O Cerco de Toulon de 1793 foi uma operação militar realizada pelas forças da Primeira República Francesa contra um corpo de forças da Primeira Coligação, formado pelas tropas desembarcadas da frota que tinha vindo bloquear este importante porto francês e pelos reforços que foram depois enviados. Toulon era uma das cidades que se tinham revoltado contra o poder dos jacobinos que então controlavam a República Francesa. Esta foi a primeira operação militar em que encontramos a participação de Napoleão Bonaparte, ainda com o posto de capitão de artilharia e em que evidenciou as suas qualidades militares. Ao fim de pouco mais de três meses, a frota de bloqueio foi obrigada a abandonar o porto de Toulon e as forças republicanas entraram na cidade.
Antecedentes Desde o início da Revolução Francesa, em 1789, o aumento da violência e os excessos cometidos contra pessoas e bens causaram alarme interna e externamente. No plano interno, verificou-se a fuga de muitos franceses que, com o auxílio das outras potências estrangeiras, vieram a formar corpos militares chamados de “émigrés”. O agravamento da situação interna e a instauração do que ficou conhecido por Reino do Terror afastou das tendências revolucionárias muitos cidadãos franceses, especialmente na província. No Verão de 1793, a Vendeia, a Bretanha e algumas outras regiões, assumiram uma atitude de rebelião aberta contra o poder em Paris. O poder central agiu com firmeza e a repressão fez-se sentir de forma muito violenta. thumb|left|350px|Os excessos da Revolução aliados às grandes dificuldades económicas provocaram graves situações de oposição ao governo de Paris No plano externo, as potências alarmaram-se com os acontecimentos. Para além da invasão em 1792, essas potências não perderam a ocasião de apoiar os focos de rebelião. Marselha e Toulon foram duas dessas cidades. Com a aproximação das forças republicanas, os dirigentes revoltosos em Marselha enviaram, no dia 22 de Agosto, um pedido de ajuda à frota britânica, sob o comando do contra-almirante Samuel Hood, que tinha a missão de bloquear a frota francesa em Toulon. Hood não viu qualquer vantagem em empenhar as suas parcas forças de desembarque numa cidade que não lhe traria quaisquer benefícios de ordem táctica ou estratégica. No entanto, no dia seguinte, aceitou desembarcar tropas em Toulon se a cidade se declarasse leal aos Bourbons.Forczyk, p. 9.
No porto de Toulon encontrava-se a frota francesa do Mediterrâneo, sob comando do contra-almirante Jean-Honoré de Trogoff de Kerlessy. Esta importante frota, no entanto, estava guarnecida por pessoal mal treinado e o seu comandante entendeu que não tinha condições para sair e enfrentar as unidades navais britânicas que se encontravam ao largo. Trogoff procurou manter-se sempre afastado da questão política, tanto durante o domínio dos Jacobinos como dos revoltosos.
O Comité de Salvação Pública, criado em Abril desse ano, reagiu e enviou tropas para recapturar Marselha e Toulon. Para o efeito, foi enviado uma força sob o comando do general Carteaux que, para capturar aquela última cidade, devia receber o apoio de uma divisão de infantaria sob comando do general La Poype, vinda de Itália. Marselha foi capturada a 25 de Agosto e, quando as tropas republicanas começaram a aproximar-se de Toulon, o Comité que se tinha formado para governar a cidade apressou as negociações com o contra-almirante Hood. Este propôs que a base e a frota seriam mantidas em segurança sob controlo das forças britânicas até o controlo dos Bourbons ser reassumido.Forczyk, p.p. 8 e 9.
No dia 25 de Agosto de manhã, o Comité de Toulon intimou a frota francesa a render-se aos Britânicos. Trogoff aceitou render-se se isso pudesse salvar a frota mas muitos oficiais receberam a intimação com indignação. O segundo comandante, contra-almirante Jean-René-César Saint Julien de Chambron, tentou reorganizar a frota para resistir aos rebeldes franceses e à frota britânica. Saint Julian ordenou a ocupação de alguns fortes que controlavam a aproximação ao porto mas suas forças não eram numerosas. O relacionamento com o Comité de Toulon deteriorou-se e estes ameaçaram bombardear a frota. Saint Julian, por seu lado, ameaçou bombardear a cidade e, na noite de 26 para 27 de Agosto, colocou a frota fora do alcance das baterias da cidade, formada em linha de batalha, frente à entrada do porto, pronta a receber o ataque britânico.
