Miguel ou Micael (, Micha'el ou Mîkhā'ēl; , Mikhaḗl; ou Míchaël; em arabe المريض, Mīkhā'īl) é um arcanjo nas doutrinas religiosas judaicas, cristãs e islâmicas. Os católicos, anglicanos, ortodoxos e luteranos se referem a ele como Arcanjo Miguel ou simplesmente São Miguel.
Em hebraico, Miguel significa "Quem como Deus?" (Mi-"quem", kha-"como", El-"Deus"), o que é tradicionalmente interpretado como uma pergunta retórica: "Quem como Deus?". para a qual se espera uma resposta negativa, e que implica que ninguém é como Deus. Assim, Miguel é reinterpretado como um símbolo de humildade perante Deus.Studies in Revelation by Hampton J. Keathley, 3rd, J. Hampton Keathley III 1997 ISBN 0-7375-0008-5 page 209 Ao contrário de Lúcifer que queria ser como Deus, Miguel é: Quem como Deus? Ninguém como Deus. Miguel é o contrário da inveja, é a humildade.
Na Bíblia Hebraica, Miguel é mencionado três vezes no Livro de Daniel, e uma vez no Livro de Josué uma como um "grande protetor que defende o povo de Deus" . A ideia de Miguel como um advogado de defesa dos judeus se tornou tão prevalente que, a despeito da proibição rabínica contra se apelar aos anjos como intermediários entre Deus e seu povo, Miguel acabou tomando um lugar importante na liturgia judaica.
Em , Miguel lidera os exércitos de Deus contra as forças de Satã e seus anjos e os derrota durante a guerra no Céu.
Na Epístola de Judas, Miguel é citado no versículo 9 especificamente como o "arcanjo" que menciona a frase "O Senhor te repreenda" contra Satanás quando esse discutia sobre o corpo de Moisés. Os santuários cristãos em honra a Miguel começaram a aparecer no século IV, quando ele era percebido como um anjo de cura, e, com o tempo, como protetor e líder do exército de Deus contra as forças do mal. Já no século VI, a devoção a Arcanjo Miguel já havia se espalhado tanto no oriente quanto no ocidente. Com o passar dos anos, as doutrinas sobre ele começaram a se diferenciar.
Etimologia Do termo "Arcanjo" thumb|180px|left|Arcanjo, num fragmento da Epístola de Judas (Tadeu) no Codex Sinaiticus (330-350 A.D.) Arcanjo tem duas raízes, "arch" e "angelos".
O prefixo grego "arch" (ἀρχ) deriva de "arché" (ἀρχή) que se refere tanto a "começo, ponto de partida, princípio", como "suprema substância subjacente" ou "princípio supremo indemonstrável".Passow, Franz. Handwörterbuch der Sprache Griechischen. Edição de 1831.
A partir dessa raiz "arché" temos o antepositivo "arch", em português, com o sentido de "aquilo que está na frente, o que está no começo, na origem, ponto de partida de um entroncamento", sendo traduzido "acima", "superior" ou "mais importante" e "o que governa, que dirige, que comanda, que lidera" e ainda carregando consigo ideias de poder, autoridade, império e superioridade.Liddell, Henry George & Scott, Robert. Grerek-English Lexicon. Claredon Press - Oxford.
Quanto ao grego "angelos" (άγγελος), vertido para "anjo", significa simplesmente "mensageiro".
A partir dessas raízes, portanto, a palavra "Arcanjo" (αρχάγγελος) se traduz "Líder dos Mensageiros", "Chefe dos Mensageiros"Vine Diccionario Expositivo de Palabras del Antiguo y del Nuevo Testamento Exhaustivo, Editorial Caribe 1999, sección del Nuevo Testamento pág. 82. "Capitão dos Anjos", "Primeiro Anjo", "Acima dos Anjos", "Superior aos Anjos"Moulton, Harold K. Léxico Grego Analítico. Editora: Luz e Vida.Schneider, Johann Gottlob. Kritisches Griechisch-Deutsches Handwörterbuch "Anjo Superior" ou "Anjo Chefe", num aspecto qualitativo de liderança e substancialmente de superioridade, da mesma maneira que se traduz palavras com o mesmo radical, tal como "arquiteto" (chefe dos construtores), "arcebispo" (classe hierárquica superior a Bispo), "hierarquia" (poder sagrado) ou "anarquia" (falta ou ausência de poder).
thumb|180px|right| Miguel em Hebraico
Do termo "Miguel" A tradução literal para o nome Miguel é "Aquele/Quem como Deus".
