Maria Quitéria de Jesus (Feira de Santana, 27 de julho de 1792 — Salvador, 21 de agosto de 1853) foi uma militar baiana que lutou na Guerra da Independência do Brasil. Desde 1996 é a patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército BrasileiroPresidência da República do Brasil decreta Maria Quitéria de Jesus patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Presidência da República; Casa Civil; Subchefia para Assuntos Jurídicos. Acesso em 15/02/2010. e desde 2018 integra o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Em 1821, fugiu da fazenda em que morava com a família e, assumindo identidade masculina, alistou-se no Batalhão de Voluntários do Príncipe, também conhecido como Batalhão dos Periquitos, que estava estacionado na Vila de Cachoeira. Atuou no regimento de artilharia e foi alçada a 1ª cadete pelo general Pedro Labatut. Após a guerra foi condecorada com a Imperial Ordem do Cruzeiro pelo imperador Pedro I do Brasil, que também lhe concedeu um soldo vitalício de alferes.
É reconhecida por ser a primeira mulher a assentar praça numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras, apesar de ter havido outras combatentes nas mesmas trincheiras. Em 26 de julho de 2018, por meio da Lei federal n° 13.697, teve seu nome incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, junto a Sóror Joana Angélica, Maria Filipa de Oliveira e João das Botas, figuras importantes da Guerra de Independência do Brasil na Bahia.
Primeiros anos Do ponto de vista histórico muito pouco se sabe a respeito da infância e juventude de Maria Quitéria. As fontes documentais a esse respeito são bastante limitadas. Por outro lado, uma série de biografias romanceadas tem atribuído fatos à sua trajetória que não puderam até hoje ser verificados nas fontes.JÚNIOR, Pereira Reis de. Mária Quitéria. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 1953.
São José das Itapororocas Guardada pela arquitetura da alta serra de granito, São José das Itapororocas era no final do século XVIII a terceira das Freguesias que delimitavam o território da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira, até então o mais importante centro comercial do Recôncavo Baiano, com mais de 30 léguas, abrangendo várias capelas como Santo Antônio do Tanquinho, Olho d'Água da Feira, Santa Bárbara, dentre outras. Após 1832 passa a estar vinculado à vila de Feira de Santana. Desde 1983 o distrito de São José das Itapororocas passou a denominar-se Maria Quitéria.
A vida antes da guerra Foi a filha primogênita de Gonçalo Alves de Almeida e de Quitéria Maria de Jesus. Na sequência, nasceu sua irmã Josefa, em 1794, e seu irmão Luiz, em 1796. As fontes se contradizem a respeito do ano de nascimento de Maria Quitéria. Na petição feita por seu pai solicitando o inventário dos bens da família, o escrevente registra que ela teria 10 anos em junho de 1802. Por outro lado, na certidão de óbito de Maria Quitéria, consta que teria morrido aos 56 anos, portanto nascido em 1797. A certidão de batismo, que não especifica a data de nascimento, foi registrada apenas em 27 de julho de 1798, segundo o Livro de Baptizados de São José das Itapororocas, no arquivo da Secretaria do Arcebispado:LIMA, João Francisco de (1977). A incrível Maria Quitéria. Portugal: Nova Época. pp. 19 (total de páginas citadas) miniaturadaimagem|263x263px|Feira de Santana em foto do jornal Correio de Manhã de 1963. Ao fundo, à direita, vê-se o Paço Municipal Maria Quitéria, sede do poder executivo local.miniaturadaimagem|262x262px|Mapa do Recôncavo baiano elaborado por Teodoro Fernandes Sampaio em 1899 com apoio do Governo da Bahia. Editado e impresso na Litho Typographia Reis & Companhia.
Em 10 de fevereiro de 1802 morreu a sua mãe. Cinco meses após ficar viúvo o pai casou-se novamente com Eugênia Maria dos Santos na Capela de São José das Itapororocas. No Arquivo da Secretaria do Arcebispado, no Livro de Casamentos, o vigário Miguel Ribeiro Lima fez o seguinte registro:Eugênia Maria dos Santos morreu pouco tempo depois sem que da união nascessem filhos. Em janeiro de 1803 registra-se que a família possuía:Em 1804, Gonçalo Alves de Almeida vendeu o sítio do Licorizeiro e comprou a fazenda Serra da Agulha, na mesma freguesia de São José das Itapororocas. A fazenda tinha uma légua de extensão por trezentos e cinquenta metros de largura. No mesmo ano casou-se com Maria Rosa de Brito, com que teve outros seis filhos, Francisca, Teresa, Bernarda, Ana, Josefa e Manoel, além dos três com a primeira esposa. O fazendeiro baiano viria ainda a adquirir terras de Manuel Ferreira da Silva e de Romão Alves, o que levou Pereira Reis Júnior a concluir que “com os haveres que detém, já é, na época, abastado fazendeiro”. Maria Quitéria não teve acesso à educação formal, por isso era analfabeta, ainda que tenha aprendido assinar seu nome. Segundo Maria Graham, que registrou a conversa que teve com Quitéria em seu livro Diário de uma viagem ao Brasil:
A Guerra de Independência
Antecedentes Os historiadores divergem a respeito da cronologia do movimento que levou à Independência do Brasil de Portugal. Algumas datas, porém, são consensuais. A transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 pode ser identificado como um fato pioneiro e decisivo nesse sentido. A partir daquele momento o Rio de Janeiro passou a ser a capital do Reino de Portugal, mudando o eixo geopolítico do império lusitano de Lisboa para a então colônia do Estado do Brasil. Em 1815 João VI de Portugal elevou o Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, condição que permitiu uma liberalização das práticas comerciais do Brasil, que já vinham em uma crescente desde 1808, com o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, entre outros decretos. miniaturadaimagem|263x263px|Cidade de Cachoeira (Bahia), situada às margens do Rio Paraguaçu, no Recôncavo baiano. Foi palco importante da Independência do Brasil na Bahia. Em 24 de agosto de 1820 estourou a Revolução Liberal do Porto, fruto da insatisfação das elites portuguesas com as políticas de João VI de Portugal, a quem consideravam que as haviam abandonado em favor da antiga colônia americana. Os revoltosos exigiam o retorno da família real para Lisboa e principalmente a constitucionalização do império português. Nesse sentido foram instaladas em 26 janeiro de 1821 as Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, com o fim de redigir uma Constituição de aspecto liberal, ainda que mantendo o regime colonial e a escravidão.
