Inru Alcaice ou Inru Alcais ibne Hujer (; Négede, – proximidades de Ancara, 540/50) foi um poeta árabe pré-islâmico e príncipe dos quindaítas, filho de , rei do Reino de Quinda. É considerado uma das figuras mais importantes da poesia árabe antiga e ocupa posição de destaque entre os grandes poetas pré-islâmicos. Criado na corte paterna e ligado por sua mãe aos taglibitas, teria recebido formação poética de seu tio materno Almualhil, além de ser relacionado pela tradição a outros poetas de uma geração anterior. A tradição literária atribui-lhe papel fundamental no desenvolvimento da cássida clássica, sobretudo na consolidação de convenções como o lamento diante dos vestígios do acampamento abandonado da amada, a interpelação aos companheiros e a separação do prelúdio amoroso do restante da composição. Sua habilidade no emprego de comparações e no tratamento de diferentes temas também contribuiu para a posição de proeminência que lhe foi atribuída pela crítica árabe posterior.
Inru Alcaice começou a compor poesia ainda jovem e, segundo a tradição, entrou repetidamente em conflito com o pai em consequência de seu comportamento e de suas composições amorosas, acabando expulso da corte. Passou então a levar uma vida errante, acompanhando grupos de homens de diferentes tribos em incursões pela Arábia. Após a morte de Hujer numa revolta dos açaditas, dedicou-se a vingá-lo e conseguiu derrotá-los com o auxílio de becritas, taglibitas e outros aliados, mas sua intenção de prosseguir a guerra provocou o abandono de parte dessas forças. A intervenção do rei lácmida de Hira, , e do Império Sassânida obrigou-o a buscar auxílio em outros lugares, iniciando uma peregrinação entre diferentes governantes que o levou à corte do rei gassânida . Por intermédio deste, dirigiu-se por volta de 538 à corte do imperador Justiniano em Constantinopla em busca de apoio militar. Sem obter o auxílio pretendido, iniciou a viagem de retorno e morreu nas proximidades de Ancara por volta de 540, circunstância em torno da qual também se desenvolveram diferentes tradições.
A poesia atribuída a Inru Alcaice foi transmitida por diferentes recensões e sua autenticidade já era discutida pelos estudiosos árabes medievais, sendo a constituição do corpus dificultada ainda pela existência de outros poetas conhecidos pelo mesmo lacabe. Apesar dessas incertezas, seu divã alcançou grande prestígio na tradição literária, e Inru Alcaice passou a ocupar lugar central nas discussões dos críticos árabes sobre a precedência entre os grandes poetas pré-islâmicos. Sua obra mais célebre, a Muallaqa, tornou-se uma das composições canônicas da poesia árabe pré-islâmica e uma das expressões mais conhecidas da cássida clássica. Nela, a evocação da amada e dos vestígios de seu acampamento é seguida por episódios amorosos e por descrições da noite, da viagem, do cavalo, da caça e da natureza, culminando numa representação de chuvas torrenciais e de seus efeitos sobre a paisagem. Comentada por sucessivas gerações de estudiosos e posteriormente traduzida para diversas línguas europeias, a Muallaqa permaneceu entre as obras mais conhecidas e estudadas da literatura árabe e ocupou lugar duradouro na formação linguística, poética e cultural dos falantes de árabe.
Nome
As fontes registram como nome pessoal (isme) de Inru Alcaice as variantes Hunduje, Adi ou Mulaica, com Inru Alcaice sendo seu lacabe. Também recebeu os epítetos Dulcuru (; ), atribuído pela tradição às feridas e furúnculos que lhe teriam surgido no corpo em consequência de uma túnica envenenada oferecida pelo imperador bizantino , e Almáleque Adilil (, al-Malik ad-Ḍillīl; ), relacionado às suas peregrinações de tribo em tribo e de região em região em busca de auxílio para vingar o pai ou à vida errante que teria levado. São-lhe atribuídas ainda as cúnias Abu Alharite, Abu Uabe e Abu Zaíde.