Mi = Aquele/Quem(?) Kha = Como El = Deus
Como no hebraico não existia sinais de pontuação, algumas palavras trariam consigo um significado inquisitivo. Por isso a partícula "Mi" que significa "quem" muitas vezes é traduzida sintaticamente como interrogação, ocorrendo em 350 textos do Antigo Testamento onde é mencionada.Diccionario Exegético del Nuevo Testamento de Balz-Schneider, editorial Sígueme, tomo 1 pág. 46)
Exemplo:
Dessa forma, o Talmude sugere uma interpretação inquisitiva para o nome Miguel, tendo a tradução contextual "Quem é como Deus?". ou "Quem é semelhante a Deus?".Verbete Miguel na obra Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 2, página 828 Este entendimento hoje não é compartilhado somente pela comunidade judaica, pois mais tarde foi incorporado pela cristandade em geral "para não colocar em causa a própria Escritura", tanto por católicos e protestantesTimm, Alberto R. Revista Sinais dos Tempos, agosto de 1998, p. 29. e também por outras comunidades religiosas, como as testemunhas de Jeová e os islâmicos. Mas para as cosmovisões judaica, jeovista e muçulmana, o pressuposto de não haver nenhuma outra pessoa igual a Deus (Sl. 35:10; 89:8) é literal, implicando sugestivamente a resposta "Ninguém é Igual a Deus" num entendimento retórico.
Quanto ao sufixo "El", é também relacionado de forma regular com nomes significando afirmativamente "Deus" em todos os casos, tal como em Daniel (Deus é Juiz), Emanuel (Deus é Conosco), Ezequiel (A Força é de Deus), Samuel (Chamado pelo Nome de Deus), Gamaliel (Deus me Faz o Bem), Ananias (Deus é Clemente), João (A Graça é de Deus), Ismael (Deus Ouve), etc. Esse entendimento é compartilhado por algumas denominações cristãs trinitárias e alguns notórios comentaristas bíblicos como Matthew Henry (1662–1714) e até o próprio João Calvino (1509–1564), pai da Igreja Congregacional, da Presbiteriana e de muitas outras reformadas, trinitários convictos, entendendo o termo segundo a tradução literal. Para esses, diferentemente dos judeus e muçulmanos, o Arcanjo Miguel não tem natureza angélica, e sim divina, sendo o próprio Cristo que veio com esse "nome de guerra" fazendo um desafio a Satanás que, desde o princípio, sempre desejou estar acima dos anjos e ser igual ao Criador (Is. 14:12–14).
Referências nas Escrituras Bíblia Hebraica
miniaturadaimagem|Arcanjo Miguel por Andrei Rublev
Na Bíblia Hebraica e, portanto, no Antigo Testamento, o profeta Daniel teve uma visão após um jejum (em ), um anjo identifica Miguel como o protetor de Israel. O profeta se refere a Miguel como "um dos primeiros príncipes".Who's who in the Jewish Bible by David Mandel 2007 ISBN 0827608632 page 270 Posteriormente, em , Daniel é informado sobre o papel de Miguel durante o "tempo de tribulação" que "nunca houve desde que existiu nação até aquele tempo" e que:Daniel: Wisdom to the Wise: Commentary on the Book of Daniel by Zdravko Stefanovic 2007 ISBN 0816322120 page 391
Assim, embora as três referências a Miguel no Livro de Daniel sejam referentes ao mesmo indivíduo que age de forma similar nos três casos, o último se coloca no "fim dos tempos", enquanto os outros dois são na época contemporânea na Pérsia.Daniel: a reader's guide by William H. Shea 2005 ISBN 0816320772 pages 270-271 Estas são as únicas referências ao arcanjo Miguel na Bíblia Hebraica.
São Miguel Arcanjo aparace em Josué 5, 13-16. As referências ao "Príncipe do Exército do Senhor" que estão no Livro de Josué, nos primeiros dias da campanha pela Terra Prometida (veja Josué 5:13-16), constituem uma aparição do Arcanjo São Miguel. A análise cuidadosa do texto bíblico, à luz da teologia e da tradição, permite identificar essa figura celestial e compreender corretamente a natureza do ato de Josué.
