Huceine iniciou em Meca a Revolta Árabe. Numa proclamação publicada naquele mês, justificou a rebelião acusando o governo do Comitê para a União e o Progresso de violar princípios islâmicos e de oprimir os árabes. As forças comandadas por seus filhos e apoiadas financeiramente e materialmente pelos britânicos conquistaram rapidamente Meca e Gidá; Taife caiu em setembro. Medina, entretanto, permaneceu sob o comando otomano de Facradim Paxá e somente se rendeu em janeiro de 1919.O governo otomano destituiu Huceine do emirado e, em 1 de julho de 1916, nomeou Ali Haidar Paxá, dos Du Zaíde, para substituí-lo. Ali Haidar dirigiu-se ao Hejaz e chegou a Medina, mas, em razão da revolta, não conseguiu alcançar Meca e procurou exercer dali as funções de emir. Em novembro de 1916, Huceine proclamou-se rei dos países árabes. As potências aliadas, porém, reconheceram-no apenas como rei do Hejaz, título sob o qual seu governo se consolidou internacionalmente. A revolta permaneceu militarmente concentrada sobretudo no Hejaz e nas regiões percorridas pelas forças xarifianas em direção à Síria. A historiografia diverge sobre seu alcance político e militar e sobre o grau em que representou aspirações árabes mais amplas; estudos posteriores rejeitam a caracterização da revolta como uma insurreição geral dos árabes do Império Otomano.
A vitória dos Aliados em 1918 não produziu o grande Estado árabe esperado por Huceine. Na Conferência de Paz de Paris de 1919, seu filho Faiçal procurou obter reconhecimento para as reivindicações haxemitas, mas a divisão dos antigos territórios otomanos em zonas de influência e posteriormente em mandatos britânicos e franceses contrariou essas pretensões. Huceine recusou-se a aceitar formalmente os arranjos que colocavam a Palestina sob administração britânica e não ratificou os projetos de tratado apresentados pela Grã-Bretanha, mantendo particularmente sua oposição à aplicação da Declaração Balfour na Palestina. Ao mesmo tempo, seus filhos estabeleceram novas monarquias haxemitas: Faiçal tornou-se rei do Iraque, enquanto Abedalá passou a governar a Transjordânia. Durante o pós-guerra agravou-se também a rivalidade entre Huceine e Abedalazize ibne Saúde, cujo poder se expandia a partir do Négede. Os dois governantes disputavam territórios e influência na Arábia, particularmente nas regiões fronteiriças entre o Hejaz e os domínios sauditas. Depois da abolição do Califado Otomano pela Grande Assembleia Nacional da Turquia em março de 1924, Huceine assumiu o título de califa. Sua reivindicação recebeu apoio de parte de seus partidários e de alguns círculos do Hejaz, mas não alcançou reconhecimento amplo no mundo islâmico e foi contestada por outros governos e autoridades muçulmanas.
Em 1924, forças de Abedalazize ibne Saúde e dos Icuanes invadiram o Hejaz e tomaram Taife. O avanço saudita provocou uma grave crise política em Meca e Gidá, cujos dignitários passaram a pressionar Huceine para que deixasse o governo. No início de outubro, concordou em abdicar, e seu filho Ali ibne Huceine foi proclamado rei do Hejaz. Huceine deixou Gidá e dirigiu-se a Ácaba, enquanto Ali tentou continuar a resistência contra os sauditas. A abdicação não encerrou a guerra, e Abedalazize conquistou Meca ainda naquele mês; o restante do reino cairia no ano seguinte. A documentação britânica contemporânea confirma que a substituição de Huceine por Ali ocorreu em meio ao avanço saudita e às negociações dos dignitários de Meca e Gidá sobre a sobrevivência do governo haxemita. Huceine permaneceu inicialmente em Ácaba, mas sua presença ali tornou-se problemática para o governo britânico devido às tensões com Abedalazize. Em 1925, deixou a região e foi enviado para Chipre, onde permaneceu durante vários anos. Gravemente doente, recebeu em 1930 autorização para deixar a ilha e dirigir-se a Amã, onde seu filho Abedalá governava a Transjordânia. Morreu ali em 1931. Seu corpo foi levado a Jerusalém e sepultado no recinto do Haram Axarife, próximo da Mesquita de Alacça.
Bibliografia
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