350px|direita|thumb|Dinheiro de César.Entre 1600 e 1640. Por Rubens, atualmente no Fine Arts Museums of San Francisco, na Califórnia, nos Estados Unidos. A César o que é de César é começo de uma frase atribuída a Jesus nos evangelhos sinóticos, onde se lê (). O episódio aparece em Marcos 12 (), Mateus 22 () e Lucas 20 ().

A frase, amplamente citada, se tornou uma espécie de resumo da relação entre o cristianismo e a autoridade secular. Na mensagem original, ela apareceu como resposta a uma questão sobre se seria lícito para um judeu pagar impostos a César e dá margem a múltiplas interpretações sobre em que circunstâncias seria desejável para um cristão se submeter à autoridade terrena.

Narrativa Bíblia Os evangelhos sinóticos relatam como os adversários de Jesus tentaram ludibriá-lo ao forçá-lo a tomar uma posição explícita (e perigosa) sobre a delicada questão do pagamento de impostos aos conquistadores romanos. Os relatos em Mateus e Marcos afirmam que esses adversários eram os fariseus e os herodianos, enquanto que Lucas diz apenas que eles eram "espiões" enviados por "doutores da lei e os sumo-sacerdotes".

Eles previram que Jesus certamente se oporia ao imposto, pois sua intenção era que . Este governador era Pôncio Pilatos e ele era o responsável por coletar os impostos na província romana da Judeia. A princípio, eles bajularam Jesus, elogiando sua integridade, imparcialidade e devoção à verdade. Então perguntaram-lhe se era ou não certo que um judeu pagasse um imposto demandado por César. Em Marcos, uma pergunta adicional, provocativa, ainda foi feita: .

Jesus primeiro os chamou de hipócritas e então pediu que um deles apresentasse uma moeda romana que pudesse ser usada para pagar o imposto de César. Um deles mostrou-lhe uma moeda romana e Jesus então perguntou qual era o nome e a inscrição que estava nela. Prontamente, eles responderam que era de César, ao que Jesus então proferiu a sua famosa frase:

Os questionadores ficaram impressionados (Mateus afirma que ficaram "maravilhados" - ) e, satisfeitos, foram embora.

Evangelho de Tomé No apócrifo gnóstico Evangelho de Tomé, há um episódio similar:

Evangelho de Egerton O fragmentado Evangelho de Egerton (3,1-6),A BUSCA PELAS PALAVRAS E ATOS DE JESUS: O JESUS SEMINAR , acesso em 27 de abril de 2013 segundo a tradução de Robert Miller,The Complete Gospels, Robert J. Miller ed., Polebridge Press, 1992, ISBN 0944344305, pages 409-410 afirma:

Contexto histórico esquerda|300px|thumb|Moeda mostrando Tibério no anverso e a Pax no reverso.

A moeda O texto identifica a moeda como um denário ( - dēnarion)Thayer's Lexicon: δηνάριον e geralmente se acredita que seria portanto um denário romano com a éfigie de Tibério, que passou a ser conhecida como "moeda do tributo" e se tornou, por conta da história do evangelho, um cobiçado item para colecionadores. A inscrição é Ti[berivs] Caesar Divi Avg[vsti] F[ilivs] Avgvstvs ("César Augusto Tibério, filho do Divino Augusto"). O reverso mostra uma figura feminina, geralmente identificada como sendo Lívia, representada como sendo a Pax.

Porém, já se sugeriu que o denário não era comumente encontrado na Judeia durante a vida de Jesus e que a moeda poderia ser, ao invés dele, uma tetradracma antioquiana, que também traz a éfige de Tibério, mas com Augusto no reverso. Outra sugestão comum é o denário de Augusto com Caio César e Lúcio César no reverso, enquanto que outras possibilidades incluem moedas de Júlio César, Marco Antônio e Germânico.

No episódio do Evangelho de Tomé, a moeda, por sua vez, é de ouro.

