thumb|350px|Afresco achado em Pompeia A sexualidade na Roma Antiga é mencionada na arte, na literatura, em inscrições, e principalmente em achados arqueológicos, tais como artefatos eróticos, pinturas parietais e na arquitetura. A tradição posterior, por vezes, colocava a "prática sexual livre" como característica da antiga Roma,Catharine Edwards, The Politics of Immorality in Ancient Rome. Cambridge: Cambridge University Press, 1993, p. 65. mas tais atitudes prática nunca obtiveram boa impressão no Ocidente desde a ascensão do cristianismo. Na imaginação popular e da cultura, tornaram-se sinônimo de libertinagem e abuso sexual.

Mas a sexualidade não foi exatamente uma preocupação da maioria dos romanos e sim as normas sociais tradicionais que afetavam a vida pública, privada e militar. Pudor e vergonha foram fatores de regulação do comportamento, como também as restrições legais sobre certas transgressões sexuais foram reguladas em ambos os períodos (Republicano e Imperial). Os censores eram funcionários públicos que determinavam a posição social dos indivíduos e serviam também para avaliar uma má conduta sexual e que tipo de comportamento deveriam adotar os cidadãos da ordem senatorial. Michel Foucault, em meados do , considerou o sexo em todo o mundo greco-romano regido pela contenção e arte de administrar o prazer sexual.

A sociedade romana era patriarcal e a masculinidade baseava-se em uma capacidade para governar a si mesmo e outros de menor status, não só na guerra e na política, mas na cama também. A "Virtude" (virtus), termo relacionados pela etimologia para a palavra latina para "homem" (vir), era um ideal masculino, ativo, de auto-disciplina. O ideal era correspondente a uma mulher pudica, que frequentemente traduzido como a castidade ou modéstia, mas também uma qualidade mais positiva e até mesmo com uma conotação competitiva. As matronas, mulheres romanas das classes altas, eram criadas para serem bem educadas, de caráter forte, e firmes na manutenção de sua família na sociedade.

Algumas atitudes e comportamentos sexuais na cultura romana antiga diferem de uma maneira marcante daquelas nas sociedades ocidentais. A religião romana apoiava-se na sexualidade como um aspecto de prosperidade para o Estado, e os indivíduos podiam dirigir a prática religiosa privada ou "mágica" para melhorar a sua vida erótica ou saúde reprodutiva. A prostituição era legal, pública e generalizado. Pinturas pornográficas foram destaque entre as coleções de arte em respeitáveis ​​famílias da classe alta.

É importante ressaltar que uma análise enganosamente rígida, com um olhar recheado de valores contemporâneos, pode obscurecer as verdadeiras expressões da sexualidade entre os romanos. Ao contrário do que se é transmitido nos dias de hoje, a sexualidade no Mundo Antigo era vista como algo positivo, representada pelos próprios deuses. Mesmo que a relevância da palavra "sexualidade" para a cultura romana tem sido contestada, na ausência de qualquer outro rótulo para a interpretação cultural da experiência erótica, o termo continua a ser usado.

O sexo, a religião e o Estado thumb|Afresco encontrado em Pompeia do deus romano Príapo, conhecido por ter seu pênis sempre ereto demonstrando a ligação da sexualidade e da religião para os romanos

Como outros aspectos da vida romana, a sexualidade foi apoiada e regulada por tradições religiosas. Tanto o culto público do Estado quanto os cultos privados convergiam para práticas religiosas e mágicas. A sexualidade era uma categoria importante do pensamento religioso romano. O complemento do masculino e feminino foi fundamental para o conceito romano de divindade. Entre os objetos religiosos, o falo sagrado sempre foi muito importante e usado pelos romanos. Em linhas gerais, ele era um símbolo apotropaico, ou seja, tinha o poder de afastar o azar e as influências maléficas, ao mesmo tempo em que simbolizava a proteção junto à ideia de fertilidade e vida.