Inru Alcaice recebeu diferentes explicações. A interpretação teofórica o relaciona a Caice (Qays), nome que a tradição filológica árabe medieval registra como o de um ídolo. Essa interpretação é antiga: Albataliauci, ao comentar o nome desse poeta, registra que se dizia que Caice era um ídolo adorado pelos árabes e relata que Alasmai, por essa razão, evitava a expressão yā Imraʾ al-Qays, substituindo-a por yā Imraʾ Allāh. A interpretação de Qays como elemento divino também foi adotada por estudiosos modernos: Julius Wellhausen incluiu a forma grega Amorcesos (, Amorkesos), correspondente a Inru Alcaice, entre os nomes teofóricos árabes, enquanto Edward Lipiński considerou Qays um elemento teofórico presente tanto em Inru Alcaice como em Abede Alcaice (ʿAbd al-Qays). Albataliauci preserva ainda uma explicação lexical alternativa, segundo a qual qays significaria "dureza" ou "adversidade", de modo que Imruʾ al-Qays significaria "homem da adversidade".
Vida
300px|miniatura|Reino de Quinda ca. 500
Os quindaítas, de origem catanita, estavam estabelecidos no sul da Arábia, sendo registrados em Almuxacar, na região de Iamama, ou, durante o período dos himiaritas, em Hadramaute. Em algum momento dos séculos IV ou V, parte da tribo migrou para o norte, em direção a Négede. Por volta do , os quindaítas ali estabelecidos pediram ao rei do Iêmem que lhes escolhesse um rei, e tornou-se o primeiro rei do Reino de Quinda em Négede. A tradição atribui-lhe o epíteto de "comedor de ervas amargas". Inru Alcaice nasceu em Négede e era filho de Hujer. Inru Alcaice era o mais jovem dos filhos de Hujer, que reinava sobre os açaditas e gatafanitas. Segundo os relatos reunidos por al-Tahir Ahmad Makki, seu pai tinha outras esposas e concubinas além da mãe de Inru Alcaice, conforme o costume atribuído aos reis daquele período, e é possível que o poeta tenha recebido pouca atenção paterna. As tradições divergem quanto à identidade de sua mãe: Boustany registra seu nome como Fátima binte Rebia ou Tanlique binte Anre e observa que, segundo a primeira genealogia, ela seria irmã de Culaibe ibne Rebia e Almualhil, do clã juxamita. As informações conhecidas sobre a vida de Inru Alcaice procedem em grande parte de tradições biográficas tardias e divergentes. Boustany observa que os biógrafos frequentemente se contradizem e considera que pouco pode ser estabelecido com segurança sobre sua vida, cujo retrato transmitido pelas fontes é em grande medida semilendário. Os relatos utilizados na reconstrução de sua biografia foram transmitidos sobretudo por estudiosos de Cufa do .
