miniaturadaimagem|Pintura medieval do Cerco de Jerusalém pelos cruzados em 1099; data não especificada (provavelmente entre o século XIV e XV); ilustração provavelmente de ,
A medievalística ou estudos medievais é uma disciplina acadêmica que estuda a Idade Média europeia (). Ela é subcategorizada em especializações interdisciplinares em várias áreas como história, arqueologia, literatura e artes.
Desenvolvimento institucional O termo "medievalística" ou, mais comumente, "estudos medievais" começou a ser adotado pelos acadêmicos nas primeiras décadas do , inicialmente em títulos de livros como Ten Medieval Studies (1906), de G.G. Coulton, para enfatizar uma maior abordagem interdisciplinar de um tema histórico. Nas universidades americanas e europeias, o termo proporcionou uma identidade coerente a centros compostos por acadêmicos de uma variedade de disciplinas, incluindo arqueologia, história da arte, arquitetura, história, literatura e linguística. O Instituto de Estudos Medievais do St. Michael's College da Universidade de Toronto tornou-se o primeiro centro deste tipo em 1929;H. Damico, J. B. Zavadil, D. Fennema, and K. Lenz, Medieval Scholarship: Philosophy and the arts: biographical studies on the formation of a discipline (Taylor & Francis, 1995), p. 80. e agora se chama Pontifício Instituto de Estudos Medievais e faz parte da Universidade de Toronto. Logo foi seguido pelo Instituto Medieval da Universidade de Notre Dame em Indiana, que foi fundado em 1946, mas cujas raízes remontam ao estabelecimento de um Programa de Estudos Medievais em 1933.MI History, University of Notre Dame Tal como acontece com muitos dos primeiros programas em instituições católicas romanas, esse programa tirou a sua força do renascimento da filosofia escolástica medieval por estudiosos como Étienne Gilson e Jacques Maritain, que fizeram visitas regulares à universidade nas décadas de 1930 e 1940.
Estas instituições foram precedidas no Reino Unido, em 1927, pelo estabelecimento do idiossincrático Departamento de Anglo-Saxão, Nórdico e Céltico, na Universidade de Cambridge. Embora anglo-saxónico, nórdico e celta estivesse limitado geograficamente (às Ilhas Britânicas e à Escandinávia) e cronologicamente (principalmente ao início da Idade Média), esse departamento de pesquisa promoveu a interdisciplinaridade característica dos Estudos Medievais e muitos dos seus egressos estiveram envolvidos no desenvolvimento posterior dos Programas de Estudos Medievais em outras partes do Reino Unido.Michael Lapidge, 'Introduction: The Study of Anglo-Saxon, Norse and Celtic in Cambridge, 1878-1999', in H. M. Chadwick and the Study of Anglo-Saxon, Norse and Celtic in Cambridge, ed. by Michael Lapidge (Aberystwyth: Department of Welsh, Aberystwyth University, 2015), , pp. 1-58 [=Cambrian Medieval Celtic Studies, 69/70 (2015)].
Com a expansão universitária no final da década de 1960 e início da década de 1970 incentivando a cooperação interdisciplinar, centros semelhantes foram estabelecidos na Inglaterra na Universidade de Reading (1965), na Universidade de Leeds (1967) e na Universidade de Iorque (1968), e nos Estados Unidos na Universidade Fordham (1971).G. McMullan and D. Matthews, Reading the medieval in early modern England (Cambridge: Cambridge University Press, 2007), p. 231. Uma onda mais recente de fundações, talvez ajudada pelo aumento do interesse em temas e aspectos medievais associadas ao neomedievalismo, inclui centros de estudos no King's College de Londres (1988), na Universidade de Bristol (1994), na Universidade de Sydney (1997).D. Metzger and L. J. Workman, Medievalism and the academy II: cultural studies (Boydell & Brewer, 2000), p. 18. e Universidade de Bangor (2005).
Os estudos medievais são impulsionados por uma série de conferências internacionais anuais que reúnem milhares de medievalistas profissionais, incluindo o Congresso Internacional de Estudos Medievais, em Kalamazoo, MI, EUA, e o Congresso Medieval Internacional na Universidade de Leeds.W. D. Padenm The Future of the Middle Ages: medieval literature in the 1990s (University Press of Florida, 1994), p. 23. Há uma série de periódicos dedicados aos estudos medievais, incluindo: Mediaevalia, Comitatus, Viator, Traditio, Medieval Worlds, Journal of Medieval History, Journal of Medieval Military History, e Speculum, um órgão da Academia Medieval da América fundado em 1925 e com sede em Cambridge (Massachusetts).A. Molho, and G. S. Wood, Imagined histories: American historians interpret the past (Princeton University Press, 1998), p. 238. Outra parte da infra-estrutura do campo é a Bibliografia Medieval Internacional.
