é um filme japonês de animação e fantasia lançado em 2004, vagamente baseado no romance Howl's Moving Castle (1986) da dramaturga britânica Diana Wynne Jones. Contou com a direção junto ao roteiro de Hayao Miyazaki e foi produzido por Toshio Suzuki. O filme é ambientado num reino fictício onde tanto a magia como a tecnologia — especificamente do século XX — predominam, enquanto ocorre uma guerra entre dois reinos. A história segue a vida da jovem Sophie (voz de Chieko Baisho) que é transformada numa idosa após uma bruxa entrar na sua loja e amaldiçoá-la. Logo após, ela embarca em uma grande aventura com o mago Howl (voz de Takuya Kimura).
Influenciado pela oposição de Miyazaki à invasão dos Estados Unidos ao Iraque, em 2003, o filme contém fortes temas anti-guerra. Miyazaki afirmou que "sentia muita raiva" sobre a guerra ocorrida no Iraque, o levando a fazer um longa-metragem onde presumia uma má recepção nos Estados Unidos. Explora também o tema da velhice retratando positivamente a idade como algo que concede liberdade à protagonista. Além de conter elementos feministas, trazendo mensagens sobre o valor da compaixão. Em 2013, Miyazaki descreveu Hauru no Ugoku Shiro como uma de suas criações favoritas, explicando seu desejo de transmitir a mensagem de que "a vida vale a pena ser vivida" e pensava que isso nunca iria mudar. O filme é tematicamente distinto do romance, enquanto o mesmo se concentra em desafiar as normas de classe e gênero, a película se centraliza no amor, na lealdade pessoal e nas consequências destrutivas da guerra.
Hauru no Ugoku Shiro teve sua estreia mundial no Festival de Veneza em 5 de setembro de 2004, no qual também competia ao Leão de Ouro, e foi lançado nos cinemas japoneses em 20 de novembro do mesmo ano. Apresentou uma receita de 19,6 bilhões de ienes (190 milhões de dólares estadunidenses) em território japonês e 236 milhões em todo o mundo, tornando-se um dos filmes japoneses de maior sucesso comercial da história. A obra foi aclamada pela crítica especializada, os quais prezoaram o seu aspecto visual e a apresentação dos temas por Miyazaki. Recebeu 37 indicações e obteve 19 vitórias em diversos prêmios, incluindo uma indicação na categoria de melhor filme de animação na 78.ª edição do Oscar, mas acabou perdendo para Wallace & Gromit: The Curse of the Were-Rabbit, ademais ganhou quatro Prêmios Tokyo Anime e um Nebula de melhor roteiro. O portal britânico BroadbandChoices fez uma análise dos filmes mais pesquisados do Studio Ghibli ao redor do mundo e classificou Hauru no Ugoku Shiro em quarto, lugar com uma porcentagem de 8,59. No Brasil, o filme foi lançado em Blu-ray pela 'Obras Primas do Cinema' em Fevereiro de 2025, em uma edição especial.
Enredo Sophie, uma chapeleira encontra por acaso o desconhecido mago Howl. Ao vê-los juntos, a jovem é amaldiçoada pela Bruxa do Deserto — apesar de que o encontro dos dois tenha sido breve —, tal maldição consiste na alteração de sua aparência: de juvenil a uma fisionomia octogenária. Seguidamente, Sophie busca por uma solução para findar tal feitiço e acaba por conhecer um espantalho vivo, o qual chama de Cabeça de Nabo. Ele a leva ao castelo em movimento de Howl, onde entra sem permissão e assim conhece os aprendizes Markl e Calcifer, a fonte da magia do castelo. Ela é apresentada como "uma serviçal contratada".
Nesse entretempo, a terra natal de Sophie está em guerra com o reino vizinho, da qual busca por seu príncipe desaparecido. Howl é convocado pelo rei para o conflito bélico, mas o mago demonstra covardia e hesitação; desta forma, ele ausenta-se por um curto tempo. Sophie conhece a feiticeira do rei, Suliman, e também a bruxa que amaldiçoou-a — esta última retorna a sua verdadeira identidade. Em uma tentativa de resgatar a "jovem" amaldiçoada, a maga tenta capturar Howl transformando-o em um ser monstruoso, ele então consegue fugir de tal situação.
