Teodiceia é um termo derivado do título da obra Ensaio de Teodiceia do filósofo alemão Leibniz, que sustenta a existência de Deus a partir da discussão do problema da existência do mal e de sua relação com a bondade de um Deus onisciente e onipotente.Hilton Japiassú, Danilo Marcondes (1993). Dicionário básico de filosofia, Zahar. p. 265-266. ISBN 978-85-378-0341-7.Gérard Durozoi; André Roussel (2005). Dicionário de filosofia. PAPIRUS. pp. 464. ISBN 978-85-308-0227-1.

O termo teodiceia provém do grego θεός - theós, "Deus" e δίκη - díkē, "justiça", que significa, literalmente, "justiça de Deus", sendo uma área da filosofia que, entre outras coisas, busca uma resposta ao Paradoxo de Epicuro e ao "problema do mal".

Após o Holocausto, vários teólogos judeus desenvolveram uma nova resposta ao problema do mal, às vezes chamada de anti-teodiceia, que afirma que Deus não pode ser justificado de forma significativa.

Diferentes visões

Leibniz

O termo teodiceia foi cunhado pelo filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz em 1710, por meio da obra, escrita, originalmente, em francês, intitulada como: "Essais de Théodicée sur la bonté de Dieu, la liberté de l'homme et l'origine du mal" (Ensaios de Teodiceia sobre a Bondade de Deus, a Liberdade do Homem e a Origem do Mal).

Foi uma resposta ao cético filósofo protestante Pierre Bayle, que escreveu em sua obra, intitulada como: "Dictionnaire Historique et Critique" que, após rejeitar três tentativas de resolvê-lo, ele não viu uma solução racional para o problema do mal. Desse modo, argumentou que, como a Bíblia afirma a coexistência de Deus e do mal, este estado de coisas deve simplesmente ser aceito.Pierre Bayle, em inglês, acesso em 28/04/2021.

A concepção de teodiceia proposta por Leibniz foi criticada por Voltaire no "Poème sur le désastre de Lisbonne" (Poema sobre o desastre de Lisboa), sugerindo que a destruição em massa de vidas inocentes causada pelo terremoto de Lisboa, em 1775 demonstrou que Deus não estava fornecendo "o melhor de todos os mundos possíveis". Voltaire também criticou a concepção de teodiceia proposta por Leibniz no romance Cândido, ou O Otimismo, também alegando a incompatibilidade da concepção com fenômenos como os terremotos.

Santo Agostinho

Segundo a visão predominante entre os teólogos protestantes, dentre eles John Hick, Agostinho de Hipona (354 a 430) sustentava que o mal não existe, exceto como uma privação, ou corrupção, do bem e, portanto, Deus não criou o mal. Ou seja, Deus criou um mundo perfeito, sem mal ou sofrimento humano. O mal entrou no mundo através da desobediência de Adão e Eva e a existência do mal seria castigo justo pelo pecado original. Nessa perspectiva, os seres humanos teriam uma natureza má na medida em que seriam privados da bondade original, devido ao pecado original praticado por Adão e Eva, mas ainda permaneceriam com alguma bondade, devido à existência que vem de Deus, pois se uma natureza fosse completamente má (privada do bem), ela deixaria de existir. Enquanto que Deus, permaneceria irrepreensível e bom.

Sofrimento causado por uma "Guerra Justa"

A interpretação da Igreja Católica da explicação de Santo Agostinho para o sofrimento tem como foco a questão da guerra justa desenvolvida no livro "A Cidade de Deus" que estabeleceu uma justificativa para matar, fazer sofrer e causar dor a um inimigo durante uma guerra justa.A Time For War?, em inglês, acesso em 28/04/2021.

Nessa perspectiva, a defesa de si mesmo ou de terceiros pode ser uma necessidade, especialmente quando autorizada por uma autoridade legítima. Além disso, a busca pela paz deve incluir a possibilidade de lutar para preservar a paz no longo prazo. Entretanto, a guerra não poderia ser preventiva, mas sempre defensiva, ou seja, um instrumento para restaurar a paz.

Séculos depois, Tomás de Aquino tentou definir as condições sob as quais uma guerra poderia ser considera como justa.The Story of Christianity, em inglês, acesso em 28/04/2021.

