292px292px292pxFantasia em Beni Drar, perto de Oujda, Marrocos, em 2011 Fantasia são diversos espetáculos equestres tradicionais que simulam assaltos militares, praticados essencialmente no Magrebe, onde também são chamados "jogos de pólvora" ou "jogos dos cavalos".
Usualmente consiste em evoluções equestres durante as quais os cavaleiros, munidos de espingardas de pólvora negra e cavalgando montadas ricamente ajaezadas, simulam uma carga de cavalaria em que a apoteose é o disparo coordenado duma salva com as armas de fogo. Em algumas regiões, a fantasia pode ser executada com dromedários ou a pé.
Herdeira da arte equestre árabe, turca e berbere, a sua prática é atestada desde o e foi testemunhada por viajantes no Magrebe no fim do . O nome de fantasia surgiu em 1832, graças ao pintor francês Eugène Delacroix, que pintou alguns espetáculos de fantasia nos seus quadros. Depois disso tornou-se um dos temas prediletos de alguns pintores orientalistas como Eugène Fromentin ou Marià Fortuny. A fantasia é um evento comum nas festividades mais importantes, como casamentos, nascimentos, festas religiosas, etc., apesar de atualmente também poder ser um espetáculo para turistas.
Etimologia e outras designações esquerda|thumb|Quadro de Eugène Delacroix mostrando uma fantasia em Marrocos
Os espetáculos chamados no Magrebe laâb el baroud ou lab-el-baroud (lab-el-barud) (لعب البارود em ; "jogo da pólvora") ou laâb el-khayl (لعب الخيل; "jogo dos cavalos") tomaram o nome de fantasia devido a um equívoco. Outros nomes usados localmente são, por exemplo: tbourida (ou teburida) (em Marrocos), baroud (ou barude), lbarud, etc.
A palavra tem origem no termo phantasia (φαντασια), que passou para o e como designação de um "espetáculo imaginário" e uma "faculdade de conceber imagens". Segundo outra versão, a origem da palavra o termo espanhol fantasía, que significa imaginação, mas também vaidade ou arrogância. Na fala magrebina, o termo toma o sentido de algo vistoso, aparatoso ou glorioso.
Foi o pintor francês Eugène Delacroix que usou erroneamente o termo "fantasia" aplicado aos espetáculos equestres tradicionais. André Lanly avançou uma hipótese que o pintor pode ter ouvido ouvido o termo como qualificativo do espetáculo, tê-lo anotado no seu desenho ou na memória e tê-lo tomado pelo nome.
Segundo outra versão, o uso do termo fantasia resulta duma confusão de palavras em árabe clássico com a mesma raiz verbal: khayal, que significa "imaginação", e "khayyal", que significa "cavaleiros".
O termo foi escrito no passado como "fantazia" ou "phantasia". Este último termo foi aplicado por J.-A. Bolle, um viajante francês em 1838, a jogos equestres distintos da fantasia, realizados em Boutlelis, perto de Orão, na Argélia. Depois de descrever como "justas militares" aquilo que hoje se chamaria uma fantasia, J.-A. Bolle prossegue:
História thumb|, na Argélia, a oeste de Figuigue, onde é representado um antepassado do cavalo berbere
A história da fantasia é o encontro em terras norte-africanas do homem e do cavalo. Foram encontrados restos de ossos de equídeos da espécie que datam de há e há gravuras rupestres no Atlas Saariano que datadas de que atestam a presença do cavalo no Magrebe, um ancestral da raça indígena atual do cavalo berbere.
Dócil, rústico, resistente, mas sobretudo rápido, este cavalo fez a glória dos cavaleiros númidas, considerados os melhores cavaleiros do mundo na época das Guerras Púnicas, nomeadamente graças à técnica de combate por perseguição à base de cargas e de viragens rápidas que eles desenvolveram. Essa tática de ataque e fuga, é retomada pelos árabes, que lhe chamam el-kerr ul-ferr e cujos "cavaleiros se precipitam deitados de bruços sobre os dorsos dos cavalos, lançando gritos, descarregam as suas armas, dão meia-volta imediatamente, partem a galope, recarregam a espingarda e voltam ao ataque". É essa técnica que origina a fantasia. Frequentemente qualificado como uma imagem da guerra, uma demonstração ritual de força e de coragem, ou mesmo uma metáfora de um confronto erótico, ela representa sobretudo os vestígios, a versão adocicada moderna, da arte de equitação árabe-turca-berbere da África do Norte.