Agitações na Bahia Na Bahia, que abrigava uma expressiva elite portuguesa, as agitações de além-mar reverberam na forma de lutas civis. Em fevereiro de 1821, na Cidade da Bahia, como também era chamada Salvador, militares amotinados deflagraram uma revolta em fevereiro de 1821 com o objetivo de exigir a adesão ao movimento constitucional de Portugal. A essa altura a província do Estado do Grão-Pará e Maranhão já havia aderido e logo mais o Rio de Janeiro também se juntaria ao movimento liberal português. A revolta nas ruas da Bahia levou à morte de um major e seis soldados e também à instalação de uma nova junta provisional de governo, presidida pelo desembargador Luís Manuel de Moura Cabral. Em 21 de junho de 1821 a junta da Bahia rompeu com a Corte do Rio de Janeiro e passou a responder diretamente a Lisboa.
Em 3 de setembro do mesmo ano foram eleitos os deputados baianos às Cortes de Lisboa: Cipriano Barata, Alexandre Gomes de Argolo Ferrão, Marcos Antônio de Sousa, Pedro Rodrigues Bandeira, Lino Coutinho, Domingos Borges de Barros, Luís Paulino d'Oliveira Pinto da França e Francisco Agostinho Gomes.
Em 3 de novembro de 1821 houve uma tentativa frustrada de depor a junta governativa que estava a serviço de Lisboa. Participou da ação o coronel Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, futuro Marquês de Barbacena. Contida a revolta, 16 dos cidadãos envolvidos foram deportados para Lisboa.
Uma carta régia de 9 de dezembro enviada pelas Cortes nomeou Inácio Luís Madeira de Melo como como Governador das Armas da Bahia. O racha que já vinha se formando se aprofundou com essa nomeação. A partir de fevereiro de 1822 tropas portuguesas e baianas passaram a se chocar nas ruas da capital, numa escalada de violência que culminou na morte da sóror Joana Angélica, que tentava impedir que os portugueses invadissem o Convento de Nossa Senhora da Conceição da Lapa. Segundo a história contada de geração em geração, o sangue da mártir, que faleceu em fevereiro de 1822 quando tentou impedir a invasão e o saque do lar religioso por soldados portugueses, caiu sobre a cabeça do soldado, partindo-lhe o osso occipital e matando-o. Ficava cada vez mais nítido que havia dois partidos com interesses antagônicos e a tensão entre eles vinha se conformando para uma guerra civil. miniaturadaimagem|Retrato de Soror Joana Angélica, óleo sobre tela pintado em 1925 por Domenico Failutti. Acervo do Museu Paulista da USP.
Entre fevereiro e junho de 1822 foi montada uma resistência por parte do “partido brasileiro” no Recôncavo baiano, financiada pela elite agrária e engrossada pelos distintos estratos da população civil. Há registros de um aumento significativo de compra de pólvora e mantimentos destinados às vilas, o que parece ser um indicativo de que se preparavam de fato para os confrontos. Entre maio e junho de 1822, nas câmaras municipais e praças do Recôncavo, começaram a serem feitas aclamações a Pedro I do Brasil como defensor perpétuo do Brasil, título oferecido ao príncipe pelo Senado da Câmara do Rio de Janeiro em 13 de maio. Essas ações claramente contrárias às intenções das Cortes de Lisboa, que tentavam demover o príncipe regente e fazê-lo voltar a Portugal, provocaram a reação das tropas lusitanas estacionadas em Salvador.
Em 25 do mês de junho, foi a vez de Cachoeira aclamar dom Pedro. A resposta dos portugueses chegou pelo Rio Paraguaçu, que margeia a cidade e que deságua na Baía de Todos-os-Santos. À aclamação seguiu-se um cortejo de Te Deum. Atacaram o cortejo desde o rio, atirando também contra a vizinha cidade de São Félix. O ataque marca oficialmente o início da Guerra da Independência na Bahia. A morte do Tambor Soledade, uma figura marcante no imaginário baiano, é considerada a primeira baixa da guerra. Ele era parte do Regimento de Milícias e sua função era tocar o tambor para marcar o compasso das marchas. Entre julho e agosto de 1822 foi empreendido um grande esforço para a formação de batalhões de voluntários. Juntaram-se cerca de dez mil pessoas, entre a população pobre, pequenos proprietários, escravos e libertos, além de militares que não se submeteram às Cortes.CARVALHO, José Murilo de; BASTOS, Lúcia; BASILE; Marcello (2012). Às armas, cidadãos! Panfletos manuscritos da Independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras De fato, a situação se avolumou ao ponto de ter adesão de boa parte das vilas do Recôncavo. Um panfleto datado de 2 de setembro dá a dimensão disso:
miniaturadaimagem|400x400px|O Primeiro Passo para a Independência da Bahia, pintura de Antônio Parreiras, encomendada pelo governo baiano em 1931. Acervo do Palácio Rio Branco (Salvador).
O recrutamento de voluntários e a fuga de casa