Criado na corte do pai, aprendeu equitação, tiro com arco e técnicas de combate. Segundo uma das tradições sobre sua ascendência materna, sua mãe pertencia aos taglibitas, que Inru Alcaice visitava com frequência; entre eles recebeu ensinamentos de seu tio materno Almualhil, célebre na tradição literária árabe por sua poesia e feitos heroicos, e teria alcançado sob sua influência elevado domínio da poesia. Começou a compor poesia ainda jovem, atividade que seu pai desaprovava por considerá-la inadequada para o filho de um rei. Makki observa que, entre as tribos árabes do norte, cada tribo possuía seu chefe e seu poeta, sendo raramente ambos a mesma pessoa. Outro motivo de conflito com o pai teria sido o comportamento de Inru Alcaice e, sobretudo, sua poesia amorosa. Segundo uma das narrativas reunidas por Makki, preocupado com a falta de responsabilidade do filho, Hujer encarregou-o de cuidar dos camelos da família, experiência que terminou em fracasso. Outra narrativa atribui o rompimento entre ambos ao relacionamento de Inru Alcaice com sua prima Uzaizá: depois de não conseguir permissão para casar-se com ela, teria mantido relações com ela secretamente, provocando um escândalo na família. Outras versões atribuem sua expulsão à composição de versos lascivos sobre as esposas ou concubinas de seu pai. Na versão mais difundida da narrativa, Hujer inicialmente repreendeu o filho por sua dedicação à poesia, sobretudo amorosa, e por importunar em seus versos as mulheres dos açaditas, sobre os quais reinava. Como Inru Alcaice persistiu nesse comportamento, Hujer teria ordenado a seu liberto Rebia que o levasse para longe, o matasse e lhe trouxesse seus olhos. Rebia, porém, compadeceu-se do jovem, abateu uma gazela e apresentou seus olhos ao rei; ao perceber o arrependimento de Hujer, revelou-lhe que não matara seu filho, que se reconciliou com o pai. Inru Alcaice teria posteriormente reincidido no mesmo comportamento e acabou expulso por Hujer. Boustany considera o episódio da ordem de execução e dos olhos da gazela uma adição romantizada à narrativa biográfica.
Após a expulsão, Inru Alcaice reuniu um grupo de homens dos calbitas, becritas e taiítas, com os quais realizava incursões contra outras tribos e obtinha butim. Segundo a tradição, passou a levar uma vida errante pelo deserto junto de seus companheiros, dividindo seu tempo entre a caça, a bebida e a poesia. Encontrava-se no Iêmem quando soube que Hujer havia sido morto pelos açaditas durante uma revolta e jurou vingar sua morte. Segundo as tradições biográficas reunidas por Makki, Inru Alcaice foi o único entre os filhos de Hujer que assumiu a responsabilidade de vingá-lo. Boustany registra que a notícia da morte do pai teria chegado enquanto participava de uma sessão de bebida e que, a partir de então, a vingança contra os açaditas tornou-se seu principal objetivo. Segundo a tradição, consultou então o oráculo do ídolo Dulcalaça por meio de flechas divinatórias e, ao obter uma resposta desfavorável à vingança, arremessou as flechas contra a cabeça do ídolo. Ao tomar conhecimento de sua decisão, os açaditas enviaram-lhe uma delegação para negociar a paz, mas Inru Alcaice recebeu-a usando um turbante negro, apresentado pela tradição como sinal de vingança naquele período.
Com forças obtidas entre os becritas e taglibitas, Inru Alcaice derrotou os açaditas, infligindo-lhes grandes perdas, mas a vitória não o satisfez, pois pretendia não deixar nenhum deles vivo. Seus aliados recusaram-se a continuar auxiliando-o e tentaram dissuadi-lo de prosseguir a guerra. Inru Alcaice percorreu então diferentes tribos em busca de novos aliados e, com forças fornecidas por um rei himiarita que era seu parente e por outras tribos, voltou a atacar e derrotar os açaditas. Diante disso, o rei de Hira, , solicitou contra Inru Alcaice o auxílio do xainxá sassânida . Cosroes aceitou a proposta do soberano de Hira de proteger os açaditas e enviou-lhe reforços. Incapaz de enfrentar essa nova força, Inru Alcaice refugiou-se junto de Samuel ibne Adia, emir de Temá, que o acolheu em seu castelo de Alablaque e lhe indicou que o rei gassânida poderia auxiliá-lo. Inru Alcaice dirigiu-se então à corte de Alharite e, por sua intermediação, partiu para Constantinopla a fim de solicitar o auxílio do imperador Justiniano. As tradições divergem quanto ao resultado da missão: Savran situa a viagem por volta de 538 e afirma que Justiniano recusou o pedido, enquanto Boustany registra que o imperador recebeu Inru Alcaice favoravelmente e concordou em fornecer-lhe homens e armas.