Desenvolvimento historiográfico O termo "Idade Média" começou a ser comum na escrita de história em língua inglesa no início do século XIX. A publicação do livro A Visão do Estado da Europa Durante a Idade Média, de Henry Hallam, de 1818, foi vista como um fator chave na popularização do termo, juntamente com as Palestras sobre Arquitetura de Ruskin, em 1853.Robert I. Moore, 'A Global Middle Ages?', in The Prospect of Global History, ed. by James Belich, John Darwin, Margret Frenz, and Chris Wickham (Oxford: Oxford University Press, 2016), pp. 80-92 (pp. 82-83)."medieval, adj. and n.", "middle age, n. and adj." Accessed 5 August 2018. OED Online, Oxford University Press, June 2018, www.oed.com/view/Entry/115638; www.oed.com/view/Entry/118142. Accessed 5 August 2018. O termo medievalista foi, correspondentemente, cunhado pelos falantes de inglês em meados do século XIX."medievalist, n." OED Online, Oxford University Press, June 2018, www.oed.com/view/Entry/115640. Accessed 5 August 2018.
Os estudos europeus sobre o passado medieval foram caracterizados no século XIX e no início do século XX pelo nacionalismo romântico, à medida que os estados-nação emergentes procuravam legitimar novas formações políticas alegando que estavam enraizadas num passado distante.Ian Wood, 'Literary Composition and the Early Medieval Historian in the Nineteenth Century', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 37-53. O exemplo mais importante deste uso da Idade Média foi a construção de nação de que resultou a unificação da Alemanha.Bastian Schlüter, 'Barbarossa's Heirs: nation and Medieval History in Nineteenth-cand Twentieth-Century Germany', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 87-100.Bernhard Jussen, 'Between Ideology and Technology: Depicting Charlemagne in Modern Times', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 127-52.Christian Lübke, 'Germany's Growth to the East: From the Polabian Marches to Germania Slavica', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 167-83. As narrativas que se apresentavam, traziam as nações da Europa como modernizadoras através da construção, mas também do desenvolvimento e da sua herança medieval, e foram também facetas importantes que sustentaram as justificações do colonialismo e do imperialismo europeus durante a era do Neoimperialismo. Os estudiosos da era medieval nos Estados Unidos também usaram estes conceitos para justificar a sua expansão para oeste através do continente norte-americano. Estas ligações colonialistas e imperialistas significaram que os estudos medievais durante os séculos XIX e XX desempenharam um papel na emergência do supremacismo branco.Allen J. Frantzen, Desire for Origins: New Language, Old English, and Teaching the Tradition (New Brunswick: Rutgers University Press, 1990).John M. Ganim, Medievalism and Orientalism: Three Essays on Literature, Architecture and Cultural Identity (New York: Palgrave Macmillan, 2005).
No entanto, o início do século XX também viu novas abordagens associadas ao surgimento das ciências sociais, como a história econômica e a antropologia, sintetizadas pela influente Escola dos Annales. Em lugar do que os Annalistes chamavam de histoire événementielle, este trabalho favoreceu o estudo de grandes questões através de longos períodos. Graham A. Loud and Martial Staub, 'Some Thoughts on the Making of the Middle Ages', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 1-13.
Na sequência da Segunda Guerra Mundial, o papel do medievalismo no nacionalismo europeu levou a uma grande diminuição do entusiasmo pelos estudos medievais dentro da academia - embora as implantações nacionalistas da Idade Média ainda existissem e permanecessem poderosas.Patrick Geary, 'European Ethnicities and European as an Ethnicity: Does Europe Have too Much History?', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 57-69. A proporção de medievalistas nos departamentos de história e línguas caiu,Robert I. Moore, 'A Global Middle Ages?', in The Prospect of Global History, ed. by James Belich, John Darwin, Margret Frenz, and Chris Wickham (Oxford: Oxford University Press, 2016), pp. 80-92 (pp. 83-84). incentivando os pesquisadores a colaborarem entre diferentes departamentos; o financiamento estatal e o apoio universitário à arqueologia expandiram-se, trazendo novas evidências, mas também novos métodos, perspectivas disciplinares e questões de investigação; e o apelo da interdisciplinaridade cresceu. Assim, os estudos medievais afastaram-se cada vez mais da produção de histórias nacionais, em direção a mosaicos mais complexos de abordagens regionais que funcionavam no sentido de um âmbito europeu, em parte correlacionados com a europeização do pós-guerra. Um exemplo do apogeu deste processo foi o grande projeto da Fundação Europeia para a Ciência, chamado A Transformação do Mundo Romano, que decorreu de 1993 a 1998.Ian Wood, 'Report: The European Science Foundation's Programme on the Transformation of the Roman World and the Emergence of Early Medieval Europe', Early Medieval Europe, 6 (1997), 217-28. Jinty Nelson, 'Why Reinventing Medieval History is a Good Idea', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), , pp. 17-36.
No meio deste processo, a partir da década de 1980, os estudos medievais responderam cada vez mais às agendas intelectuais definidas pela teoria crítica e pelos estudos culturais, com o empirismo e a filologia sendo desafiados ou aproveitados por tópicos como a história do corpo.Caroline Bynum, "Why All the Fuss about the Body? A Medievalist's Perspective", Critical Inquiry 22/1, 1995, pp. 1-33.Graham A. Loud and Martial Staub, 'Some Thoughts on the Making of the Middle Ages', in The Making of Medieval History, ed. by Graham Loud and Martial Staub (York: York Medieval Press, 2017), ISBN 9781903153703, pp. 1-13.