Ireneu de Lyon

Ireneu de Lyon, (aprox. 130 - 202), expressava ideias que explicavam a existência do mal como necessária para o desenvolvimento humano. Nesse contexto, argumentava que a criação humana compreendia duas partes: os humanos foram feitos primeiro à imagem e depois à semelhança de Deus. A imagem de Deus consiste em ter o potencial de atingir a perfeição moral, ao passo que a semelhança de Deus é a conquista dessa perfeição. Para alcançar a perfeição moral, Irineu sugeriu que os humanos devem ter livre arbítrio. Para alcançar esse livre arbítrio, os humanos devem experimentar sofrimento e Deus deve estar a uma distância epistêmica (uma distância do conhecimento) da humanidade. Portanto, o mal existe para permitir que os humanos se desenvolvam como agentes morais.

John Hick

O filósofo britânico John Hick traçou a história da teodicéia moral em sua obra de 1966, Evil and the God of Love, identificando três tradições principais: a teodicéia Plotiniana; a teodiceia agostiniana; a teodicéia de Irineu.

A partir das ideias de Ireneu de Lyon, argumentava que o mundo existe como um "vale de criação de almas" (uma frase que ele tirou de John Keats), e que o sofrimento e o mal devem, portanto, ocorrer. Sustentando que a bondade humana se desenvolve por meio da experiência do mal e do sofrimento.Scott, Mark (2012). Origen and the Problem of Evil, Oxford University Press.

Max Weber

O filósofo alemão Max Weber (1864–1920) via a teodicéia como um "problema de significado". Nesse contexto, argumentou que, à medida que a sociedade humana se tornava cada vez mais racional, a necessidade de explicar por que as pessoas boas sofriam e as pessoas más prosperavam se tornava mais importante porque a religião apresenta o mundo como um "cosmos significativo". Weber enquadrou o problema do mal como o dilema de que o bem pode sofrer e o mal pode prosperar, o que se tornou mais importante à medida que a religião se tornou mais sofisticada. Desse modo, identificou dois propósitos da teodicéia: explicar por que pessoas boas sofrem (uma teodicéia do sofrimento); e por que pessoas más prosperam (uma teodicéia da fortuna).

Uma teodiceia da boa fortuna procura compreender a prosperidade das pessoas más sociedade, nesse contexto, acreditava que aqueles que têm sucesso não ficam satisfeitos a menos que possam acreditar que merecem o sucesso.

Classificava as teodicéias do sofrimento em três tipos: predestinação, dualismo e carma.Richard Swedberg, Ola Agevall, The Max Weber Dictionary: Key Words and Central Concepts (Stanford University Press, 2005), 274.Scott, Mark S. M. (2009). "Theorising Theodicy in the Study of Religion". University of Chicago Divinity School

Peter L. Berger

O sociólogo Peter L. Berger (1929–2017) argumentava que a religião surgiu da necessidade de ordem social e uma “teodicéia implícita de toda ordem social” se desenvolvia para sustentá-la.

Desse modo, caracterizava a religião como a tentativa humana de construir ordem em um mundo caótico, pois os seres humanos não podiam aceitar que nada no mundo não tinha sentido e via as teodiceias como afirmações de que o cosmos tem significado e ordem, apesar das evidências em contrário.

Nesse contexto, apresentava um argumento semelhante ao de Weber, mas sugeria que a necessidade da teodiceia surgiu principalmente da situação da sociedade humana. Desse modo, acreditava que as teodiceias existiam para permitir que os indivíduos se transcendessem, negando o indivíduo em favor da ordem social.Woodhead, Linda (2001). Peter Berger and the Study of Religion. Routledge.Peter L. Berger, The Sacred Canopy: Elements of a Sociological Theory of Religion (Doubleday, 1st ed, 1967), 55.

Alvin Plantinga

Segundo o filósofo norte-americano Alvin Plantinga, teodiceia é a "resposta para a pergunta de por que razão Deus permite o mal".Alvin Plantinga (1974). God, Freedom, and Evil. Wm. B. Eerdmans Publishing. pp. 12–. ISBN 978-0-8028-1731-0. Nesse contexto, sustenta que a existência do mal decorre do fato de que Deus concedeu o livre-arbítrio às suas criaturas.