A representação mais antiga que se conhece duma fantasia é um desenho do atribuído ao pintor flamengo Jan Vermeyen (1500-1559) intitulado a posteriori "Uma fantasia em Tunes" e outros dois desenhos seus intitulados "Torneio militar em Tunes". Todos os desenhos foram executados durante a conquista de Tunes em 1535 pelo imperador Carlos V.
É preciso esperar pelo fim do para que sejam publicadas as primeiras descrições do que depois se viria a chamar fantasia: de Louis de Chénier, diplomata ao serviço do rei , em 1787, pelo abade e explorador francês Jean-Louis Marie Poiret, em 1789, e pela Encyclopædia Britannica em 1797.
A 6 de março de 1832, Eugène Delacroix acompanha o conde Charles-Édgar de Mornay na sua embaixada junto do sultão marroquino e assiste aos seus primeiros "jogos de pólvora", na região de Garbe, na estrada de Mequinez (Meknès). Verá outros jogos em Alcácer-Quibir (Ksar El Kebir) e depois em Mequinez, e toma nota o esplendor do espetáculo no seu diário:
esquerda|thumb|Fantasia ou Jogo da Pólvora, em frente à porta da cidade de Mequinez, uma aguarela de 1932 da autoria de Eugène Delacroix
De volta a França, Delacroix executou uma aguarela (que atualmente se encontra no Museu do Louvre) mostrando as cenas a que ele tinha assistido e intitulada "Fantasia ou Jogo da Pólvora diante da porta de entrada da cidade de Mequinez". Seguidamente executa outras três fantasias: em 1832, "Exercícios militares dos Marroquinos ou Fantasia marroquina", atualmente no Museu Fabre de Montpellier; em 1833, "Fantasia árabe", atualmente no Instituto de Arte Städel de Frankfurt; em em 1847, Fantasia marroquina, atualmente no de Winterthur. Foi desta forma que o termo fantasia se tornou sinónimo de "jogo da pólvora".
Na época estava em voga o Orientalismo — nas palavras de Victor Hugo: «no século de era-se helenista, agora é-se orientalista.» Serão numerosos os artista que comporão quadros admiráveis de fantasias, entre os quais Eugène Fromentin, Aimé Morot, Théo van Rysselberghe, entre outros.
Longe de estar limitado ao Magrebe, a prática da fantasia é atestada no em toda a África do Norte, estendendo-se do Egito a oriente, até Marrocos a ocidente, e da Tunísia a norte até ao norte do Senegal e Chade, a sul. Mas talvez o local mais surpreendente onde se praticou a fantasia foi a Nova Caledónia, onde chegou com os deportados argelinos no final do .
Uma fantasia que ficou famosa foi a organizada em honra de a 18 de setembro de 1860, na Maison-Carrée, nos arredores de Argel, na qual participaram entre seis e dez mil cavaleiros.
Características e descrição Celebração thumb|Berberes executando uma fantasia em honra de visitantes na região de Mequinez em 1901
thumb|Cavaleiro árabe com roupas de fantasia na Tunísia em
thumb|Fantasia em Marrocos no início do , fotografada por Gabriel Veyre
A fantasia está tradicionalmente ligada a festividades, das quais ela constitui o ornamento supremo. É celebrada por ocasião de certos rituais, como moussems, vaada, zerda ou taam, festas anuais dedicadas a uma figura que alguns consideram santo, durante as quais são sacrificados animais e organizados grandes festins. Também se organizam fantasias em algumas festas mais marcadamente muçulmanas, como o Eid ul-Fitr, que marca o fim do Ramadão, ou o Mulude, que celebra o nascimento do Profeta Maomé; ou ainda em casamentos, nomeadamente para escoltar a noiva ao seu novo domicílio; nascimentos e peregrinações. Outros motivos para a realização duma fantasia são homenagens a chefes ou notáveis.
No entanto, a prática da fantasia é atualmente muitas vezes mais um espetáculo turístico do que um evento genuinamente folclórico.
