O crioulo cabo-verdiano ou língua cabo-verdiana é uma língua originária do Arquipélago de Cabo Verde. É uma língua crioula, de base lexical portuguesa. É a língua materna de quase todos os cabo-verdianos, e é ainda usada como segunda língua por descendentes de cabo-verdianos em outras partes do mundo.

Nome e relevância A designação mais correcta desta língua é «crioulo cabo-verdiano», mas no uso diário, a língua é simplesmente chamada de «crioulo» pelos seus falantes. O nome «cabo-verdiano» ou «língua cabo-verdiana» foi proposto para quando a língua estiver padronizada.

O crioulo cabo-verdiano reveste-se de particular importância para o estudo da crioulística pelo facto de se tratar de o crioulo (ainda falado) mais antigo, por ser o crioulo de base portuguesa com o maior número de falantes nativos, por ser o crioulo de base portuguesa mais estudado, e por ser um dos poucos crioulos em vias de se tornar uma língua oficial.

O crioulo cabo-verdiano reveste-se também de importância para o estudo diacrónico da língua portuguesa pelo facto de o crioulo ter conservado algum léxico, alguma fonologia e alguma semântica do português dos Sécs. XV a XVII.

Classificação interna Apesar da pequenez territorial, a situação de insularidade fez com que cada uma das nove ilhas desenvolvesse uma forma própria de falar crioulo. Cada uma dessas nove formas é justificadamente um dialecto diferente, mas os académicos em Cabo Verde costumam chamá-las de «variantes», que é o termo que passaremos a empregar neste artigo.

Essas variantes podem ser agrupadas em duas grandes variedades. A Sul temos a dos crioulos de Sotavento que engloba as variantes de Brava, Fogo, Crioulo de Santiago e Maio. A Norte temos a dos crioulos de Barlavento que engloba as variantes de Boa Vista, Sal, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão. Para mais pormenores, consultar os artigos referentes a cada uma das variantes.

As autoridades linguísticas em Cabo Verde consideram o crioulo como uma língua única, e não como línguas diferentes. Seguindo a política da Wikipédia, neste artigo não será favorecido, nem se incidirá sobre uma variante específica. O crioulo cabo-verdiano será tratado como uma língua única conforme tem sido a política da Wikipédia.

Como algumas formas lexicais do crioulo cabo-verdiano podem ser diferentes conforme as variantes, por convenção, as palavras e as frases serão apresentadas num modelo lexical de compromisso, numa espécie de «crioulo médio» de forma a poder ser apreendido por um falante de qualquer das variedades e para não ferir suscetibilidades. Sempre que necessário será apresentada, imediatamente depois da palavra, a transcrição fonémica (ou por vezes, a transcrição fonética) segundo o AFI. Quando as formas lexicais forem demasiadamente diferentes será apresentado depois da palavra (entre parêntesis) de que variante é originária a respectiva palavra.

Em alguns casos, o modelo lexical intermédio que será apresentado pode não existir, mas será usado por motivos de comparação linguística. Aqui vão dois exemplos:

O verbo *lumbú /lũˈbu/ que significa «pôr às costas», e deriva da palavra portuguesa «lombo», já não existe. Sofreu uma dissimilação consonântica em Sotavento (bumbú /bũˈbu/), sofreu uma dissimilação vocálica em São Vicente e Santo Antão (lambú /lɐ̃ˈbu/) ou então os dois fenómenos em Boa Vista, Sal e São Nicolau (bambú /bɐ̃ˈbu/). No entanto, aqui neste artigo será utilizada a forma *lumbú. A palavra portuguesa «joelho» deveria ter evoluído regularmente para *djuêdju /ʤuˈeʤu/ em crioulo. No entanto, essa forma já não existe. Em Brava, Fogo e Santiago a forma é duêdju /duˈeʤu/, em Maio, Boa Vista, Sal e São Nicolau a forma é zuêdj’ /zuˈeʤ/, em São Vicente e Santo Antão a forma é juêi’ /ʒuˈej/. A antiga forma do crioulo cabo-verdiano pode ser atestada pelo crioulo guineense onde a palavra é djúdju /ˈʤuʤu/. Aqui neste artigo será utilizada a forma *djuêdju.