Sophie percebe que a vida de Howl está, de alguma forma, correlacionada com a de Calcifer, e que o mago está transformando-se em um pássaro e que ele, a fim de proteger seu castelo, vai à guerra após aeronaves inimigas bombardeiam a terra natal de Sophie, que em pânico encharca Calcifer — que está com o coração de Howl —, após a Bruxa do Deserto tentar obtê-lo. Então, o castelo divide-se em dois; o que faz Sophie separar-se dos demais. Posteriormente, a bruxa decide devolver o coração de Howl e Sophie o coloca no corpo do mago, fazendo-o reviver e libertando Calcifer. A maldição de Sophie também é quebrada, embora seu cabelo ainda permaneça grisalho. Após beijar a bochecha de Cabeça de Nabo, seu feitiço é desfeito sendo revelado que este é o príncipe desaparecido de seu reino, que retorna à sua cidade natal para encerrar o conflito bélico e Suliman também decide fazer o mesmo.
Elenco Apresenta-se a seguir o elenco de Hauru no Ugoku Shiro.
Produção Em setembro de 2001, o Studio Ghibli anunciou a produção de dois filmes, o primeiro seria Neko no Ongaeshi e o segundo uma adaptação do romance de Diana Wynne Jones, Howl's Moving Castle. Alguns rumores apontam que o desenvolvimento de Hauru no Ugoku Shiro veio após Miyazaki visitar o mercado natalino de Christkindelsmärik em Estrasburgo. O produtor Toshio Suzuki afirmou que a motivação de Miyazaki a fazer o filme surgiu após uma leitura da obra de Jones, onde ficou impressionado com a imagem de um castelo em movimento. Não é explicado como o castelo se move e o diretor estava interessado em descobrir isso, a estrutura básica do mesmo consiste em mais de oitenta elementos, tais como torres, uma língua e pernas de galinhas, que foram renderizados digitalmente.
Inicialmente, Mamoru Hosoda da Toei Animation foi escalado para dirigir o filme, mas o abandonou após os executivos do Studio Ghibli rejeitarem muitas de suas ideias conceituais. O projeto ficou arquivado até Miyazaki assumir, sendo retomado em fevereiro de 2003 e previsto para ser concluído na primavera de 2004, com lançamento no mesmo ano. Miyazaki foi à Colmar e Riquewihr na Alsácia, França, para estudar a arquitetura e os arredores do filme; com inspiração adicional dos conceitos de tecnologia futurista de Albert Robida. Comentaristas afirmaram que o imaginário do diretor foi influenciado por seu carinho pela arte ilusória da Europa do século XIX. Suzuki disse que ao contrário de muitos filmes ocidentais nos quais o ilusório vai de geral [para] específico, Miyazaki utiliza uma abordagem unicamente japonesa, frequentemente começando com algo muito específico e a partir dali evoluindo.
O filme foi produzido digitalmente, porém os cenários junto aos personagens foram desenhados à mão e coloridos antes de serem digitalizados. Foram concluídos 1400 storyboards em 16 de janeiro de 2004, com a animação intermediária sendo concluída em 25 de junho. A tecnologia digital foi utilizada pelo Studio Ghibli para copiar partes fixas de uma cena, um processo que evita inconsistências entre várias frames, podendo criar uma impressão de artificialidade. Assim como os outros filmes do estúdio, Hauru no Ugoku Shiro foi co-produzido com outras empresas como Tokuma Shoten, Nippon Television Network, Dentsu, Buena Vista Home Entertainment, Mitsubishi e Toho.