Nick Trakakis

Segundo Nick Trakakis, uma teodiceia deve conter: Visões do senso comum do mundo; Opinião histórica e científica amplamente difundidas; e Princípios morais plausíveis.

Como resposta ao problema do mal, uma teodiceia é diferente de uma defesa. Uma defesa tenta demonstrar que a ocorrência do mal não contradiz a existência de Deus, mas não propõe que os seres racionais sejam capazes de entender por que Deus permite o mal. Uma teodiceia procura mostrar que é razoável acreditar em Deus, apesar das evidências de mal no mundo e oferece uma estrutura que pode explicar por que o mal existe.Bunnin & Tsui-James 2002, p. 481 Uma teodiceia é muitas vezes baseada em uma teologia natural que tenta provar a existência de Deus e procura demonstrar que a existência de Deus permanece provável depois que o problema do mal é colocado, dando uma justificativa para Deus permitir que o mal aconteça.Geivett 1995, pp. 60-61 As defesas propõem soluções para o problema lógico do mal, enquanto as teodiceias tentam responder o problema evidente.

Livro de Jó

O sofrimento de Jó não decorre de uma retribuição por um mal praticado, mas da crença de que um Rei tem o direito de testar a lealdade de seu súdito.Pathways in Theodicy: An Introduction to the Problem of Evil By Mark S. M. Scott.

No islamismo

Segundo a escola Muʿtazila, o valor moral dos atos é acessível à razão desamparada, para que os humanos possam fazer julgamentos morais sobre os atos divinos. Desse modo, argumentavam que o ato divino da criação é bom, apesar da existência de sofrimento, porque permite aos humanos uma compensação de maior recompensa na vida após a morte. Portanto, postulavam que os indivíduos têm livre arbítrio para cometer o mal e absolveriam Deus da responsabilidade por tais atos. Desse modo, a justiça de Deus consistiria em punir os malfeitores. Essa escola influenciou o xiismo duodecimano e os Zaiditas.

Segundo a escola Ash'ari, principal escola teológica do sunismo, os julgamentos morais comuns derivam da emoção e da convenção social, sendo, portanto, inadequados para condenar ou justificar as ações divinas.Ayman Shihadeh (2005). "Suffering". In Josef W. Meri (ed.). Medieval Islamic Civilization: An Encyclopedia. Routledge.

Desse modo, sustentam que Deus cria tudo, incluindo ações humanas, mas distingue a criação ("khalq") da aquisição ("kasb") de ações. Eles aceitam que os indivíduos tenham a última habilidade, embora não afirmem a existência de livre arbítrio no sentido mais amplo do termo. Nas palavras de Axarastani (1086-1153):

Roy Jackson (2014-02-05). What is Islamic Philosophy?. Routledge. pp. 32–33

Deus Finito

Segundo Ray Harbaugh Dotterer:

The Argument for a Finitist Theology, em inglês, acesso em 28/04/2021, p 23

Reencarnação

Algumas concepções religiosas reencarnacionistas, sustentam que o sofrimento decorre do mal causado em vidas anteriores e seria necessário para o desenvolvimento espiritual.

Outros

Em 1984, o Papa João Paulo II publicou a Carta Apostólica: "Salvifici Doloris" para tentar explicar o explicar o "valor salvífico do sofrimento".[vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/1984/documents/hf_jp-ii_apl_11021984_salvifici-doloris.html SALVIFICI DOLORIS], acesso em 29/04/2021.Pope John Paul II and Suffering, acesso em 29/04/2021.

O filósofo Richard Swinburne diz que "a maioria dos teístas precisa de uma teodiceia, (ou seja) de um relato das razões pelas quais Deus pode permitir que o mal ocorra. Sem uma teodiceia, o mal negaria a existência de Deus".Swinburne, Richard (1998). Providence and the Problem of Evil. Oxford, England: Oxford University Press.

A Teodiceia do Contraste afirma que o mal é necessário para permitir que as pessoas apreciem ou compreendam o bem.

A Teodiceia da Advertência sustenta que o mal seria uma advertência de Deus para que as pessoas se emendem.