Para a ortografia que será usada neste artigo ver a secção Sistema de escrita.

De um ponto de vista linguístico as variantes mais importantes são as de Fogo, Santiago, São Nicolau e Santo Antão, e qualquer estudo profundo do crioulo deve ter em conta pelo menos estas quatro variantes. São as únicas ilhas que receberam escravos diretamente do continente africano, e são as ilhas que possuem características linguísticas mais conservadoras e mais distintas entre si.

De um ponto de vista social as variantes mais importantes são as de Santiago e São Vicente, e qualquer estudo ligeiro do crioulo deve ter em conta pelo menos estas duas variantes. São as variantes dos dois principais núcleos urbanos (Praia e Mindelo), são as variantes com maior número de falantes e são as variantes que têm uma tendência glotofagista sobre as variantes vizinhas.

O crioulo de São Vicente foi divulgado através dos poemas de Sérgio Frusoni. Por seu lado, o crioulo da Brava é conhecido através das mornas de Eugénio Tavares, o crioulo de Santo Antão pelos contos de Luís Romano de Madeira Melo e o crioulo do Fogo pela colectânea de contos de Elsie Clews Parsons.

Diferenças entre os crioulos:

Crioulo doFogo Crioulo deSantiago Crioulo deSão Nicolau Crioulo deSão Vicente Crioulo deSanto Antão Português Ês frâ-m’. [es fɾɐ̃] Ês flâ-m’. [es flɐ̃] Ês fló-m’. [es flɔm] Ês dzê-m’. [eʒ dzem] Ês dzê-m’. [eʒ dzem] Eles disseram-me. Bú câ ê bunítu. [bu kɐ e buˈnitu] Bú câ ê bunítu. [bu kɐ e buˈnitu] Bô câ ê b’nít’. [bo kɐ e bnit] Bô câ ê b’nít’. [bo kɐ e bnit] Bô n’ ê b’nít’. [bo ne bnit] Tu não és bonito. M’ câ sabê. [ŋ kɐ sɒˈbe] M’ câ sâbi. [ŋ kɐ ˈsɐbi] M’ câ sabê. [m kɐ saˈbe] M’ câ sabê. [m kɐ saˈbe] Mí n’ séb’. [mi n sɛb] Eu não sei. Cumó’ qu’ ê bú nômi? [kuˈmɔ ke bu ˈnomi] ’Módi qu’ ê bú nómi? [ˈmɔdi ke bu ˈnɔmi] Qu’ manêra qu’ ê bô nôm’? [k mɐˈneɾɐ ke bo nom] Qu’ manêra qu’ ê bô nôm’? [k mɐˈneɾɐ ke bo nom] Qu’ menêra qu’ ê bô nôm’? [k meˈneɾɐ ke bo nom] Como é o teu nome? Bú podê djudâ-m’? [bu poˈde ʤuˈdɐ̃] Bú pôdi djudâ-m’? [bu ˈpodi ʤuˈdɐ̃] Bô podê j’dó-m’? [bo poˈde ʒdɔm] Bô podê j’dá-m’? [bo poˈde ʒdam] Bô podê