Guerra Civil do Mali ou Guerra do Mali é um conflito armado que começou em janeiro de 2012 e prossegue até os dias atuais. O conflito teve início na sequência de uma rebelião separatista contra o governo do Mali por elementos dos povos tuaregues e grupos islâmicos fundamentalistas na região de Azauade, no deserto do Sara. Conduzida inicialmente pelo Movimento Nacional de Libertação do Azauade (MNLA), a mais recente encarnação de uma série de revoltas das populações nômades tuaregues que remonta pelo menos até 1916, contra a exploração desse solo por multinacionais europeias e estadunidenses. O MNLA foi formado por antigos revoltosos e um número significante de combatentes tuaregues fortemente armados que lutaram pelo Conselho Nacional de Transição ou pelo Exército Líbio durante a Guerra Civil Líbia.

No dia 22 de março, o presidente constitucionalmente eleito Amadou Toumani Touré foi deposto por um golpe de Estado promovido por militares contrários à conduta do governo na resolução da crise, apenas um mês antes que ocorressem as eleições para a presidência. Os militares rebelados, sob a bandeira do Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado (CNRDE) suspenderam a constituição do Mali, embora essa ação tenha sido revertida no dia primeiro de abril. Como uma consequência da instabilidade política que se seguiu ao golpe, as três maiores cidades do norte do Mali - Quidal, Gao e Tombuctu - foram tomadas por rebeldes tuaregues. Em 5 de abril, depois da captura de Douentza, o MNLA afirmou que havia atingido seus objetivos e cancelou sua ofensiva. No dia seguinte, foi proclamada a independência de Azauade do Mali.

O MNLA inicialmente apoiado pelo grupo islâmico Ansar Dine. Depois que os militares do Mali foram expulsos de Azauade, o Ansar Dine começou a impor a xaria. O MNLA e os islâmicos se esforçaram para conciliar suas visões conflitantes para o novo Estado pretendido. Posteriormente, o MNLA começou a lutar contra o Ansar Dine e outros grupos islâmicos, incluindo Movimento para a Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJOA), um grupo dissidente do Al Qaida no Magrebe Islâmico. Até 17 de julho de 2012, o MNLA perdeu o controle da maioria das cidades do norte do Mali para os islamitas.

Em 11 de janeiro de 2013, o presidente da França, François Hollande, afirmou que havia concordado com um pedido do governo de Mali para ajuda externa e que "as forças francesas prestariam apoio ao Mali".

Em 18 de junho, após quase um ano e meio desde o começo da crise, o governo do Mali e os rebeldes tuaregues assinaram um acordo de paz. Contudo, em 26 de setembro de 2013, os rebeldes anunciaram que não mais aceitariam o acordo de paz e afirmaram que o governo não havia respeitado os entendimentos que haviam sido firmados no ano anterior. Enquanto a luta continuava, as forças francesas afirmaram que pretendiam se retirar do país. Em 20 de fevereiro de 2015 entrou em vigor um novo cessar-fogo, embora combates esporádicos ainda acontecessem pela região. Página acessada em 18 de março de 2015.

Antecedentes No início de 1990, os tuaregues e árabes nômades formaram o Mouvement Populaire de l’Azaouad / Movimento Popular de Azauade (MPA) e declararam uma guerra pela independência de Azauade.Backgrounder: Situation in Mali, Ralph Sundberg, June 5, 2012, Uppsala Conflict Data Program, http://uppsalaconflictdataprogram.wordpress.com/2012/06/05/backgrounder-situation-in-mali/ Apesar dos acordos de paz com o governo do Mali em 1991 e 1995, uma insatisfação crescente entre os antigos combatentes tuaregues, que haviam sido integrados as forças armadas do Mali, conduziu a novos combates em 2007.Mali, UCDP Conflict Encyclopedia, retrieved Jan. 14, 2013, http://www.ucdp.uu.se/gpdatabase/gpcountry.php?id=103&regionSelect=1-Northern_Africa# Apesar de historicamente ter dificuldade para manter alianças entre as facções seculares e islamistas, o Movimento Nacional para a Libertação de Azauade, aliou-se com os grupos islâmicos Ansar Dine e o Al Qaida no Magrebe Islâmico e iniciou um conflito no norte do Mali em 2012.