Música
A trilha sonora original de Hauru no Ugoku Shiro foi inteiramente composta por Joe Hisaishi, colaborador habitual de Miyazaki, e interpretada pela Orquestra Filarmônica Novo Japão. Um álbum contendo todas as 26 faixas do filme foi lançado no Japão em 19 de novembro de 2004, pela Tokuma Shoten. Em destaque, a canção de abertura resplandece ao cenário da era vitoriana na trama e tem uma ludicidade suntuosa que é o reflexo do carisma de Howl.
Temas e análises Pacifismo Hauru no Ugoku Shiro é composto por fortes temas anti-guerra, motivado pela insatisfação de Miyazaki em relação à Guerra do Iraque (que teve início em 2003). Quando foi premiado com o Oscar por Sen to Chihiro no Kamikakushi, o diretor disse que tinha muita raiva sobre a guerra, hesitando em comparecer à premiação. Também identificou-se como pacifista. No começo da guerra, Miyazaki decidiu fazer um filme onde presumia uma má recepção nos Estados Unidos. Apesar do sucesso no país, o teórico literário Dani Cavallaro afirmou que o diretor foi capaz de "criar uma animação que, com certeza, causou um certo incômodo entre o público norte-americano". Na obra, a personagem Suliman aparenta ter atitudes maléficas com intenções de criar discórdias, mesmo sendo onisciente, ela é incapaz de reconhecer o motivo da guerra até o final da trama — refletindo com a vontade de Miyazaki em expor as hostilidades do mundo real. Cavallaro também disse que a representação da guerra [no filme] é algo claramente agonizante e o destacou junto ao cenário militar.
No universo de Hauru no Ugoku Shiro não é retratado nenhum vilão ou herói; à vista disso os personagens são complexos e mesmo aqueles sendo retratados inicialmente sob uma percepção negativa, como Howl, são capazes de mudar. Matt Kimmich argumentou que a mensagem simplista do filme é de que "a guerra é ruim". Ao transformar-se em pássaro ocorre o risco de Howl perder sua forma humana; em contraste com outros filmes de Miyazaki como Mononoke Hime, Ashitaka enfrenta uma maldição e tenta entrar em acordo pela paz entre dois lados. Andrew Osmond alega que em ambos os filmes mostram o limite da masculinidade, como exemplificado por Howl e Ashitaka.
Aviação e modernidade miniatura|Cabeça de nabo é inspirado no Spauracchio (espantalho) do 22º grupo autônomo de caçadores terrestres, projetado no único exemplar sobrevivente do avião Reggiane Re.2005 Sagittario.|direita Como em vários outros filmes de Miyazaki, Hauru no Ugoku Shiro reflete o amor do diretor pela ação de voar e declarou que sempre foi fascinado por aviões militares, mas passou a detestá-los devido ao propósito destrutivo para o qual foram criados, sendo este tema tratado subsequentemente em Kaze Tachinu. As aeronaves são representadas de formas inofensivas e destrutivas em Hauru no Ugoku Shiro, Cavallaro afirmou que Miyazaki queria retratar a aviação com admiração e temor. Essa sua visão matizada é parte da crítica mais ampla ao avanço tecnológico, Margaret Talbot descreve que o diretor demonstra uma profunda insatisfação com a vida moderna, particularmente com as consequências tecnológicas e o afastamento das pessoas com a natureza. Antonio Lioi descreve que Miyazaki frequentemente retrata belas cenas em contraste com aquelas que contêm símbolos da modernidade.
Velhice e compaixão Miyazaki disse que um aspecto atraente da história de Hauru no Ugoku Shiro é a positividade do envelhecimento. No momento em que Sophie envelhece devido ao feitiço, ela se sente mais capacitada de expressar-se. Conforme o diretor, as mulheres idosas são um interesse raro nos filmes e faz com que o conceito de Hauru no Ugoku Shiro seja ousado. Elizabeth Parsons diz que o filme segue o estereótipo do envelhecimento pouco atrativo; as ações de Sophie são geralmente associadas com as de uma avó — tais como ser amável e bondosa. Também é descrita como uma das protagonistas mais fortes nos filmes de Miyazaki. De acordo com Parsons, isto dá ao filme um aspecto feminista.