A frota francesa ficava, desta forma, colocada entre as baterias em Toulon e a frota britânica o que, juntamente com todos os outros acontecimentos, afectou de forma muito negativa o moral dos marinheiros franceses. A divisão entre a lealdade a Trogoff ou a Saint Julian impedia a necessária unidade de comando. Na noite de 27 para 28, muitos marinheiros e oficiais desertaram. Alguns navios foram completamente abandonados e outros abandonaram a linha de batalha para procurarem abrigo no porto. No dia 28 de manhã, a frota de Hood entrou em Toulon e às 11h00 começou a desembarcar 1 200 homens de infantaria e 200 marinheiros. Não houve qualquer resistência.
Os britânicos ocuparam o Forte La Malgue e enviaram destacamentos para a cidade. Mas como as tropas não eram suficientes, Hook pediu reforços a Gibraltar e a outros membros da Coligação. Algum tempo depois, juntou-se à frota britânica a frota espanhola do Mediterrâneo sob o comando de Juan Cayetano de Lángara y Huarte, de onde desembarcaram mais 3 000 homens de infantaria. Mais tarde, chegaram tropas do Reino da Sardenha e do Reino de Nápoles.Forczyk, p.p. 7 a 11.
O campo de batalha thumb|right|300px|Toulon – fotografia de satélite O porto de Toulon é um dos melhores portos no Mediterrâneo. Do lado do mar, está protegido por duas penínsulas rochosas que se estendem de Oeste para Este e uma outra península que se estende de Este para Oeste, a Sul da cidade (com a extensão que esta tinha na época; ver mapa). A península mais pequena e mais a Norte era conhecido como “Le Caire” e existiam aí dois fortes: o "Fort de L'Eguilette" e a "Tour de Balaguier". O forte Mulgrave, mais para ocidente e no ponto mais elevado, já foi construído pelos Britânicos. Na península, a Sul de Toulon, também existiam vários fortes destinados à defesa da cidade: “Grosse Tour”, “Fort Saint Louis” e “Fort Lamalgue”. Na península mais a Sul, do lado ocidental, não existiam obras defensivas. Esta morfologia da costa formava duas baías: uma mais pequena (Petite Rade), interior, e outra maior (Grande Rade), exterior. thumb|left|300px|A base de Toulon com os Montes Faron ao fundo A Norte da cidade e do porto estende-se uma barreira formada pelo “Mont Faron”, com uma altitude superior a 500 metros e quase 3 Km de comprimento, onde tinham sido construídos alguns fortes a partir dos quais se controlavam os acessos por Leste ou por Oeste. Existiam ainda outros fortes construídos para controlo dos acessos e defesa da cidade e porto de Toulon. O perímetro defensivo tinha, desta forma, uma extensão de cerca de 20 Km, o que exigia uma guarnição numerosa.Cornwall, p. 36.
As forças em presença
Forças francesas
O exército
As forças francesas eram, inicialmente, compostas por duas divisões de origens diferentes. Uma divisão, com origem no Exército dos Alpes, estava sob comando do general de divisão Jean François Carteaux;Forczyk menciona sempre Carteaux como major-general, posto que não existia no Exército Francês. Chandler indica que Carteaux era general de brigada e foi promovido, em Agosto de 1793, a general de divisão. a outra, tinha origem no Exército de Itália e estava sob o comando do general de divisão Jean François Cornu de La Poype.