Resistência ao pagamento de impostos na Judeia

Os impostos criados na Judeia por Roma criaram inúmeros conflitos.Marshall, I.H. Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text p. 735; Gross, David (ed.) We Won't Pay!: A Tax Resistance Reader ISBN 1434898253 pp. 1-7 O estudioso do Novo Testamento, Willard Swartley, escreveu: "O imposto referido no texto era um específico... Era um imposto por cabeça instituído em 6 d.C. Um censo realizado na época (vide ) para determinar quais os recursos dos judeus provocou a revolta por todo o país. Judas da Galileia liderou um grupo () que só foi detido com dificuldade. Muitos acadêmicos marcam o início do movimento dos zelotes neste evento".Swartley, Willard M. The Christian and the Payment of Taxes Used For War 1980

A Enciclopédia Judaica afirma, sobre os zelotes: "Quando, no ano 5, Judas de Gamala, na Galileia, iniciou a sua oposição organizada contra Roma, ele recebeu o apoio de um dos líderes fariseus, Zadoque, um discípulo de Shammai e um dos mais furiosos patriotas e heróis populares que viveram para testemunhar a destruição de Jerusalém... A realização do censo por Quirino, o procurador romano, com o objetivo de taxar a população, foi considerado como um sinal da escravidão frente aos romanos; e o chamado entusiástico dos zelotes para a resistência renhida foi recebido de forma retumbante".

Em seu julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos, Jesus foi acusado de promover a resistência aos impostos demandados por César ().

Interpretações modernas thumb|direita|350px|1886-1894. Por James Tissot, atualmente no Brooklyn Museum, em Nova Iorque.</small> Esta passagem é o tema de muitas discussões no contexto atual da relação entre o cristianismo e a política, especialmente no que tange a à separação da Igreja e do Estado e a resistência ao pagamento de impostos.

Jesus respondeu a Pôncio Pilatos sobre a natureza do seu reino durante o seu julgamento:

Justificativa para a obediência às autoridades e o pagamento de impostos Alguns estudiosos entendem a frase como uma afirmação definitiva do comando para que as pessoas respeitem a autoridade do estado e paguem os seus impostos. Paulo de Tarso também afirma, , que os cristãos são obrigados a obedecer as autoridades terrenas, afirmando que elas foram introduzidas por Deus e, por isso, a desobediência a elas seria a desobediência Deus.

Nesta interpretação, Jesus pediu que lhe mostrassem uma moeda para demonstrar-lhes que, ao utilizarem moedas romanas, eles mesmos já teriam admitido o poder de facto do imperador romano e que, portanto, eles deveriam se submeter ao seu jugo.Brown, John The law of Christ respecting civil obedience, especially in the payment of tribute (London: William Ball, 1839) 3rd. ed, p. 183

Como exemplo, um menonita explicou assim por que ele não estava resistindo a um imposto para financiar uma guerra: "Nós somos contra a guerra e não desejamos ajudar o esforço de guerra, seja nos alistando ou pagando impostos de guerra ao governo. Fazê-lo só ajuda a fortalecer e perpetuar a máquina de guerra. Em Mateus 22:21 está dito "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." Em Romanos 13:1, "Todo o homem esteja sujeito às autoridades superiores. Pois não há autoridade que não venha de Deus; e as que há, têm sido ordenadas por Deus." Se a lei da terra afirma que todos devem pagar impostos de guerra, então é isso que devemos fazer. É a lei! Mas devemos, porém, trabalhar e rezar muito para mudar essa lei. A situação ideal seria ter essa lei abolida. Uma alternativa seria ter a possibilidade de determinar que a nossa parte do imposto de guerra seja utilizado nos esforços de paz. Este caminho seria uma forma legal, construtiva e positiva de resolver a situação".Sawatzky, Anne, quoted in Peachey, Titus Silence and Courage: Income Taxes, War and Mennonites 1940-1993 MCC Occasional Paper #18, August 1993, p. 34.

Devote a sua vida a Deus Tertuliano, em sua De Idolatria, interpreta a frase de Jesus como "a imagem de César, que está na moeda, a César, e a imagem de Deus, que está no homem, a Deus; dando de fato a César o dinheiro e a Deus, a si mesmo. De outra forma, o que será de Deus, se todas as coisas são de César?".from The Writings of Tertullian. vol. I, ed. by Alexander Roberts and James Donaldson (Edinburgh: T.&T. Clark, 1869) p. 164.