Os sacerdotes romanos deveriam se casar e ter família. Cícero declarou que o desejo (libido) de procriar era "o canteiro da República", como era a causa da primeira forma de instituição social, o casamento. O casamento produzia filhos e, por sua vez uma "casa" (domus) para a unidade da família, que era o alicerce da vida urbana. Muitas festas religiosas romanas tinham o elemento da sexualidade. Os Lupercália, em fevereiro, comemorados até o século V da era cristã, incluíam um rito de fertilidade arcaico. Na Florália, mulheres dançavam nuas. Em certos festivais ao longo de abril, as prostitutas também participavam, com reconhecimento oficial. A associação entre a reprodução humana, a prosperidade geral e o bem-estar do Estado sempre foi encarnada pelo culto romano de Vênus, que difere de sua contraparte grega Afrodite em seu papel como mãe do povo romano através de seu filho semi-deus, Eneias.

Durante as guerras civis dos anos , o general Sila, prestes a invadir seu próprio país com as legiões sob seu comando, emitiu um denário representando uma Vênus coroada como sua protetora pessoal e um Cupido segurando um ramo de palma da vitória, e no reverso troféus militares que remetiam aos áugures. As divindades e as ligações de amor e desejo com o sucesso militar e a autoridade religiosa eram representadas nessas imagens ou objetos. Cupido inspirou o desejo, e o deus importado Priapo representava a luxúria bruta ou humorística; Mutuno Tutuno, equivalente latino de Priapo, promovia o sexo marital. O deus Liber supervisionava respostas fisiológicas durante a relação sexual. Quando um jovem assumia a toga viril, se tornava seu patrono - de acordo com os poetas líricos, ele deixava para trás a modéstia inocente (pudor) da infância e adquiria a liberdade sexual (libertas) para iniciar seu curso de amor.

Os grafites de Pompeia

Para os estudos sobre sexualidade na Roma antiga, os historiadores se juntam a estudiosos de outras áreas como a Arqueologia e a Antropologia para analisar os grafites e afrescos encontrados no sítio arqueológico de Pompeia - que eram manifestações populares feitas nas paredes da cidadeSANFELICE, Pérola de Paula.(2010) p.174. - devido ao fato desse tipo de fonte ser a principal disponível aos pesquisadores para os estudos dessa área.SANFELICE, Pérola de Paula. (2010) p.167-190

Um aspecto importante para o estudo da sexualidade em Roma é a ligação entre sexo e religião. Um exemplo dessa ligação é a origem dos deuses, que geralmente nascem do casamento e do ato sexual entre outros deuses. Essa também é a origem dos fundadores da cidade de Roma, Rômulo e Remo, filhos da união oculta entre Reia Sílvia e o deus Marte. Um outro exemplo disso é a representação do falo, símbolo amplamente encontrado em imagens e objetos, que, na visão dos romanos, é um símbolo relacionado à fertilidade e procriação, e portanto era usado em amuletos para boa sorte e contra maus espíritos.SANFELICE, Pérola de Paula.(2010) p.172 Além disso, o ato sexual e a verbalização do mesmo também tinham conotações sagradas e de prosperidade.FUNARI,Pedro Paulo.(2002) p.88.

Os grafites encontrados em Pompeia, cuja escavação teve o auge durante o período fascista, no qual se buscava as origens da Itália na grandiosidade da Roma antiga,SANFELICE, Pérola de Paula.(2010) p.175 tratam dos mais variados temas, como menções a práticas sexuais, declarações de amor, manifestação de ciúmes etc. Como os documentos escritos encontrados se referem mais a assuntos oficiais como política, economia e guerra, essas manifestações são as fontes disponíveis para os estudos de assuntos do cotidiano romano, como a própria sexualidade.SANFELICE, Pérola de Paula.(2010) p.168. A utilização de técnicas de outras áreas é necessário porque as imagens são representações da realidade, mas possuem signos da cultura que ela representa, possuindo diversos significados.

