Guillermo Lora Escobar foi um ativista político boliviano, dirigente do Partido Obrero Revolucionário, trotskista na Bolívia.

Biografia Guillermo Lora Escobar nasceu em 31 de outubro de 1922 na cidade de Uncía, Departamento de Potosí, Bolívia. A Bolivia dos anos 20 era uma das nações mais pobres da América Latina. Sua economia dependia da exportação do estanho in natura. A exploração de estanho ficou concentrada nas mãos de uma minoria de proprietários com sólidas ligações internacionais, a chamada oligarquia mineira (Simón I. Patiño, Mauricio Hothschild, Carlos Aramayo, etc.). O poder desta oligarquia (popularmente conhecido como la rosca), no entanto, não se limitou ao estanho. Patiño (o maior empresário do país), por exemplo, era dono de bancos, ferrovias, jornais, etc.

Ao lado desta oligarquia do estanho se desenvolveu uma burguesia urbana comercial muito dependente da mineração, e principalmente do imperialismo. A pequena-burguesia urbana dedicava-se a atividades artesanais (uma minoria às atividades intelectuais), suportava parcialmente o peso da dominação oligárquico-burguesa. A ausência de indústrias nas cidades faz com que o proletariado se desenvolva no interior do país, nas regiões de mineração.

Lora e o POR No final da década de 30, Guillermo Lora, então um estudante secundarista, juntou-se ao Partido Obrero Revolucionario reestruturado após a cisão de Tristán Marof. No início dos anos 40 cursava a Faculdade de Direito, em La Paz, onde aprofundou seus estudos sobre o marxismo. Era a época da ditadura de Enrique Peñaranda del Castillo, mais tarde responsável pelo massacre de Catavi. Lora recrutou alguns estudantes de Direito (incluindo Miguel Alandia Pantoja) e estruturou uma célula na cidade, ainda em 1941. Ele ensinava história em uma escola de ensino médio onde também recrutou alunos para o partido. O grupo de La Paz, liderado por Lora, já com um número considerável de membros, decidiu avançar com a propaganda. Em La Paz, planejaram uma campanha de protesto contra a reunião dos chanceleres organizada pelo imperialismo no Rio de Janeiro, através de cartazes e pichações, o que imediatamente atraiu a atenção da polícia. Um de seus alunos foi preso e, a partir dele, mais do que cinco militantes foram capturados. Lora conseguiu fugir para Cochabamba e informou o Comitê Central da perseguição em La Paz. Lora, G. Obras Completas, La Paz, Ed Massa, Volume III, p. 127.

A continuidade da repressão fez com que o Partido cortasse os laços com o exterior e este não conseguiu organizar um aparato clandestino. A repressão forçou incontáveis militantes a migrar para as regiões mineiras. Lora, dessa forma, foi para Oruro e, juntamente com outros companheiros passou a divulgar as idéias revolucionárias em vários distritos mineiros (Siglo XX, Colquiri, San Jose, Huanuni, etc.). Esta atividade também não foi coordenada pelo CC, mas realizada de forma isolada pelos militantes. Mesmo após o CC ser informado deste trabalho, continuou sem dar uma orientação que contribuiria para evitar os erros cometidos lá.

O Massacre de Catavi e o Movimento Mineiro No dia 30 de setembro de 1942, o sindicato dos mineiros de Catavi apresentou sua pauta de reivindicações e o reconhecimento do Sindicato. A principal empresa no setor, Patino Mines, se recusou a participar da reunião de conciliação (como era determinado por lei) e exigiu que o governo não reconhecesse o Sindicato, e declarasse lei marcial na região para conter a agitação dos mineiros. O governo mobilizou o exército do general Penaranda, que cercou a área e prenderam os líderes. A mobilização mineira respondeu com greves e uma grande marcha de oito mil trabalhadores foram para a sede da empresa exigindo a libertação dos prisioneiros. No dia 21 de dezembro milhares de trabalhadores desarmados e suas famílias foram vitimadas pela pesada artilharia do exército boliviano.

Após o impacto do Massacre de Catavi e sua repercussão nacional, o movimento sindical mineiro acordou definitivamente. Em 1944, em Huanuni, foi fundada a poderosa FSTMB (Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia) por iniciativa do governo de Gualberto Villarroel López.

Na ocasião do massacre Lora estava nos distritos de mineração em Oruro. Devido à monumental greve dos mineiros de Catavi, a direção do POR de Oruro instruiu o jovem Guillermo Lora, nesse momento com apenas 20 anos, a viajar para La Paz para distribuir panfletos convidando os trabalhadores a aderirem à greve. O governo boliviano decretou estado de sítio para conter o levante de mineração. Delatado por marofistas (PSOB) à polícia, Guillermo foi preso, pela primeira vez, na estação de trem, e enviado para a ilha de Coati no Lago Titicaca. A ilha fora recentemente transformada em um campo de concentração para presos políticos e presos comuns. Nesta ilha Lora continuou a sua aprendizagem marxista. Seu tio Nestor Lora, um advogado que tinha reputação de maçon, cuja família era de tradição liberal, antipatizando tanto com os republicanos quanto com os conservadores, interveio, sem o consentimento de Guillermo Lora pela sua liberdade.“Iniciación Revolucionaria” in LORA, G. Obras Completas. La Paz, Masas, Tomo LIV, pp 22-23.