O MNLA foi um desdobramento de um movimento político conhecido como o Movimento Nacional para Azauade (MNA) antes da revolta. Após o fim da Guerra Civil Líbia, um influxo de armas levou ao armamento dos tuaregues em sua demanda pela independência do Azauade. A força desta revolta e o uso de armas pesadas, que não estavam presentes nos conflitos anteriores, foi dito ter "surpreendido" os oficiais malianos e observadores.

Embora dominado por tuaregues, o MNLA declarou que o movimento representava também outros grupos étnicos, e foram supostamente ligados por alguns líderes árabes. O líder do MNLA, Bilal Ag Acherif, disse que a responsabilidade estava no Mali em querer dar aos povos saarianos a sua auto-determinação ou fariam isso eles mesmos.

Outro grupo dominado por tuaregues, o islamita Ansar Dine (Defensores da Fé), inicialmente lutou ao lado do MNLA contra o governo. Ao contrário do MNLA, não buscava a independência, mas sim a imposição da lei islâmica (xaria) no Mali. O líder do movimento, Iyad Ag Ghaly, fez parte da rebelião no início de 1990 e tem sido relatado estar ligado a um ramo do Al Qaida no Magrebe Islâmico (AQMI), que é liderado por seu primo Hamada Ag Hama, bem como o Département du Renseignement et de la Sécurité (DRS) da Argélia.

O Mali passava por diversas crises ao mesmo tempo que favoreceram o surgimento do conflito:Marc Fonbaustier, Mali: A case study of a complex african crisis, Marcfonbaustier.tumblr.com, June 2012 Crise do Estado: o estabelecimento de um Estado tuaregue tem sido um objetivo de longo prazo do MNLA, desde que começou uma rebelião em 1962. Depois disso, o Mali tem estado em uma luta constante para manter seu território. Crise alimentar: a economia do Mali tem uma extrema dependência de ajuda externa, o que levou a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) a aplicar um bloqueio para subjugar a junta militar Crise política: um motim levou à queda do presidente.

Rebelião Tuaregue (janeiro-abril de 2012)

Os primeiros ataques da revolta ocorreram em Menaka, uma pequena cidade no extremo leste do Mali, em 16 e 17 de janeiro de 2012. Em 17 de janeiro, ataques em Aguelhok e Tessalit foram relatados. O governo do Mali afirmou ter recuperado o controle de todas as três cidades no dia seguinte. Em 24 de janeiro, os rebeldes retomaram Aguelhok depois que o Exército do Mali ficou sem munição. No dia seguinte, o governo do Mali, mais uma vez recapturou cidade. O Mali lançou contra operações aéreas e terrestres para retomar os territórios apreendidos, em meio a protestos em Bamako e Kati. O presidente maliense Amadou Toumani Touré, em seguida, reorganizou seus comandantes para a luta contra os rebeldes.

Em 1 de fevereiro de 2012, o MNLA tomou o controle da cidade de Menaka, quando o exército maliano operou o que foi denominado de um recuo tático. A violência dos combates no norte levou a protestos na capital Bamako. Dezenas de soldados malianos também foram mortos em combates em Aguelhok. Em 6 de fevereiro, as forças rebeldes atacaram Quidal, a capital regional.

Em 4 de março, uma nova série de combates foi relatado próximo à cidade de Tessalit, anteriormente mantida pelos rebeldes. No dia seguinte, três unidades do Exército do Mali desistiram de tentar suspender o cerco. A Força Aérea dos Estados Unidos faz lançamento aéreo de suprimentos através de um C-130 em apoio aos soldados malianos sitiados. Em 11 de março, o MNLA reassumiu Tessalit e seu aeroporto, e as forças militares malianas fugiram em direção à fronteira com a Argélia. Os rebeldes avançaram cerca de 125 quilômetros de Tombuctu e seu avanço não foi contido quando entraram sem combates nas cidades de Diré e Goundam. O Ansar Dine afirmou que tinha o controle da fronteira Mali-Argélia.