Leão Tolstoi escreveu: "Não apenas a completa falta de entendimento sobre o ensinamento de Cristo, mas também uma completa falta de vontade de entendê-lo poderia admitir este surpreendente erro de interpretação que afirma que "A César o que é de César" significa a necessidade de obedecer César. Em primeiro lugar, não menção alguma de obediência no trecho; em segundo, se Cristo reconheceu a obrigação de pagar o tributo e, assim, a obediência, ele teria dito diretamente "Sim, devemos pagá-lo". Ao invés disso, ele disse "Dê a César o que é dele, ou seja, o dinheiro, e dê sua vida a Deus", e, com estas últimas palavras, ele não apenas não encoraja nenhuma obediência ao poder, mas, ao contrário, afirma que, em tudo que pertence a Deus, não é correto obedecer a César"."Drózhzhin's Life And Death," as found in We Won't Pay!: A Tax Resistance Reader (2008) ISBN 1434898253, p. 223

Sublinhando os perigos de cooperar com o Estado Henry David Thoreau escreveu em sua "Desobediência Civil" que "Cristo respondeu aos herodianos de acordo com a condição deles. "Me mostrem o dinheiro do tributo", disse ele - e um deles tirou uma moeda de seu bolso; - Se você usa dinheiro que tem a imagem de César nele, que circula e é valioso por causa dele, ou seja, se você é um homem do Estado e aproveita contente as benesses do governos de César, então pague-lhe de volta uma parte do que é dele quando ele pedir; "A César o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus" - deixando-os tão ignorantes quanto antes sobre qual seria qual; pois eles não desejam saber".

Segundo o menonita Dale Glass-Hess, "É inconcebível para mim que Jesus ensinaria que algumas esferas da atividade humana estariam fora da autoridade de Deus. Devemos concordar com César quando ele vai à guerra ou apoia a guerra quando Jesus diz, em outros lugares, que não devemos matar? Não! Minha percepção deste incidente é que Jesus não respondeu à questão sobre a moralidade do pagamento dos impostos de César e a devolveu para o povo decidir. Quando os judeus apresentam o denário a pedido de Jesus, eles demonstram que já estão realizando negócios com César nos termos de César. Eu leio a afirmação de Jesus, "A César...", como significando "Vocês estão em dívida com César! Então é melhor pagarem." Os judeus já tinham se comprometido. O mesmo vale para nós: nós podemos nos recusar a servir a César como soldados e mesmo tentar resistir em sustentar o exército de César, mas, na realidade, é pelo nosso estilo de vida que incorremos numa dívida com César, que se sentiu compelido então a defender os interesses que apoiam este estilo de vida. Agora ele quer ser ressarcido e é um pouco tarde pra dizer que não lhe devemos nada. Já estamos comprometidos. Se vamos jogar os jogos de guerra de César, então devemos esperar ter que pagar pelo prazer de nos aproveitarmos dele. Mas se estamos determinados a evitar esses jogos, então devemos ser capazes de evitar ter que pagar por eles".in Peachey, Titus Silence and Courage: Income Taxes, War and Mennonites 1940-1993 MCC Occasional Paper #18, August 1993, p. 29

Mohandas K. Gandhi compartilhava desta visão. Segundo ele: "Jesus se desviou da questão direta que lhe foi apresentada por que era uma armadilha. Ele não era de forma nenhuma obrigado a respondê-la. Assim, ele pediu para ver uma moeda usada para pagar impostos. E então disse, com desprezo, "Como vocês, que negociam com moedas de César e, assim, recebem os benefícios do governo de César, se recusam a pagar impostos?" Toda a pregação e a prática de Jesus apontam, sem sombra de dúvida, para a não-cooperação, o que necessariamente inclui não pagar impostos".originally from Young India 27 March 1930, as found in Gross, David (ed.) We Won't Pay!: A Tax Resistance Reader (2008) ISBN 1434898253

Nada se deve pagar a César Uma interpretação completamente diferente das palavras de Jesus foi proposta por alguns autores,Veja, por exemplo, Jeffrey Barr, Ned Netterville, Darrell Anderson e Timmothy Patton que defendem que Jesus teria afirmado que nada se devia pagar a César.