j’dé-m’? [bo poˈde ʒdɛm] Podes ajudar-me? Spiâ lí! [spiˈɐ li] Spía li! [spˈiɐ li] Spiâ li! [spiˈɐ li] Spiá li! [ʃpiˈa li] Spiá li! [ʃpiˈa li] Olha cá! Ê’ cantâ. [e kɒ̃ˈtɐ] Ê’ cánta. [e ˈkãtɐ] Êl cantâ. [el kɐ̃ˈtɐ] Êl cantá. [el kɐ̃ˈta] Êl cantá. [el kãˈta] Ele/ela cantou. Bú tâ cantâ. [bu tɐ kɒ̃ˈtɐ] Bú tâ cánta. [bu tɐ ˈkãtɐ] Bô tâ cantâ. [bo tɐ kɐ̃ˈtɐ] Bô tâ cantá. [bo tɐ kɐ̃ˈta] Bô tâ cantá. [bo tɐ kãˈta] Tu cantas. M’ stâ cantâ. [ƞ sta kɒ̃ˈtɐ] M’ sâ tâ cánta. [ƞ sɐ ta ˈkãtɐ] M’ tâ tâ cantâ. [m tɐ tɐ kɐ̃ˈtɐ] M’ tí tâ cantá. [m ti tɐ kɐ̃ˈta] M’ tí tâ cantá. [m ti tɐ kãˈta] Eu estou a cantar. Screbê[skɾeˈbe] Scrêbi[ˈskɾebi] Screbê[skɾeˈbe] Screvê[ʃkɾeˈve] Screvê[ʃkɾeˈve] Escrever Gossím[ɡɔˈsĩ] Góssi[ˈɡɔsi] Grinhassím[ɡɾiɲɐˈsĩ] Grinhassím[ɡɾiɲɐˈsĩ] Grinhessím[ɡɾiɲeˈsĩ] Agora Pôrcu[ˈpoɾku] Pôrcu[ˈpoɾku] Pôrcu[ˈpoɾku] Tchúc’[ʧuk] Tchúc’[ʧuk] Porco Conxê[kõˈʃe] Cônxi[ˈkõʃi] Conxê[kõˈʃe] Conxê[kõˈʃe] Conxê[kõˈʃe] Conhecer Dixâ[diˈʃɐ] Dêxa[ˈdeʃɐ] D’xâ[ʧɐ] D’xá[ʧa] D’xá[ʧa] Deixar Dixâ-m’ quétu! [diˈʃɐ̃ ˈkɛtu] Dexâ-m’ quétu! [deˈʃɐ̃ ˈkɛtu] D’xó-m’ quêt’! [ʧɔm ket] D’xá-m’ quêt’! [ʧam ket] D’xé-m’ quêt’! [ʧɛm ket] Deixa-me quieto! Dôci[ˈdosi] Dóxi[ˈdɔʃi] Dôç’[dos] Dôç’[dos] Dôç’[dos] Doce Papiâ[pɒˈpjɐ] Pâpia[ˈpɐpjɐ] Papiâ[pɐˈpjɐ] Falá[fɐˈla] Falá[faˈla] Falar Cúrpa[ˈkuɾpɐ] Cúlpa[ˈkulpɐ] Cúlpa[ˈkulpɐ] Cúlpa[ˈkulpɐ] Cúlpa[ˈkulpɐ] Culpa Nhôs amígu[ɲoz ɒˈmigu] Nhôs amígu[ɲoz ɐˈmigu] B’sôt’ amígu[bzot ɐˈmiɡu] B’sôt’ amíg’[bzot ɐˈmiɡ] B’sôt’ emíg’[bzot eˈmiɡ] O vosso amigo(O amigo de vocês) Scúru[ˈskuru] Sucúru[suˈkuru] Scúr’[skur] Scúr’[ʃkur] Scúr’[ʃkur] Escuro Cárru[ˈkaru] Cáru[ˈkaɾu] Córr’[kɔʀ] Córr’[kɔʀ] Córr’[kɔʀ] Carro Lébi[ˈlɛbi] Lébi[ˈlɛbi] Lêb’[leb] Lêv’[lev] Lêv’[lev] Leve

Para mais exemplos consultar a Lista de Swadesh — Crioulo cabo-verdiano.

Origens thumb|esquerda|200px|Mornas — Cantigas crioulasde Eugénio Tavares.um dos primeiros livros com textos em crioulo.

A história do crioulo cabo-verdiano é difícil de traçar devido, primeiro, à falta de registos escritos desde a formação do crioulo, segundo, devido ao ostracismo a que o crioulo foi relegado durante a administração portuguesa.