Lora e as Teses de Pulacayo Quando a FSTMB foi fundada em junho de 1944, em seu primeiro congresso estiveram presentes Villarroel e seu Ministro do Trabalho. O objetivo do governo era controlar o movimento dos mineiros através do Movimento Nacionalista Revolucionário. Graças a este último, a FSTMB agiu em conjunto com o Ministério do Trabalho em seus estágios iniciais. Ainda assim, um importante setor dos trabalhadores, buscando independência do governo, foi impulsionado pelo POR. Em pouco tempo os congressos mineiros foram se caracterizando por sua maior independência do governo e sua enorme disposição de luta. O POR desempenhou um papel destacado neste processo e foi ai que foi se estruturando como partido bolchevique.

Num momento em que os congressos mineiros eram tutelados pelo governo e monitorados de perto por seus agentes, tinham de ser autorizados pelo Estado para funcionar e este fazia sentir o seu braço controlador (compra de delegados, etc.) a influência porista e trotskista vigorosamente se expressa. Os militantes do POR e, especialmente, Lora (então com 24 anos), conseguiram um feito memorável, resultado da aproximação com os mineiros e transformação do seu exacerbado instinto comunista em consciência política marxista. Só assim que se pode explicar a enorme influência que tiveram as famosas Teses de Pulacayo aprovadas pelo Congresso Extraordinário Mineiro de Pulacayo. Lora escreveu pessoalmente as teses imprimiu seu estilo vigoroso, sempre se referia às teses como um documento dos mineiros e não como seu. Mas é inegável que a derrota ideológica no meio mineiro, imposta ao estalinismo, ao nacionalismo e ao governismo foi devido a Guillermo e à militância do POR. As Teses Pulacayo são um programa sindical sui generis que expressam os métodos e o objetivo estratégico da revolução proletária. Sinalizam não só a independência política do proletariado boliviano, mas também o caminho para a tomada do poder e o estabelecimento de um governo operário e camponês (ditadura do proletariado).

As teses apresentadas por trabalhadores da Mina Siglo XX foram defendidas pelos mineiros e aprovadas contra a vontade do movimentismo e do estalinismo. Foram espalhadas por todo o universo mineiro boliviano e tornaram-se referências na luta. As teses foram citadas, atacadas, distorcidas, e mereceram comentários de praticamente todos os grupos políticos na Bolívia, desde as ditaduras gorilas, passando pelos republicanos e nacionalistas para chegar aos grupos de esquerda.

Lora, posteriormente, apontou algumas deficiências das teses (a tática da frente única proletária numa semi-colonia, entre outras). Mas reafirmou que, além de sua importância histórica, sua atualidade é incontestável como um programa que assinala a unidade da defesa das reivindicações imediatas com a luta pela conquista do poder político e a destruição do capitalismo. O documento de Pulacayo significa nada mais e nada menos do que a aplicação do programa trotskista (Programa de Transição), não a partir deste ou daquele intelectual em seu gabinete, mas desesperadas e explosivas lutas das massas pela sua emancipação.

O sexenio rosquero O golpe de 21 de julho de 1946 (que derrubou Villarroel) levou os partidos da oligarquia rosquera aliados com o estalinismo, de volta ao poder. Abriu um período de seis anos conhecido como sexenio rosquero, que vão de 1946-1952. A Segunda Guerra Mundial havia acabado e o novo governo de unidade nacional foi formado por uma frente de vários partidos e facções. Mas nesta frente estaria o Partido da União Republicana Socialista (PURS). Em 03 de janeiro de 1947 foram realizadas eleições para legitimar o novo governo. O candidato do PURS (Enrique Hertzog Garaizabal) venceu a eleição com 44.700 votos em 105.000 pessoas com direito a voto. O aumento da influência do POR dentro da FSTMB, aproveitando-se da falência do estalinismo, do marofismo e do movimentismo, permitiu a criação de Frente Unida Proletária (Frente POR-FSTMB) no espírito das Teses Pulacayo. Nestas eleições, o chamado Bloco Mineiro Parlamentar elegeu 10 parlamentares, que combinaram a ação parlamentar com a ação direta nos distritos mineiros para enfrentar o novo período de dominação.Entre os deputados mineiros estavam Guillermo Lora (deputado pelo distrito mineiro de Llallagua-Catavi), Mario Torres (Secretário Geral da Federação de Mineiros e deputado da província de Quijarro), Juan Lechín Oquendo‎ (Secretário Executivo da FSTMB, e senador pelo Departamento de Potosi), Anibal Vargas (membro do POR e suplente do distrito de Sul Chichas) entre outros. Lora incansavelmente usou a tribuna do parlamento para denunciar as leis antipopulares, os ataques contra os operários e suas péssimas condições de vida. “G. Lora y el Parlamento “. In LORA, G. Obras Completas. La Paz, Ed. Masas, Tomo I, p. 418-440. Lora e demais deputados operários questionam o governo Herzog sobre a greve dos mineiros de 1948.