Aparato Sinónimo de aparência exterior, de parada, de magnificência da postura e do luxo do vestuário, a fantasia caracteriza-se em primeiro lugar pela importância do aparato, pela riqueza e esplendor da roupa do cavaleiro, do seu equipamento e dos arreios do seu cavalo. Os equipamentos mais importantes do cavaleiro são a moukhala, a espingarda de pólvora negra magrebina, uma arma de pequeno calibre com um cano muito longo, muito característica devido aos seus ornamentos cintilantes e incrustações de osso, marfim, madrepérola ou metal e gravações coloridas. O cavaleiro pode igualmente equipar-se com um iatagã. O fausto dos arreios traduz-se, por exemplo, em selas de "marroquino" (couro) vermelho bordadas artisticamente ou damasquinadas ou incrustadas a ouro; gualdrapa (manta do dorso, onde assenta a sela) de seda de Tunes; estribos prateados, etc.
Espetáculo A fantasia é a repetição teatralizada dos dois movimentos da cavalaria em guerra: a carga rápida (em árabe: el kerr) e a retirada súbita. (el ferr). Alinhados numa extremidade da arena onde o espetáculo tem lugar, os cavaleiros abraçam nas suas montadas de barriga para baixo e, segurando as rédeas com uma só mão, fazem rodopiar as suas espingardas acima das suas cabeças; ao chegarem próximo do grosso da multidão de espetadores, levantam-se sincronizadamente e, largando as rédeas, agarram as suas moukhalas com as duas mãos, disparam-nas e agitam-nas de forma concertada, para a frente ou para trás, em direção ao solo ou ao ar; depois fazem uma volta curta e rápida e voltam tão rapidamente como vieram ao ponto de partida para recomeçar a corrida. As salvas disparadas pelos cavaleiros são chamadas de baroud.
Dependendo das regiões e da perícia e audácia dos cavaleiros, estes podem enfeitar as suas evoluções com posturas ou movimentos acrobáticos, lançando ao ar as suas armas para as voltar a apanhar em plena corrida, deitando-se sobre a garupa ou pondo-se em pé sobre a sela; alguns chegam a equilibra-se sobre a cabeça, sempre com o cavalo a galope. As mulheres reagem a estas performances com gritos estridentes de encorajamento e de satisfação.
Variantes thumb|esquerda|Fantasia a pé, na , Argélia
Além as diferenças cosméticas que podem existir entre uma região e outra, a prática da fantasia pode tomar certas formas particulares. A fantasia a pé, encontrada por exemplo no Vale de M'Zab, é uma forma na qual qual as cavalgadas são substituídas por danças onde os homens alinhados em fila ou em círculo efetuam idas e voltas ao ritmo da música.
A fantasia em dromedário, que não deve ser confundida com as méharées (marchas de camelos de tipo "mehari"), usa dromedários em vez de cavalos. Em língua berbere tuaregue, essa fantasia é chamada asebrer.
A fantasia feminina, que quebra a tradição das fantasias exclusivamente masculinas, é atestada em particular no em Constantina (Argélia), onde era executada a pé. Foram retomadas durante os anos 2000 em Marrocos, inicialmente na forma de grupos mistos de cavaleiros e cavaleiras, antes de surgir um grupo exclusivamente feminino em Mohammedia.
Um exercício perigoso Praticar a fantasia é uma atividade que envolve riscos. Além dos riscos inerentes à prática de equitação, o uso de armas, o arrebatamento, a excitação e a falta de habilidade fazem os cavaleiros incorrer em perigos que podem originar acidentes que por vezes são fatais.
thumb|Fantasia em Midoun, Djerba, Tunísia
Há relatos da história de , o último bei de Constantina que ficou gravemente ferido por uma bala perdida quando participava numa fantasia em sua honra em 1820. Numa fantasia organizada em 1859, «um xeque teve morte violenta, caindo com o seu cavalo, outro árabe partiu a perna e um terceiro ficou com uma ferida profunda na cabeça». Num casamento em 1862 na Tunísia, que assumiu contornos dramáticos, o noivo teve um acidente mortal no decurso da fantasia celebrada em sua honra.
Fantasia moderna