Primeiramente, é fundamental estabelecer a distinção entre adoração e veneração, pois é a chave para interpretar corretamente a cena. A adoração (latria) é o culto de sacrifício e reconhecimento de soberania absoluta que é devido exclusivamente a Deus. A veneração (dulia) é um ato de profundo respeito, honra e submissão a uma autoridade ou a um ser santo, sem implicar o reconhecimento deste como a fonte última da graça ou como o ser supremo.
O texto de Josué demonstra precisamente essa diferença. Quando o ser celestial aparece como um homem que empunha uma espada, Josué prostrou-se com o rosto em terra em sinal de respeito. Este ato de prostrar-se não é exclusivamente adoração, podendo ser também um gesto de veneração, dependendo do contexto. No caso, Josué presta homenagem a uma autoridade celestial superior que se apresenta como comandante das hostes divinas.
O elemento mais significativo, porém, é o que não acontece: Josué não oferece qualquer sacrifício ao visitante. Não constrói altar, não imola animais, não queima incenso. Os sacrifícios são atos exclusivos de adoração reservados somente a Deus. A ausência completa de qualquer ritual sacrificial demonstra, de forma inequívoca, que Josué não estava adorando a figura como Deus, mas sim venerando-o como um mensageiro e comandante celestial.
O próprio ser se identifica como "Príncipe do Exército do Senhor", declarando que veio para auxiliar Josué na Conquista da Terra Prometida e que pertence ao exército do Senhor, o mesmo Senhor de Josué. Este título é tradicional e biblicamente associado ao Arcanjo Miguel.
Nas Escrituras, Miguel é descrito como o grande príncipe que luta em favor do povo de Deus. Em Daniel 10:13 e 21, ele é chamado de "um dos primeiros príncipes" e "Miguel, vosso príncipe". Em Daniel 12:1, é identificado como "o grande príncipe" que se levanta em defesa dos filhos do povo de Deus. A função de Miguel é precisamente a de comandar os exércitos celestiais nas batalhas espirituais e em auxílio ao povo de Deus, exatamente a missão declarada pelo ser que aparece a Josué às portas de Jericó.
A harmonia entre o título, a função e o contexto bélico da conquista de Canaã aponta consistentemente para a identidade do visitante. O "Príncipe do Exército do Senhor" que aparece a Josué é, portanto, uma manifestação do Arcanjo São Miguel, enviado por Deus para liderar e auxiliar na conquista da Terra Prometida. Josué, ao prostrar-se, presta-lhe a veneração devida a um comandante celestial, mas não lhe oferece sacrifícios, reservando a adoração plena unicamente a Deus.
As referências a “Princípe do Exército do Senhor” que estão no Livro de Josué nos primeiros dias da campanha pela Terra Prometida
Novo Testamento
miniaturadaimagem|A Queda dos Anjos
O Apocalipse () descreve uma guerra no céu na qual Miguel, sendo o mais forte, derrota Satã:Revelation 12-22 by John MacArthur 2000 ISBN 0802407749 pages 13-14
Após o conflito, Satã foi atirado à terra juntamente com os anjos caídos de onde eles ainda tentam "desviar o caminho da humanidade".
Em outro trecho, na Epístola de Judas (), Miguel é referido especificamente como sendo o "arcanjo" quando ele novamente confronta Satã:The encyclopedia of angels by Rosemary Guiley 2004 ISBN 0816050236 page 49
Uma referência a esse "arcanjo" também aparece em I Tessalonicenses ():
Ora, se Judas escreveu sobre "o arcanjo", denotando assim claramente que Existe apenas 1 Líder, Jesus seria o "Arcanjo" que marca a Segunda Vinda de Cristo.
Algumas pessoas interpretam que ele, Miguel, seja algum representante de Deus ou até mesmo o próprio Jesus Cristo quer literalmente quer simbolicamente, pois as referências sobre o que Jesus fará como líder do exército dos anjos de Deus, são semelhantes às do Arcanjo Miguel. O fato da Bíblia se referir a apenas um Arcanjo, e de que Jesus é mostrado como tendo voz de Arcanjo e não de "um Arcanjo" significa que são pontos definitivos para concluir quem seria o Arcanjo Miguel. O fato de fazer algo semelhante a Jesus Cristo, não define a identidade do Arcanjo Miguel. Mais de uma pessoa podem fazer os mesmos atos e não serem literalmente as mesmas. Mas não é o fato em questão já que o termo e título "o Arcanjo" se refere apenas a Miguel, mostrando assim que existe apenas um Arcanjo.
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