Esses grafites se encontram em locais públicos, nos quais qualquer um poderia vê-los. Portanto, é possível considerar a sexualidade como um fenômeno cultural não apenas restrito à esfera da vida separada, mas sim parte de todas as outras esferas como a política, religião ou a economia.SANFELICE, Pérola de Paula.(2010) p.176

Durantes muitos anos, as análises em relação a esses grafites eram feitas a partir dos conceitos judaico-cristãos sobre sexo, que é visto como um pecado e, portanto, as imagens eram vistas até como pornografia. Devido a essa forma de percepção em relação ao sexo, muitas dessas imagens foram destruídas ou escondidas do público geral no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Apenas no ano 2000 essa coleção foi reaberta, mesmo com o veto do Vaticano à apresentação de "objetos obscenos", mas apenas com agendamento prévio e acompanhamento de um guia.

Homossexualidade em Roma

thumb|300px|Afresco de uma relação sexual entre dois homens e uma mulher encontrada em termas em Pompeia

Considerava-se natural e normal para os homens adultos serem sexualmente atraídos por jovens de ambos os sexos, e a pederastia foi tolerada enquanto os parceiros mais jovens não eram romanos livres. "Homossexual" e "heterossexual" não formam a dicotomia primária do pensamento romano sobre a sexualidade, e nenhuma palavra latina existia para esses conceitos (ver mais abaixo).

Não havia censura moral a homens adultos que gostavam de atos sexuais com mulheres ou homens de status inferior, contanto que seus comportamentos não revelassem deficiências ou excessos, nem infringindo os direitos e prerrogativas de seus pares masculinos. Enquanto que a efeminação percebida era denunciada, especialmente na retórica política, o sexo com moderação com prostitutas ou escravos do sexo masculino não era considerado abusivo ou viciante da masculinidade, se o cidadão do sexo masculino levasse o ato ativo e não o papel de recepção. A hipersexualidade, no entanto, foi condenada moralmente e clinicamente em homens e mulheres. As mulheres são mantidas a um rigorosa código moral, e as relações homossexuais entre mulheres são pouco conhecidas, mas a sexualidade das mulheres é diversamente celebrada ou insultada em toda a literatura latina. Em geral, os romanos tinham categorias de gênero mais flexíveis do que os antigos gregos.

Segundo o autor Pedro Paulo Funari, para os romanos, as relações homossexuais - conhecidas em Roma como "amor grego" - eram aceitas desde que fosse entre um aristocrata e o seu escravo. No entanto, essa prática não era aceita entre dois cidadãos romanos.GRIMAL, Pierre.(2005) p. 106-107. A diferença entre a visão dos gregos e dos romanos sobre a homossexualidade é que para os gregos haveria um cárater "pedagógico" na relação entre o homem mais velho (mestre) e o mais novo (aprendiz),FUNARI,Pedro Paulo.(2002) p.87. como enunciado no diálogo Banquete de Platão.

Existe uma interpretação na qual o homem deve apenas penetrar e não ser penetrado, mas isso é relativo, pois há exemplos como Caio Júlio César que era conhecido por ser "esposa de todos os homens e marido de todas as mulheres".FUNARI,Pedro Paulo.(2002) p.88, apud Suetónio. Segundo Funari, os romanos condenavam o ato de se vestir como alguém de outro sexo, e não as relações homossexuais.

Literatura erótica e Arte A Literatura latina antiga com relação à sexualidade na Roma antiga se reporta praticamente a quatro categorias: textos jurídicos; textos médicos; poesia e discurso político. As formas de expressão com menor prestígio cultural na Antiguidade seriam a comédia, sátira, poesias amorosas, os grafites nas paredes, magias, inscrições e decoração de interiores, e essas categorias têm mais a dizer sobre sexo do que aquelas consideradas superiores, como a épica e a tragédia. Informações sobre a vida sexual dos romanos estão espalhadas na historiografia, oratória, filosofia e escritos sobre medicina, agricultura e outros tópicos técnicos.

thumb|250px|esquerda|Sátiro e Ninfa, símbolo mitológicos da sexualidade em um mosaico de um quarto em Pompeia.