thumb|350px|Educação ambiental para escolares no Jardim Botânico de Porto Alegre Ambientalismo no Rio Grande do Sul refere-se ao movimento constituído por cientistas e leigos em defesa do meio ambiente do estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Embora haja alguns registros de protestos contra a destruição ambiental já no século XIX, um movimento mais consistente só tomou corpo em meados do século XX, acompanhando os avanços científicos e constatando que a destruição e ameaças emergentes nesta altura já eram significativas. Desde então o ambientalismo vem se revelando um tema de crescente apelo popular.
Pioneiro do ambientalismo (ou movimento ecológico) brasileiro, o estado tem uma insigne história neste campo, e apresentou muitas vezes propostas inovadoras. Rico em biodiversidade, o Rio Grande do Sul desenvolve uma série de iniciativas para o fomento das pesquisas, do ensino e da divulgação de conceitos ecológicos, tanto nas instâncias públicas como nas privadas; o governo já realizou e realiza grandes investimentos em projetos de várias naturezas, como em saneamento básico, na recuperação de zonas degradadas e na criação áreas protegidas; existem inúmeras associações, cooperativas e ONGs ambientalistas, que promovem o ativismo e apresentam resultados práticos promissores, e o tema é desenvolvido nas escolas e comunidades, em geral com boa receptividade.
No entanto, o estado também enfrenta graves problemas de poluição, desmatamento e desertificação, entre outros, e vem sofrendo os impactos do progressivo aquecimento global, que colocam desafios importantes para o seu desenvolvimento futuro, além de ter uma longa listagem de espécies ameaçadas, muitas delas já consideradas extintas localmente ou em processo de iminente desaparecimento. Além disso, a aplicação das leis muitas vezes é precária, dificultada por carências crônicas de recursos humanos e materiais, e denúncias de abusos são frequentes. As controvérsias sobre o tema também são grandes, gerando impasses, poderosos interesses políticos e econômicos contrários dificultam os avanços, e existem resistências de origem cultural. Em anos recentes a legislação ambiental estadual vem sendo drasticamente fragilizada. Muito ainda precisa ser feito para que a sociedade consiga articular e sedimentar um modelo de vida sustentável em larga escala, preservando o patrimônio natural rio-grandense para as gerações vindouras e revertendo, na medida do possível, os extensos danos que já foram causados.
História da conscientização ambiental no estado
Antecedentes thumb|Mata virgem no centro do estado em 1851, aquarela de Herrmann Rudolf Wendroth thumb|Colonos italianos transportando toras de araucária. Ao fundo, a mata já devastada
Sobrevivem muitos relatos de viajantes e exploradores dos séculos passados a respeito da riqueza da fauna e flora, e da beleza da paisagem do Rio Grande do Sul. No século XVII jesuítas acusavam a existência de antas no litoral. Em 1703 Domingos da Filgueira ensinava a tirar proveito da abundância de veados e capivaras da campanha. Em 1738 provisões do governo tratavam de proteger o povo da região de Rio Grande e Pelotas das onças que por lá viviam em grande número, e início do século XIX o viajante Nicolau Dreys relatava lá a existência de caçadores que ainda vendiam cinquenta couros do felino por mês. Em 1857 Avé-Lallemant espantava-se com a quantidade de aves vivendo nas margens da lagoa dos Patos, ainda cobertas de mato, e deliciava-se com a exuberância da flora na região de São Leopoldo. No fim do século XIX ainda eram pescadas tainhas em Porto Alegre e dourados no rio dos Sinos.Buckup, Ludwig. "A Fauna e as Paisagens do Rio Grande do Sul na Visão dos Viajantes Alemães do Século XIX". In: Rohden, Valério (coord.). Retratos de cooperação científica e cultural: 40 anos do Instituto Cultural Brasileiro-Alemão. EDIPUCRS, 1999, pp. 47-55 Quando iniciou a colonização italiana na serra do nordeste, a partir de 1875, a região era virgem e coberta pela floresta de araucária.Basso, Clarissa Maria Grezzana. "A araucária e a paisagem do planalto sul brasileiro". In: Revista de Direito Público. Londrina, v. 5, n. 2, p. 1-11, ago. 2010, p. 5Carvalho, Paulo Ernani Ramalho; Medrado, Moacir José Sales & Hoeflich, Vitor Afonso. "Cultivo do pinheiro-do-paraná". In: Embrapa Florestas, Sistemas de Produção. Nº 7, Jan./2003
Muito dessa riqueza já não existe. Florestas e animais desapareceram, a poluição tomou conta de muitos rios, a urbanização, a pecuária e a agricultura avançam alterando profundamente a paisagem primitiva.Miranda, Evaristo Eduardo de. O descobrimento da biodiversidade: a ecologia de índios, jesuítas e leigos no século XVI. Edições Loyola, 2004, pp. 110-111 A consciência ambiental tardou a se formar, embora alguns daqueles viajantes já apontassem os perigos da exploração desenfreada do meio ambiente. Reinhold Hensel, chegando ao estado em 1865, foi um deles, e em seus escritos registrou que as aves que Lallemant descrevera como abundantes há menos de uma década já eram escassas, que os morros de Porto Alegre, também antes cobertos de árvores, já estavam em grande parte tomados pela vegetação rasteira, e, ao observar a maneira como se processava a colonização alemã no vale dos Sinos, expressou uma preocupação profética:Buckup, pp. 55-57
"Com a frequentemente mencionada precariedade na construção de estradas e pontes, contrasta a falta de consideração com que são destruídas as florestas na instalação e alargamento das colônias, de modo que a madeira para construção, pelo menos nas picadas mais antigas, já começa a ficar rara. [...] Não se pode proibir ao colono que desmate a sua terra ao seu bel prazer, apenas teria sido tarefa do governo agir de forma mais cuidadosa [...] e considerar a eventualidade de que mais cedo ou mais tarde, com os métodos atuais, haveria falta de madeira e de água nos distritos florestais destinados ao cultivo agrícola. Com o lento, porém crescente desmatamento das partes altas da floresta, ocorre a redução das precipitações atmosféricas regulares, e já agora encontram-se, não raramente, nos morros entre as picadas, os vestígios de antigos riachos, cujas fontes secaram desde a fundação das colônias. [...] Antigamente a floresta protegia a cobertura rica em humus do solo da serra, mas agora ele está exposto às chuvaradas e é carregado cada ano mais para os vales, de maneira que todas as partes mais altas das florestas desmatadas se tornarão impróprias para o cultivo, e mesmo para a silvicultura, [...] porém a miopia dos brasileiros em todas as coisas da economia nacional não lhes permite este olhar para o futuro".Buckup, pp. 57-58
Início do movimento
thumb|left|Panfleto da União Protetora da Natureza contra a matança de passarinhos.