Golpe de Estado

Em 21 de março de 2012, soldados insatisfeitos com o curso do conflito atacaram o ministro da Defesa Sadio Gassama quando chegava para discursar para eles. Em seguida, apedrejaram o carro do ministro, obrigando-o a fugir do acampamento. Mais tarde, naquele dia, os soldados invadiram o palácio presidencial, forçando Touré se esconder.

Na manhã seguinte, o capitão Amadou Sanogo, o presidente do Comitê Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado (CNRDR), fez uma aparição na televisão em que anunciava que a junta havia suspendido a constituição do Mali e assumido o comando da nação. Os amotinados citaram o suposto tratamento débil de Touré a insurgência e à falta de equipamentos para o Exército do Mali como suas razões para a rebelião. O CNRDR serviria como um regime transitório até que o poder pudesse ser devolvido a um novo governo democraticamente eleito.

O golpe foi "condenado de forma unânime" pela comunidade internacional, inclusive pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, pela União Africana, e pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS), que anunciou em 29 de março que o CNRDR tinha 72 horas para ceder o controle antes que as fronteiras sem acesso ao mar do Mali fossem fechadas por seus vizinhos, e seus bens ficariam congelados pela União Económica e Monetária da África Ocidental, e os indivíduos do CNRDR teriam seus patrimônios congelados e viagens proibidas. A CEDEAO e a União Africana, também suspenderam o Mali. Os Estados Unidos, o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento suspenderam os fundos de ajuda ao desenvolvimento em apoio às reações da CEDEAO e da UA para o golpe.

O Presidente da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, que era o presidente rotativo da CEDEAO, afirmou que quando o governo civil fosse restaurado uma força da CEDEAO de 2 000 soldados poderia intervir contra a rebelião. O Presidente do Burkina Faso, Blaise Compaoré, foi nomeado mediador da CEDEAO para solucionar a crise. Um acordo foi alcançado entre a junta e os negociadores da CEDEAO em 6 de abril, em que Sanogo e Touré renunciariam, as sanções seriam suspensas, aos amotinados seria concedida a anistia, e o poder passaria ao porta-voz da Assembleia Nacional do Mali, Dioncounda Traoré. Após posse de Traoré, ele prometeu "travar uma guerra total e implacável" contra os rebeldes tuaregues, a menos que eles liberassem o controle das cidades do norte do Mali.

Ofensiva contínua

Durante as incertezas após o golpe, os rebeldes lançaram uma ofensiva com o objetivo de capturar várias cidades e acampamentos militares abandonados pelo exército do Mali.

Embora a ofensiva ostensivamente incluísse o MNLA e o Ansar Dine, de acordo com Jeremy Keenan da School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, a contribuição militar do Ansar Dine foi pequena: "o que parece acontecer é que, quando eles se movem em uma cidade, o MNLA retira a base militar - que não haja muita resistência - e Iyad [ag Aghaly] entra na cidade, coloca a bandeira e começa a dar ordens a todos ao redor sobre a lei daxaria".

Em 30 de março de 2012, os rebeldes tomaram o controle de Quidal, a capital da região de Quidal, bem como Ansongo e Bourem na região de Gao. Em 31 de março, Gao caiu para os rebeldes, e ambos, o MNLA e o Ansar Dine, hastearam suas bandeiras na cidade. No dia seguinte, os rebeldes atacaram Tombuctu, a última grande cidade controlada pelo governo no norte: eles capturaram com pouco combate A velocidade e a facilidade com que os rebeldes tomaram o controle do norte foi atribuído, em grande parte, à confusão criada pelo golpe de Estado do exército, levando a Reuters a descrevê-lo como "um espetacular gol-contra".

Em 6 de abril de 2012, declarando que havia assegurado todo o seu território desejado, o MNLA declarou a independência do Mali. No entanto, a declaração foi rejeitada como inválida pela União Africana e pela União Europeia.

Conflito islâmico-nacionalista (junho-novembro de 2012) thumb|Um combatente tuaregues com uma metralhadora no norte do Mali.