A Divisão de Carteaux tinha um efectivo de aproximadamente homens que eram, maioritariamente, voluntários de infantaria dos recrutamentos de 1792 e de Fevereiro de 1793. Mas, desta força, também faziam parte o 2/59º Regimento de Infantaria,Deve ler-se 2.º batalhão do 59.º ... um corpo de cavalaria com 140 homens e 313 artilheiros sob o comando do capitão Dummartin que guarneciam 26 bocas de fogo (dezoito de 4 libras, duas de 12 libras e duas de 16 libras). A artilharia era manifestamente inadequada e insuficiente para o cerco de uma praça. No início de Setembro, Carteaux recebeu reforços, as forças sob seu comando já somavam homens e, no final daquele mês, atingiram os 12 000.Forczyk, p. 23. thumb|right|200px|General de divisão Jacques François Coquille, chamado Dugommier A divisão de La Poype tinha, inicialmente, um efectivo de 2 900 homens: 1 700 pertenciam a três batalhões de voluntários e ao 1/28 Regimento de Infantaria de Linha; pertenciam a unidades da Guarda Nacional, de fraca qualidade militar. Tal como a outra divisão, esta também recebeu reforços durante as operações em Toulon. Dois batalhões do 35º Regimento de Infantaria de Linha juntaram-se à divisão imediatamente antes do fim do cerco. (Forczyk p. 24)
Após as alterações de comando e a chegada de reforços que se verificaram durante as operações, a ordem de batalha das forças francesas, a 11 de Dezembro de 1793, era a seguinte:Forczyk pp. 29 a 31.
Comandante das forças francesas: general de divisão Jacques François Coquille, chamado Dugommier.Chandler, pp. 127 e 128; Dugommier foi promovido a general de divisão em Novembro de 1793, quando assumiu o comando das forças em Toulon Para além de ser o comandante das forças francesas republicanas, o general Dugommier comandava a sua divisão (A Divisão Ocidental) e assim tinha sob seu comando directo:
Toda a artilharia da força, então sob comando do general Du Teil mas, na prática, comandada pelo major Napoleão Bonaparte.Cornwall, pp. 39, 298 e 299; Napoleão tinha sido promovido a major (chef de bataillon) a 19 de Outubro de 1793 e, após o cerco de Toulon, foi promovido a general de brigada, saltando os postos de tenente-coronel e coronel; estes factos estão de acordo com o que é exposto por Chandler na p. 298; Forczyk indica na ordem de batalha, p. 30, que Napoleão era tenente-coronel. Era constituída por 1.282 homens, 37 peças de artilharia e 25 morteiros.
Um esquadrão de cavalaria constituído por 51 homens do 9º Regimento de Dragões e 27 da Gendarmerie.
Divisão Ocidental, sob comando do general Dogummier, com o quartel-general em Ollioules (a 8 Km de Toulon, na estrada que liga esta cidade a Marselha) e um total de 16.983 homens organizados em 24 batalhões de infantaria e 25 companhias de infantaria destacadas de outras forças.
1.ª Divisão, sob comando do general de divisão Henri François Delaborde,Chandler, p. 117. com o quartel-general em La Seyne (no lado ocidental da baía interior, "Petit Rade"). Tinha um efectivo de 7.093 homens, de origens muito diversas, distribuídos por duas brigadas:
– Brigada Brulé, com 3.646 homens. – Brigada Victor, com 3.447 homens.
2.ª Divisão, sob comando do general Mouret, com o quartel-general em Ollioules. Era constituída por duas brigadas, de Garnier e de Gardanne, cuja composição se desconhece. Para além destas brigadas existiam dez batalhões muito heterogéneos ( homens) e vários pequenos corpos de infantaria (938 homens).
Divisão Oriental, sob o comando do general de divisão Jean François Cornu de La Poype, com o quartel-geral em La Valette. Tinha um efectivo de homens que, para além das tropas de engenharia, artilharia e cavalaria, estavam organizados em cinco brigadas cuja composição se desconhece quase na totalidade.
Para além destas unidades, existiam homens de infantaria em corpos não atribuídos a nenhuma das divisões acima mencionadas.
A frota
A frota francesa do Mediterrâneo não se encontrava toda em Toulon. Estavam fora um navio de linha e nove fragatas. Das unidades presentes no porto francês, estavam operacionais dezanove navios de linha, sete fragatas e nove corvetas. Existiam ainda treze navios de linha e dez fragatas não operacionais.Forczyk, p. 29.
As forças da Coligação
Forças desembarcadas