Apesar de nos anos 40 já haver significativa legislação ambiental em nível nacional, notadamente o Código Florestal (1934), no estado a conscientização ainda era praticamente nula. Mas nesta época apareceu o padre Balduíno Rambo. Em monografia de 1941 denunciou a ação predatória da indústria madeireira no vale do rio Uruguai e recomendou a criação de dois parques florestais, um no alto Uruguai, e outro nos Aparados da Serra. No seu clássico A Fisionomia do Rio Grande do Sul (1942), dedicou seu último capítulo à "Proteção da Natureza", defendendo a proteção dos monumentos naturais, as espécies ameaçadas e a integração entre homem e natureza, dizendo: "Um povo que descuidasse desse elemento teria falta de um requisito essencial da verdadeira cultura humana total", e seria indigno da abundância da terra, "como a pródiga mão do Criador o presenteou". Ele foi um pioneiro, antecedendo os estudos ecológicos de Wanderbilt Duarte de Barros, primeiro diretor do Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro parque nacional a ser fundado.Urban, Teresa. Missão (quase) impossível: aventuras e desventuras do movimento ambientalista no Brasil. Editora Peirópolis, 2001. pp. 55-56Marcondes, Sandra. Brasil, amor à primeira vista!: viagem ambiental no Brasil do século XVI ao XXI. Editora Peirópolis, 2005, pp. 159-160
Mais ou menos na mesma altura, surgiu o primeiro fiscal ecológico do estado, Henrique Luís Roessler, contador da Delegacia Estadual de Portos, que, por iniciativa própria, nos fins de semana dedicava-se a observar as atividades de caça e pesca, conseguindo credenciamento junto ao Ministério da Agricultura para atuar oficialmente como fiscal. Perdeu-o, entretanto, ao multar sem autorização curtumes que poluíam os rios da região de São Leopoldo. Em 1955 ele fundou a União Protetora da Natureza, a primeira entidade ambientalista do Brasil,Furriela, Rachel Biderman. Democracia, cidadania e proteção do meio ambiente. Annablume, 2002, p. 156 e em seguida começou a publicar panfletos e uma série de artigos sobre temas ecológicos no jornal porto-alegrense Correio do Povo, conseguindo impressionar em alguma medida a opinião pública e apelando à adesão de voluntários. Aos que não podiam se engajar, suplicava pelo menos "uma prece pela natureza moribunda, pedindo que o Onipotente misericordioso modifique a mentalidade predadora de nosso povo".Urban, p. 56Pereira, Elenita Malta. "Os panfletos da campanha educativa da “União Protetora da Natureza” (1955-1963)". In: Métis, 2008; 7 (14):117-128
Roessler escreveu seu último artigo em 1963, e logo em seguida, com o golpe militar de 1964, os movimentos sociais brasileiros foram desarticulados, dissolvendo-se também o movimento ambiental incipiente. Porém, entre as organizações que apoiaram o golpe estava a Ação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG), liderada na década de 1970 por Magda Renner, que veio a se revelar uma ativa defensora do meio ambiente. Ela foi influenciada no direcionamento de seu trabalho ecológico por uma palestra de José Lutzenberger proferida em 1972 na Associação dos Agrônomos de Porto Alegre. Lutzenberger já se destacava no movimento nacional, tendo publicado artigos em jornais e fundado em 1971 a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), junto com outros simpatizantes da causa, em particular Augusto Carneiro. Principalmente a esses ativistas se deve o ressurgimento da consciência ambiental no estado, numa época em que os problemas ambientais no Brasil se tornavam graves,Urban, pp. 57-61 e tornando o Rio Grande do Sul o pioneiro do movimento ecológico brasileiro.Silva, Maria Cristina Viñas Gomes da. "Imprensa e Educação Ambiental: um estudo sobre a contribuição do jornal". In: Dornelles, Beatriz. Mídia, imprensa e as novas tecnologias. EDIPUCRS, 2002, p. 37 thumb|A Borregaard, fábrica de celulose em Guaíba. Ganhou má fama como centro de uma luta ecológica nos anos 1970. O mau cheiro de suas emissões gasosas chegava à capital e gerava protestos, além de despejar efluentes líquidos no lago. Foi fechada em 1973 por força da mobilização popular."A nova cara do ambientalismo gaúcho". In: Zero Hora, 12/04/2008