Existem presentemente três teorias acerca da formação do crioulo cabo-verdiano.Santos, Carlos, «Cultura e comunicação: um estudo no âmbito da sociolinguística» A teoria eurogenética defende que o crioulo foi formado pelos colonizadores portugueses, numa simplificação da língua portuguesa de modo a torná-la acessível aos escravos africanos. É o ponto de vista de alguns autores como Prudent, Waldman, Chaudesenson, Lopes da Silva. A teoria afrogenética defende que o crioulo foi formado pelos escravos africanos, aproveitando as gramáticas de línguas da África Ocidental, e substituindo o léxico africano pelo léxico português. É o ponto de vista de alguns autores como Adam, Quint. A teoria neurogenética defende que o crioulo formou-se espontaneamente, não por escravos nascidos no continente, mas pela população nascida nas ilhas, aproveitando as estruturas gramaticais inatas com as quais todo o ser humano nasce. É o ponto de vista de alguns autores como Chomsky, Bickerton, que explicaria porquê que os crioulos localizados a quilómetros de distância apresentam estruturas gramaticais similares, mesmo sendo de base lexical diferente. O melhor que se pode dizer é que nenhuma dessas três teorias foi concludentemente provada.

Segundo A. Carreira,Carreira, António (1982) o crioulo cabo-verdiano ter-se-ia formado a partir de um pidgin de base lexical portuguesa, na ilha de Santiago, a partir do Séc. XV. Esse pidgin seria depois transposto para a costa Ocidental da África através dos lançados. A partir daí, esse pidgin teria divergido em dois proto-crioulos, um que estaria na base de todos os crioulos de Cabo Verde, e outro que estaria na base do crioulo da Guiné Bissau.

Cruzando documentos referentes à colonização das ilhas com a comparação linguística é possível conjecturar algumas conclusões. A propagação do crioulo cabo-verdiano nas diversas ilhas foi feito em três fases:Pereira, Dulce (2006)

Numa primeira fase foi colonizada a ilha de Santiago (2.ª metade do Séc. XV), e em seguida a do Fogo (fins do Séc. XVI). Numa segunda fase foi colonizada a ilha de São Nicolau (sobretudo na 2.ª metade do Séc. XVII), e em seguida a de Santo Antão (sobretudo na 2.ª metade do Séc. XVII). Numa terceira fase, foram colonizadas as restantes ilhas a partir de populações originárias das primeiras ilhas: Brava foi colonizada a partir de populações do Fogo (sobretudo no início do Séc. XVIII), Boa Vista foi colonizada a partir de populações de São Nicolau e Santiago (sobretudo na 1.ª metade do Séc. XVIII), Maio foi colonizada a partir de populações de Santiago e Boa Vista (sobretudo na 2.ª metade do Séc. XVIII), São Vicente foi colonizada a partir de populações de Santo Antão e São Nicolau (sobretudo no Séc. XIX), Sal foi colonizada a partir de populações de São Nicolau e Boa Vista (sobretudo no Séc. XIX).

Situação a(c)tual

Apesar do crioulo ser a língua materna de quase toda a população de Cabo Verde, o português ainda é a única língua oficial. Entretanto há atualmente um movimento para tornar a língua oficial no país.Governo aberto para debater elevação do crioulo a língua oficial em Cabo VerdeCabo Verde. PR quer acelerar crioulo como língua oficial na ConstituiçãoAbraão Vicente: "O crioulo deve ter a dignidade de ser a língua oficial de Cabo Verde" Como a língua portuguesa é utilizada na vida quotidiana (na escola, pela administração pública, em actos oficiais, etc.) o português e o crioulo vivem num estado de diglossia.Duarte, D. A. (1998) Em consequência desta presença generalizada do português, regista-se um processo de descrioulização em todas as variantes dos crioulos cabo-verdianos.

Atente-se neste texto fictício:

Variante de Santiago: